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quarta, 10 julho 2013 16:43

CASTRO DAIRE . SINO-SAIMÃO 2

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1 - Nunca desisti de fazer uso da palavra escrita e/ou falada, exercendo, através dela, a minha cidadania. Não sou daqueles que destila eloquência crítica nas esquinas da rua, que dá punhadas nas mesas e nos balcões dos cafés, que bate o pé nos passeios públicos, que murmuram por todo o lado, sabedores de tudo o que é "gestão pública" e protestando contra tudo e todos. Não sou desses, mas não raro tenho de enfrentar os que me dizem que "não vale a pena" ir além disso, pois os políticos, no poder ou fora dele, não ligam patavina às sugestões que lhes chegam, idas de cidadãos que não integram os aparelhos partidários. Só ouvem os "seus", mesmo que eles lhes ocultem a verdade e os convençam que tudo "vai bem, que está na melhor, que assim está bem, está bem!" 

Sobreira-1-2-32 - Venho hoje demonstrar, com factos, que nem sempre pregamos no deserto e, por vezes, o sermão ecoa nas dunas do seco areal que nos rodeia. Há coisas, ao nível local, que, trazidas à luz da imprensa ou das redes sociais, não podem deixar de ser alvo de discussão e decisão política por parte do Executivo Municipal, sob pena do mesmo não exercer, nem cumprir as obrigações para que foi eleito. E uma delas é a preservação do nosso património histórico, material e imaterial.

3 - Pois bem, lembram-se dos meus escritos sobre a FONTE DA LAVANDEIRA, da FONTE DE NOSSA SENHORA e da COLUNA DE GRANITO, esta sita na colina da Sobreira, ali, ao lado do antigo caminho dos Braços, que foi deslocada do topo do outeiro para servir de apoio a um telheiro, recentemente levantado, a cobrir um Cruzeiro de Alminhas, obra que, intencionalmente ou não, conduzia à ideia clara da desvalorização histórica da peça mais antiga e, consequentemente, à valorização da mais moderna? 

4 - Pois é verdade. A Câmara Municipal, justiça pública lhe seja feita, face ao meu veemente protesto, lavrado em privado e em público, vistos os vídeos e as crónicas que sobre isso eu já tinha publicado no Youtube, no meu site e no jornal local, apressou-se a remediar o melhor possível os danos causados, através do vereador do Pelouro da Cultura, Dr. Rui Braguês, em resultado do que a coluna deixou de ser a muleta arquitectónica do telheiro e voltou, ela própria, a ser o "monumento" que sempre foi, carregado de patine natural e simbolismo lendário que bem pode emprestar significado histórico ao cruzamento onde, há séculos, foi implantada e, à qual, seguramente, em tempos posteriores, se juntou o Cruzeiro das Alminhas, já que é historicamente conhecido o poder da igreja absorver e chamar a si todos os lugares onde se praticavam cultos pagãos, apagando ou substituindo os respectivos símbolos. Desta vez não levou a melhor!

5 - Não foi possível reconstituir o morro original, mas estes dois elementos, arquitectónicos, um a remeter claramente para tempos pagãos e outro cristãos (no fundo, duas faces da mesma moeda) podem continuar a coexistir pacificamente ao lado um do outro e podem continuar a dialogar pelos séculos fora, em proveito dos presentes e dos vindouros que, independentemente das suas crenças, interroguem o passado, para compreenderem o presente e perspectivarem o futuro.

A isto chama-se respeito pelo nosso património MATERIAL E IMATERIAL e, por isso, eu, que tenho passado anos a investigá-lo e a divulgá-lo, não podia deixar de fazer este registo e louvar publicamente o Executivo Municipal, pela decisão tomada e, desse modo, transmitir aos vindouros os elementos de uma narrativa que falam da nossa terra e das nossas gentes. Ali, no velho caminho por onde transitavam, obrigatoriamente, todos os habitantes da corda do Paiva que, passando pelo medieval Mosteiro da Ermida (livro de história e de símbolos, escrito em pedra) se deslocavam a Castro Daire e vice-versa, conhecedores da lenda do "sino-saimão", do "sino sem mãos", do "santomião", do "signum salomonis", do "selo de Salomão", da estrela, pentalfa ou hexagrama que tinham de desenhar no chão e saltarem para dento dela, para assim se defenderem das "forças invisíveis" que, por vezes, ali atacavam os transeuntes, tal como escrevi e deixei em vídeo, antes de ser dado à estampa, pelo Circulo dos Leitores, o livro "Forças Invisíveis, Imaginário Medieval" do historiador José Matoso, que acabo de adquirir.

6 - Digamos que, sobre a FONTE DA LAVANDEIRA e da FONTE DA NOSSA SENHORA, as coisas, segundo o que me foi dito, estão mais atrasadas, mas serão resolvidas igualmente com respeito pela história e defesa do interesse público, não deixando que algum particular se aproprie desse nosso BEM COMUM que é a ÁGUA, um produto cada vez mais precioso. Aguardemos, portanto.

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.