Trilhos Serranos

Está em... Início História ESTRADA ROMANA À ILHARGA DA VILA DE CASTRO DAIRE
segunda, 03 agosto 2020 13:15

ESTRADA ROMANA À ILHARGA DA VILA DE CASTRO DAIRE

Escrito por 

 

» História

Catro Daire

ESTRADA ROMANA À ILHARGA DE CASTRO DAIRE 

Menino ainda, não tinha desculpa possível para me recusar a ir onde quer que fosse mandado, alegando desconhecer o sítio: «quem tem boca, vai a Roma», «todos os caminhos vão dar a Roma» eram as frases que sucediam à minha hesitação e confirmavam, depois, o sucesso do recado cumprido. Mas, se cedo aprendi o significado de tão «sábias» expressões, tarde soube que elas eram o fruto de muitos séculos do Império Romano, onde se incluía o território que viria a ser Portugal.

 

E.Romana8Conquistadores de terras e nações situadas em torno do Mediterrâneo, já no século III antes de Cristo ser gente, eles impunham o mando na Península Ibérica, donde só saíram no século V da Era Cristã, corridos que foram pelos «bárbaros», também eles conquistadores.

Eu não sabia nada disso, nem o sabiam, tão pouco, as pessoas que usavam tais palavras e, ainda hoje, não correrei grande erro se afirmar que muita gente familiarizada com essas expressões, o não sabe também. Associam Roma ao Papa e isso lhes basta. Não têm a mínima ideia da rede de estradas que rasgava todo esse Império, unindo províncias, cidades e vilas, entre as quais a de Castro Daire, como se vê no excerto do mapa (linhas pretas) da responsabilidade do Professor da Universidade de Coimbra, J. Alarcão, inserto na «História de Portugal», I volume, Publicações Alfa, que para aqui transladei, via scaner.

É verdade. Por aqui passava uma estrada romana e disso é prova o troço que resta na encosta que ladeia, do lado poente, o morro em cujo topo o «crasto» teve o seu início.

E.Romana6Há uma vintena de anos, o poder autárquico local, presidido pelo Dr. César da Costa Santos, por força de satisfazer as necessidades básicas das populações,  não hesitou em esventrá-la, abrir uma rota a todo o seu comprimento e estender nela a canalização que a modernidade, o bem estar e a higiene pública impunham e reclamavam há muito tempo.

Vá lá, houve o bom senso de repor as lajes, puídas pelo desgaste do trânsito, do tempo e da história, no devido lugar e, não fora as tampas das caixas, em cimento, deixadas à superfície, mal se daria pela obra feita.

Tive conhecimento, através Dr. José Manuel Santos Ferreira, actual vereador encarregado das águas, da pretensão do Executivo Municipal querer proceder à substituição dessa velha e gasta canalização de água e esgotos, acrescentando mais uma destinada às águas pluviais, tudo em PVC, obra que vai mexer em todo aquele troço. Que fazer, pois, de modo a preservar o passado e a não inviabilizar o futuro?

 

E.Romana5São poucas as terras de Portugal que dispõem de um troço de estrada romana com a extensão daquele que nós dispomos, mesmo à ilharga da vila, para nos darmos ao luxo de não tentar recuperá-lo, preservá-lo e torná-lo objecto de atracção cultural e turística, à semelhança do que têm feitos outros, por toda a banda, inclusive os actuais habitantes de Roma,  como muito bem demonstra a foto de L. Von Matt, inserta no livro «Grandeza e Decadência de Roma» (III volume), de Guglielmo Ferrero, foto do trecho da «Via Ápia» que aqui reproduzo, com a devida vénia. 

Sensibilizado para isso me pareceu, assim, o actual Executivo, na pessoa do vereador, Dr. José Manuel. Faça-se, pois a obra do futuro. Que o novo projecto de saneamento contemple a recuperação da velha estada romana, deste naco de História Local, em nome do desenvolvimento sustentado do concelho, certos de que «um povo sem memória, é um povo sem futuro».

«Todos os caminhos vão dar a Roma». À Roma dos imperadores, dos Césares, de Pedro, o Pescador, cidade nos últimos dias capital do mundo, mundo pequenino, compadecido com o sofrimento, a agonia e a morte de João Paulo II, o Papa peregrino, que outra dimensão e sentido deu a esses caminhos. Com ele Roma ia a todo o lado. Porém, que caminhos escatológicos é preciso rasgar e trilhar no mundo, até que os cristãos -  ao fim de que Pontificado - por força da sua crença vivida e sentida, em vez de chorarem a morte de um ente querido, sabe-se lá um santo, cantem a alegria de o ver entrar no céu e «sentar-se ao lado  Senhor».

 E.Romana9«Caminhos» se dizia, então. Nome adequado à rede de comunicações terrestres que chegou até nós, desde esses e anteriores tempos. Porém, o estatuto de «caminhos» foi dando lugar ao de  «estradas reais», «estradas nacionais», «auto-estradas», «vias rápidas» e «IPs».

Aqui perto, na IP3, também à ilharga da vila, do lado do nascente, já se ouve o ensurdecedor galopar dos potentes cavalos ocultos nos motores dos camiões e dos automóveis da mais variada gama. Ali, sem sela nem espora,  cavalga e roda da vida moderna a alta velocidade. Aqui, na velha estrada romana abandonada, o silêncio de morte só é interrompido pelo rumorejar das águas do Paiva e pelo gorjeio dos passarinhos que esvoaçam por perto.

Faça como eles, caro leitor. Desprovido fisicamente de asas, esqueça, por momentos, as preocupações e ruídos hodiernos e deixe voar o seu pensamento e as suas emoções até ao passado longínquo. Fixe a fita do tempo. Veja o filme cujos protagonistas não tardará a identificar: Romanos,  Bárbaros, Cristãos,  Árabes lutando sucessivamente pela posse, pela conquista,  pelo domínio da terra, essa eterna fonte de riqueza e de cobiça! Patrícios, nobres e plebeus, cavaleiros e peões, lavradores e pedintes, romeiros e feirantes, pastores e rebanhos transumantes da serra da Estrela para o Montemuro e vice-versa, ajudaram a puir estas lajes abandonadas que hoje pisa e contempla. Mas cada laje destas é uma página escrita de História e de vida. Sabe lê-las? Naturalmente, tanto mais  que é um adepto dos programas televisivos do Dr. José Hermano Saraiva e, como assinante da TVCabo, é frequentador assíduo do canal «História». Não é? Enganei-me? Será que, neste nosso universo sideral, nacional e cultural do século XXI, pertence à constelação da bola e entre dois programas emitidos à mesma hora, um de história e outro de futebol, abandona o primeiro e opta pelo segundo?

ESTRADA ROMANA-2Cada um tem o direito de optar por aquilo que lhe dá gozo, por aquilo que mais o enriquece ou que mais satisfaz o seu ego de ser vivente. Cada um tem o seu direito de escolha. Porém, uma coisa é certa: se foi a segunda opção que tomou, então a matéria de que trata este artigo tem muito pouco a ver consigo. A si, desde que a SPORT TV lhe dê assunto futebolístico para discutir durante a semana inteira (e dá, seguramente),  tanto se lhe dá que a velha estrada romana seja convertida num postal turístico disponível, ou que, nas suas entranhas, deslize, às voltas e voltinhas,  o intestino do burgo vilão até à ETAR, no Paivó, a poucos metros do Paiva, onde evacua a  repulsiva e conhecida matéria fedorenta. Tanta, tanta!

Opções de vida! E que trilhos, que veredas, que estradas temos, colectivamente, de percorrer até entendermos que podemos chegar a Roma e a outras partes do mundo culto e civilizado pelos mais diversos caminhos.

A velha estrada romana recuperada, como parece ser vontade do actual Executivo, conviverá pacificamente com as SCUTs, essas vias rodoviárias modernas, concebidas para que as terras de todo este interior beirão e transmontano saiam do atraso e do estado a que foram votadas.

NOTA 1- Cf. «Notícias de Castro Daire» de 10 de Abril de 2005

NOTA 2 - Crónica publicada no meu velho site «trilhos-serranos.com», migrou, hoje mesmo, e com toda a oportunidae, contra todos os «oportunistas»,  para este meu novo site «trilhos-serranos.pt», a propósito da tão badalada ESTRADA NACIONAL 2. E fica a pergunta: que fizeram os autarcas do concelho desde 2005 até este ano de 2020 com vista a salvaguardar esse troço de estrada? Eles e todos os acólitos subsídio-dependentes que enchem a boca e páginas do Facebook a falarem de TURISMO e das potencialidades da serra do Montemuro e do Rio Paiva e FOLCLORE sem raízes históricas? 

Ler 198 vezes
Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.