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segunda, 27 julho 2020 12:51

TRANSUMÂNCIA: A RTP EM CASTRO DAIRE

Escrito por 

REALIDADE E FANTASIA

No dia 23 de julho, todo o dia, a RTP assentou arraiais no Jardim Municipal de Castro Daire para emitir daqui o programa “7 MARAVILHAS DA CULTURA POPULAR”.

Avisado antecipadamente e precavido, peguei no comando MEO e cliquei no botãozinho encarnado, não fosse eu perder o oferecido PITÉU. Quanto custou? Quantos ZEROS teve o cheque ou a ordem de transferência bancária?

 

OUVIDAÉ que nisso da CULTURA POPULAR, nisso ligado ao povo, de falar do povo, de andar no meio do povo, de dar voz ao povo, é o que tenho feito desde que apendi a pôr no papel ou em vídeo a narrativa destes “HERÓIS DA TERRA”, destas gentes da serra metidas nos seus trabalhos agro-pastoris, nas suas técnicas, nas suas alegrias, tristezas, feiras, romarias, rezas e pancadarias. Têm dúvidas? O CARTAZ TURÍSTICO do concelho que soma CENTO E VINTE MIL + 104 VISUALIZAÇÕES é da minha autoria. Feito “pro bono” e bem gostaria que, os responsáveis pelo TURISMO em Castro Daire,  me mostrassem outro que mais “ouvisto”  tenha sido. Não sabem qual? Pois não. Então, para sabê-lo, vão ao meu CANAL do YOUTUBE.

Ouvi o atual Presidente da Câmara, Paulo Almeida, enaltecer o SERVIÇO PÚBLICO da estação e, claro está, outra coisa não era de esperar. E, em verdade, os apresentadores, todos eles, muito simpáticos, sorridentes e bem-falantes, traquejados no ofício, fizeram o que puderam e souberam. Levaram ao mundo o nome, gentes e animais de cá. Cores e enfeites. Merecem as felicitações pela empatia e profissionalismo que mostraram num dia tórrido e abafado, sem o calor humano do público que, por regra, anima estes eventos. A PANDEMIA falou, civicamente,  mais alto.

pastoresMesmo assim, por ali passaram pessoas amigas, conhecidas e sabedoras das coisas das gentes de cá. Não vou falar da PROPOSTA concelhia às “7 Maravilhas”, pois dela já falei o bastante. Está tudo online. E é impossível que a equipa da RTP que cirandou pelo concelho a recolher material para o programa, não tenha esbarrado com os meus trabalhos escritos e em vídeo. Com a imagem do «ROSTO HISTÓRICO DA TRANSUMÂNCIA» datado de 1990 (foto ao lado).

Esbarrou, seguramente. O meu NOME foi registado nos seus arquivos, de contrário não se teria automaticamente sobreposto e substituído o do senhor ABÍLIO PINTO, pastor de que falarei, mais adiante. Gato escondido com rabo de fora. Estou contra. A minha postura pública destoava da FESTA. E eu, respeitando, embora, o FOLCLORE (como expressão tradicional de cultura) assumo o papel de HISTORIADOR e não de  ENTRETENER. E seguro estou de que tudo aquilo que não é AUTÊNTICO, nem GENUINO, tão só uma RECRIAÇÃO conveniente ao momento que passa e às instituições que gerem os fundos europeus e municipais, por mais que o pintem ou enfeitem, por muitas fitas e muitos “pom-pons” de todas as cores postas no gado, terá, seguramente, curto destino, curto futuro. É árvore plantada sem raiz em solo deserto.

PASTORO que me leva, pois, a fazer este registo, na esperança de que esses traquejados profissionais, bem recebidos e bem instalados nas nossas estruturas hoteleiras, não voltem a repetir alguns pequenos “senões”, é o facto de terem trocado o nome daquele pastor pelo meu, roubando-lhe a sua identidade, mesmo depois de ele ter posto o seu NOME no termo de cedência dos “DIREITOS DE IMAGEM”.

Caso insólito. Prejuízo seu e telefonemas para mim a interpelar-me se eu tinha emprestado o meu NOME àquele senhor. Que não, respondia eu. Ele é que me emprestou o ROSTO, devolvendo-me uns anos de idade e proporcionando-me pegar no cajado como fazia nos tempos em que (isso sim)  eu fui PASTOR e, nos montes de Cujó, vi nascer cordeirinhos e cabritinhos e, pequeninos, sem passda para acompanharem o resto do gado,  levá-los ao colo, depois das mães comerem a placenta. Pois...pois...

Aquele pastor sem NOME trata-se de pessoa amiga, o senhor ABILIO PINTO, recentemente entrevistado por mim em vídeo a tocar violino na sua própria moradia, em Cetos. Um lapso imperdoável da RTP do qual saí eu beneficiado, pois um amigo, atento ao programa, lesto foi a dizer-me, todo ufano, que se eu não estive, em pessoa, na televisão, ao menos esteve lá o meu nome. Tive de explicar que, sabida a minha posição pública, dita e reiterada por escrito e em vídeo, os promotores e organizadores tiveram o bom senso de não me convidarem para isso. Seria uma provocação. Daí o Vereador do Pelouro da Cultura, Pedro Pontes, mostrando, pessoalmente, ensejo da falar comigo, não ter ido a minha casa, como eu lhe sugeri, respondendo ao convite feito para eu ir ao seu Gabinete, certamente para falar do assunto que o movia. Era só o que faltava.

Pela troca de NOMES eu, na hora, num post do meu mural do Facebook, exigi desculpas públicas aos responsáveis. Era o mínimo que ETICAMENTE deviam ter feito. Mas ão fizerem.

E na mesma hora, um castrense inteligente que acompanhou o “dito, o feito, ouvido e visto”, conhecedor desta GENTE e da sua escala de valores, foi perentório: “espere sentado”. E eu esperei e espero. Sentado e de pé. Parado e a andar com a LANTERNA DE DIÓGENS na mão a passear-me, não na cidade de Atenas, mas neste “mare magnum” da COMUNICAÇÃO  à procura de “um homem honesto”. E fá-lo-ei enquanto tiver um pingo de lucidez e de ética que me ajudem a distinguir o VERDADEIRO DO FALSO, o PRODUTO ORIGINAL do PRODUTO CONTRAFEITO, mesmo que, por conveniência, entidades de SERVIÇO PÚBLICO se deixem enrolar nas ondas conveniência e, sei lá, da sobrevivência.

Sobre a PONTE DE CABAÇOS Ponte de Cabaços, fastidioso seria eu insistir nisso. Cheia mal. Já disse o que tinha a dizer, aprenda quem quiser, seja a senhora Doutora Responsável pelo Turismo CASTRENSE, destacando o seu “perfil medieval” (sic),  seja a senhora jornalista da RTP a dizer que “não se conhece bem a história desta ponte” (sic). Pois «não conhece», porque nenhuma das intervenientes no programa que botaram palavra fez o trabalho de casa que se impunha.

É que história dessa ponte  é conhecida, pelo menos desde 1995. Escrita em livro, editado pelo Município de Castro Daire. Arrepiante e irritante num programa que pretende mostrar a nossa cultura e o nosso património histórico, cultural, natural e/ou edificado, ignorar o que está em letra redonda, há muito tempo e depois de um longo e apurado trabalho de investigação.

Não me calei, pois, nestas coisas de investigação e conhecimentos, para honra dos professores que tive e das instituições académicas que me formaram, recuso-me a regredir, a esquecer, e disposto estou a exercer a minha cidadania crítica em qualquer suporte de difusão da palavra para aquém da lousa de ardósia e lápis de pedra que usei na minha Escola Primária. Gostem ou não os romeiros que, encostados ao seu cajado, calos apertados pelo que digo, sentem a dor e, a caminho do SANTUÁRIO, se viram contra mim, na esperança de que a sua devoção pública, a sua manifesta CRENÇA seja retribuída com a correspondente TENÇA.

CASTRO DAIREE, por falar nas instituições académicas que me formaram, e me prepararam para ensinar PORTUGUÊS e HISTÓRIA, não posso deixar em branco dois tópicos que urge corrigir e/ou esclarecer para não se repetirem.

Na gravação do programa, como mostra a foto ao lado, o topónimo do concelho anfitrião aparece grafado “CASTRO D’AIRE” e, sendo essa uma forma arcaica escrita em muitos documentos manuscritos e impressos do passado, há um bom par de anos que o topónimo se fixou na grafia “CASTRO DAIRE” e não “CASTRO D’AIRE. Coisa de somenos, não?

Mas, importante, importante para mim, sempre disposto a aprender e a ouvir quem sabe, foi a novíssima EXPLICAÇÃO que a simpatiquíssima apresentadora do programa deu à palavra TRANSUMÂNCIA. Sim, no seguimento da explicação dada pelo VEREADOR DA CULTURA, Pedro Pontes, que falou na deslocação dos rebanhos da Estrela para o Montemuro ela, acrescentou:

Sim, porque a transumância é o deslocamento sazonal de pessoas e animais que, por exemplo, os reis e raínhas faziam das cortes para as casas de férias, não é?”

Ah! Abri a boca de espanto. Pois é isso mesmo, a TRANSUMÂNCIA. E eu não sabia. Como negá-lo? Então eu, que fiz parte das comitivas reais nas suas deslocações de cidade para cidade, onde reuniam as Cortes: Leiria, Coimbra, Viseu, Évora...tantas. Eu, que acomapnhei os “cavaleiros-vilãos”, procuradores dos concelhos a deslocarem-se a todas estas e outras cidades para ali, junto de Sua Alteza Real, botarem palavra  e figura em defesa dos povos que representavam, quantas vezes queixando-se dos “ricos-homens” que usavam e abusavam do “direito de aposentadoria”, depenando os enfiteutas e abusando das esposas e filhas, tudo a eito. Eu, que andei por aí a cirandar no tempo e no espaço, «pedibus calcantibus», na fita cronológica da HISTÓRIA a pisar montes e vales, com gado e sem gado, arrumo na estante o Dicionário Enciclopédico  “LELLO UNIVERSAL” e, com 81 anos de idade, já não espero que este “tira-teimas” - como diz o povo -  corrija a a entrada:

OVELHAS E CABRASTRANSUMÂNCIA: s.f. Migração periódica de rebanhos e dos seus pastores que vão habitar as altas montanhas durante o calor e delas descem nas proximidades do inverno: é frequente a transumância nos Alpes e nos Pirineus”.

Para quê? E já estou a ouvir alguns fabianos que me espreitam por detrás da cortina, discordando deste meu exercício de cidadania e pensarem baixinho: “lá esta ele, implicativo e exigente a não deixar passar nada, é sempre o mesmo” e a colar-me adjectivos que nada têm de substantivo.

Esses fabianos, do ponto de vista da cultura não distinguem, seguramente, um arco de volta inteira, de um arco ogival.  Um de arco de ferradura de um arco abafido. Para eles tanto faz. É tudo igual. Espreitam...espreitam...discordam na rua torta e rua direita, mas não deixam pegada no mundo. E se deixassem, o seu sinete de história e de cultura  teria, certamente, a forma de uma ferradura, mesmo que ignorando a que estilo arquitetónico ele se liga na HISTÓRIA DA ARTE.

E claro, para contento, sossego e gosto de todos eles, ocupados somente a olhar para o seu umbigo, eu devia ficar calado e não dar, nem NOME nem ROSTO a quanto escrevo e digo, mesmo que veja o meu nome  emprestado a um amigo e ele me tenha remoçado alguns anos, ele me tenha feito retornar ao meu passado de pastor. Ele, a quem estou muito obrigado por me ter recebido hospitaleiramente em sua casa, e cedido a entrevista que me encantou com as cordas e o arco do seu violino. Aceito a música dele, mas recuso a do EXECUTIVO.

 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.