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sábado, 01 fevereiro 2020 18:26

CASTRO DAIRE - GENTE DA TERRA (2)

Escrito por 

COMÉRCIO LOCAL (continuação)

Nestes meus trilhos serranos, caminhando, por enquanto, sem apoio de bengala (nunca tive bengalas na vida) tropecei hoje num assunto da HISTÓRIA LOCAL que desde há muito trago sob a mira. A razão de só ter acontecido neste ano de 2020 ficará explicada na presente crónica, dividida em QUATRO PARTES. 

 

SEGUNDA A PARTE

Joaquim de F.S. e Oliveira- 1888 - CópiaDigamos que, casa levantada, frontaria virada para a Rua 1º de Maio, estela granítica com o nome de “JOAQUIM F. S. e OLIVEIRA1888”, qual brasão de fidalgo a identificar o seu solar, ali, por baixo da varanda principal e sobre a porta central do edifício (ladeadas por mais quatro rasgadas de baixo acima com bandeiras de iluminação) estavam reunidas as condições para, naquele espaço, florir o “CENTRO COMERCIAL” de “RITA FIGUEIREDO & FILHOS”, tal como ficou registado no ANÚNCIO publicado no jornal “O Paiva”, de 2-3-1890. E, deve anotar-se que, no conjunto dos anúncios que preenchiam a página destinada à publicidade do COMÉRCIO LOCAL, (dois deles a estabelecimentos de Parada e de Ester) o dela era o que tinha mais destaque e, destoava dos outros não só no tipo de caixa alta, mas também por ser o único que tinha à frente uma SENHORA. O que não era coisa pouca, para a época.

1-RITA-1890 - CópiaDesignado “CENTRO COMERCIAL” publicitava “vasos de vidro para comunhão de fiéis, lamparinas e jarras para flores”. A bem dizer pouca coisa para o adotado e pomposo nome dado à firma. Pois. Mas ali, naquele espaço e naquela casa, estava o embrião do império que viria a formar-se e a projetar-se posteriormente no meio. E quem o diz são anúncios publicitários posteriores, seja em seu nome completo, associado a “& FILHOS”, seja no nome de “O FIGUEIREDO”, ambos alusivos ao mesmo estabelecimento.


Bem vistas as coisas, e passada em revista a publicidade de todos os estabelecimentos comerciais disponíveis na imprensa local, podemos dizer que se o Douro teve na DONA ANTÓNIA a figura histórica ligada ao desenvolvimento da atividade vinícola, Castro Daire teve a DONA “RITA AUGUSTA DE FIGUEIREDO & FILHOS” ligada ao desenvolvimento do COMÉRCIO. E o seu “CENTRO COMERCIAL”, aberto em 1890, foi, indubitalvemente, o ponto de partida para voos visivelmente mais altos, como veremos.

E, porque Castro Daire não estava desligado do mundo, estando nós em 1890, aqui se lembra o “Ultimatum Inglês” e as relações comerciais têxteis que historicamente ligavam os dois países. Para começo de vida nesse ramo de negócio, ainda que em Portugal já houvesse, no ramo,  produção industrial cabonde, os ventos não corriam a favor. Mas não havia que desanimar, nem assimilar os sentimentos de desalento e frustração daquele grupo de cidadãos, seus contemporâneos,  que nos nossos meios políticos e intelectuais ficariam conhecidos por “vencidos da vida”, nomeadamente, Ramalho OrtigãoOliveira MartinsGuerra Junqueiro Eça de Queirós, mesmo que a designação dada por Oliveira Martins a esse grupo, fosse exatamente no ano de 1888, aquela data que, não com pena de pato, mas com escopro e cinzel ficou escrita na frontaria do edifício.

Não. RITA AUGUSTA DE FIGUEIREDO & FILHOS estavam noutra. Fora das LETRAS, acantonados neste ignoto retalho de Portugal, eles tinham pela frente um futuro de “vencedores”, um futuro de empresários bem-sucedidos no ramo comercial e financeiro.
RITA-1932 - Cópia
A primeira vez que, nas minhas investigações, tropecei com o nome desta SENHORA, foi quando me debrucei sobre os “prazos” e “foros” que ligavam historicamente os agricultores de Cujó aos senhorios que até ali estendiam as suas fontes de rendimento. Com efeito, ali deixei escrito, em 1993, o que para aqui reponho, a propósito:

A Cujó se estendiam os domínios do Mosteiro da Ermida de Riba-Paiva. Até Cujó alargava os seus tentáculos o Convento das Chagas de Lamego. Até Cujó se dilatava o património da senhora Dona Rita Figueiredo (viúva) de Castro Daire”. (Carvalho, 1993:44)

A fonte oral que me reportou o nome de RITA AUGUSTA DE FIGUEIREDO como sendo possuidora de bens foreiros em Cujó, foi o meu pai, Salvador de Carvalho, que disse conhecê-la bem, já no estado civil de “viúva”. Que emprestava dinheiro a juros e, no seu tempo, não havia nas redondezas, quem não soubesse quem era tal SENHORA. E bem podemos acreditar nisso se atentarmos na letra dos anúncios onde ela fazia questão de exibir o lema de “BEM SERVIR”.

Os produtos do seu estabelecimento e bem assim os serviços que nele se prestavam à emigração, soavam por todo o concelho, fosse nos anúncios publicados na imprensa (conhecidos pela pouca gente que sabia ler) fosse pela divulgação feita boca em boca, pelos fregueses que, sendo maioritariamente analfabetos, saídos das suas aldeias, confluíam na vila em todas as feiras quinzenais e da vila levavam as novas para contarem aos serões, nas lareiras, à luz das candeias a petróleo.

Vimos o anúncio publicado em “O Paiva” no ano de 1890. Esse jornal, de que tenho três exemplares, desapareceu e a seu lado, ou sucedendo-lhe, tivemos “A Voz do Paiva”, nascido em 1899 do qual possuo o exemplar nº 6, de 25 de junho. Era seu editor José Duarte de Almeida e administrador Amadeu Rebelo de Oliveira Figueiredo. Nele existem alguns anúncios publicitários de Castro Daire, nomeadamente da FARMÁCIA CENTRAL também conhecida por pharmacia de Lamego”, junto à oficina do senhor José Ribeiro Seixas; de uma TANOARIA para conserto de “baldes, canecos e pipas”; a CASA FUNERÁRIA de Samoel Ferreira Garcez, na PRAÇA e o BARATEIRO CASTRENSE, Júlio de Almeida Baptista, com preços de “ver para crer”. Do CENTRO COMERCIAL de Rita Augusta de Figueiredo, nem sinal.

AARÃO-VIAGENS-1930 - CópiaDeste jornal, com vida própria até 1910, propriedade de José Duarte de Almeida, e Diretor o Padre António Silva, restam poucos exemplares. Dos que restam, alguns estão na Biblioteca Municipal (2 volumes encadernados) e outros aportaram em minha casa nos espólios que me foram sendo legados pelas pessoas a cuja porta bati, na peugada de documentação histórica que esquecida ou perdida estivesse nos sótãos e arcas encoiradas de suas casas. Foram os que resistiram à tentação de serem usados como papel de embrulho, ou, sabe-se lá, para a serventia de vida, necessária, colorida e fétida que tinha lugar entre os canaviais da Lavandeira ou nos quelhos esconsos que davam acesso ao burgo, ali, onde a maioria dos castrenses iniciava o seu convívio matinal.

Consultados a preceito, constatamos que na sua composição gráfica, estava reservada uma página para ANÚNCIOS. E o historiador não deixou de estranhar que, em todos os exemplares, houvesse PUBLICIDADE bastante de casas comerciais do Porto e Viseu e nenhum anúncio sobre o comércio em Castro Daire. O primeiro anúncio a que cheguei neste jornal, ligado a este nosso torrão urbano, foi em 1905 e referia-se à AGÊNCIA DE VIAGENS de José Clemente da Costa. Sobre RITA AUGUSTA DE FIGUEIREDO nem “ai”, nem “ui”, semelhantemente aos outros comerciantes que, indubitavelmente, existiriam cá, na altura.

FIGUEIREDO  RITA-1917 - CópiaSim, e disso deram provas nos jornais que nasceram logo após a implantação da República. O facto de assim ser, dessa ausência, deixo eu à consideração do leitor.

Com efeito, a imprensa local surgida com a implantação da República, nomeadamente “O Castrense”, “A União” e o “Echos do Paiva” o primeiro jornal afeto as republicanos e o segundo e terceiro afetos aos monárquicos, marcam a diferença. Em todos eles os comerciantes locais mostravam a sua existência, a sua identidade e os produtos que vendiam ou os serviços que prestavam. No caso em foco nesta crónica, tanto FIGUEIREDO como a RITA FIGUEIREDO (em anúncios publicados alternadamente e no mesmo espaço) são clientes certos, daí  podermos acompanhar o seu negócio, anos seguidos, em todos esses periódicos. E “BEM SERVIR” era o lema destacado em letra de CAIXA ALTA em alguns dos seus anúncios.

Anunciando o surtido disponível ou as novidades chegadas de fresco, destaco, entre muitos, aqueles em que tanto o FIGUEIREDO  como RITA anunciavam “montanhaques” “cerrubecos”, “varinhos” e chitascotins e outras miudeza. Havia ali de tudo e à medida de todos os gostos e posses. Ali vendia-se tecido à vara, a metro, destinado a alfaiate ou costureira. O “pronto-a-vestir” era algo do porvir, algo de tempos novos e distantes. E tempo velho do CENTRO COMERCIAL, onde em 1890, se vendiam vasos de vidro para comunhões, lamparinas e jarras para flores, tinham passado. (Ver foto)

Os jornais, na sua estrutura e distribuição do material destinado ao prelo, isto é, na sua composição gráfica, reservavam a última página para a publicidade. Mas vezes houve que a publicidade da RITA FIGUEIREDO, mantendo ocupado o seu espaço entre os anúncios das demais casas comerciais, ocupou no mesmo exemplar e cumulativamente, espaço diferente. Por exemplo, em 20 de novembro de 1915, em “O Castrense” o seu anúncio ocupa, a toda a largura, o cabeçalho da penúltima página. E no jornal “A União” de 27 de Março de 1912, o seu anúncio aparece na penúltima página num retângulo em posição vertical. O tipógrafo mostrava assim a diferença entre ela e os demais. Cada qual a zelar pelo seu negócio, ele não procedia assim, certamente, por simpatia. Ontem, como hoje, o custo da publicidade está estreitamente ligado ao destaque e ao espaço ocupado.

De sublinhar que os anúncios ligados, ora à «Casa Figueiredo», ora à «Rita Augusta de Figueiredo e Filho», ocupando, alternadamente o mesmo espaço, obrigou o historiador a perguntar-se: são dois estabelecimentos comerciais distintos, ou apenas um?

As informações orais, fidedignas, que me chegaram desse tempo, diziam-me tratar-se da mesma casa comercial, sempre sita ali, na rua 1º de maio.

Mas foi preciso chegar à leitura de “O Castrense” de 20 de dezembro de 1917, para as dúvidas se evaporarem. Nesse exemplar está escrito, preto no branco: “CASA FIGUEIREDO de RITA AUGUSTA DE FIGUEIREDO E FILHO”. Enfim: dois em um. Dúvida desfeita.

Em 1930 como vemos no jornal “O Castrense” a CASA FIGUEIREDO mantinha o mesmo ramo de negócio, acrescido de AGÊNCIA DE VIAGENS E PASSAPORTES, sob a responsabilidade de Aarão de Figueiredo. E no jornal “A Voz de Paiva”, em 1940, sucessor do jornal “O Castrense” na ordem cronológica da IMPRENSA LOCAL, também ele saído do prelo ALBION, já acima referido, na mesma casa se tratava de PASSAGENS E PASSAPORTES , desta feita aos cuidados de Aarão de Figueiredo Baptista. (Ver anúncios)

AARÃO BAPTISTA-1940 - CópiaCompetindo, desde sempre, com outras casas comerciais implantadas na vila, demonstrado pela profusão de anúncios publicitários dessas casas na imprensa local, algumas delas abertas por ex-empregados da CASA FIGUEIREDO (dizem)  para além de competirem no mesmo ramo de negócio, para além dos anúncios deixados nos jornais, todas elas, sobretudo as de maior volume de mercancia, editavam POSTAIS ILUSTRADOS (a preto e branco e a cores) projetando no mundo trechos típicos e representativos da vila e do concelho. Por isso, com agrado se regista que exercendo essencialmente uma atividade comercial a ela souberam associar uma atividade cultural, tornando-se, ipso facto,  agentes de divulgação das nossas terras e gentes. E não são poucas as edições desses postais que correram mundo a custo e gosto de RITA AUGUSTA FIGUEIREDO & FILHOS. A ela se devem, por exemplo, os postais a “preto e branco” do HOSPITAL DA MISERICÓRDIA”, da IGREJA MATRIZ (exterior e interior) e outras, mostrando a PONTE PEDRINHA sem esquecer vários aspetos da vila. Mas, em abono da verdade, devo dizer que, nesse afã, não lhe ficava atrás Mário Jorge Ferreira Pinto, Aires Pinto Marcelino de Farejinhas)  e bem assim José Cardoso Dias, já na fase das edições a cores. Só depois veio a Câmara Municipal.

RITA-DIPLOMA-1966 - Cópia

Graças a todas essas iniciativas podemos hoje, regressar ao passado e ver, em imagem, esse Castro Daire de outros tempos e de outras gentes. E o historiador, atreito que é a fazer “história com gente dentro” grato está a todos esses nossos concidadãos que, na sua qualidade de agentes comerciais, volveram agentes culturais, facultando-nos páginas de informação, de conhecimento e de saber. Na parte que me toca grato lhes estou por esses seus GESTOS, PENSAMENTOS E OBRAS.

E foi, seguramente, por essa e por outras que o GRÉMIO DO COMÉRCIO DO DISTRITO DE VISEU, em 1966, por altura do seu CENTENÁRIO, decidiu atribuir à firma RITA AUGUSTA DE FIGUEIREDO & FILHOS, SUC. o DIPLOMA que o seu descendente  Alberto Sottomayor Negrão, gentilmente me facultou, inteirado que foi desta minha investigação sobre a firma dos seus antepassados. Aqui deixo cópia dele, espelho de uma reconhecida homenagem, em particular, a essa SENHORA e a toda a FAMÍLIA, em geral, e a toda a GENTE DA TERRA, a todos os que, independentemente da sua profissão, viveram ou se fixaram neste pedacinho de Portugal Beirão, contribuindo assim para que Castro Daire não fosse apagado nos mapas escolares da GEOGRAFIA HUMANA.

(Continua)

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.