Trilhos Serranos

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quinta, 30 janeiro 2020 18:27

CASTRO DAIRE - GENTE DA TERRA (1)

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COMÉRCIO LOCAL

Nestes meus trilhos serranos, caminhando, por enquanto, sem apoio de bengala (nunca tive bengalas na vida) tropecei hoje num assunto da HISTÓRIA LOCAL que desde há muito trago sob a mira. A razão de só ter acontecido neste ano de 2020 ficará explicada na presente crónica, dividida em QUATRO PARTES.

 

 

PRIMEIRA PARTE

Duvido que haja algum investigador probo que, debruçando-se sobre HISTÓRIA LOCAL e procurando fazer “história com gente dentro”, se desinteresse pelas notícias, comunicados, comentários, artigos de opinião e até ANÚNCIOS PUBLICITÁRIOS que, em letra redonda (garrafal ou miudinha) ficaram para a posteridade nos jornais que circulavam na terra e, no nosso caso, eram mesmo impressos na tipografia local: a TIPOGRAFA CASTRENSE, onde laborou o prelo ALBION, saído da FUNDIÇÃO DE MASSARELOS, PORTO, 1855, recolhido atualmente no Museu Municipal, depois de restaurado, em 2014, sob a minha orientação técnica.

1-Casas.frente Ulisses-2003 - CópiaNas páginas desses jornais ficou petrificada a vida movimentada das instiuições locais, fossem elas políticas, de saúde, administrativas e/ou de solidaridades social, animadas pela GENTE DA TERRA. Ficaram as marcas da comunidade serrana a residir nos campos e na sede do concelho. Ficaram os nomes das firmas comerciais e o tipo de produtos e serviços que elas prestavam ao público, em geral, e aos clientes certos, em particular.

Fazer “HISTÓRIA LOCAL” passa rigorosamente pela consulta e manejo desse manancial de informação. E cabe ao historiador dar-lhes vida, depertar os sentimentos, os afetos, os interesses, as necessidades dos fregueses ali adormecidos, a par da boa vontade e bem servir das pessoas que, proprietários e empregados, por iniciativa própria ou por falta de outras opções, decidiram passar a vida atrás de um balcão com paciência de santo para aturar as exigências e as indecisões de alguns clientes que lhes entravam porta dentro, miravam, remiravam, palpavam, repalpavam e, depois de um estendal de peças sobre o balcão, pediam desculpa e se iam porta fora com um “agora não, volto depois”.

marcas no telhado - CópiaComportamentos desses eu os tenho presenciado no tempo presente e presumo que não tenha sido diferente no passado, pois não são séculos de vida, de cultura e incultura, que mudam a essência humana.

É isso. Muita da informação que tenho trazido à luz do tempo presente, foi arrancada desses suportes impressos no tempo passado. Muita pesquisa. Muita leitura. Muito trabalho. E, como prova disso, já lá vão, entre tanta crónica dispersa na imprensa escrita e demais espaços online, os livros “Misericórdia de C1astro Daire (subsídio para a sua história”, (1990) “Castro Daire, os Nossos Bombeiros, a Nossa Música” (1995) a “Implantação da República em Castro Daire -I” (2010) e “Castro Daire, Imprensa Local, 1890-1960” (2014).

2-FRENTEMas desta vez, vou focar-me numa das CASAS COMERCIAIS de renome em Castro Daire, desde os tempos que antecederam a PRIMEIRA REPÚBLICA e continuou durante o ESTADO NOVO, saído da Revolução do 28 de maio de 1926. Ela se distingue das restantes pela própria arquitectura do edifício, onde tinha portas abertas, ali, na actual Rua 1º de Maio, à mão esquerda de quem sobe das “QUATRO ESQUINAS” em direção à PRAÇA D. JOSÉ AGUILAR.

Os proprietários - tal é a lei da vida - há muito que deixaram de exercer a sua actividade. Mas o edifício, ainda que, na passagem dos anos, tenha sucessivamente, mudado de proprietários e até de ramo de negócio, ficou de pé, tal qual era até tempos recentes. Comecei a fotografá-lo em 2003 e foi nele que, em 1986, adquiri os candeiros clássicos para a minha moradia, em Fareja, acabada de reconstruir. Nessa altura vendia-se ali mobiliário e material de iluminação doméstica. Era o senhor Luis Almeida que, por arrendamento e dedicado a esse ramo de comércio, matinha a porta aberta de um estabelecimento reconhecidamente histórico na vila de Castro Daire. Falecido este empresário, de morte repentina, o edifício ficou de portas fechadas e a degradar-se a olhos vistos, de ano para ano. E passarsm muitos.

Figueiredo - CópiaHá poucos anos, num estado prestes a entrar em ruínas, o telhado a dar de si e a acusar a idade (ver foto acima) foi adquirido pelo senhor António Manuel Ferreira Esteves, um cidadão empreendedor natural do concelho, que, neste ano de 2020, meteu o prédio em obras de requalificação, disposto a abrir-lhe as portas e, sem apagar a velha divisa da casa - BEM SERVIR - receber nela, novo ramo de utulização que seja, uma clientela digna e desejosa de usufruir um espaço com a atmosfera histórica e cultural que, por certo, ali se respirará. Situado na zona histórica do velho “Crasto”, respeitando naturalmente as exigências impostas pela preservação do património arquitetónico urbano, imperioso foi manter a frontaria original, bastante singular no contexto urbano vilão, pelas razões expostas, já a seguir.

Joaquim de F.S. e Oliveira- 1888 - CópiaDessa requalificação falaremos em tempo próprio, mas, antes disso, retenhamos os olhos no edifício antigo e gestos dos seus proprietários. Gente de posses e de bom gosto, toda essa frontaria é revestida, de alto a baixo, com vistoso “azulejo de relevo” que a torna única na vila. Sob a varanda central do primeiro andar, vedada com uma grade de ferro forjado (autêntica filigrana saída da mão de mestre ferreiro hábil a manejar a tenaz, o malho e a bigorna) mostra-se, na sua base de cantaria, uma flor lavrada em alto relevo. E, sob ela, uma ESTELA OBLONGA, de granito, com a legenda “JOAQUIM F. S. e OLIVEIRA, 1888”, tal como se mostra na foto, ao lado.

O acesso ao primeiro andar era feito pelo lado direito e quer no pátio de entrada, quer numa varanda a ele sobranceira, ambos vedados por grades de ferro forjado, com destaque para as flores-de-lis de chumbo fundido nos remates, dão ao edifício a distinção dos proprietários e a identidade de uma época histórica  (Continua)

 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.