Trilhos Serranos

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segunda, 04 novembro 2019 14:14

VELHAS E NOVAS TECNOLOGIAS

Escrito por 

 PROVOCAÇÃO INTELECTUAL

No tempo em que tanto se fala das «novas tecnologias» e das movimentações humanas, políticas, económicas e outras decorrentes do fenómeno «WEB SUMMIT» que abriu portas lá pela capital do reino, nem de propósito e à laia de «provocação» a minha EQUIPA DO FACEBOOK trouxe aos espaço das MEMÓRIAS a foto que alojei no meu mural, em 2012, relativa a uma velha máquia a vapor que acionava as mós de um «lagar de azeite» na velha serração da Soalheira, ali, na Vitoreira a mirar Castro Daire. Era no tempo em que, à míngua de relógios (bem ao contrários dos tempos que correm)  o «APITO» dessa ou de outra  máquina a vapor que ali laboravam marcavam a abertura e o fecho das lojas comerciais da vila de Castro Daire.

A história dessas máquinas a vapor está relatada no meu livro «Castro Daire, Indústria, Técnica e Cultura», editado em 1995 (há muito esgotado), e, por isso mesmo,  é que me dei ao cuidado de publicar no Facebook uma «relíquia» sobre a qual discorri nesse meu livro. Assim:

 «SOALHEIRA - MÁQUINA A VAPOR DO MOINHO DE AZEITE


1- Soalheira-2007 - CópiaEntre a povoação de Ribolhos e S. Domingos a caminho da vila de Castro Daire pela Estrada Nacional nº 2, fica a Soalheira não referenciada nas Memórias Paroquiais de 1758, nem em documentos anteriores.

Ali veio, porém, a instalar-se um complexo industrial que incluía uma serração de madeiras, uma carpintaria e um lagar de azeite. Foi, tanto quanto apurei na «investigação» que levei a cabo durante a minha «licença sabática», enquanto professor da Escola Preparatória de Castro Daire,  no ano letivo de 1994/1995, de que resultou o livro «Castro Daire – Indústria, Técnica e Cultura», editado pela Câmara Municipal, em 1995, do qual transcrevo a matéria em apreço. 

No que respeita à serração deve dizer-se que ela apareceu na Soalheira por transferência da primeira serração mecanizada que nasceu em Mões.  À sua frente estiveram João Barreto de Almeida MarquesArtur  Leitão  e  Diogo  Barbot, um senhor das bandas do Porto, que penetrou no interior e, em sociedade com os outros dois, na década de trinta, puseram em movimento a primeira máquina a vapor neste interior beirão.

2-1995b - Situada na encosta fronteiriça à vila de Castro Daire, tendo o rio Paiva de permeio, não tardou que as gentes da  vila se dessem conta de que algo de novo tinha chegado. Não só para exercer as funções que lhe estavam destinadas como força motriz da serração, mas também, para ter algum ascendente sobre as suas vidas. O apito, tão característico das máquinas a vapor, terá levado alguns, no início, a perscrutar a zona na esperança de verem  «passar o comboio», mas, como o comboio do progresso passava longe, o apito passou a determinar a entrada e saída dos serviços, não dos campos, pois esses eram de sol a sol, mas das lojas comerciais, cujo horário de trabalho, de encerramento e abertura, passou a ser determinado pelo apito da modernidade e não pelo toque do  relógio mecânico da Matriz, esse bem público municipal, comprado algures no tempo pela Câmara, razão por que ainda hoje é ela que paga os seus consertos anuais, através de contrato com o relojoeiro, Joaquim de Sousa Almeida. Neste ano de 1995 essa «assistência técnica ao relógio» foi ajustada pelo preço de 80.000$00. 

Na década de quarenta a fábrica passou para as mãos de Albino Casimiro Rodrigues, em sociedade com os filhos, José, Acácio, Alice e Joaquim, naturais de Folgosa. Casimiro Rodrigues para além de fabricante de velas, (profissão que lhe valeu a si e à família o nome de Cereeiros,) era já conhecedor do ramo, pois, junto a Folgosa, possuía também um arremedo de serração hidráulica  - moto-serra acionada pelas águas do corgo da Cervieira, afluente do Paiva.

Era o tempo do volfrâmio, da corrida ao minério, do esventrar de montes e ravinas à procura de filões que se descobriam à força da pá e do picareto. Se o veio era horizontal surgia uma mina e a toupeira humana, acompanhada de gasómetro, perseguia-o até ao esgotamento.  Se  o  veio era vertical surgia um poço e, à boca dele, o rodízio a trazer até à superfície o precioso, negro e pesado minério de mistura com terra e rochas.

3-MOINHO-2-06-12-1994 - CópiaMuito trabalho. Muita vigarice pelo meio, pois misturava-se e vendia-se tudo o que era negro e pesado. Para obstar a isso, surgiram as «separadoras» e na primeira linha, montando uma, em Folgosa, accionada por motor a diesel, estava o mesmo homem da Soalheira: Albino Casimiro Rodrigues.

O minério foi, porém, sol de pouca dura e a Serração havia-de continuar muito para aquém das minas e dos poços que, quais cicatrizes, ficaram na serra como marcas físicas duma vida mais promissora, duma qualidade de vida  que o camponês deseja e procura, mas também da guerra, dos gastos desmedidos, senão mesmo do desgoverno de quem se viu  de repente a folhear montes de  notas, habituado que estava ao tilintar de escassas moedas.

Hoje em ruínas, com algumas paredes caídas e outras levantadas, a Soalheira de Casimiro Rodrigues não passa também duma marca do passado: duas máquinas a vapor ainda lá permanecem: uma teve por destino mover as serras e outra accionar uma azenha de azeite, concluída no ano de 1952, e, simultaneamente, fornecer vapor aos quatro radiadores de uma estufa de secagem de madeira, montada a poucos metros da Serração e mesmo ao lado do lagar de azeite.

Ambas permanecem no sítio onde foram colocadas. A da serração não fornece quaisquer referências técnicas que levem à sua identificação de marca e origem. A da azenha e da estufa é uma «Davey Paxman» e jaz inerte entre silvas, tal como a azenha, o exaustor e os radiadores que faziam parte dos equipamentos da estufa. É o abandono total. A Natureza e a ferrugem que, lesta  e atrevida, se aninha onde não há óleos nem unturas, não tardarão a tirar-lhes para sempre o cartão de identidade.

A máquina «Davey Paxman» está nesse estado, mas, com mais um pouco de sorte, podia estar hoje na Inglaterra, sua terra berço, nas mãos  de  Philip J. Paxman, neto do fabricante. Como? Simplesmente porque, enquanto nós, portugueses, deixamos delapidar o nosso património, tendo-o mesmo ao pé da porta, não o preservando nem o cedendo a quem quer preservá-lo, outros procuram-no pelos cantos do mundo. Umas vezes apenas movidos por interesses históricos e culturais; outras porque a determinada peça os liga uma afectividade que se relaciona com os seus antepassados. Foi o caso de Philip Paxman. O seu avô tinha sido o fabricante de máquinas a vapor que saíam da fábrica com o seu nome. Por via disso, o seu neto, em 31 de Janeiro de 1979, dirige-se, por carta, ao Ministério da Indústria e Tecnologia de Portugal, procurando saber se naquele Ministério se mantinha algum registo da maquinaria importada, a fim de poder localizar alguma máquina a vapor saída da fábrica do seu avô, fundada em 1855. Informava que naquela altura restavam "poucas destas velhas máquinas a vapor" e estava disposto a re-importar uma delas, caso fosse localizada e o seu proprietário a quisesse vender.

4-1995-a - CópiaNão sabemos que tipo de informações lhe foram prestadas pelo Ministério da Indústria e Tecnologia, mas sabemos que, em 5 de Fevereiro do mesmo ano, uma carta dactilografada era dirigida a Amadeu Casimiro Ferreira, do Vale da Azia, agradecendo-lhe a hospitalidade e a forma gentil como o recebeu, quando em 15 de Janeiro, o tinha visitado em companhia de outro inglês de nome Clive Flack. Tinha visto e observado a máquina e como estava interessado nela «por razões familiares» queria saber se podiam encetar as negociações, acrescentando: «caso a proposta da venda da máquina me seja feita, posso assegurar-lhe que retornarei prontamente a Portugal para fazer o pagamento e concluir o negócio».

Amadeu Casimiro Rodrigues apressa-se a entregar a missiva a Acácio Loureiro Rodrigues, na altura proprietário da «Serração Viriato», em Viseu. E em 13 de Março, numa carta dirigida a Philip Paxman, a residir no «50 Fesher's Lane, Orwell. Royston. Hertfordshire, ENGLAND», dá-lhe conta do seguinte:

«(...) essa máquina esteve a movimentar um lagar de Azeite que ainda  se encontra no barracão anexo onde está a referida máquina a vapor e que também é propriedade minha. Já por diversas vezes tenho sido entrevistado por pessoas estrangeiras e nacionais para me comprarem a máquina em referência e embora me tenham feito diversas ofertas ainda não chegaram ao ponto dos seus valores.

É certo que penso transferir o lagar de azeite para a minha serração de madeiras em Viseu e, consequentemente, a  máquina a vapor citada será montada para fornecer a força motriz e aquecimento de água para o lagar, pois sempre senti a mesma ser economicamente no seu funcionamento em combustível, trabalhando com serrim e madeira nas melhores condições.

Atendendo ao significado que representa a compra pela família "PAXMAN", não terei dúvida em transaccionar a máquina desde que me ofereçam o seu justo valor" (...).

E com as saudações protocolares com que normalmente se rematam as cartas comerciais, parece ter sido rematado também um negócio que não se fez, como o atesta a permanência da «Paxman», entre silvas e escombros no lugar onde foi implantada e vista pelo neto do fabricante.

É que ele, ao ler a carta que lhe foi dirigida pelo proprietário e ao ver que este manifestava a intenção de a transferir para Viseu, servindo-se dela como força motriz e aquecimento de água para o lagar, acreditou na mensagem que lhe foi transmitida. Uma mensagem enroupada com a referência a outros pretendentes "estrangeiros e nacionais", peça interessante do ponto de vista económico por trabalhar "com serrim e madeira", mas que apesar disso e dado o facto de poder ser adquirida pela "família Paxman", podia ser vendida desde que oferecessem "o justo valor".

Lida em profundidade e conhecida que é a situação actual da máquina, não custa a ver que tudo isto era um pretexto para subir o preço da máquina. O inglês não soube descodificar a mensagem. Acreditou na sinceridade das palavras e estava longe de entender a esperteza beirã aplicada a todo o tipo de negócios. Aos negócios de feira. E do facto resultou que nem um, nem outro conseguisse os seus intentos: o inglês ficou sem a máquina, não podendo, assim, exibir na Ingaterra um produto saído da fábrica do seu avô e reimportado de Portugal. O português não vendeu a peça e esta ficou a testemunhar que os "ardis negociais" praticados, geralmente entre portugueses, não resultaram com um estrangeiro.

Seja como for, se Acácio Loureiro Rodrigues falhou neste negócio, soube acertar em muitos outros. Antes de se transferir para Viseu, para a «Serração Viriato», tinha sido ele, como sócio gerente da «Sociedade Castrense de Madeiras Lda.», o principal responsável pelo dinanismo, desenvolvimento e projecção que a Serração da Soalheira atingiu no auge da sua laboração. Muitos dos empresários de madeiras estabelecidos no concelho posteriormente, iniciaram ali a sua carreira. Aprenderam ali, e com ele, os segredos do ofício. Hoje continua em laboração e é seu proprietário Manuel Monteiro».


Acrescento que a este senhor se deve o «Moinho de Lagar de Azeite» implantado no espaço que orla o Centro Municipal de Cultura e a Boblioteca Municipal. Depois de uma saga dramática a enferrujar junto do Tribunal de Castro Daire, este EXECUTIVO resolveu dar-lhe alguma DIGNIDADE, mas tarda a a que as «engrenagens» encaixem e informe pedagogicamente sobre o seu funcionamento. Não se chegou às«NOVAS TECNOLOGIAS» hoje tão apregoadas e usadas, sem o recurso que se fez a essas PEÇAS DE MUSEU. Aquelas que sobreviveram. A  «Davey Paxman» desapareceu de vez.

Em 2012, como disse, alojei no meu mural do Facebook a foto «Davey Paxman». E vindo ela hoje ao capítulo das MEMÓRIAS, fui copiar as reações que, nessa altura, foram deixadas a título de «comentários. Assim:

Abílio Pereira de CarvalhoAbílio Pereira de Carvalho Arqueologia pura e dura. Soalheira, C. Daire, 1995. Máquina a vapor que accionava um lagar de azeite.

Marisa PintoMarisa Pinto Nem parece que Castro Daire tem um Museu :)

Luís TeixeiraLuís Teixeira Infelizmente, sendo Castro Daire uma das terras mais antigas do país, não preserve tanto o seu património...Mas tal defeito já é antigo, pois se até os dois primeiros forais desapareceram (um dos quais deve ser um dos mais antigos do país), estamos conversados....O que é uma pena, seria um importante factor de desenvolvimento para o nosso concelho.

Abílio Pereira de CarvalhoAbílio Pereira de Carvalho Posso acrescentar agora que esta máquina tem uma história rocambolesca contada, em pormenor, no meu livro «Castro Daire, Indústria, Técnica e Cultura», editado pela Câmara Municipal, em 1995. Está esgotado.

Marisa PintoMarisa Pinto Tenho esse livro

Abílio Pereira de CarvalhoAbílio Pereira de Carvalho A Marisa é uma felizarda. Muita gente me tem procurado por ele e a minha resposta é: «esgotado». Na Escola Preparatória, quando eu estava no activo, o exemplar que lá havia, já tinha as capas gastas pelo uso que os alunos lhe davam. E também sei que acontece o mesmo na Biblioteca Municipal

Marisa PintoMarisa Pinto :) Quando estagiei na SCMCD levava os seus, e outros livros do género para que os idosos relembrassem objectos, terras e expressões de antigamente.

Manuel Paiva LoureiroManuel Paiva Loureiro É uma pena ver esta máquina assim ao abandono. Será que depois de adquirida (Por quem de direito do erário público, ex-C.M.) e recuperada. não seria uma limpa peça para o museu

Alfredo FerreiraAlfredo Ferreira O Povo costuma dizer: Tudo vai atrás de quem o deixa ! E é verdade!!!

Guilhas RfGuilhas Rf corrijam me se estiver errado, mas esta maquina nao é a que está no jardim? que muitas crianças e pessoas ainda pensam que uma maquina de comboio?

Abílio Pereira de CarvalhoAbílio Pereira de Carvalho Esta máquina nada tem a ver com a que está no jardim, ainda que as duas sejam "máquinas a vapor". E só as ligam ao comboio aqueles que vivem no mundo a "ver passar o combóio". 

Antero FreitasAntero Freitas É necessário preservar, no presente, memórias do nosso passado, para garantirmos o futuro. Um povo que esquece ou apaga as suas memórias é um povo sem futuro.

Nota: Os comentários anterores incluem o do senhor Alfredo Ferreira, entretanto falecido.

 

 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.