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sábado, 27 outubro 2018 12:56

CUJÓ - RETALHOS DE HISTÓRIA - V

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MALHAS QUE O DESTINO TECE

Ainda embrenhado na «Floresta ou Sylva» do Padre Manuel Bernardes, livro que morou, desde não se sabe quando, na minha terra natal, direi que gado, matagais, silvas, silvados, lameiros, campos lavradores e semeados, não faltavam nas redondezas. A agricultura e a pastorícias eram as atividades económicas predominantes.

 

Um dos maiores silvados de que tenho lembrança, ficava na Touça, uma espécie de sebe a cercar a parte poente do lameiro dos Pintos. As silvas eram muitas e grossas, capazes de fornecerem abundante matéria-prima para moldar os rolinhos de palha com que se faziam brezas e açafates, arte já utilizada no Antigo Egipto.

PINTO-1Fachada da casa dos Pintos virada para a Eira e recentemente restaurada.

Num círculo a data de 1881

Colhidas que fossem as amoras até onde se chegava de pé firme, quantas vezes a rapaziada, contrariando a picadela agressiva dos bicos de gavião escondidos entre as folhas, sobrepôs aquela sebe um tapete de mato verde e macio para se passear por cima dela e vindimar as que ficavam lá no alto, só disponíveis para a passarada? Na debicada do fruto, nem sempre se escapava da bicada da silva e, depois de cada colheita, as marcas ficavam nas mãos, ora arranhadas superficialmente, ora a escorrer sangue. Mas o sabor das amoras, à falta de outros frutos que iam à mesa do rei, valia a imaginação e criatividade da subida, o sacrifício e a dor.

            Não havia animal alado a cortar os céus, nem pastor ou pastora a viverem em terra, que ignorassem aquele silvado. E, em tardes de Agosto luminoso e quente, ao fim da tarde, nos giestais, urgueirais e carvalhais em redor, as rolas, os gaios, os melros, os bartolomeus (papa-figos), em Cujó designados por «gaibões, e demais passarada miúda, faziam daquele sítio o Paraíso antes de Adão ter comido o fruto proibido. E à sinfonia nem sequer faltava o cuco a traçar os ares «cu-cu, cu-cu», também ele lançado vindo ao mundo no quinto dia da criação, autorizado pelo Criador a colocar o ovo em ninho alheio. E, quem pode garantir que, nesse paraíso, enlevados pelas sabores, cores, aromas e concerto da natureza, não houve pastor e pastora que, a par das amoras, saboreasse também o fruto proibido?

A juventude masculina de Cujó, nos meados do século XX, não tinha das moças da terra a ideia que, em 1597, Frei Bernardo de Brito exprimiu acerca das mulheres montemuranas. Que dizia ele?

«As mulheres são pouco para cobiçar, porque além da pobreza que costuma dar pouco lustre, têm elas de si tão pouco nas feições naturais que entre mil se não achará uma que tenha mortas cores de formosa. São robustas, trabalhadeiras e amigas de granjear sua vida, castas pela maior parte e desamoráveis para os estrangeiros».

PINTO-2Ricas em bens materiais não eram. Água-de-cheiro não usavam, mas tinham atractivos bastantes para os rapazes não resistirem às tentações da Serpente. E o mesmo aconteceu com o Padre António Duarte Pinto, cuja primeira missa celebrou no dia 30 de Dezembro de 1935, na capela de Cujó, sua terá natal. Ficou da cerimónia a  «Recordação» que, à semelhança dos recibos de pagamento de que já falei em anteriores crónicas, também ficou perdida entre as folhas encardidas de fumo da «Floresta ou Silva» que tenho andado a desbravar, depois do meu Professor de Literatura, Dr. Francisco Cristóvão Ricardo, me ter iniciado e metido no Campo das Letras, lá no outro hemisfério. Há quanto tempo foi isso!!!

Como se vê pelo nome, ele membro da família «Duarte Pinto», aquela que, em Cujó, se podia gabar de ter dois clérigos no seu seio, nos meados do século XX. Dois irmãos, um era o Padre Abílio e outro o padre António. Este foi um clérigo que deu que falar em toda a região. Pregador de renome, sem concorrente nas redondezas, os seus dotes naturais não se ficaram pela empolgante oratória de fazer chorar, meninos, donzelas e velhinhas, todas as vezes que subia ao púlpito.

Na aldeia de S. Joaninho e na aldeia de Cujó, encontrou ele a sua tentação. Não resistiu às Evas, às deusas lindas com quem resolveu cumprir o mandamento bíblico: «criai-vos e multiplicai-vos». O escândalo foi tal que a Igreja lhe retirou o múnus. Ele, porém, nunca renegou a fé, nem despiu o cabeção. Lembro-me de vê-lo a caminho da Igreja, desafiando os olhares recriminatórios dos seus conterrâneos, velhos e novos. O seu «pecado» era imperdoável para a família e a família era a aldeia inteira. Indiferente a tudo, do alto do seu fato preto e alvura do seu cabeção, ele passava indiferente a tudo incluindo os chistes da juventude atrevida e ignorante, guiada por conceitos e valores administrados na família e na catequese.

Passados anos, a Igreja devolveu-lhe o múnus, feita que foi, na igreja matriz,  a confissão e o arrependimento público da Eva que o tentara, a mãe de uma das suas filhas. Foi paroquiar as freguesias de Almofala e Várzea da Serra até ser velhinho. Já sem forças, acabou os seus dias num lar de idosos lá para os lados de Fátima, donde regressou dentro de um caixão. Foi a enterrar no cemitério de Cujó e ali, no lugar da verdade e da igualdade, dormindo a noite que não tem dia, alheio aos critérios sociais e institucionais, válido se manteria, por certo, o Salmo 42 que escolheu para a «Recordação» da sua primeira missa: «Eu irei até ao altar de Deus: até Deus, que é a alegria da minha juventude». Versículo que não resistiu aos exegetas e na Bíblia, edição Paulina de 1964, aparece com redacção diferente: «E subirei ao altar de Deus, ao Deus do meu júbilo e da minha alegria e te louvarei ao som da cítara, ó Deus, Deus meu». É isso, nem o livro dos livros, resiste à tentação dos homens.

Ainda em vida, pagou os estudos das filhas que gerara e em testamento não deixou de contemplá-las com parte dos bens que possuía. Elas, enfim, puderam chamar-lhe Pai.

Coisas do mundo, de silvas, de amoras, de amores e desamores de homens e mulheres.   

Mas de mulheres, para além do conceito de Frei Bernardo de Brito que vimos acima, também veremos, em próxima crónica, o que nos deixou sobre elas o Padre Manuel Bernardes na sua «Floresta ou Silva» que temos vindo a desbravar com muito gosto e proveito.

 

NOTA: alojado no site antigo, donde migrou hoje mesmo para este.

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.