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quinta, 23 novembro 2017 15:07

FONTE DA LAVANDEIRA - SEGUNDA PARTE, 2017

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SEGUNDA PARTE - O ACESSO

Havia, como disse, um único acesso à fonte. Era (e é) o estreito caminho que os poderes públicos licenciaram e reservaram ao lado dos prédios que se levantaram ao longo dele, caminho com um troço ladrilhado e ornamentado com vasos, como se particular fosse. (Ver fotos). Ali não se distingue um «caminho público» de um piso de «varandim privado» e isso só pode dever-se ao zelo, licença e visão da engenharia municipal e zeladores da «res publica». Ou, então, de obras feitas sem licenciamento. Adiante.

 

7-13-11-2017bÉ que se, até 2010, essa FONTE estava engolida pelo tempo, pelos silvedos e desconhecimento, a partir daí, as fotos que publiquei na imprensa e no meu livro «Implantação da República em Castro Daire-I», editado nesse ano pela Câmara Municipal, deviam ter alertado os poderes públicos para essas «ÁGUAS PERDIDAS».

Não alertaram. E foi preciso eu persistir na saga, por escrito e por vídeo. E, nessa tarefa, em 2012, correr os riscos que hoje apresento neste conjunto de fotos. Direi que antigamente as Leonores de Castro Daire «iam à fonte formosas e não seguras», pisando o chão de terra batida que ali conduzia, aquele carreiro que nascia no caminho que então ligava o burgo vilão aos Braços e demais povos na corda do Paiva. Ele nascia na  bifurcação feita ali perto onde viria a ser levantada a capela de Santo António, desmantelada que foi do Jardim Público, em 1937, a fim de no seu lugar se construir, em cantaria, a Escola António Serrado, que, nos anos 80 do século XX, se evaporou por decisão do Executivo então em funções. E ali nasceu o Mercado Municipal.

8-17-11-2017-aNessa situação e condições,  eu, seguindo o mesmo caminho, «perdida a formosura» e a agilidade da juventude, dos conhecimentos jovens me servi e «inseguro», mas sem medo, arrisquei passar tão perto de uma fera que parecia rir-se do meu atrevimento. Reparem bem, mais adiante,  naqueles sabres de marfim, prontos a rasgarem-me o fato e a pele. Face a isso, vi-me forçado a aplicar conhecimentos velhos a situações novas, como sempre ensinei aos meus alunos, neste vida de aprendizagem contínua e permanente.

Em 2010, o mestre Zé Ferreiro, a instâncias minhas, foi não só indicar-me o caminho, mas também mostrar-me o abandono em que a fonte se encontrava. Ligado à imprensa e comunicação social, sem carteira de jornalista e sem usurpar funções,  fiz o que tinha a fazer. Tirei fotos, divulguei a existência e estado da fonte na imprensa e num livro.

E, em 2012, interpelei o então Presidente da Câmara, Fernando Carneiro, por que razão a recuperação daquela FONTE PÚBLICA, as dois passos do Parque Urbano, inaugurado em junho desse ano,  não tinha sido integrada nessas obras, através de um passadiço feito sobre manilhas, continuação daquela por onde se escoam as águas da barroca que ficou sob o piso desse Parque e se prolonga a jusante dele, a céu aberto. Fiz um vídeo sobre isso que está disponível no Youtube. Fiquei com a impressão clara que o autarca, tal como os seus antecessores, alguns anos antes, nomeadamente o Presidente João Matias e Vice-Presidente Eulália Teixeira, ignoravam as muralhas das Portas do Montemuro e a sua localização, também ele desconhecia a existência dessa fonte. E confrontado com essa realidade, prometeu-me que esse passadiço poderia ser feito mais tarde, integrado nas obras projetadas para o escadório da VIA SACRA que, da Estrada Nacional nº 2, dá acesso à Feira das Vacas. As obras do escadório iniciaram-se no seu mandato - é a democracia a funcionar - mas terão de ser terminadas pelo novo Executivo. Acerca do passadiço sobre manilhas, do Parque Urbano até à Fonte da Lavandeira,  nada.  

Fonte sem acesso fácil, como era visível, sugeri que, ao menos, se fizesse a canalização da barroca a jusante da fonte (cerca de 20 metros) e sobre as manilhas se fizesse um passadiço, ligando a fonte ao antigo caminho  que ligava o burgo vilão aos Braços e a todos os povos da corda do Vale do Paiva. 

A ideia foi aceite, as obras foram realizadas. A partir daí, falam os textos que escrevi e os vídeos que realizei e alojei no Youtube, atribuindo o mérito a quem de direito, v.g. ao Executivo Municipal cessante, com destaque para o vereador Dr. Rui Braguês.

Mas não se pense que me foi fácil levar por diante a ideia. Depois de descobrir a FONTE, em 2010, nas condições referidas, entendi que devia trazer o caso ao conhecimento do público através de um vídeo, já que a denúncia feita na imprensa e em livro não sortira qualquer efeito, nos dois anos seguintes. Assim, em 2012, câmara de filmar em punho, dispus-me a produzir um documento com a imagem e o som da água a jorrar naqueles tanques abandonados. E fi-lo.

6-cão-1Pois. Só que em dois anos as coisas mudaram. O caminho que, em 2010, ainda que entupido a partir dos primeiros degraus em direção à fonte, e livre ao longo dos prédios, a partir do Santo António,  apresentava-se agora, com um Rottweiler preso à porta de um morador, pronto a dificultar-me a passagem. Interpelei-me: «mas não é isto um caminho público?» 

Sentinela negra corpulenta, ameaçadora e dançarina, sabres de marfim prontos a esfaquear-me o fato e a pele, ladrar poderoso e grave,  dentuça eloquente, olhos a luzirem e a chisparem raiva ou medo, não tendo eu acesso alternativo à fonte, tive de refletir como passar por ele sem lhe dar o prazer de me ferrar os dentes e de eu conseguir realizar os meus intentos sem ser molestado.

cão-pastor-1Ora, como o meu «curriculum vitae académico e profissional» (que é público) não inclui todas as experiências de vida e capacitações pessais, aqui registo que cedo me habituei a lidar com cães (na casa dos meus pais sempre houve cães e gatos), cedo aprendi a lidar  com cães de porte (e seu treino) em terras de África. Amigo de polícias e «cães polícias» (ver fotos) fui, inclusive professor de uma turma de chefes de esquadra concorrentes ao posto de comissários (disso dei nota em texto publicado há anos no meu site) um dos quais tnha um "Leão da Rodésia" que ficou ao meu cuidado, enquanto o dono passou férias em Portugal. Habituado a isso, dizia eu, não era um Rottweiler, por mais eloquentes que fossem a sua dentuça e a sua dança,  que ia impedir-me de passar ali e de fazer o vídeo pretendido.

Com vista a certificar-me até onde a corrente que o prendia lhe dava liberdade de movimento bem esticada, atirei com um objeto para junto da grade, à sua frente. Ele tentou abocanhar o objeto e eu constatei que, ainda que arriscado, eu tinha espaço livre para passar com segurança perto daquela máquina de morder e de matar.  Repeti a ação e tirei a prova dos nove. Eu passaria, mas não arriscaria a pele assim, sem mais não. Ponderei que, num dos seus esforçados assaltos, raivosos e poderosos, ele pudesse rebentar a corrente, ficando  eu à sua mercê. O caso não era para aventuras. Não prossegui a viagem e voltei no dia seguinte, devidamente artilhado para o que desse e viesse, pronto a realizar o meu desejo.

cão-pastor-2 - CópiaCertifiquei-me de que o cão estava amarrado à mesma distância e conclui que sim. A prudência aconselhou-me a ir munido da defesas convenientes e armado com ferramenta cortante e perfurante, semelhante à que lhe guarnecia as mandíbulas. Uma luta, a travar-se entre um homem e um animal, queria-se leal com armas equiparadas. De preferência, melhores para mim. Retrocedendo na história pátria, recordando manhas, artimanhas e adornos lusitanos, bom jeito me  fazia possuir agora uma dúzia de "vírias", com largura bastante enfiadas no braço direito sob a manga que improvisei, capaz de resistirem ao aperto daquelas mandíbulas poderosas. 

Não possuindo as «vírias», reforcei a manga. O isco seria aquela parte dianteira e móvel do meu corpo, do cotovelo ao pulso.  E, de luva calçada a segurar a câmara virada para ele, arrisquei. Ele seria o protagonista do filme e eu o realizador dele sem ter de lhe pagar cachê. Vejamos o filme:

Ação:

2-cão mau-1 - Red -Caso pensado. Se ao passar ele rebentasse a corrente, eu atravessava-lhe o braço protegido na boca e, encostado à grade, braço direito abocanhado, o atacante, ciente da sua raça, raiva e medo, de peito feito a descoberto, ficava à mercê da minha defesa e do meu ataque. A presa volveria predador. A minha mão esquerda entraria em movimento num constante vai e vem, com força e ligeireza necessárias. Empunhando uma ferramenta equiparada à dele, aquela faca de mato que aprendi a manusear em terras de África, indispensável em todas as saídas para trilhos, carreiros e picadas da floresta. Desse modo,  a cada sacudidela de dentada, a cada esforço do atacante,  a cada impulso seu, carregado de energia, de raiva e medo, corresponderia um jacto de sangue proporcional ao esforço feito. Quanto maior fosse esforço, maior seria o esguicho.  CÃO MAU-2 - CópiaA cada tentativa de me molestar era ele o molestado. Não era ele que, na sua raiva cega, me prendia. Era eu que, lucidamente, o tinha preso. A sua vida e morte dependia de si próprio. Lentamente. A sangrar assim,  a gana que carateriza o  Rotteweiler escorrer-me-ia aos pés, em jorros vermelhos de sangue e a pressão das suas mandíbulas iria, seguramente, diminuindo à medida que o precioso líquido deixasse de  lhe fluir nas veias. E, caso pensado, no fim da luta, se eu não desmaiasse por fadiga, vê-lo-ia estendido a meus pés e ouviria o seu rosnar de agonia, tal qual o porco que o meu pai todos os anos sangrava em cima do carro de vacas. Primeiro era um cuinhar lancinante que se ouvia em todas as casas em redondo, mas à medida que sangue lhe deixava o coração e enchia o alguidar, seguia-se o grunhir rouco de moribundo até ficar imóvel, inerte, morto.

Corta...

saída aNão aconteceu nada isso com o cão. E ainda bem para os dois. Não era meu intento matá-lo. E passei para lá e para cá.  Ele não rebentou a corrente, cumpriu o seu papel de guarda, riu-se e falou comigo à moda da sua raça. Ficou vivo e teve honras de Internet. E por lá anda, no mundo, a testemunhar a façanha vivida,  a mostrar que eu fui Viriato sem vírias, jornalista sem carteira profissional, realizador de vídeo sem escola, político sem integrar as listas partidárias de eleitos locais. A fonte foi recuperada e posta ao serviço dos cidadãos. Os acessos foram limpos e melhorados. A limpeza em redondo está à vista. Só faltam as tabuletas de sinalização colocadas nos sítios convenientes. Isto para desconforto da tal "CRIATURA" que me julgou "vendido" ao Executivo anterior, por ele atender as minhas sugestões. A partir de 01-10-2017, o Executivo é de outra cor política e deu continuidade à obra pública iniciada. Sinal de que, com a idade que tenho, não me caíram os cabelos a opinar inutilmente no anonimato, desdobrado em blogues e contas do Facebook, travestido de mulher com óculos Ray-Ban, simplesmente porque, tal "CRIATURA", ficando-se pela idade do liceu, não cresceu e, para satisfazer o "ego" maldizente da "maralha" e seu,  vai alimentando o soalheiro vilão, de esquina em esquina, sem qualquer retorno compensatório (político e cívico) do fósforo e do tempo dispendidos. Digamos que vai "arreganhando" inutilmente os dentes. E é pena. Pois numa terra destas todos fazem falta com NOME e ROSTO, sem medo.

O Rottweiler desapareceu poucos dias depois de eu publicar o vídeo. Mas quem quiser ver a gentileza e os salamaleques com que esse bicho me deixou passar, é só reparar nas fotos que ilustram esta crónica e ver o vídeo cujo link se anexa.

Link: https://youtu.be/jhA9wdjlCew

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.