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sábado, 23 setembro 2017 15:15

PELOURINHO DE ALVA - O NOSSO PATRIMÓNIO E OS SEUS TRATOS (2)

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HISTÓRIA VIVA

 Com a presente crónica se põe fim à saga do desaparecido PELOURINHO DE ALVA. Ele voltou ao espaço público no dia 11 de Julho de 2017. Mas veja-se a sua longa caminhada.

 

1PRIMEIRA PARTE

Classificado «monumento nacional» por decreto nº 23.122 de 11-10-1933, o Pelourinho de Alva, vá lá saber-se quando, por quê e por quem, foi retirado do lugar público arejado onde se encontrava,  deixando de ser o símbolo da JUSTIÇA e da MUNICIPALIDADE, para ser metido num  curral a servir de suporte a uma trave de sobrado, numa casa em Souto de Alva

Prisioneiro e condenado a viver no escuro (nos pelourinhos, antes deles passaram à fase simbólica da Justiça, eram presos e expostos os delinquentes sociais, ao ar livre, em plena luz do dia) ali permaneceu durante décadas no escuro até ao momento em que foi resgatado v.g. no p.p. dia 22-11-2016.

 Apeado foi metido numa garagem onde, deitado, aguardará o arranjo do espaço público da aldeia para nele  ser levantado e no qual voltará a adquirir o valor simbólico de que foi despojado, todo este tempo. Prisioneiro no curral, não só serviu de coluna de apoio à trave do sobrado, mas também objeto com marcas evidentes dos animais o utilizarem para tirarem a coceira. Basta ver o polimento do fuste nos sítios onde os quadrúpedes chegavam com o pescoço ou com as costelas.

 SEGUNDA PARTE

Andando eu na peugada dele há anos, alertado que foi para isso o atual Presidente da União de Freguesias de Mamouros, Alva e Ribolhos, José Pereira Almeida, depois de algum tempo no terreno após a sua posse como autarca, foi com grande satisfação que ele, de colaboração com os seus amigos e moradores na área administrativa que está sob a sua responsabilidade política, me transmitiu a notícia de ter descoberto o «monumento». Face a tal atitude demonstrado ficou que na sua simplicidade e humildade de  Presidente da Junta, sem passar pela Universidade, nem bancar ao título de licenciado e de doutor, mostrou sensibilidade para a investigação,  descoberta, salvaguarda, preservação e restauro do nosso património histórico material e imaterial. Gosto de trabalhar com pessoas assim e elas podem contar com a minha colaboração, ciente de que para fazer a História, em  casos destes,   me dispenso de ir à Torre do Tombo ou de meter o nariz nos Arquivos do Vaticano. Onde é que eu já disse isto e aqui o repito intencionalmente?jORNAL-2-2

Já alojei no Youtube dois vídeos sobre tão insólito caso. O primeiro, com o título «ALVA PELOURINHO» alojado em 19-06-2016, fazendo o devido enquadramento histórico-geográfico. O segundo, com o título «ALVA PELOURINHO SEGUNDA FASE», alojado em 22-11-2016, a mostrar o «resgate da peça do sítio onde, oculto e silenciado, permaneceu até agora. Já escrevi duas crónicas sobre o caso, aqui mesmo nesta minha página, sobre a  preservação do nosso património histórico, natural, construído, material e imaterial.

Aqui chegados, agora não faltar quem opine e dê palpites sobre o local onde é que ele deve ser levantado. As opiniões virão daqueles que «nada opinaram», ou tão pouco se importaram em saber onde se refugiou este «monumento nacional», mas que agora tudo sabem sobre ele. Cá por mim, desde já digo que, para lhe devolver a dignidade e o valor simbólico da JUSTIÇA e da MUNICIPALIDADE, para compensá-lo dos anos que passou prisioneiro  na escuridão de um curral, darei o meu aval ao sítio arejado e nobre que for escolhido pelo atual Executivo da JUNTA. Ele deu mostras de ter sensibilidade sobeja para valorizar o património existente na autarquia que merecidamente ganhou no ato eleitoral de 2013.

 TERCEIRA PARTE

IMG 1486 - CópiaDepois de «RESGATADO, o  desaparecido o pelourinho,  a primeiraIMG 1196 - Cópia coisa a fazer com ele foi guardá-lo numa garagem, dando tempo para se escolher o melhor e mais digno lugar para a sua ereção. Para o efeito atenderam-se aos condicionalismos que a lei impõe nos melhoramentos e requalificação de obras, num raio de 50 metros em torno dos monumentos nacionais. Havia, igualmente que proceder ao seu restauro, pois do velho pelourinho só existia o FUSTE (a coluna), sem qualquer descrição física dos degraus e do remate. À falta disso, e dado no fuste não existirem quaisquer sinais de cantaria, depois de ser elaborado o projeto pelo Arquiteto Pedro, do Municipio de Castro Daire, acompanhado  da respetiva memória descritiva, relativo ao local de ereção no espaço público, na aldeia do Souto de Alva, onde havia memória do Pelourinho ter existido, e onde foi encontrada a peça que dele restou, nas condições acima descritas, optou-se por restaurá-lo com DOIS DEGRAUS CIRCULARES na base e uma BOLA de remate no topo. Feito isso, no dia 11 de Julho de 2017, este símbolo da JUSTIÇA E MUNICIPALIDADE saiu da garagem onde foi guardado depois do resgate do curral  e voltou a ocupar, como devia, um espaço público, para regozijo da população e de todos os que respeitam as nossas raízes históricas e culturais.

Ficou ali naquela meia lua (perto da fonte)  que bem poderá vir a chamar-se , com toda a propriedade, LARGO DO PELOURINHO, largo que, de acordo o projeto feito, também inclui um monumento», em granito natural que, no ano de 2014, foi colocado provisoriamente num local próximo, aquando da  COMEMORAÇÃO DOS 500 ANOS DA CONCESSÃO DO FORAL À VILA DE ALVA POR D. MANUEL. Deslocado agora para ali, os dois, lado a lado, emprestarão ao Largo um relevante significado histórico. No monumento de granito, onde já figura um texto alusivo ao evento respetivo, será acrescentada na parte superior uma placa demonstrando as TRÊS FASES DA SAGA DO PELOURINHO, a saber: a sua estada no curral, o seu resgate e o seu retorno ao espaço público.. 

IV PARTE

jORNALÇ-2Finalmente, espaço calcetado, plantadas duas árvores, uma emRED. - Cópia cada canto do Largo e um banco de duplo assento granítico, ao centro, permitindo ao utente sentar-se, ora virado para a aldeia, ora virado para a belíssima paisagem rural que dali se desfruta,  pode dizer-se que a saga do PELOURINHO DE ALVA, com boas e más vontades pelo meio, chegou ao fim. A rematar essa saga, sobressai a colocação da tal placa, onde se resume parte da insólita história deste monumento: O «PRISIONEIRO», o «RESGATE» e a «LIBERDADE».

Placa concebida inteiramente por mim, com desenho, texto e fotos minhas, uma palavra é, porém, devida ao jovem empresário de Castro Daire, Paulo Almeida, da «Ourivesaria Almeida». Sem o equipamento que ele Alva-Placa-1 - Cópia - Cópiaadquiriu recentemente, capaz de imprimir e recortar a laser, tanto madeira, como acrílico (sobre esta sua inovadora iniciativa já realizei e alojei um vídeo no Youtube)  o meu projeto não teria a execução e os acabamentos que ostenta, inclusive os ouriços e as castanhas que rematam os cantos, numa clara e indispensável alusão ao Souto, povoação onde o PELOURINHO esteve oculto e silenciado tempo indifinido. Nesse Largo ele pode, agora, emprestar, sem dúvida,  o grande e simbólico significado Histórico que em si carrega.

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.