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segunda, 05 junho 2017 11:35

ALEGORIAS BÍBLICAS OCULTADAS DO PÚBLICO CERCA DE 250 ANOS (I)

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HISTÓRIA VIVA

 PRIMEIRA PARTE

 Na capela-mor da Igreja Matriz de Castro Daire foram postos a descoberto (temporariamente e por razões de obras de restauro e conservação do cadeiral do coro baixo) dois painéis de azulejo pombalino, escondidos que estavam atrás daquela obra de talha barroca,  que integra, ao todo, trinta cadeiras distribuídas, simetricamente, por duas fileiras de assentos, nove na fila de trás e seis na fila da frente, bem como as respetivas misericórdias. 

 

 Igreja MatrizSegundo o probo historiador Alexandre Alves (já falecido) no estudo que fez sobre esta Igreja Matriz, o cadeiral de talha barroca (que foi cosido aos painéis, ocultando-os) é obra de Timóteo Correia Monteiro, do concelho de Tarouca e custou 330.000 reis, como reza uma escritura de obrigação de 19. III. 1776, lavrada em Lamego nas notas de José Gomes de Mesquita, notário apostólico. O contrato incluía a obrigação, por parte do entalhador, de fazer ainda, dentro desse preço, as grades e a estante. (Alexandre Alves, «Castro Daire», 1986, pp. 220)  (foto-1 e 2),  cadeiral que nada tem a ver com as obras levadas a cabo nesta Igreja pelo Abade dela, João de Moura de Andrade, dadas por findas no ano de 1735, tal como se vê nas legendas feitas no lado interior das torças da porta de entrada (foto 1) e, na torça da falsa porte defronte a ela (foto 2), obras que foram feitas à sua custa no valor de 50.000 cruzados. 

 Constata-se assim que tais obras não incluíram o cadeiral do coro e, por certo,  também não os painéis de azulejos escondidos atrás dele, há cerca dois séculos e meio.  Sendo muito estranho, senão mesmo misterioso, que nenhum dos investigadores e historiadores tidos por pontífices no Sinédrio da arte sacra na Diocese de Lamego, os tenham ignorado ou jamais lhe tenham dedicado uma simples nota de rodapé nas obras de investigação que produziram. Aquela obra de azulejaria, sem registo nos livros da Fábrica da Igreja, como era hábito e obrigação fazer-se nos livros das "Arrematações", parece ter entrado no "Index" ou, então, desaparecido dos arquivos sem deixar rasto, à semelhança  do "livro dos sete selos". do Apocalipse, talvez porque alguem considerasse que «nemo poterat aprerire neque respicera illum nec videre eum». Até agora.  Porquê? 

A esta pergunta (face à  existência da obra ora descoberta) impõe-se ao historiador o esforço de tentar responder, procurando saber quando e por quem foi realizada, quem seriam as responsáveis pela encomendou e respetiva arrematação.  Se ela resultou de interesses exclusivamente paroquiais, se foi imposta pelo interesse e gosto das pessoas influentes na terra, na altura (que entretanto mudaram e com elas o sentido estético da arte e sua função social) ou se elas resultaram  de factores externos que levaram à necessidade de fazer obras na Igreja e, de caminho, embelezar o templo, introduzindo alterações e melhorias que não existiam antes.

Em primeiro lugar urge saber o nome dos responsáveis eclesiásticos que, nesse interim, (entre 1735 e 1776) tiveram nas suas mãos os destinos da paróquia. 

                 Inscrição-1 -Red

Recuemos, pois, ao Abade João de Moura de Andrade, a quem foram atribuídas as obras de ampliação dadas como findas em 1735. Com efeito ele esteve à frente dos destinos da Igreja desde 1698 até dezembro de 1734. E bem oportuna é a nota do elogio que, em 1717, lhe fez o visitador Dr. João Crisóstomo da Silva, deixando no respetivo «Livro de Visitações» a referência à generosidade do Abade a favor da Igreja, como prova a «nova feitura desde os alicerces, à qual aplicou a maior parte dos seus rendimentos, credor da glória de ser considerado um exemplo para os párocos».

E, antes de passarmos adiante, recordo, aqui e agora, que em 1731, exatamente no  tempo deste abade, segundo o cômputo que fiz dos livros guardados nos arquivos da Santa Casa da Misericórdia, aquando da investigação que levei a cabo sobre as origens e fundação dessa instituição (publicado em livro editado pela Santa Casa) pertenciam à igreja-colegiada de Castro Daire, os seguintes  eclesiásticos: Dr. João Correia de Sá, Dr. João de Moura de Andrade, Rev. António de Almeida Simões, Rev. António Rodrigues, Benef. Caetano de Almeida, Rev. Diogo Bravo Mendonça, Benef. João de Resende, Benef. José do Sul Soares e o Rev. Manuel Rodriges Pinto. (Abilio, Misericórdia, pp. 66).  Nove ao todo, tantos quantas as cadeiras que, em 1776, como veremos mais adiante, se viriam a colar a um dos lados da capela-mor. Ao todo dezoito. E ao facto não deverá ser alheio o testamento do Padre Domingos Cardoso, de Castro Daire, falecido em 1775 (um ano antes, portanto), onde deixou o desejo de ser "acompanhado por 18 padres, obrada, ofício de corpo presente, 720 missas, entre elas a da Irmandade de Castro Daire, e o nocturno no oitavário dos Santos, feitos pelos párocos do costume" (Costa, 1992, VI, :122-123). Adiante.

                         Inscrição-2 -Redz

Sucedeu-lhe o Abade Manuel do Soveral de Figueiredo, apresentado a 3 de setembro de 1735. A este Abade se devem seguramente as legendas de preciosa informação histórica deixadas nas torças das portas e a pio apelo dos crentes para rezarem  um «PADRE NOSSO, AVE MARIA» pela alma do obreiro e diligente abade falecido. Ele teve como auxiliar o cura Martins de Figueiredo, cuja última referência à sua pessoa é de abril de 1757. Seguiu-se o P. Dr. João Carneiro de Sá (...) que faleceu em 1783. Ficou a presidir a Igreja, a partir de 1776, o encomendado Rodrigo Cardoso de Albuquerque. Em novembro de 1783 tomou posse o Abade João Abreu da Cunha Osório, onde se manteve até 1784. O mesmo aconteceu, em 6 de julho de 1784, com o P. António Cardoso da Fonseca, que foi colado no dia 4 de setembro do mesmo ano. Era natural de Armamar e ainda paroquiava em 1816. (M. Gonçalves da Costa, «História da Cidade e Bispado de Lamego», Vol. VI, 1992, pp, 501-502)

Conhecidos os eclesiásticos responsáveis pelos destinos da Paróquia em todo este tempo, convém direcionar agora a nossa atenção para as obras de monta que nesta Igreja foram feitas, depois do Abade João de Moura, a fim de tentarmos responde à intrigante pergunta: quando é que os painéis de azulejos agora ressuscitados dos mortos,  assentaram arraias nas paredes laterais desta capela-mor, sem nunca deles se escrever uma palavra? 

 É ainda Manuel Goçalves da Costa que vem em meu socorro. E se, humanamente, não me fica mal uma referência de caráter pessoal, devo dizer que privei, algumas vezes, com este GRANDE SENHOR. E lembro-me muito bem de, pessoalmente, ele me dizer,  insistentemente, que «não era historiador», mas «sim investigador» preocupado exclusivamente em  colocar o produto da sua investigação nas «mãos dos historiadores»Eles, depois,  que trabalhassem, como deviam, a matéria por si deixada.  É o que estou a fazer, rendendo-me à  sua memória e dando prova de quanto lhe sou devedor e de quanto lhe estou agradecido. Homem de baixa estatura, sempre afável e simples, vestuário humilde a condizer com a sua pessoa, o seu hábito comum tanto se prestava à dignidade de poder entrar num templo com respeito, ajoelhar em oração, ou entrar num arquivo de manuscritos e encher-se do pó e do saber neles contido.

 É isso. A ele devo muito do pouco que sei sobre as nossas gentes e instituições. A ele devo  a informação de que o "mestre "pedreiro José Gonçalves Pegas, natural de Valença do Minho, trabalhava no Hospital de Viseu, em 1759 1760, «quando ajustou a obra da igreja de Castro Daire», tal como diz no volume IV da sua obra, (1986, pp. 326), assunto que retomou mais desenvolvidamente no volume VI, páginas 501-502, a saber:

No dia 9 de setembro, nesta vila, em casa do Beneficiado José do Sul Soares, estando presente o Tabelião  Manuel Monteiro de Leão, José Gonçalves Pegas declarou ter ajustado com os mordomos da Confraria do Santíssimo a concluir  a obra de que precisava a igreja, até novembro de 1760 pelo preço de 1.100$000, dando-se-lhe mais três milheiros de tijolo e toda a cal da obra nova, feita na casa da fábrica e despacho e a madeira dos «azimbres». Os mordomos eram o P. Francisco Teixeira Machado, filho de José Teixeira Pimentel Rebelo, sargento-mor deste «distrito», cavaleiro professo da Ordem de Cristo e Joaquim José, filho do dr. João Ferreira Ribeiro de Lemos, fidalgo da Casa de Sua Majestade. 

 Mais. A 15 de outubro de 1760, continua Gonçalves da Costa,  o mesmo mestre compareceu nas moradas  do Rev. Dr. João Baptista de Sousa e, na presença do Tabelião Manuel de Resende, declarou estar contratado com esse eclesiástico de mudar a obra da abóbada «que na outra escritura ficou se fizesse de tijolo e agora se muda  ara estuque, conforme os apontamentos assinados» por ele  e pelo mestre João Correia Monteiro, sem alterar o preço do primeiro contrato. Nesse primeiro tirava-se a obrigação de fazer os arcos de tijolo por cima dos arcos de pedra e também a fazer as aduelas de maior altura do que se achavam os arcos, exceto o fecho, que seguiria os apontamentos.

CADEIRAL-REDZE mais.  Em 19 de março de 1776, na morada do tabelião  e notário apostólico José Gomes de Mesquita, o escultor Timóteo (já referido acima)  «ajustou a obra das cadeiras do coro, grades e estante da Igreja-colegiada de Castro Daire em preço de 300$000, com a condição de fazer a escritura de obrigação e fianças seguras» (M. Gonçalves da  Costa, vol VI, 1992, pp.506-507)

De posse de toda esta informação, nomes de pessoas e obras realizadas entre 1735 e 1776, constatamos que não existe qualquer referência aos painéis de azulejos que o cadeiral veio a ocultar, sendo pois presumível que eles ali fossem postos depois de 1755 e antes de 1776, exibindo, no curto espaço de 21 anos, as significativas e simbólicas alegorias bíblicas, de Mateus.

E a falta dessa referência talvez possa associar-se à atitude que tomou o padre Encomendado Patrício Costa Peixoto,  em 1758, que, solicitado a responder ao Inquérito mandado fazer em todo o Reino, D. José I, cujo braço político era o Marquês de Pombal, de seu nome Sebastião José de Carvalho e Melo, resolveu, pura e simplesmente, por ignorância, gosto ou feitio, subtrair informações preciosas e almejadas por todo o historiador que, de olhos postos no passado, procura compreender o presente e, através do conhecimento e saber, contribuir para um melhor futuro da Humanidade. 

Ele, numa assentada só, respondeu ao lote de perguntas que vão da 22 à 27 inclusive, dizendo somente: «do número vinte e dois até vinte e sete inclusive, não há que responder»

Ora acontece que no universo dos itens a que não respondeu estava o item 25, aquele que visava apurar sobre os efeitos do terramoto de 1755 nas freguesias. E bem assim o item 26 que visava apurar se nas freguesias havia «muralhas, praça de armas, castelos, torres ou coisa digna de memória». Duas perguntas incómodas, certamente (vá lá saber-se porquê) cujas respostas, de forma expedita e no meio de outras,  ele descartou num ai. 

Tratei deste assunto há anos, em artigo publicado no jornal «Notícias de Castro Daire» e no meu site «trilhos serranos», onde estranhei o facto do pároco nada ter dito sobre os efeitos do terramoto na Paróquia,  sabendo nós que, ali mesmo ao lado da Igreja, permaneceu até à atualidade,  uma casa com a data de 1756 na torça de uma janela e que a Igreja Matriz, em  1759 1760, andava em obras, às quais, presuntivamente,  não seriam alheios os efeitos do terramoto que, notoriamente,  se fez sentir em Gosende, Ester e Mões, tal como deixaram registado os seus párocos, terras que, unidas por uma linha, as três formam os vértices de um triângulo geográfico onde cabe Castro Daire.

Seja como for, desse tempo ou não, é hoje visível uma fissura que, descendo do topo do arco cruzeiro, rasga uma parte do pano lateral direito em direção ao solo, no qual se vê, do mesmo lado, uma laje partida, cujo dano só pode dever-se a força maior, depois do seu assentamento.

E certo é também que, em 1776, 21 anos decorridos após o terramoto, 1755,  o cadeiral do coro fixado nos panos laterais interiores da capela-mor,  ocultou até ao ano de 2017, os belos painéis de azulejos onde figuram as duas significativas e simbólicas alegorias bíblicas, de Mateus.

 a) PAINEL LATERAL ESQUERDO

 1- Painel Esquerdo

Passado que seja o arco cruzeiro, virados para o altar-mor, o painel de azulejos do lado esquerdo (com 4,16 m de comprimento e 2,17 de largura, danificados que foram os frisos envolventes ornados com folhas de acanto  e algumas partes interiores, por força da fixação do cadeiral à parede (foto 3), alude ao episódio bíblico referido por Mateus: "Eu darei a ti as chaves do Reino dos céus; o que ligares na terra haverá sido ligado nos céus, e o que desligares na terra, haverá sido desligado nos céus”. ( Mateus, 16:19)

Painel visivelmente danificado por força da fixação do cadeiral na parede, perderam-se em grande parte os frisos do seu enquadramento e também partes significativas da alegoria ali representada, muito embora tais danos não tenham inviabilizado a sua leitura. Voltarei a ele na segunda parte destas minhas reflexões sobre o tesouro agora posto aos olhos do mundo.

 b) PAINEL DO LADO DIREITO 

    No painel do lado direito (com 6 metros de comprimento e 2,50 de largura (igualmente danificado no pano interior e nos frisos de enquadramento, artisticamente decorados  com folhas de acanto,  em consequência da fixação do cadeiral) temos outra alegoria bíblica. Aquela em que, num tempo e hora de invernia, Jesus apareceu aos discípulos nos mares da Galileia a "andar sobre as águas" em direção ao seu barco. Face ao que viram, surpreendidos, os discípulos tomam o Mestre por um fantasma e ficaram aterrorizados. Mas Jesus disse-lhes quem era.  Que não temessem.  

       

Painel Direito

 

Porém, Pedro, desconfiado, para ter a certeza de que assim era,  pediu-lhe que o fizesse caminhar também sobre as águas, semelhantemente a ele. Que sim, senhor. Podia ser. Pedro saiu do barco e passos andados, face a uma inesperada ventania, perdeu a confiança, assustou-se, perdeu o pé e começou a afundar-se. Vendo-se em «palpos de aranha» pediu a Jesus que o salvasse. Este prestou-lhe a ajuda, mas disse-lhe: «homem de pouca fé, porque duvidaste?», (Mateus, 14:26-33), repetindo o que já dissera uns dias antes aos demais, quando, na sua companhia,  se encontrava a dormir numa barca e eles o acordaram repentinamente receosos de perecerem por força de uma outra tempestade. (Mateus, 8:26). Pedro dava, efetivamente, mostras de ser um «homem de pouca fé».

Barco-4 -REDZOlhando o painel no seu todo, vemos do lado esquerdo um barco de pescadores. E bem notório é um dos remadores do lado direito ser muito jovem. Eventualmente os discípulo mais novo do grupo. Ele tem mais a aparência de criança do que de pescador afeito ao mar e às suas diabruras.  E jovem é também a figura colocada na proa do barco, ali, naquele lugar de destaque, cimeiro, mão direita agarrada à vela e braço esquerdo estendido em direcção de Jesus e Pedro.  Figura visivelmente parecida com aquela que, no primeiro painel, abraça Jesus pelas costas puxando-o para si, ao mesmo tempo que o olha com ternura e lhe segreda algo ao ouvido. Voltarei ao assunto mais adiante.

No centro do painel, eis o motivo principal da alegoria para onde aponta o braço da figura posta na proa do barco. Mas, em verdade vos digo que  a imagem de Jesus que Barco -3 REDZchegou até nós neste painel, mesmo que danificada, mostra bem que Jesus não está a «estender a mão a Pedro para salvá-lo»  como diz  Mateus. Aqui, enquanto Pedro esbraceja aflito com as ondas bravias, Jesus, o Salvador, de pé sobre elas,  sereno, à frente de Pedro, braço esquerdo caído junto ao corpo, mão espalmada sobre o manto, o braço direito levantado em ângulo, mão semi-fechada, dedo indicador virado ao céu, parece dizer-lhe: «não tens emenda, Pedro, ao mais pequeno sopro de vento, a tua fé se esvai. Confia no meu Pai, através de mim!"

Retomarei esta minha interpretação mais desenvolvidamente na «II PARTE» deste trabalho, pois aqui pode estar uma das razões que levou esta alegoria e a sua parceira no templo, a eclipsarem-se dos arquivos, primeiro, e, depois, atrás do cadeiral feito em 1776.  

Por agora direi que Jesus salvou Pedro do afogamento. E o verbo "salvar" traz-me do distante mar Galileia até estas serras, longe do mar, até à «aldeola do crasto»,  onde, segundo o historiador jesuíta Manuel Gonçalves da Costa, se teriam instalado, «em, tempos pré-nacionais, núcleos cristãos à volta de uma ermida ereta em honra de Salvador", mas que depois «São Pedro viria a impor-se como centro paroquial visigótico»  (Gonçalves da Costa, 1979).

Dito isto, feita a descrição sumária e canónica destes dois tesouros, impõe especular sobre  as razões que terão levado os responsáveis pela Fábrica da Igreja Matriz de Castro Daire a remeter para as catacumbas do templo e do  tempo, cerca de 250 anos, os dois painéis onde estavam representadas tão significativas e esclarecedoras alegorias bíblicas. O que terá levado tais responsáveis a virar as costas a Mateus, ocultando as imagens das Sagradas Letras com o cadeiral que sobre elas coseram? 

Na "II PARTE" deste trabalho, intentarei algumas explicações e respostas, seguro de não obter a concordância dos «investigadores que, envolvidos num dogma religioso, racial, político ou de classes sociais, estão inabilitados pela Natureza para verem a verdade, ainda que diplomados por cem universidades» (Loução, 2000:89). Esses não concordarão comigo, tal como não concordaram quando abordei o significado das esculturas e siglas presentes na Ermida do Paiva, cuja interpretação e explicação deixadas no meu livro "Mosteiro da Ermida", só vieram a encontrar respaldo oito anos depois, num documentário televisivo e credenciado CANAL HISTÓRIA (e em vários trabalhos feitos em vídeo, disponíveis no Youtube) sobre as igrejas românicas da Cantábria. Mas jamais na opinião desses tais. Pouco importa. Como direi a seu tempo faço este registo com a certeza de que os factos que nele reporto e as interpretações que deles faço, não só são da minha inteira responsabilidade, mas também têm por garantia exclusiva a minha formação em história e a minha consciência liberta de todos os ensinamentos catequéticos e livre de quaiquer obediências, doutrinas e ritos institucionalizados. 

De cor branca e azul-cobalto, vidrados, os azulejos do painel da «entrega das chaves» têm a cor mais carregada que o outro do lado oposto. Tirante isso, tudo indica que a obra foi feita na mesma oficina, em Lisboa, com desenho do mesmo autor. A cabeça de Jesus que figura nos dois painéis sugere ter saído do mesmo molde: em ambos os casos ela está inclinada na mesmíssima posição e só difere em pequenos detalhes, como nos olhos. Numa delas aparece o branco do globo ocular e na outra não. Pormenor que deixo para os especialista na matéria que, por certo, não deixarão de espiolhar a pente fino estas duas e demais cabeças existentes nos painéis ora descobertos.

 





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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.