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domingo, 02 abril 2017 17:20

BAIRRO DO CASTELO - FORNO ANTIGO

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HISTÓRIA VIVA

Em 2007, vejam lá há quantos anos (?) escrevi uma série de crónicas relativas à nossa INDÚSTRIA VILÃ  e nela entrava o fabrico do PAÕ. Ora, parecendo-me que o atual EXECUTIVO MUNICIPAL, no momento em que pensa «REQUALIFICAR/REABILITAR o BAIRRO DO CASTELO, precisa que lhe lembrem quais os «produtos culturais turísticos, ligados ao nosso PATRIMÓNIO HISTÓRICO EDIFICADO» aqueles que não podem ser delapidados, tal como se pensava fazer na ESCOLA CONDE FERREIRA, e bem assim os acessos pedonais que deixei em vídeos alojados no YOUTUBE  no ano 2012 (CANDEIA QUE VAI À FRENTE ALUMIA DUAS VEZES) aqui deixo, PRO BONO, o texto que publiquei no meu velho site, nesse mesmo ano. Esta foi, como se  vê, a crónica nº DOIS.

CASTRO DAIRE - O PÃO - 2

Na vila de Castro Daire, perto da igreja Matriz, na Travessa do Forno, fica exactamente o mais conhecido forno da vila: «o forno da Dona Maria do Céu». Construído em 1933, data desse ano o alvará passado em nome de João Frias Oliva, com a designação de «forno de padaria, só cozedura».

 

forno-1Em 8 de Novembro de 1954 foi averbado no mesmo alvará o nome do novo proprietário, Carlos Emílio de Mendonça Oliva, como herdeiro que foi do seu antecessor proprietário. E nesse nome se manteve até ao ano de 1967 quando foi transferido para Maximiano Ramos que o há-de transmitir aos seus herdeiros.

 A chaminé de tijolo que hoje sobressai acima do telhado não é a de origem. Ela foi construída em 1964, depois de iniciada a papelada de transferência de propriedade que se deu em 1967.

Nas três imposições estipuladas no Alvará de 1933 lê-se o seguinte:

1-     Construir uma cúpula de chapa de ferro que conduza o fumo para a chaminé.

2-     O depósito de lenha ficará em local especial afastado do forno.

3-     Possuir água e areia em quantidade suficientes para serem usadas em caso de incêndio.

Sabido isto, direi que, neste meu cuidado de historiar o passado forno-2próximo e longínquo de Castro Daire, contactei o seu herdeiro Leonel Ramos, da Farmácia Moderna, que, por sua vez, inteirado dos meus propósitos, contactou o irmão José Manuel Ramos, o qual, com a gentileza, prontidão e amabilidade que o caracterizavam e distinguiam como dirigente bancário que foi nesta vila, rapidamente se prestou a fornecer-me a documentação e os esclarecimentos complementares necessários ao seu historial.

Adquirido por Maximiano Ramos, este e a sua esposa, Dona Maria do Céu, decidiram ganhar a vida acordados, enquanto a generalidade os vilãos dormiam. É a sorte de quem se dedica a fazer o pão para os outros comerem. Ele era o forneiro,  ela a que tratava das farinhas e temperos. Ela mais comunicativa que o marido, quem é que se não lembra da D. Maria do Céu, do «pão da Maria do Céu»? A sua simpatia e a fama da qualidade do pão que fabricavam chegavam longe. Forasteiro que o provasse, todas as vezes que passasse por Castro Daire, ia comprar e saborear o «pão da Maria do Céu».

Numa primeira fase e sob a gerência deste casal no seu forno cozia-se também o pão do Bairro do Castelo. Amassado, fermentado e tendido nas casas particulares era levado em tabuleiros ao forno para cozer. A «poia», isto é, a maquia que ali deixava cada cliente, era o pagamento.

 forno-3A evolução veio a acabar com essa modalidade e troca de serviços. Mas, por alturas da Páscoa, era ver chegar as doceiras, a D. Violeta, a D. Maria do José da Laura, a D. Palimira, a D. Aurora e outras mais que ali chegavam com a massa pronta a entrar no forno e a sair dali sair cozida para os consumidores. Era o bolo-podre, a fogaça e o pão-de-ló. E a broa triga-milha, essa mistura de trigo e milho, faz lembrar o pão meado de centeio e milho que, já no século XIII, os naturais da serra pagavam de foro ao rei. Mistura onde o trigo destronou o centeio.

O forno era uma escola. Era, simultaneamente, um local de trabalho, de convívio e de passatempo. Pois então na altura, todos gostavam do calor físico e humano que naquele espaço usufruíam. E onde é que os polícias de giro iam passar parte da noite e matar as manhãs frias de Inverno, senão no forno, junto da D. Maria do Céu, que nunca lhes faltou com a simpatia, boa disposição e um pãozinho quente com manteiga?

Depois da Dona Maria do Céu deixar a profissão que sempre exerceu com zelo e simpatia, a responsabilidade passou, por aluguer do forno, para António José da Silva Almeida, mas, com a sua morte prematura, ainda que continuasse a laborar por algum tempo, o seu fim estava anunciado. Fechou as portas nos finais de Outubro de 2006. O «pão da Maria do Céu» passou à história e à memória., Já não é em todas as bocas que as papilas gustativas têm presente e transmitem ao cérebro o seu sabor.

forno-4Situado na parte antiga da vila que se vê cair aos bocados em cada canto, pergunto-me quando é que a «Senhora Cãmbra» trava tudo isto e se preocupa em transmitir aos vindouros um pouco do nosso património urbano habitacional, comercial e industrial. Um pouco da nossa história, dos nossos valores identitários neste confuso mundo da globalização, sem odores, nem sabores?

ABÍLIO/2007

Nota postumaNo dia 02 de Novembro de 2008, a D. Maria do Céu foi a enterrar. Muita gente assistiu ao seu enterro e muitos dos que ali estavam não era para serem vistos pelos familiares e amigos. Estavam lá, isso sim, lembrados e agradecidos do «pão sobejo» que ela lhes dava depois de cada fornada, mitigando-lhes a fome. A sua benfeitora de tempos idos, chegou ao fim dos seus dias, mas o reconhecimento do bem que ela fez prolomgou-se para aquém da sua vida.

MAIS PALAVRAS PARA QUÊ?

ADENDA: PROCEDI À MIGRAÇÃO DESTE TEXTO, IPSIS VERBIS, DO MEU VELHO SITE PARA O NOVO E ATUAL, SOMENTE POR CERTAS COISAS QUE SE PASSAM NA NOSSA TERRA...A BEM DIZER O SILÊNCIO QUE RIBOMBA QUE NEM TROVÃO...

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.