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segunda, 21 novembro 2016 14:26

CASTRO DAIRE-REPÚBLICA/MAÇONARIA versus DITADURA

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OPOSIÇÃO À DITADURA

No texto que escrevi com o título «AMOR EM TEMPO DE GUERRA» cujo protagonista foi Aurélio Alexandre Pinto, um militar integrado no «CORPO EXPEDICIONÁRIO DE MOÇAMBIQUE» na última «GRANDE GUERRA» disse que ele pertencia a uma família grada de Castro Daire. Grada e politicamente envolvida na vida pública, antes e depois do 25 de Abril de 1974. 

 

Depois de regressar ao meu concelho de origem, vindo do Alentejo, tive o prazer e o benefício de conviver com Júlio Alexandre Pinto, outro membro dessa família. À sua pessoa me referi demoradamente no meu livro «Castro Daire, Os Nossos Bombeiros, a  Nossa Música», cabendo hoje referir-me ao irmão mais velho, António Alexandre Pinto (maçon) aquele  Antoninho  a que o Aurélio se refere numa das suas cartas.

Envelope-Destinatário - CópiaE porquê falar dele se o não conheci? Pois. Mas esse é o destino do historiador, escrever e falar, o mais das vezes, sobre pessoas que não conheceu e factos que não vivenciou. Neste caso não é simplesmente pelo facto de sobre ele recaírem os mais elevados encómios  proferidos por todos os castrenses que com ele lidaram em Lisboa e dele receberam sempre a disponibilidade para os ajudar naquilo que precisassem. Testemunho lavrado numa das lápides postas na sua campa rasa no cemitério de Castro Daire. Não é só por isso, não, mas também por sabê-lo a lavrar, dentro das suas possibilidades, contra a DITADURA, em 1930, como resulta, não só do que me disse o irmão Júlio, mas da leitura da carta que lhe foi remetida por um amigo em resposta a outra que ele lhe escreveu, convidando-o a integrar o TRIÂNGULO LOCAL.

António Alexandre Pinto, então escrivão a exercer funções no Tribunal de Cinfães, não quis perder a oportunidade de incluir nas lides políticas castrenses um militar «maçon» que presumo estar desterrado temporariamente em Castro Daire, já que aqui vieram parar outros militares discordantes do regime. Eis, pois, a resposta. Tire cada o leitor as suas conclusões:Primeira página - Cópia

 «Castro  Daire                       

Meu Caro amigo

 24-1º

930

 (...)

Dos que sofrem está provado para mim, ninguém se importa. O sacrifício dos demais, quando sentimos certo bem-estar, não conta; para nós é  ninharia, coisa sem valor, em quem não vale pensar. Ralé é o lema de muitos e não há que movê-los disso. O mal dos outros não lhes faz mossa, nem mau cabelo. Sentem-se bem ainda com o mesmo desafogo e, por isso, dizem para consigo «tolo é quem se mete nelas». Regime para eles, entendem-no somente como bolo. De qualquer dos lados, pode ser comido. Vontade de rilhar não lhes  falta; daí, então, o comer de qualquer feitio ou maneira. Nanja que desprezem qualquer migalha,

Convém a muita gente este «status-quo» mas não querem porque sabem que baqueariam, que amorteça o calor dos outros e, por isso, cinicamente e venerosamente vão-no alimentando, mas não que se queimem. Sabe! Meu amigo! Infelizmente é ponto assente para mim os que estão a comer riem-se para nós e de nós. Quando connosco tratam são todos sorrisos e prometimentos, porventura fora do nosso convívio e trato, chamam-nos tolos e dizem baixinho «não caiu». Doutra forma tombado tinha esta «merda». De verdade com mágoa devemos  confessar – nada tem havido, constata-se.

De jure somente a boa vontade de alguém se reconhece. Cantigas, apenas se hão espalhado; larachas nos têm vindo apregoando. Não mais! De resto hoje tenho a convicção já feita «isto vai cair de podre e quando cair. O tempo é que nos fornecerá balsamo, e só o tempo nos dará remédio porque muitos não lhes agrada que isto tombe como se impõe e, portanto, vão vigarizando com prometimentos os organizadores, os bem intencionados que andam fugidos. Mas deixemo-los em paz. Ao menos fiquemos com a consciência lavada de que não somos os culpados do estado em que se encontram as «coisas» e coração ao largo esperançados em que o futuro, o tempo o mostrará.

Cada vez, meu amigo tenho mais verdadeira esta asserção posta na boca pelos historiadores da antiguidade do general grego, grande homem de guerra e grande político, Agilao [ou será Agesilau?] «as crianças enganam-se com brinquedos e os homens com prometimentos». Dentro deste axioma, meu caro, nos meteram. Promessas, cantatas, intriguices. De facto verdadeiro somente a essência o princípio que usam. Eis o resumo «bem resumido» do que nos têm impingido. E  quando um, como o nosso amigo Rodrigues, é franco e sincero, se há quem como ele apeira os dados que lhe fornecem de fugida e à solta; se pesa e coiva os informes espaventosos que lhe desejam impingir, meu amigo, chamam-lhe nomes; desacredita-se, estabelece-se envolta dele uma desconfiança demasiada, classificam-no de inconfidente, tarado, etc. e do mais que lhes lembra, só porque não come, não mastiga e ingere qualquer papa, qualquer tisana que lhe dão.

Assim iremos caminhando enquanto «a Deus» for servido que assim suceda. Os latinos, os romanos diziam «audactas fortuna juvat» [ou será «audaces fortuna juvat»?] a audácia favorece a fortuna, isto é, a fortuna lucra com a audácia e Danton clamava nos Girondinos, audácia! audácia e só audácia!, mas nós ao contrário, dizemos o «saber esperar é uma virtude», portanto, meu caro, optemos por este provérbio e, então, esperemos e  esperemos bem para, com essa  virtude, ganharmos o céu que, se outro não for, será  o dos pardais, que o mais certo é.

Agradeço-lhe, meu amigo, a sua lembrança (da minha pessoa) para membro do triângulo local. (...) Eu não sou da terra; antes um estranho, uma ave de arribação que aqui poisou, como poderia, dentro deste princípio, fazer parte desse triângulo? Não, meu amigo, os elementos que o formam devem ser de cá. Quais? Não sei. Nem mesmo se me dá que sejam estes ou aqueles. Agora, nisso, alheio-me. Recolham os senhores, os nativos; e não demorem.

Como sabe não desejo amanhã aqui, nem em parte alguma, desempenhar missões políticas. O meu posto está definido e a solução, quanto a mim, é fácil achar-se. Portanto, digo, tal qual como agora os tubarões «nessa não caio»;  mesmo é convicção minha, dado que voltamos aos tempos idos, afirmo-lhe,  eu me encarregarei de facilitar-lhes o encontro do X da minha equação, reformando-me ou quando menos, passando ao quadro da arena, situação onde não incomodo nem sou incomodado.

Repito, meu caro, não aspiro a político de modus vivendi; menos quero ser regedor aqui e menos ainda anseio votos para ser eleito, por isso, voltarei aquele meu ram-ram de outrora, embora mesmo um ram-ram, conservando  a mesma autoridade moral para falar alto, no tom natural da minha voz, àqueles – a qualquer – homem de amanhã, tenham eles o credo que tiverem e seja qual for o seu sacrifício.  Penso nenhum deles deixará de me ouvir dado que precise ou entenda falar-lhe. Mas, voltando à questão, o meu amigo julgava-me capaz de tal desempenho? Mais uma vês reconhecido, contudo eu conheço-me plenamente e, posto isto, dei um tacanho para uma missão como, por outras qualidades de mim privativas e natas comigo, avalio que estaria deslocado ali. A César, pois o que de César é, e tão só isso. Não queiramos proporcionar  a César o que pertence a Deus, ao «Omnipotente», pois que de tal batalha de dádivas poderia surgir alguma luz ou, então, o «Omnipotente» cônscio somente de que «Deus super omnia» norteado só por esta dívida, poderia ambicionar a ferrolhar tudo e César (pobre César) também seria – como diz o engavetado e César nunca quis, nem quero ser escravo.

Última página - CópiaNeste pé, como César, caro António, também desejo ser livre e sem peias; aqui, ou em qualquer localidade.  Vaidade de «mando» só a quero alimentar quando comande tropas, se um dia voltar a comandar. Não mais! Porque essas, sei que comando de verdade e vejo ainda que – até hoje, posso-o dizer com certo orgulho, modéstia à parte, todos irão a eito, a granel, as levam mais além ou melhor as tem levado.

Todavia, no entanto, não quero dizer, meu amigo, que abandone tudo e todos, amanhã, para juntar o meu brado, sendo preciso aos de 3 ou 4 amigos – tantos são que aqui possuo e tenho como tal, estarei sempre pronto e disposto, mas para eu mesmo bradar com eles, não importa que esteja aqui ou além, como não  conta que toque ou não na terra, no «Crasto» qualquer realejo, melhor sendo até que não me filie na charanga da localidade.

Não acha? Estou certo que concorda comigo. Não voltemos, portanto, a ventilar tal facto e vamos ao resto ao mais que pretendo dizer-lhe. Tenciono ir para o Porto no dia 28, terça-feira, demorando ali, talvez, até ao dia um de Fevereiro, dado que haja animação para o «31» e não havendo, então regressarei neste dia mesmo 30. Se alguma coisa quiser de lá escreva para a rua Dr. Sousa Viterbo, nº 105 – 3º. Mande no que lhe aprouver. Aproveito a ocasião para falar com o nosso amigo Cesário Bonito a quem ainda não respondi, «fiel sempre à preguiça».

Lá vou também ver os nossos irmãos e com eles falar largamente. Porque não vai presenciar os festejos?

E por hoje, meu caro António, remato.

Também já chega de massada que lhe dou.

Um abraço do seu ir. (seguido de três pontos em triângulo)

Mtº amgº ctº e Leal»

 Artur Pinto (?) 

(último apelido ilegível, seguido três pontos em triângulo)

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.