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sábado, 19 novembro 2016 14:19

AMOR EM TEMPO DE GUERRA

Escrito por 

OS ARES DO ÍNDICO

Natural de Castro Daire, Aurélio Alexandre Pinto integrou o «CORPO EXPEDICIONÁRIO» que, na "«SEGUNDA GRANDE GUERRA" embarcou para Moçambique. Esteve em Lourenço Marques e dali navegou para  «NOVA GOA, ÍNDIA PORTUGUESA»,  terras donde escreveu assiduamente para a família. São cartas dirigidas  à sua  MADRINHA e também sua MÃE, com a datas de  1940 a 1946

 

Estas cartas chegaram até mim integradas num daqueles espólios que os familiares das destinatárias, sabendo-me ligado à investigação da  HISTÓRIA LOCAL me legaram, esperançados que o seu conteúdo (em vez de ir para o lixo)  pudesse ser útil ao meu trabalho e, consequentemente, contribuir para o melhor conhecimento de uma época que mobilizou recursos materiais e humanos para a contenda designada «SEGUNDA GRANDE GUERRA», acontecimento histórico que ficará, para sempre, a manchar as páginas da humanidade, nomeadamente nos aspetos que, em nome de uma superioridade rácica, se procedeu a deportações em massa e ao extermínio de milhões de seres humanos em fornos crematórios.

Por assim ser, e porque neste princípio do século XXI, os ventos  racistas continuam a soprar fortes na superfície arredondada do planeta, a ponto de ser necessário que futebolistas e demais individualidades de notoriedade pública, usarem a televisão para bradarem slogans anti-rácicos,   é que me mereceram atenção algumas destas cartas já que, paradoxalmente, enquanto na Europa troavam os canhões de  GUERRA, enquanto assobiavam as balas tracejando os ares e labaredas crematórias torrificavam judeus,  lá para os lados do Índico, nos peitos de um militar branco, natural de Castro Daire, e de uma menina indiana de cor se acendiam as labaredas do AMOR, ambos enfrentado os preconceitos  rácicos vigentes nas suas famílias e na sociedade em geral. Não foi seguramente caso único, nem esqueci a política de Afonso de Albuquerque nos princípios do Império, promovendo o casamento de soldados portugueses com mulheres indianas. Não. Não esqueci nada disso. Mas o caso que trago à colação tem toda a razão de ser nos tempos que correm e por isso o faço.

Guardadas nos meus arquivos há um bom par de anos, só agora decidi publicar o conteúdo escrito pelo punho de um dos protagonistas que reflete não apenas o seu o drama pessoal, mas também espelha o tipo de relações familiares, a mentalidade da época e a obediência sagrada dos filhos aos pais, em Portugal e na Índia, nomeadamente no que dizia respeito à escolha do parceiro ou parceira para casamento, agravado quando cada um deles pertencia a raça e cultura diferentes.

Aurélio A.Pinto. rEDZO rapaz, um autêntico herói pela atitude arrojada que tomou, sobrepondo os afetos às contrariedades rácicas e sociais de todos os tempos e de todos os lugares, pertencia a uma das famílias gradas de Castro Daire. A Família «ALEXANDRE PINTO». Os seus restos mortais jazem no cemitério  local, em campa rasa, em cuja lápide se vê a sua fotografia vestido com a garbosa farda que usou em vida. 

Embarcado para Moçambique, em 22-9-1940  já está em Lourenço Marques, pois é nesse dia, mês e ano que dirige uma carta à  MADRINHA,  residente em Castro Daire. O envelope, de cor azul, apresenta nas margens direita e esquerda um autocolante com a legenda em letras maiúsculas: «OPENED BY, EXAMINER 4510».  

Nela diz que, mal chegou a Lourenço Marques, escreveu «de avião» à MADRINHA «no primeiro barco» fez a mesma coisa, para ela e para irmão. Que era natural que as cartas se tivessem perdido. Nas cartas que lhe chegavam congratulava-se com «melhoras do pai» e estava esperançado que ela recebesse «os meses em atraso (da pensão) porque me têm sido descontados, contudo, se os não tiver recebido deve avisar-me para eu resolver o assunto».

 E em 4-8-942, escreve de «Nova Goa» (Índia Portuguesa) e diz que não comunicara a partida a ninguém para que «não entrassem em cuidados».  Toma conhecimento do casamento do irmão mais velho e, sabendo da carestia das coisas, devido à guerra, que não tivessem «receio de gastar a mensalidade», desde que a mercadoria aparecessePor lá as coisas «ainda se vão comprando menos mal  (...) nem por isso se tem notado os efeitos da guerra». E precavido diz que acaba de escrever para várias pessoas ao mesmo tempo na esperança de algumas cartas chegassem ao destino.

Mas a carta, cujo conteúdo nos interessa aqui e agora, atendendo ao contexto de guerra travada entre países  e, simultaneamente, entre corações apaixonados é a que ele escreve à «querida mãe», com data de 30-10-45 remetida de Lourenço Marques. Assim:  

 Aurélio-1 -2- Redz«Ultimamente relacionei-me com uma menina de grandes virtudes, com a qual resolvi contrair matrimónio. Não é europeia, mas filha de umas das melhores famílias da Índia. Vivia na Ilha de Moçambique com um seu irmão, que está presentemente de visita a Portugal e, em virtude da ausência do irmão ficou em L. Marques em casa de uns tios com quem eu mantinha relações. A princípio as nossas  relações começaram muito em segredo, pois os indianos não simpatizam muito com os europeus, principalmente no que diz respeito a casamentos. 

Ontem fui almoçar com essa família e (...) quando falei no assunto ficaram abismados, mas perante a atitude da menina, nada recusaram dizendo-me: nós nada podemos resolver, porque ela ficou em nossa casa enquanto o irmão se encontra em Portugal. Portanto vamos escrever para a Índia à Mãe e para Lisboa ao irmão e depois das suas respostas é que poderemos resolver este assunto. Conhecemos muito bem as qualidades do senhor, mas desejaríamos também ter informação da sua família, o que nos será fácil por termos o nosso sobrinho em Portugal. Não hesitei e imediatamente lhe dei o nome da Mãe, Madrinha e Antoninho.

Sei que as outras já seguiram ao seu destino e particularmente a menina escreveu também a sua Mãe, dizendo-lhe que se não desse consentimento lhe desobedeceria pela primeira vez. Por parte da família da menina, julgo para mim, que o assunto está resolvido = autorizado =  Agora desejava saber se a minha querida Mãe dava consentimento para que eu desse tal passo. Depois de receber carta da Mãe enviarei fotografias para ver a máscara da sua  futura filha. Já conheço a menina há muito tempo e portanto conheço muito bem as suas qualidades».

Depois disso foi colocado no «Alvor», terras de Manhiça,e  no dia 2 de Fevereiro de 1946, dirigindo-se à Madrinha e explica, como chegou a essa paixão e aos seus propósitos:

Aurélio-3 - rEDZ«Na Índia eu frequentava, como visita, e mais tarde como amigo, a casa de um nosso conterrâneo que tinha duas meninas que eram dois verdadeiros amores. Enamorei-me da mais velha, rapariga educada, instruída e, acima de tudo, muito bonita. A família não gostou muito e disseram-me para desistir o que eu não fiz a pedido da rapariga e porque eu, para falar a verdade, gostava muito dela. Passados alguns meses morre o nosso conterrâneo e nada se faz em casa sem me consultar. Para tudo e para nada mandavam-me chamar. Como estávamos em época de guerra e havia falta de muita coisa, era eu quem conseguia aquilo que tinham mais dificuldade em arranjar, visto aos militares ser mais fácil do que a qualquer outro. E com tudo isto a nossa amizade estreitou-se ainda mais. Comecei então a estar mais em contacto com a rapariga, apesar de esta estar algum tempo ausente, pois andava a estudar fora da cidade e verifiquei com desgosto que a rapariga não me servia. Nada lhe disse, pois tinha um bom caminho para me desviar, que era a minha retirada que se aproximava. E uma prova de que não me servia é que passados poucos meses de aqui estar soube que ela tinha arranjado outro. Quando vim pediram-me para trazer na minha companhia uma filha do nosso conterrâneo, isto é, irmã da rapariga e um seu primo, irmão da atual. No passaporte da menina estava escrito: «entregue ao 1º Cabo A. A. Pinto».

Tratei-os como pessoas de família, principalmente à menina, que sempre necessitava de mais cuidados. Quando cheguei a L. Marques recebi a notícia de que não ficava naquela cidade, portanto apressei-me a procurar a família, que ela e ele não conheciam. De bordo,  procurando  entre os que esperavam o barco, se descobriu alguém parecido com eles, vi uma família onde estava um sujeito parecido com sua mãe. Saí com o rapaz e a rapariga dirigi-me a essa família e não me tinha enganado. Fiz-lhe entrega dos sobrinhos (...)  despedi-me da menina, dano-lhe um beijo e do rapaz (...)

O rapaz e a menina em casa não faziam outra coisa senão falar de mim. A maneira como os tinha tratado, diferenciado dos outros, etc. etc. Depois vieram as cartas da Índia que falavam de mim e então os homenzinhos escreveram-me para vir a L.M.

(...)

Aquela família tinha toda a confiança em mim e comecei a visitar a sua casa todas as vezes que ia a L. M. Depois de todas estas coisas, dá-se a circunstância de um sobrinho desta família que vivia em Moçambique (Ilha) com uma irmã e o tal irmão que veio comigo, desejar visitar Portugal. Para que a sua irmã não ficasse só em Moçambique com o outro irmão que é muito novo entregou-a em L.M. aos cuidados dos tios. Numa das minhas visitas foi-me apresentada, dizendo que tinha muito prazer em conhecer pessoalmente o rapaz cujo nome ouviu pronunciar constantemente, enaltecendo-lhe as qualidades. Nessa altura comecei logo a gostar da menina, mas mostrei-me indiferente. Mas ninguém pode fugir ao seu destino.

(...)

As coisas foram andando até que um dia verifiquei que ela era a mulher que há muito ambicionava. Possuía todas as qualidades exigidas por mim e resolvi pedi-la à família. Mas antes de tudo isto expliquei-lhe as dificuldades que podiam surgir. que não podíamos viver tal qual ela vivia. Que eu era pobre e portanto não lhe podia oferecer aquela felicidade que tanto desejava e ela merecia. Não se importou com coisa nenhuma, dizendo que a maior satisfação era saber que eu a estimava bem. 

(...)

A madrinha sabe muito bem que eu anseio por arranjar a minha vida para viver consigo e por isso tenho que arranjar uma mulher que tenha o meu feitio. Julgo que esta está nestas condições. Ainda ontem recebi uma carta dela em que, entre outras coisas, diz o seguinte: «Julgo que a tua Mãe e a tua Madrinha ainda hão de concordar contigo. Não deves zangar-te com elas, pois não têm culpa do seu proceder. Não me conhecem e como sabem que sou de uma raça diferente e de uma terra estranha, estão com receio que venha a ser uma filha e irmã. Tenhamos uma pequena dose de paciência até que elas, depois de informadas que sou deem a sua autorização. Eu como Mãe procederia do mesmo modo».

Só por isto já a Madrinha pode avaliar o seu caracter (...)  Eu sei, Madrinha, que ela não é bonita, que é um pouco escura, mas que me importa tudo isso se ela tem as qualidades que há muito procuro na mulher que há de ser a minha companheira? Porque como acima digo não quero uma mulher só para mim. Isto é, para viver só na minha companhia, quero uma mulher para viver também com a madrinha e a Mãe e que lhe seja obediente como eu sou. 

(...)

Ainda nada resolvi sobre o que hei de fazer, pois enquanto a Madrinha e Mãe não me disserem que é da vossa vontade, não realizarei tal ato. A madrinha não julgue que eu estou louco pela rapariga. Gosto  dela, é verdade, porque simpatizei com ela. Adeus madrinha, não mostre a ninguém esta carta, não? Desejo-lhe muita saúde assim como à Mãe.  Muitas saudades e beijos do afilhado = Aurélio»

O sibilar das balas tracejando os ares europeus e o troar dos canhões da GRANDE GUERRA silenciaram-se em 1945. Tinha de ser. Mas para aquém desse ano, vencidos que foram os entraves de ordem rácica e social, os apaixonados mantiveram ateadas as labaredas do amor e, entre os olhares confiantes de uns e desconfiados de outros, um rapaz branco europeu e uma menina indiana de cor, casaram e tiveram filhos que bem podem orgulhar-se dos progenitores. Tanto quanto soube, dois deles são ou foram meus colegas de profissão. Estarão, pois, em condições de avaliar a pertinência deste meu trabalho, nos tempos que correm.

Face ao desenlace, eu, que lidei, em Moçambique, com gente de todas as cores, religiões e culturas,  que experienciei a ausência de cor no ódio, na raiva e no amor, que respirei os ares do Índico, os mesmos que esse nosso conterrâneo respirou e que lhe despertaram os afetos amorosos, rendo homenagem à memória do casal que, para além de terem de vencer as vicissitudes da vida, não recuaram frente aos preconceitos sociais, ao troar dos canhões racistas, os mesmos que, neste princípio do século  XXI,  continuam prontos a disparar. É só chegar-lhes mecha. E mais não digo.

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.