Trilhos Serranos

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terça, 27 setembro 2016 14:44

DESCOLONIZAÇÃO IV

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QUANDO A GRATIDÃO TEM CONTEÚDO

Lourenço Marques. Era Dezembro de 1973. Eu tinha ido ao cinema com a minha mulher, Mafalda, e ao regressarmos a casa tropeçamos num embrulho colocado na soleira da porta. Estranhámos o facto, mas vimos imediatamente que entre os liços que apertavam o volume estava um «cartão de visita» de pessoa amiga. Lemos o «cartão», cujo «fac-simile» e conteúdo aqui reproduzo:

guedes-1

«O Guedes pretende manifestar, através desta pequena lembrança e em quadra de sentimento particularmente comunitário, a sua gratidão pela ajuda no êxito  encontrado no 1º Ano do Curso de História e contribuir, ainda que modestamente, para o vosso recheio bibliográfico, base de um futuro feliz que, do coração, vos auguro com um abraço amigo».

Natal, Dz, 73»

LIVROS-1 - rEDZTratava-se de uma «prenda de Natal» oferecida por um colega da Universidade, Joaquim Pereira Guedes, (Inspetor na área económica)  a quem eu dera preciosa ajuda no 1º Ano do Curso de História. O caso foi que, não podendo ele assistir a todas as aulas, por força das funções que desempenhava,  pediu-me  para eu lhe fornecer os apontamentos de cada aula e, em véspera de testes, termos um debate «a dois» sobre o matéria a examinar.

Assim fizemos. Chegava o dia do teste e ele, inteligente como era, respondia às perguntas feitas e... venha outro.

Agradecia-me pessoalmente à da sala e assim se foi passando o ano. Mas, um dia, ao fim de uma daquelas  «sabatinas» recusou-se a ir fazer o teste, dizendo não se encontrar suficientemente preparado e seguro da matéria. Determinado a desistir, não ia aquele teste e pronto. Iria ao seguinte.

Ora, conhecendo eu as suas capacidades e a forma como ele absorveu a matéria em apreço, retorqui-lhe: «faça como quiser. Se for ao teste, tem duas hipóteses: chumba ou passa. Se não for, a minha ajuda termina aqui mesmo».

Face ao meu desafio e não querendo perder a minha  colaboração, ele foi fazer o teste e saiu-se bem. A partir daí a amizade e a confiança reciprocas que já havia entre nós consolidou-se e estou seguro que esta «prenda de natal» se deveu, em grande parte aquele pequeno-grande dilema em que o coloquei. «Ir ou não ir, era a questão».

A prenda era a «Grandeza e Decadência de ROMA», Editora Globo, Rio de Janeiro, 1965,  constituída por 5 volumes.  E claro que foram todos  lidos e ainda hoje consultados.  Que maior prova de amizade e de «gratidão» se pode dar a tantos anos de distância?

A «descolonização» afastou pessoas, parentes e amigos. Sabendo-o natural de Britiande, Lamego,  um dia, há muitos anos, fui lá procurá-lo. Que sim, senhor. Estava em Lisboa, mas todos os anos, pelo natal, marcava a sua presença na moradia que se diz ter sido habitada por Egas Moniz. Fui ter com ele. Conversámos. Disse-lhe que estava colocado em Castro Daire. De passagem para Lisboa (não havia a A24) que desse sinal de si, para convivermos como outrora. Mas não deu. Nunca deu. Nunca mais o vi. Vá lá saber-se por quê.

Mas eu aqui estou publicamente a agradecer-lhe a «oferta» e a mostrar que não me esqueci dos amigos, que amigos foram, lá no outro hemisfério, em terras de Moçambique, banhadas pelo Índico.  

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.