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quarta, 24 janeiro 2024 15:45

CASTRO VERDE - TERRA E GENTE (2)

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CAMINHOS ANDADOS, AFETOS CRIADOS

Lá como cá.  Lá, em Castro Verde, e cá, em Castro Daire. Lá, entre montados, trigais e chaparrais e cá entre soutos, penedos e carvalhedos, passei parte da minha vida de mão na rabiça da charrua a lavrar campos do passado, a semear e a colher saberes vividos - História com gente dentro – divulgando e dando a conhecer decisões políticas, administrativas e outras tomadas pelos poderes centrais e poderes locais destinadas à melhor gestão da “res publica”.

 PRIMEIRA PARTE

Foi o que vimos, na minha última crónica,  relativamente ao ano de 1680 quando, em Portugal, grassava uma “moléstia” surgida em Cádis, reino da Castela e todas as terras de Santa Maria, que obrigou as “Justiças da Terra” (Castro Verde) a tomarem as devidas precauções sanitárias, nomeadamente o “controle” dos viandantes e feirantes que,  por imperativo dos seus negócios, obrigados fossem a deslocar-se à FEIRA DO CRASTO ( mês de outubro) cujos terrádegos revertiam para a Igreja das Chagas.

Parte do produto da minha investigação foi vertido no livro “História de uma Confraria (1677-1855) - editado em 1989, pela Câmara Municipal. Outra foi sendo publicada avulso no Boletim “Castra Castrorum”, editado, naquela vila alentejana, no tempo em que ali exercia a docência. Boletim dado à luz pela iniciativa do Dr. José Guerreiro, pessoa que tinha e tenho por amiga. Ele por lá continua nas suas lides histórico-culturais e a receber e a divulgar, de bom grado, as partilhas que vou extraindo dos meus arquivos, por afetos à terra e às gentes(familiares e outros) que tão bem me receberam como «retornado» de Mçambique.

Fixando agora aos olhos no volumoso produto que dá corpo ao ficheiro que regista todo esse meu labor de investigação, admiro-me da PACIÊNCIA que tive para tal fazer e ocorre-me parafrasear aquele verso de Camões: “.Mais seria, se não fora para tão longa tarefa tão curta a vida!”. Já lembrei Camões na crónica que fiz recentemente «MEMÓRIAS MINHAS - MOÇAMBIQUE»  e aqui renovo a sua memoria, neste ano de 2024, exatamente os 500 anos do aniversário do seu falecimento. Nunca esqueço os nossos MAIORES, mesmo os poetas populares que, nas tabernas de C. Verde, partilharam comigo as «DÉCIMAS DE 40 PONTOS», literatura oral que escapava aos compêncios oficiais de ensino.

Mas desta vez trago aqui alguns LEILÕES que se fizeram das ESMOLAS doadas ao S. Miguel, cuja história deixei, devidamente fundamentada, no livro acima referido. E foi lá que deixei bem clara a “batalha” travada entre os “oficiais da Câmara”, que administravam os “bens da ermida” e o Prior de Castro Verde que julgava ser ele o detentor desse direito. E a “questã” subiu aos tribunais superiores do Reino, onde se arrastou por largos anos. E várias foram as “provisões” contraditórias que desses tribunais saíram com a assinatura “d’El-Rei”, (D. João V) ora a contento de uns, outra a contento do outro. Isto até chegar a decisão que dava ao Prior o direto de receber 1/3 das esmolas recebidas e a tomar assento na mesa dos leilões (vide Livro).

Para já lembro que não foi tarefa fácil levar a bom termo um barco que navegava sobre as águas encapelas de interesses opostos. Isto a começar pelo estado em que encontrei alguns manuscritos e ter de verter para grelha (ao tempo não havia a «Folha Excel) os textos discursivos e, alguns deles, arrevesados «p’ra diabo».

SEGUNDA PARTE

Entre os manuscritos consultados esteve o «Livro das Esmolas e Arrematações» que englobava os anos de 1717 a 1744».  

1-leilões2-leilõesA minha primeira nota, passada para uma ficha, reza o seguinte:

«O termos de abertura deste livro, que não se pode ler na totalidade por estar danificado na parte superior, deixa ver, contudo, que findara um outro livro onde estavam lançadas as esmolas do mês de agosto de 1717. As esmolas que regista são do mês de setembro em diante. Pela redação das esmolas que recebeu, depreende-se que o depositário António Martins podia ir vendendo as esmolas que ia recebendo, desde ramos, chibos, frangos, galinhas, marrãs, carneiros, trigo, mortalhas, novilhos, etc. daí os leilões que havia não representarem a totalidade das esmolas recebidas. Seria preciso conjugar os leilões com as vendas feitas pelo depositário. Exemplo: recebeu mais duas moedas de outro de um novilho que vendeu = 9.6000 reis, etc. etc.»


Para melhor exemplificação recorro à ficha que elaborei relativa ao de 1719, mostrando a identificação do «arrematante», «residência» «peças arrematadas» e «valor». Assim:


LEILÕES DE 1719

5-leilõesLIVRO DAS ESMOLAS E ARREMATAÇÕES -1717 - 1744

ARREMATANTE

RESIDÊNCIA

BENS

VALOR

Baltazar Coelho

?

50 ovinos

27.000 reis

José Roiz

?

30 alq. trigo

Fiados

Manuel F. Jesus

?

10 alq. trigo

Fiados

Julião Roiz

C. Verde

15 alq trigo

Fiados

João F. Botelho

?

2 novilhos

fiados

Manuel L. de Vilhena

Termo Messejana

5 rezes (sic)

Fiados

Duarte Vaz

?

1 boi

18.000 reis

António Martins

?

9 borregos (a)

6 chibos (b)

11.950 reis

Fernandes João

Rouseiro

1 novilha

9.000 reis

Luis da Costa

Giraldos

1 novilha

9.500 reis

Jorge Lourenço

?

1 novilha fiada

8.500 reis

Manuel Mestte

Xaminé

1 touro fiado

11.000 reis

João Mestre

Xaminé

2 jumentos

13.000 reis

João Freire

Dos Mendes

1 vaca e 1 anelho

14.000 reis

João Rosi

Salvamento

1 boi

14.400 reis

Manuel Fernandes

Bicadas

36 borregos

21.000 reis

a)      Os borregos foi a 550 cada.   b)  os chibos foi a 250 cada.

LEILÕES DE 1720

7-leilãoLIVRO DAS ESMOLAS E ARREMATAÇÕES – 1717-1744

ARREMATANTE

RESIDÊNCIA

BENS

VALOR

Sebastião Freire

?

2 novilhas

24.000 reis

Belchior Roiz

Almoleias

1 vaca ruiva

1 novilha

14.000 reis

Alifonso Guerreiro

Cassueira

1 novilho por capar

12.500 reis

Cap.André A. Varela

Termo C. Verde

2 novilhas

23.000 reis

António Jorge

Termo Aljustrel

1 novilho

10.000 reis

André Correira

C. Verdfe

1 novilha

9.000 reis

Pedro Guerreiro

 Termo C. Verde

1 NOVILHO

9.000 reis

Francisco Martins

Almeirim

2 anelhas

6.000 reis

Domingos Afonso

Termo C. Verde

1 novilho

6.000 reis

 

Este leilões, aqui simpliificados em grelha, tinham os «rituais» públicos obrigatórios por lei, por forma a que  as esmolas fossem bem retabilizadas e a Câmara ter ali uma fonte de receita garantida. Na altura não havia Orçamento de Estado que mandasse remessas para os seus cofres. Bem ao contário. Ora vejamos, a ficha correspondente ao leilão feito em 12-07-1721:

9-leilão

«Aos (12.07.1721) nesta Ermida do Arcanjo S. Miguel, presidindo o Juiz Caetano Mestre para se fazer leilão das coisas e esmolas do mesmo Santo ao povo e gente dos arredores os quais mandaram pôr seu pregão em praça a quem por eles mais desse estando presidindo o vereador Manuel Martins, do Tacanho e o Procurador do Concelho Manuel Guerreiro de que de tudo mandaram fazer fazer este termo em que todos assinaram e eu Manuel Gomes de Andrade, escrivãzo da Câmara por provisão de sua Majestade ,que Deus guarde, o escrevi, presidindo o vereador Gaspar Afonso».

E segue-se o leilão.

 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.