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quinta, 18 janeiro 2024 17:51

PEGADAS MINHAS - MOÇAMBIQUE

Escrito por 

PAÍS COLORIDO E COSMOPOLITA

Mês de janeiro de mil novecentos e sessenta e um. Ali, no quarto andar do PRÉDIO MENDES, apartamento número NOVE, com entrada pela Rua Pedro Álvares Cabral, em Lourenço Marques, sou recebido pela minha irmã Elisa e pelo seu marido, Professor Berthlodo Camacho. Tinha acabado de desembarcar do “PÁTRIA”, após 18 dias e noites de baldões sobre as águas do Atlântico e do Índico, contornando o Cabo. Com ligeiras variações e atracagens costeiras, direi que segui, de perto, a rota de Vasco da Gama e dos navegadores que o precederam nestas andanças marítimas, a caminho do Oriente. Eu, lembrando aqui o passado, estava, a bem dizer, às portas do meu futuro.

 

PRIMEIRA PARTE

1-p.mendesO meu cunhado, com uns largos anos de África, professor aposentado aos 40 anos de idade por sofrer de asma (sempre o vi acompanhado da bomba no bolso pronta a servir em todo o momento inesperado de crise de esgana) tinha corrido metade do território de Moçambique, primeiro, no exercício da profissão docente e, depois, dedicado à caça grossa: elefantes, jacarés, javalis, búfalos, hipopótamos, gazelas, impalas e mais quadrúpedes selvagens que lhe caíssem na mira da carabina ou na do “pisteiro” nativo que integrava o grupo. Lá em casa, ainda vi caixotes de “abada” (dentes de javali) que ele guardava como troféus ou como restos esquecidos de negócios infindáveis ou suspensos.

Dele ouvi as primeiras aventuras perigosas ligadas àquele tipo de caça e, com ele, respirei a magia africana, a magia dos grandes lagos, ribeiros e rios,  sem dar um passo  fora da cidade. Isso viria a acontecer mais tarde. Mas essa atividade venatória foi para ele sol de pouca dura. A asma, mal sem cura, maleita enraizada,  apressou-lhe o fim desse modo de vida e obrigou-o a procurar outras fontes de rendimento, por forma a completar os parcos 4.000$00 mensais de reforma oficial. 

L.MarquesPolítico na linha do partido REPUBLICANO PORTUGUÊS, de Afonso Costa, postura cívica que assumira desde jovem, opositor ao regime político implantado no país com o 28 de maio de 1926, com 35 anos de oposição, os primeiros cinco na metrópole e os restantes 30 em terras de Moçambique, admirador da Lei de SEPARAÇÃO DA IGREJA E DO ESTADO, ateu confesso, tornou-se, paradoxalmente, após a aposentação oficial, professor de Matemática e de Português na MISSÃO SUÍÇA PROTESTANTE, acumulando as funções de “inspeção”, cirandando pelas demais MISSÕES situadas no sul da província. Devidamente remunerado, mais 5.000$00 vieram juntar-se à reforma oficial. Tudo somado, recebia mais “um conto de reis” do que qualquer professor oficial de liceu, cujo vencimento rondava os OITO CONTOS.

Mas, mesmo assim, fosse por necessidade, fosse por missão, a SALA DE ESTAR do seu apartamento, no PRÉDIO MENDES, QUARTO ANDAR, nº 9, todos os dias à noite, na linha de António Sérgio e outros republicanos na Metrópole, era convertida  numa sala de aulas com uma comprida mesa retangular ao centro. Duas cruzes de Santo André, articuladas pelo eixo, deixavam o seu lugar de arrumo, abriam-se na totalidade e serviam de apoio, nos extremos,  a uma mesa de tabua-pã com um metro de largura e quatro de comprimento. Montada e desmontada, num abrir e fechar de olhos, pronta fiaca a receber a meia-dúzia de alunos adultos africanos que decididos estavam a abrir os seus horizontes culturais e a fazer o CURSO NOTURNO dos Liceus, propostos a exame.

E foi o meu primeiro espanto. Todos os alunos, africanos e negros, naquele mundo colorido e cosmopolita - brancos, negros, mestiços, indianos, chineses, monhés - não havia cheiro racismo, nem odor a catinga. E, coisa estranha, aos meus olhos e ao primeiro contacto, todos eles eram iguais entre si. E até que eu me habituasse a identificá-los pelos seus distintos traços fisionómicos, levou tempo. Para isso ajudou muito o meu cunhado tratá-los individualmente  pelos seus nomes próprios: o Adam era diferente do Abdul, o Abdul diferente do Eugénio, o Eugénio diferente do Salam, e assim por diante. Foi a minha primeira impressão e relação com gente de cor, com outro mundo.

SEGUNDA PARTE

RTEMINGTONChegado da Beira Alta, das “berças”, mas ávido de conhecimento, passei a ser mais um aluno sentado à mesa, a emparceirar com eles de igual para igual e a tomar nota das matérias administradas, fossem de CICLO PREPARATÓRIO, fossem do CURSO GERAL DOS LICÉUS. E, eureka, a breve trecho, o meu cunhado, pedagogo experiente e intuitivo, atribuiu-me a missão de corrigir os testes que fazia a toda a turma. Curiosa coisa! Eu, um aluno entre os demais, um provinciano chegado à civilização, a tomar o lugar do PROFESSOR e a corrigir as provas dos colegas de turma, sem sonhar que essa tarefa viria a integrar as minhas obrigações profissionais futuras. É o que pode dizer-se, a posteriori, o “reforço positivo” de um professor dado, em termos premonitórios,  a um futuro colega. E não me devo ter saído mal da tarefa, pois a cada semana que  passava, ele mais confiança me incutia. Na altura, como vim a constar mais tarde, os alunos de ENSINO PARTICULAR tinham de submeter-se a exames nos liceus oficiais. Só havia dois em Lourenço Marques: o Liceu Salazar e o Liceu António Enes. E neles também eu vim, alguns anos  depois, eu próprio, a “prestar contas” dos conhecimentos adquiridos nas aulas administradas no EXTERNATO MARQUES AGOSTINHO (vide meu curriculum académico).

A par de todas estas tarefas, o Professor Bertholdo Camacho era também SOLICITADOR autorizado, com tabuleta identificadora do escritório e material de escrita, envelopes e subscritos, com pomposo timbre identificador. E tinha uma carteira de clientes assinalável. 

Foi nesse seu escritório que me vi, pela primeira vez, a dedilhar uma máquina de escrever. Presumo que era a reconhecida REMINGTON. De teclado em cascata, obrigava o utilizador a lesto gesto de pulso e de dedos. Subir da primeira régua do teclado à última, o datilógrafo assumia, seguramente, o estatuto alpinista. Foi a primeira vez que me vi frente a um bicho desses. Um invento humano capaz de verter as ideias e os pensamentos humanos em letra redonda e em linha.

O meu cunhado confiava-me o manuscrito dos requerimentos, petições, mandados e outros documentos afins ao processo litigioso e encarregava-me de dactilografá-los. Quer dizer, ele, aliviando o seu trabalho de procuradoria judicial, iniciava-me numa experiência que muito útil me viria a ser pela vida fora, matraqueando o abecedário de máquina de escrever com teclado muito mais raso. De marca OLIVA é hoje uma peça de museu particular que preservo com os afetos que merece um equipamento que me ajudou a ganhar o pão para os meus filhos e a fazer o meu curriculum profissional e académico .

E foi numa dessas minhas  tarefas de dactilografia que se deu o insólito episódio que ainda hoje lembro com o humor correspondente adstrito. No manuscrito onde ele tinha escrito  “pedido”, eu dactilografei “peido”. Uma letra a menos e o caldo estava graficamente malcheiroso. Era numa petição dirigida ao Meritíssimo Juiz do Tribunal do Trabalho, solicitando-lhe que ele atendesse o “pedido” feito. O solicitador, traquejado no ofício,  visionando o texto, deu atempadamente pela “gralha” e, gracejando com o sucedido, fez rumar o documento ao destino,  devidamente corrigido. Mas não sem alguns dichotes oportunos, relativamente ao funcionamento NOSSA JUSTIÇA. Vejam bem! Há quantos anos? E tão relevantes e oportunos foram para mim esses dichotes e o humor contidos nesse  “pedido” virado «peido» que jamais os esqueci e dignos são de figurar neste apontamento “in memoriam”. Parece que foi ontem. Tal vai a NOSSA JUSTIÇA!

TERCEIRA PARTE

Homem do seu tempo, após a frugalíssima (que remédio) refeição do meio-dia, era sacramental ele tomar um comprimido de alho de marca «russa», um comprimido de quinino e fazer uma paciência. Tal rotina só a obrigatoriedade de, em casa dos meus pais, se rezar o terço à noite e mórmons agradecerem a Deus todas as refeições do dia. Baralho na mesa, cartas alinhadas em colunas, ora tirava, ora punha e acabada a tarefa, sempre demorada, ala para o café Scala, onde se encontrava com velhos “colonos”, ex-administradores do concelho, industriais no ativo, funcionários públicos, tudo gente a rondar o meio século de vida, ou mais, comparativamente aos meus 22 anos de idade. E eu ouvia. E eu aprendia. E eu nada dizia. 

Ali, no Café Scala, e nos encontros que semanalmente ele tinha da MATOLA, vilória sita a 10 km de L. Marques, na vivenda do seu amigo MEDINA CAMACHO, natural da ilha da Madeira, casado com uma senhora que integrara as brigadas revolucionárias da GUERRA CIVIL DE ESPANHA. E era na moradia desse casal que ele e outros membros da OPOSIÇÃO ao regime salazarista se encontravam. Apercebi-me que sob o mesmo chapéu, se albergavam comunistas, republicanos, socialistas e monárquicos e outros que tais sob a mira da Polícia Política. Todos diziam as últimas do fascismo. Foi lá que, pela primeira vez, este vocábulo passou a integrar o meu léxico gramatical e a dar sentido à vida miserável a que estava sujeito Portugal inteiro. A deslocação era feita no seu 2-austinA40 (AUSTIN), com estofos de cabedal que consumia mais galosina do que um elefante com a tromba metida no LAGO NIASSA.

Esclarecendo. Esse meu cunhado integrava, há anos, um grupo alargado o OPOSICIONISTAS ao regime salazarista  que incluía o Dr. ALMEIDA SANTOS e outras figuras tornadas muito ilustres após o 25 de abril. Moço de 22 anos de idade, ignorando totalmente o Regime Político que geria o país, tinha sentido eu prestar atenção a todo aquele desenrolar da meada de ideias e valores. Ela dava justificação ao facto de eu ter chegado ali, de ter assentado praça aos 18, com vista a atingir a cidadania depois de cumprir o serviço militar, serviço obrigatório onde, assim se dizia, que se “ia aprnder a ser homem”! 

 

Eu, que assentei praça voluntário, aos 18 anos, para largar a rabiça da charrua, para deixar a aguilhada e o cajado de pastor em paz, para poder usar sapatos em vez de tamancos, para poder aconchegar o estômago com algo mais substancial do que um naco de broa e uma malga de caldo, para antecipar 2 anos ao futuro, o mais que aprendi na tropa, dizia eu,  foi aos toques de alvorada, de formatura e de silêncio. Todos eles desnecessários à minha aprendizagem de “homem”, pois, muito antes disso, cedo acordava, cedo me levantava para apascentar os gados com estrelas na abóbada celeste, a fim fugir ao mosquedo que, com o calor, picava mais que uma chuva de agulhas.

Que coisa. Aprender a ser homem na tropa? Não me pareceu. Tropa feita, ala para Lorenço Marques, na condição de “turista”. Para as colónias só partiam os colonos destinados aos respetivos colonatos, cidadãos com  “carta de chamada” ou, então,  usando o subterfúgio de “turista”. Fingir de “turista”, pagar a viagem de ida e volta à COMPANHIA NACIONAL DE NAVEGAÇÃO e, com sorte, se arranjasse emprego no sítio do destino, seria reembolsado do montante correspondente à viagem de regresso.

O meu cunhado, de conluio com o gerente de uma metalurgia local, simularam um emprego fictício para o jovem recém-chegado e com os papéis respetivos entregues no balcão da COMPANHIA NACIONAL DE NAVEGAÇÃO não tardou a sermos reembolsados da respetiva quantia, devolvida imediatamente ao meu pai, que, na metrópole, tinha pedido o dinheiro para a minha viagem. 

E assim me iniciei em terras de África e tirei proveito das “tertúlias” que esse grupo de oposicionistas levavam a cabo em sítios esconsos. Bem gostava de ver a ficha que constará nos arquivos da PIDE e ler as notas de rodapé ou “à margem” escritas por tão diligentes agentes policiais sobre o meu cunhado, o seu grupo de amigos e dos membros que a eles se juntavam, nomeadamente a minha pessoa que de política percebia ZERO.

O mais velho de todos desse grupo era MEDINA CAMACHO, sempre de cachimbo ferrado no canto da boca e a baba a escorrer-lhe camisa abaixo. Tinha um filho contabilista e mandou-o estudar russo. Gracejaram com ele, perguntando-lhe se ele tencionava ir para a Rússia. A resposta foi pronta: “não, os russos é que vêm para cá”. 

E vieram.

QUARTA PARTE

cAMACHO-1livro CAMACHO - REDZA seguir na idade era o meu cunhado, digamos que, comparado com Almeida Santos, ele era, a bem dizer,  o decano da oposição. E creio que com esse estatuto era tido até 1962, ano em que Bertholdo Camacho, por convicção ou desconsideração, rompeu com os novos/velhos amigos.

Almeida Santos e mais uns tantos elementos do grupo, em manifesto público, resolveram apelar à “AUTODTERMINAÇÃO DAS COLÓNIAS” em consonâncias com os objetivos dos .movimentos independentistas. Por desconsideração ou por convicção, o meu cunhado escreveu e publicou “Por Portugal e pelo Ultramar Português”, numa frontal oposição aos seus companheiros de viagem, de longa data.

Entornou-se o caldo. Uma vida inteira a opor-se ao regime salazarista, viu afastarem-se de si os seus velhos amigos, republicanos, socialistas, monárquicos, comunistas e, na oportunidade, ver aproximarem-se dele todos os afetos ao regime. Eles que sempre lhe tolheram a vida, negando-lhe direitos fundamentais como a “concessão do diploma de Ensino Particular”, dificultando-lhe a “procuradoria judicial” e quejandos, corriam a parabanizá-lo pelo feito patriótico em cartões pessoais e, entre salamaleques oportunistas e hipócritas, a sugeriam-lhe para solicitar o que sempre lhe foi negado, que ser-lhe-ia concedido. Só visto e lido. E eu vi e li.

Considero que a estes factos históricos por mim vividos e aprendidos em família e grupo de amigos, fora dos livros, constituíram como que uma espécie de elementos integrantes do ritual iniciático à HISTÓRIA DA COLONIZAÇÃO/DESCOLONIZAÇÃO que, posteriormente,  me estava reservado estudar nos liceus e na universidade. E a tais factos juntou-se um outro que me fez refletir sobre o dito nos compêndios escolares e o vivido pelos povos nativos. 

O caso foi que o meu cunhado, de parceria com um amigo, compraram em “hasta pública”, à porta do Tribunal de Lourenço Marques, um terreno com alguns hectares de área nas proximidades do aeroporto. Terreno arborizado de cajueiros, nenhum dos amigos pensou rentabilizar a castanha e, como o terreno não pesava nos ombros de quem vive de outros expedientes, para ali ficou, durante anos,  como terreno sem dono.

Mas um dia, um professor primário africano, a morar na zona, que tinha sido aluno do meu cunhado, entrou-lhe escritório dentro a informá-lo de que o seu terreno estava a ser invadido por africanos que, tendo sido corridos da zona do Infulene, procuraram assentar a palhota no lugar mais apropriado, não longe da cidade do cimento.

Ciente da “invasão” o meu cunhado pediu ao ex-aluno que não se opusesse à ocupação, mas que orientasse a implantação das palhotas, por forma a obter alguma disciplina urbanística. Que as palhotas ficassem alinhadas em ruas e que ele depois iria  esclarecer os novos inquilinos, fazendo valer os seus direitos de proprietário.

Abílio-lm-Pensado. Dito e feito. Foi uma enchente. E, com tanta gente ali, havia que criar-lhe condições de habitabilidade a fim de, cada qual, pudesse pagar pelo espaço ocupado. Não havia água em redondo e necessário foi fazer um furo e meter nele uma bomba por forma trazer à superfície o precioso líquido. 

E tudo deslizou sobre carris até que um velho ancião que nascera e crescera no lugar, se recusou a pagar a “renda” do espaço, alegando que aquela terra lhe pertencia. Tinha-a herdado dos seus avoengos, sempre ali habitara, e pensava transmitir aos descendentes os direitos herdados.

Eu estava prestes a sair de Lourenço Marques, com destino a Tete, mas ainda assisti a uma lição de HISTÓRIA ao vivo, dada por estes dois idosos protagonistas em diálogo, ambos pendurados na sabedoria da sua idade:

-  Ó senhor M’Fumo, eu comprei este terreno em hasta pública, à boca do Tribunal. E mostrava o documento, com muitos selos e carimbos.

 - Certo, senhor Professor. Mas lei portuguesa não conta aqui. Eu herdei este espaço dos meus avós  e vou deixá-lo aos meus filhos e netos.

 Teimavam e insistiam cada um na sua. E disso não saíam. Assisti, ao vivo, a um «diálogo de surdos» Ambos com carros de anos às costas, um interlocutor apresentava documentos com muitos selos e carimbos, justificando a titularidade da propriedade. O outro, desdentado, apresentava um documento oral, sem selos nem carimbos,  e contrapunha a sua palavra subsumida e entrecortada por entre os lábios sem dentes de apoio. Na boca um canino solitário, espetado no maxila superior era como sentinela vigilante da propriedade. Era  o último dos moicanos tribais visível.

L.Marques-1974Creio que, depois de tanto argumentaram, ambos se entenderam, já que, depois do meu tirocínio no mato, em Tete e Milanje, regressado a Lourenço Marques, constatei que os cajueiros e as castanhas, essas saborosas vírgulas estaladiças ao trincar,  se juntaram à fonte de rendimento que era a “renda” das palhotas. E somava-se a isso, “um tostão” por cada lata de 20 litros saída da bomba implantada no furo, levada à cabeça pelas mulheres residentes. Acabaram as «frugalíssimas» refeições que eu partilhei em 1962, aquando  minha chegada,  e, 12 anos após, abanquei várias vezes em torno de uma mesa , farta, lauta e franca.

Mais uma dúzia de anos passados, após tais acontecimentos, o 25 de abril de 1974, acabaria com estes “teres e haveres”, com esta forma de servir e ser servido. E eu, como historiador que conheceu e privou de perto com este republicano de gema, que comungou as suas dificuldades financeiras em 1961/62, que não deseja para ninguém as dificuldades que viveu no tempo de desemprego, que conheceu as suas intenções genuínas vindas da juventude, o seu engajamento político, obrigado sou a reconhecer o patriotismo que releva das palavras que deixou na testada do seu desconsolado opúsculo por “Portugal e Pelo Ultramar Português”, editado em 1962. Assim: 

Aos velhos colonos que em terras de Moçambique consumiram o melhor da sua mocidade e da sua vida, curtindo febres,, desbravando terras e cérebros, abrimdo caminhos, fundando povoações e transformando o INÓSPITO sertão de África nas belas e risonhas vilas e cidades que são hoje o nosso orgulho, respeitosa homenagem de Bertholdo Camacho”.

Consciente ou não de ter escolhido a trincheira errada na batalha travada no fim do IMPÉRIO, frontalmente contra os ventos da HISTÓRIA, retornado de Moçambique, fixado em Santa Iria de Azóia, faleceu de idade avançada, desiludido, solitário e ensimesmado. Afastado física e politicamente dos seus “companhons de route” e da atmosfera ‘índica” que respirou durante anos e anos, onde deixou o melhor do seu corpo e da sua alma generosa, solidária e respeitadora das raças, cores, religiões e gentes diversas, adivinha-se o alívio, o refrigério que, às portas da morte,  encontrava nos versos camonianos:

Não mais, Musa, não mais, que a lira tenho 

Destemperada e a voz enrouquecida, 

E não do canto, mas de ver que venho

Cantar a gente surda e endurecida, 

O favor com quem mais se acenda o engenho 

Não no dá a pátria, não, que está metida

no gosto da cobiça e na rudeza

Duma austera, apagada e vil tristeza.

[ Os Lusíadas, X, 145]

diplomaredzEnfim! Fosse qual fosse o curso das águas e dos ventos da história, no mundo incerto que o viu descer à terra – sepultado em Oeiras - uma coisa estava segura: a LÍNGUA PORTUGUESA que ensinara anos seguidos pelas mais diversas escolas de Moçambique, da costa ao sertão, ali ficava como MARCO OFICIAL E UNIFICADOR  das línguas e dos dialetos existentes do Rovuma ao Maputo, empunhada na BANDEIRA DA LUSOFONIA. Caiu efetivamente o IMPÉRIO TERRITORIAL. Levantou-se efetivamente IMPÉRIO DA LÍNGUA.

Post Sriptum

Devia-lhe este tributo e, bem assim, à minha irmã Elisa, sua esposa. Uma guerreira que, casada com ele em segundas núpcias, o acompanhou, nas boas e más horas, nos longos anos dos seus amores e desamores, nos seus encontros com os correligionários políticos e desencontros com a HISTÓRIA. E, passados que são 50 anos após o 25 de abril de 1974, eu, que na companhia da minha esposa MAFALDA  e de outros colegas universitários, vivemos euforicamente o evento, que cantámos a GRÂNDOLA VILA MORENA até à rouquidão, por largos e praças, também chamo a mim o desconsolo e desalento de Camões, deixado acima na estância 145 do Canto X.

Quem diria?

 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.