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segunda, 13 fevereiro 2023 16:31

MAMOUROS EM 1258 E 1758

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INQUIRIÇÕES DE 1258 E «MEMÓRIAS PAROQUAIS DE 1758»

 Já não é a primeira vez que no decurso deste meu trabalho tenho recorrido às «pegadas» deixadas em verso por Carlos Mendonça. O herdeiro mais novo do SOLAR DOS MENDONÇAS, onde atualmente funciona o Centro de Interpretação do Montemuro e Paiva, em boa hora adquirido pelo Município. Foi um castrense que emigrado para o Brasil, com visitas intermitentes ao torrão natal, deixou mais informação histórica sobre o concelho do que muitos naturais que, por cá ficando, romperam a sola dos sapatos nos passeios da vila, ou os fundilhos das calças nas cadeiras dos cafés, ou ainda nas cadeiras institucionais do poder político e cultural. Infelizmente. Este cidadão no seu périplo por terras do concelho, depois de ter falado de Alva, diz em QUADRA:  

 

PRIMEIRA PARTE

Mendonça- RedzCarvalha, Alto da Penha, Vila Mouros,

Percorri-as, prossegui pelo pinhal

Para chegar ao ridente Carvalhal

Já pertencente à freguesia de Mamouros.

Carlos Mendonça

 

E nós, com o mesmo espírito de registar algo mais para a posteridade, para  HISTÓRIA, fomos mais longe. Fomos até ao ano de 1258 às INQUIRIÇÕES DE D. AFONSO III, para sabermos algo mais. Assim:

«Idem, Martinho João, jurado e interrogado sobre o patrono da Igreja de S. Miguel de Doma Mouros disse que a Igreja de Doma Mouros está edificada na própria herdade régia e são os paroquianos que a representam».

F. Pedro, prelado de Pepim ajuramentado disse o mesmo. Pedro Martinho, do Carvalhal, ajuramentado, disse a mesma coisa. Pedro Mendo, do Carvalhal, ajuramentado, disse igual. João, de Casal, ajuramentado, disse o mesmo. Pelágio Rodrigues, prelado desta igreja disse igual.

 Idem, Martinho João, juiz, ajuramentado, disse que a vila de Mamouros e Casal e vila do Carvalhal e vila de Ribolhos são todas foreiras ao rei de jugada. Interrogados sobre qual o foro que pagam ao Rei disseram que é igual ao que lhe fazem os de Pepim e de Mosteirô.

 F. Pedro, prelado da Igreja de Pepim, ajuramentado, disse a mesma coisa. Estêvão Pedro, do Carvalhal. Ajuramentado, disse o mesmo.

 Martinho Domingos, de Alva, ajuramentado, disse que Martinho Pedro, do Carvalhal, seu sogro, deixou por testamento à Igreja de S. Miguel de Mamouros uma pensão de herdade foreira ao Rei no termo de Ribolhos, entre o Carvalhal e Ribolhos, no tempo do Rei D. Sancho, irmão do atual Rei.

 Martinho Pedro, de Ribolhos disse a mesma coisa.

 Domingos Pedro de Vilarinho, ajuramentado, disse que Pedro Filho, seu pai, e mãe deixaram por testamento à igreja de Santa Maria de Pepim uma leira de herdade foreira ao Rei de jugada, no termo de Vilarinho, no sítio designado por Outeiro. Interrogado em que tempo foi isso, disse que foi no tempo do Rei Sancho, irmão do atual Rei.

 Pedro Filho, que doou esta herdade à igreja, disse a mesma coisa.

 iGREJA MAMOUROS-redz-1Pedro Mendo, do Carvalhal, ajuramentado, disse que Mendo Pedro, seu pai, doou por testamento à igreja de São Martinho de Alva, uma leira de herdade foreira ao Rei de jugada e fica esta leira ao pé do moinho de Alva. Interrogado em que tempo foi, disse que foi no tempo do Rei Sancho, irmão do atual Rei.

Garcia Mendo disse a mesma coisa.

Idem, Pedro Mendo, ajuramentado, disse que a igreja de Mamouros tem muitas herdades deixadas por testamento foreiras ao Rei de jugada, mas desconhece-se os testadores e não se recordam quando tal aconteceu.

 Pedro Pelaio, do Carvalhal disse a mesma coisa. Garcia Mendo, também.

Garcia Mendo, do Carvalhal, ajuramentado e interrogado sobre comendas e maladias disse que João Pedro, do Casal, está na comenda e maladia de Vasco Mendo e de outros filhos de Mendo Gonçalves da Fonseca e leva seus vizinhos com eles. E acrescentou que já um dos filhos de Martinho Afonso fez mal ao próprio João Pedro  e Martinho  João, do Casal.

 Mendo Pedro, do Casal, ajuramentado, disse a mesma coisa. E acrescentou que por este homem veio muito mal e muito dano aos homens do Rei, do Casal. João Domingos, do Casal, ajuramentado, disse a mesma coisa e aduziu que reclama contra a comenda e maladia destes cavaleiros com sua força e posses.

 E se retornarmos aos depoimentos prestados em terras mais a sudoeste do concelho, ficámos cientes de que nem sempre as herdades e foros mudavam de proprietário por via de doação testamentária. Volvemos ao caso do Gafanhão e Nodar

Interrugarus quis fecit ipsam ecclesia, vel in cujos hereditatem fecit eam dixit quod ut ipse audivit Donus Beloy vilanus fecit ipsam ecclesia in sua propria hereditate, et milites de Amaral filiaverunt eam per força”.

Era isso, os “milites”, os cavaleiros, a fina flor da nobreza, invadiram a propriedade de Donus Beloy, vilanus, e tomaram à força a Igreja por ele mandada construir em propriedade sua.

E o mesmo aconteceu com um tal Calvete, vilão, a quem pertencera a vila de Nodar. Assim o afirma a testemunha João Gonçalves, de Covas do Rio, dizendo que «a vila de Nodar foi de Calvete, vilano e Garcia Soeiro, da Ameixiosa, cavaleiro, tomou-lha pela força e legou-a por testamento a S. João de Pendorada». Isto no tempo de D. Afonso, pai de D. Afonso III.

Razão tinha, pois, D. Dinis para alertar os ricos-homens no tocante à sua passagem ou paragem no lugar de CRASTO DAIRO. Assim:

«E mando que nenhum rico-homem nem prestameiro nem outro que de mim tiver essa terra não pouse nesse lugar de Crasto Dairo nem em suas aldeias salvo se lhe anoitecer pelo caminho que pouse aí e coma por seus dinheiros e vá-se logo, e não faça aí nenhuma malfeitoria que se assim fizesse far-lha-ia em todo pagar em dobro. E mando e defendo que nenhum não seja ousado que contra isto vá nem faça mal nem força aos ditos juízes do povo e concelho do dito lugar que qualquer que aí fizesse ficaria por meu inimigo e corregeria a eles em dobro o mal e dano e a força que lhe fizesse e peitaria a mim os meus encoutos E em testemunho desta cousa dei eu a esses juízes do povo e concelho sobredito esta carta. Dada na guarda a onze dias de Agosto. El-Rey o mandou pelo chanceler Martim Esteves a fez, era de mil e trezentos e trinta e três anos».

SEGUNDA PARTE

Dando um salto de 500 anos chegamos às MEMORIAS PAROQUIAIS mandadas fazer por D. José I, sendo seu ministro Sebastião José de Carvalho e Melo, o «Marquês de Pombal».

E chegado que foi o inquérito à Paróquia de Mamouros o ABADE INÁCIO LOPES respondeu aos itens solicitados, os quais, para melhor entendimento, eu esquematizei em aspeto didático. Assim:  

 

1 – SITUAÇÃO GEOGRÁFICA

 

M.P.Mamouros-1REDZ1.1           Fica esta terra na Província da Beira pertencente ao Bispado de Viseu e a sua comarca é o concelho de Alva e pertence à freguesia de Mamouros. Está situada num vale e dela se descobre e dela se descobre um lugar a que chamam Arcas que é da freguesia de Mões e dista desta freguesia um tiro de peça.

Dista esta terra da cidade capital do Bispado quinze, e de Viseu quatro léguas e de Lisboa, capital do Reino, cinquenta.

 2 – SENHORIO

 2.1 -  É uma terra de donatário e será a Excelentíssimo Condessa de Alva, Dona Constança Monteiro Pais, que Deus haja em glória, e o é agora de sua irmã Dona Maria Antónia Boaventura Menezes Monteiro Pais.

 3LUGARES DA FREGUESIA E SEUS HABITANTES

3-1. A paróquia de Mamouros, que está fora do lugar, tem seis lugares. O primeiro é o de Mamouros, de que ela toma o nome e têm quinze vizinhos e trinta e nove pessoas. O segundo lugar é o de Matanegra que tem cinco vizinhos e catorze pessoas. O terceiro lugar é o de Moinho Velho, tem este lugar doze vizinhos e trinta e seis pessoas. O quarto lugar é o de Casal e tem este lugar nove vizinhos e vinte e seis pessoas. O quinto lugar é o de Carvalhal, tem este lugar vinte e cinco vizinhos e oitenta e sete pessoas. O sexto lugar chama-se Ribolhinhos e tem este lugar sete vizinhos e vinte pessoas.

3.2 –  POPULAÇÃO TOTAL

 E a residência desta igreja que consta de seis pessoas. E tem esta paróquia, em suma, seis lugares, setenta e quatro vizinhos, pessoas de sacramento 184, de menores 23, ausentes vinte.

4 – IGREJA, ERMIDAS E ROMAGENS

 4.1 – O orago desta paróquia é S. Miguel de Mamouros, tem três altares, o maior de S. Miguel, o colateral, da parte do Evangelho, é de Nª Senhora do Rosário e o da parte da Epístola é de Santo Antão.

4.2 – ERMIDAS

Tem esta paróquia três ermidas, uma que fica vizinha desta paróquia e uma da Nossa Senhora da Piedade está fora do lugar. Pertence esta a António Araújo Freire Borges da Veiga, capitão-mor de Tarouca. Outra que mandou fazer Manuel de Paiva Chaves, do lugar do Carvalhal, desta freguesia e é de Santa Bárbara e outra no lugar que é do povo e ambas ficam dentro do lugar. E esta terceira é de S. Pedro.

4.3 – ROMAGENS

A nenhuma destas acorre romagem alguma.

5 - APRESENTAÇÃO DO PÁROCO

5-1 – O Pároco é Abade. A Apresentação é da Casa de Alva, sendo este benefício duzentos mil reis.

5.2 - Não tem beneficiados

6 – ASSISTÊNCIA

 6-1– Não tem conventos

6.2 – Não tem hospital

6.3  – Não tem misericórdia

7 – PRODUÇÃO AGRÍCOLA

Os frutos que nesta t erra se recolhem com maior abundância são o centeio, o milho e o vinho.

16 – GOVERNAÇÃO

Esta terra não tem juiz ordinário, nem Câmara. Está sujeita ao governo das justiças do concelho de Alva.

17 – ESTATUTO

Não é couto, nem cabeça de concelho, honra ou beetria.

18 – CULTURA

Não há memória que nesta terra habitem ou florescessem homens insignes em virtudes, letras e armas.

19 – COMÉRCIO

 Não tem feira franca, nem cativa

20 – CORREIO

Não tem correio. Serve-se do de Viseu que dista desta terra quatro léguas.

22 – PRIVILÉGIOS

Não consta ter esta terra alguns privilégios, antiguidades ou outras coisas dignas de memória.

23 – ÁGUAS ESPECIAIS

Não há nesta terra fonte nem lagoa célebre. Há sim uma porção de água que sai de um mineral que a pobreza da terra faz ignorar a sua virtude.

24 – Não é porto de mar

25 – Esta terra não é murada, não é praça de armas, não tem castelo ou torre alguma.

26 – Não padeceu ruína com o terramoto de 1755

27 – Não há nela coisa alguma digna de memória de que faça menção.

M.P.Mamouros-4-REDZA SERRA

Como esta terra fica situada em um pequeno vale, não compreende em si serra alguma, não tendo que responder coisa alguma a este interrogatório.

O RIO

1 – Não corre pelo distrito desta terra rio algum, mais que um pequeno ribeiro que se chama ribeiro de Mamouros, formado por dois braços, um que nasce na freguesia de Ribolhos e outro que nasce junto ao lugar de Vila Boa que é da freguesia de Mões.

2       – Não é caudaloso nem corre todo o ano

3       – Não entra nele rio algum, mais que alguns pequenos no nascente e que se vão encorpando

4       – Não é navegável

5       – O seu curso é quieto

6       Corre de Norte para Sul

7       Não cria peixes, mais que alguns bordalos

8       – Não há nele pescarias

9       – São livres, nem de algum senhor particular

10  – Cultivam-se as suas margens e tem algumas árvores silvestres em que as videiras dão seus frutos.

11  – Não têm virtude alguma conhecida as suas águas

12  Conserva sempre o mesmo nome até entrar em um rio que se chama Rio de mel, onde se perde.

13  – Não morre no mar, sim no rio de mel, perto do lugar Rio de mel de que o rio toma o nome e não há memória de que em tempo algum tivesse outro nome.

14  – Algumas levadas tem que lhe poderiam impedir o curso das águas principalmente lhe impediria o curso um uma boca que tem e por onde passa esta ribeira que esconde suas águas porque  …onde que seja o seu enchente e corre por baixo do chão por distância de cinquenta passos e segue a passagem … o que chamam sumiços que fica defronte do lugar da Cela, que é  da freguesia de Moledo.

15  – Tem uma ponte de pau que se forma em umas mal formadas pedras entre o lugar de Arcas, freguesia de Mões e de Mamouros desta mesma freguesia.

16   - Tem alguns moinhos, dois lagares de azeite e em pisão.

17  – Não consta que em tempo algum se tirasse ouro nas suas areias. Usam os povos de suas águas livremente para as culturas dos seus campos.

18  – Tem este ribeiro desde o seu nascimento até entrar no rio de Mel, onde se perde, o nome, pouco mais de uma légua.

19-20 – Não há mais coisa alguma que se possa dizer deste ribeiro que seja notável.

O Abade Ignácio Lopes

 CONCLUSÃO

 Dada a largura da cancha acima referida -  500 anos a separar os dois documentos -  cotejando as informações contidas nas «Memórias Paroquiais» dos século XVIII com as informações contidas nas Inquirições do século XIII, logo descortinámos que a vida rotineira do campo não sofreu mudanças significativas. Vivendo da terra e da terra tirando o rendimento para os impostos para pagar aos reis e senhorios da Idade Média, fosse aos reis e senhorios da Idade Moderna, senhorios entre os quais ficaram identificadas nos documentos acima transcritos, a condessa de Alva, Dona Constança Monteiro Pais, e, depois da sua morte, a sua irmã Dona Maria Antónia Boaventura Menezes Monteiro Pais, que, como dizem as «Memórias Paroquiais» de 1758», entrou nesta posse dessas terras e «dizem que tem também a mercê de Donatária desta terra», continuamos a ver que o milho, o centeio e o vinho verde eram, e todo o tempo, os produtos básicos em que assentava a economia das populações, Que os animais continuavam a ser os principais companheiros de trabalho e de rendimento, que os montados e maninhos se mantinham como lugares para pasto de animais, para recolha de lenhas e estrumes. Que ali se caçavam coelhos e perdizes e, por vezes, porcos monteses que apareciam de quando em vez. Nós, atualmente, chamamos-lhe javalis.

Vimos os nomes dos lugares da freguesia de S. Miguel de Mamouros. E, ao vermos isso, interrogámo-nos sobre o que é que teremos perdido relativamente à história concelhia em todo este tempo.

As «Memórias Paroquiais», de 1758, deixam antever claramente, a mesma vida agro-pastoril medieval, as mesmas técnicas agrícolas, os mesmo produtos da terra, os mesmos foros, as mesmas habitações cobertas de colmo, a mesma rotina camponesa que há-de prolongar-se até aos nossos tempos.

Claro que se perderem os nomes dos protagonistas locais e, seguramente, uma ou outra mudança operada nas instituições concelhias. Mas, para além disso, seguros estamos de que não cometermos uma falta de lesa-majestade, pois se atendermos à constância da vida camponesa, veremos que a terra, os homens e os animais foram a tríade que caminhou a par e passo durante séculos e séculos. Daí, e dadas as mudanças ultimamente operadas nesta caminhada humana, o imperativo que há de se fazer a história de cada povo, de cada comunidade, a fim de sabermos como foi e contarmos como é.

A propósito reponho aqui as palavras da historiadora Irene Flunser Pimentel, que, no ano de 2007, recebeu o «Prémio Pessoa» pela sua dedicação ao estudo da História e ao sentido que ela lhe dá. Cito:

«O estudo da história é um dever de solidariedade que temos para com as gerações passadas. Até porque o presente não é contínuo e remonta sempre ao passado».

Expressão «um povo sem memória é um povo sem história» não é apenas um chavão. E cada pessoa, cada coletividade, cada povo, perdida que seja a memória, postos que sejam na situação de amnésia, perdem o rumo, perdem o destino, não sabem quem são, não sabem de onde vêm nem sabem para onde vão. Não sabem o que dizem, não sabem o que fazem.

ABÍLIO/2023

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.