Trilhos Serranos

Está em... Início História INFERNO
terça, 12 abril 2022 18:38

INFERNO

Escrito por 

O INFERNO NO PENSAMENTO

Falar do inferno, falar do reino do Demónio, dessa figura sinistra, esse ser maléfico patrono de bruxas e de bruxos, pai de todos os males do universo, Lucifer, anjo revoltado contra Deus, é  falar do medo que me foi incutido em menino nas aulas de catequese, idade bem pouco propícia à descodificação de metáforas, alegorias e parábolas.

A minha ingénua alma de criança arrepiava-se, dos pés à cabeça, todas as vezes que me falavam daquela extravagante figura e daquele infernal  “fogo inextinguível”, daquele “fogo eterno”  permanentemente aceso, ali, nas profundezas da Terra, naquele sítio, naquele lugar, onde caíam as almas condenadas e de lá não tinham saída. Sítio de flagelação permanente, diferente era do Purgatório, lugar de transição para o Céu onde os bem-aventurados podiam usufruir o eterno gozo, à mão direita do Criador. 

 

PRIMEIRA PARTE

 

Naquela tenra idade, tudo aquilo se me afigurava muito arrumadinho, um lugar para cada coisa, para cada pecador, para cada pessoa, umas mais afortunadas do que as outras, muito a condizer com o mundo real que me cercava, de pastores, lavradores, assalariados, proprietários, cabaneiros, professores e clérigos, analfabetos, letrados e assim-assim, vivendo cada um segundo a sorte que Deus lhes deu, cada qual comendo o pão que Deus abençoou e multiplicou ou, então, o pão que o Diabo amassou com suor e lágrimas.

À medida que fui crescendo e discernindo (quem pode exigir discernimento teológico e escatológico a uma criança?) todo aquele edifício catequético, saltou desse outro mundo para este, tomou o aspecto de um solar, de um palácio, de um castelo, andares vários, poltronas, tapeçarias, escadas em caracol, subindo e descendo, aposentos diversos destinados aos donos e donas,  senhores e senhoras de ramificada e frondosa árvore genealógica, nobres de estirpe, brasões de pedra incrustados nas fachadas, brasões de ouro exibidos nos anéis, papas e bispos, amantes e amásias, conjunto de inquilinos, uns gozando de todos os privilégios, outros vivendo ociosos à sombra deles, brocados dourados e púrpuras avinhadas, flamejando poder, riqueza e soberba, mausoléus de mármore,  «é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino do céu» e outros, campa rasa sem nome,  plebeus anónimos, condenados a levar a vida sustentando-os e sustentando-se, miséria coberta de burel e de linho, tendo por morada tugúrios e choupanas «felizes os pobres de espírito porque deles será o reino do céu».

 Invisíveis, o Inferno, o Purgatório e o Paraíso proféticos e poéticos, deixaram definitivamente os contornos abstractos que ocupavam na minha mente infantil e inquieta (há mentes que nunca se inquietam e tudo aceitam sem nada questionar)  para se tornarem visíveis, reais, concretos e  palpáveis aos olhos do meu discernimento e das minhas emoções e afectos. Afinal, as almas condenadas, remíveis e bem-aventuradas, eram e são os protagonistas da Tragédia Humana, da Divina Comédia, dramas e farsas, tragédias e comédias,  vidas passadas, mortas, ressuscitadas, vidas vivas, aquelas que me rodeiam, que caminham ao meu lado, que comigo se cruzam, que me dão sinceras palmadas nas costas ou me dirigem angélicos sorrisos de mistura com o oculto desejo de me verem no inferno, virtudes e defeitos humanos, gente sem terra, possidentes, deserdados, cevados, famélicos, felizes e infelizes, quantos deles desatentos à avisada sabedoria popular de que “cá se fazem cá se pagam”. A sentença é bíblica: Iavé disse a Adão: “comerás o pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra, de que foste tomado, já que tu és  pó e em  pó te hás de tornar”. (Gen: 3,19)

E errada estava e está a atitude dos adultos, pais, professores e educadores que, à revelia de toda e qualquer corrente psico-pedagógica, não levava nem leva em conta a idade das crianças no acto educativo. Aos seus medos atávicos e naturais juntavam-se, dramaticamente, os medos culturais domésticos - olha a coca, olha a cadeia, olha o bicheiro, olha a bruxa, olha o lobisomem, olha o fogo eterno - medos que, depois de interiorizados, qual chip incrustado nos neurónios, bem difíceis se tornam de exorcizar. E os exorcistas (hoje são raros, mas já foram muitos) com os medos governam, com os medos se governam.  

Catecismos e literaturas afins, imbuídas de doutrinas metafísico-teológicas e escatológicas, encarregam-se de meter no inferno as criancinhas de tenra idade, encarregam-se de lhes mostrar esse lugar sinistro a abarrotar de demónios, forquilha na mão a espicaçar as almas pecadoras, danadas, condenadas.

Dotadas de pensamento concreto, incapazes de entenderem uma alegoria – para uma criança, uma fogueira é sempre uma fogueira – quantas, na idade adulta, se libertaram da prova de fogo a que foram submetidas na idade da inocência e da sem razão? Quantas, na idade do discernimento, por cristalização moral ou comodismo mental, se deram ao trabalho de cotejarem o “verbo” da poesia, da literatura, dos teólogos  e catequistas com  o revelado “verbo” evangelista? Quantas?

Não me desarrume cá a minha estante - retorquiu-me, um dia, um fervoroso crente, quando lhe agitei alguns cristais que tinha acantonados no cérebro, desde criança.

Para um exercício de reflexão - «A Grécia conquistada, conquistou Roma conquistadora», a Grécia conquistou o rude Lácio “pelos costumes, pela filosofia e onde entra a filosofia, saem os deuses” (Ricardo, 2002:3) carreemos para aqui os objectivos expressos no Catecismo Nacional, editado na década de 50 do século XX, com a chancela do Secretariado Nacional de Catequese, Paço de S. Vicente de Fora, em Lisboa, primeiro volume:

O presente Catecismo vem dar cumprimento a um voto do Concílio Plenário. É destinado a todas as crianças de Portugal, que devem fazer a sua primeira Comunhão à roda dos 7 anos (como desejava São Pio X) a fim de despertar já nos corações infantis uma autêntica vida cristã.

Foi para facilitar o trabalho educativo nas Famílias, nas Catequeses e nas Escolas – a quantos são responsáveis pela alta missão de fazer desabrochar na alma infantil a virtude e a santidade – que este Catecismo se elaborou, por iniciativa do Venerando Episcopado.

Espera-se que o zelo de todos os educadores cristãos faça valorizar o presente texto oficial, cujas lições se acham ligadas ao Tempo Litúrgico (de fins de Outubro a maio; as lições marcadas – A, servem para melhor permitir essa ligação, hipótese duma aula semanal)

Ensinando, cuide-se da formação cristã da criança; atenda-se às condições várias da sua preparação cristã e desenvolvimento; faça-se com que ela compreenda toda a doutrina, a ame e aplique à sua vida; procure-se que retenha de memória o que deve reter – e consequentemente, se prepare de modo a poder já confessar-se e comungar pelo Tempo Pascal.

Na festa de Nª  Sª de Rosário aos 7 de Outubro de 1953

Ass.  M.Cardeal Patriarca

Didacticamente divido em lições muito bem ilustradas (uma imagem vale por mil palavras)  é na 5ª lição que a criança toma contacto com o mundo maniqueísta dos bons e dos maus que Deus criou, bem patente no Acto de Fé, muito divulgado exactamente cento e dez anos antes:  “creio ...que premiais os bons com glória eterna no céu e castigais os maus com penas eternas no inferno”.(Jorge, 1843:131)

Assim:

“Deus não criou só os homens; criou também os anjos, para o amarem, servirem e serem felizes (...) Alguns anjos revoltaram-se contra Deus! Tornaram-se maus e Deus castigou-os com o Inferno. São os Demónio, que nos querem fazer mal” (Jorge, 1843:7).

Na 23ª lição as crianças ficam a saber que Jesus “subiu ao Céu” e é de lá que “olha por nós e tem um lugar preparado para todos os que forem bons e ao morrer, tiverem Deus na sua alma”. (Jorge, 1843:28)

Segue-se imediatamente uma proposta de reza com os seguintes dizeres:

“O meu Jesus, perdoai-nos/Livrai-nos do fogo do Inferno”.

E, logo depois, impressa a tinta encarnada, uma pergunta, seguida da correspondente resposta:

P. Para onde vão as almas dos que morrem?

R. As almas dos que morrem vão para o Céu, se eles morrerem na graça de Deus; e vão para o Inferno, se eles morrerem em pecado mortal” .(Jorge, 1843:28)

É tudo. Portas-te bem, tens lugar no Céu. Portas-te mal, lá te espera a fogueira   do Inferno. Vais para um lado ou para o outro. A escolha é tua.

Ora quem vai suposto é sempre que vai para algum lado, logo, aos olhos de uma criança, Inferno e o Paraíso são sítios, são lugares verdadeiros  destinados a receber os maus e os bons, conforme o seu comportamento. (in “Lendas de Cá Coisas do Além” publicado em 2004)

 

SEGUNDA PARTE

 

«Contígua à Cerca de Dentro, pelo lado nascente, ficava a Cerca de Fora, propriedade do mesmo senhor. Igualmente vedada com muros de granito trabalhado, igualmente com portão de cantaria coroado com o brasão da família.

O capelão não falou nada sobre a tal cerca. Ele sabia, através do confessionário, que era ali o escondidinho onde o Diabo se vingava da guerra que lhe faziam nos seminários, púlpitos e lares cristãos, sempre que fazia prevalecer a prática das leis da natureza contra os valores da educação e da moral preconizadas por uma sociedade preocupada em capar as tendências e potencialidades que Deus pôs em toda a criatura no acto da concepção.

Ali, entre arbustos e sobre o chão acolchoado de folhagem, entre os odores de fieitos e madressilvas, longe dos atapetados círculos da filosofia e da ética, defendidos pelos teóricos da vida em sociedade, gente de todas as categorias sociais, às escondidas, despida de conceitos e preconceitos elaborados e compendiados em latim carolíngio ou gótico, engalfinham os princípios do SER e DEVER SER, combate que o Mafarrico, de rabo estendido, não deixava de explorar em seu proveito, cantando vitória e rindo-se à gargalhada do duplo rosto que cada indivíduo arrasta consigo na sociedade: o rosto social, metido na máscara moldada pelas instituições moralistas e o rosto natural e autêntico com que cada um nasceu.

Aliado da Natureza, o Diabo tem a vitória facilitada sobre os adversários que, através dos tempos, e sem grandes resultados contra si, tem sacado das espada feita de aço anti-natura. E isto, por mais que eles se gabem de serem os ganhadores de torneios e batalhas travadas ao longo de séculos, nas mais diversas circunstâncias.

O Mafarrico ria-se a bom rir com tudo isso, mas o que lhe dava mais gozo era ver os moralistas diplomados, seus adversários principais, pregarem as boas obras, por tudo quanto é sítio, e sabê-los seguidores indefectíveis das suas hostes, sabê-los cometer os pecados da carne e da usura, sabê-los fazer tudo o que condenavam que outros fizessem,  sabê-los cometer todo o tipo de atropelos aos princípios que propalavam. Ria-se de os fazer viver em contradição consigo próprios, de viverem a angústia de aparentarem uma coisa e serem outra, de serem o que não eram, de serem seus hóspedes antes mesmo de lhes abrir as portas do Inferno. Apresentarem-se ao mundo com o rosto da santidade e terem a alma chagada que nem Lázaro tinha o corpo»  (in «Julgamento», A.P.C.. pp 107/107)

TECEIRA PARTE

Continuando.Também em forma de diálogo se nos apresenta o ensino da doutrina cristã, no livro de bolso “A Doutrina Christã, Ordenada à Maneira de Diálogo Para Ensinar os Meninos”, do P. Marcos Jorge, Doutor em Teologia, edição acrescentada e de novo emendada pelo P. Inácio Martins, Doutor Teólogo, dada à estampa em Lisboa no ano de 1843. Vejamos este excerto respeitando a ortografia da época.

Reportando-se aos “artigos da fé” pergunta o mestre ao discípulo:

Mestre - E como entendes o quarto: Desceo aos infernos, e tirou as almas dos Santos Padres que lá estavão?

Discípulo - Entendo: que Christo, Nosso Senhor, depois de espirar na Cruz, deceo sua alma Santíssima aos infernos e tirou as almas dos Santos Padres que lá estavão.

Mestre - Como dizeis infernos? Ha mais de um inferno?

Discípulo -  Mestre, inferno onde estão os demónios, e todos os que morrem em pecado mortal, não há mais que hum; porém acima deste há outros lugares, que também chamão infernos; o primeiro he o Purgatório, onde vão as almas dos que morrem em graça, para acabar de satisfazer por seus pecados o que cá não fizeram, para depois irem à Glória. O segundo era o Limbo, que chamavão seio de Abraão e deste lugar tirou Christo Nosso Senhor as almas dos Santos Padres e de todos os Justos  que nelle estavão” (Jorge:49-50)

Mais de um século separam estas duas edições. E tal como o fogueiro alimenta a fornalha para manter o combóio em andamento, conduzindo, assim, os passageiros ao destino desejado, também os profetas, os poetas e os teólogos, atormentados com a camoniana Ilha dos Amores, olhando à conveniência do seu múnus, mantêm aceso o fogo eterno, regalados com os infernos de Virgílio, de Dante e outros que tais de igual imaginação delirante.

Mas a par dos catecismos, não falta literatura avulsa que persiga os mesmos objectivos. É o caso do livro que tem o título  “Pensamentos Cristãos” e subtítulo “Para todos os dias do mês”, edição de 1993, com chancela da Editorial Missões.

A primeira edição desta obra remonta a 1674. Nas suas últimas páginas, o tradutor diz que, feito o trabalho, “acabo de concluir que o seu conteúdo é tão actual hoje como o seria há 318 anos, porque a doutrina é imutável, embora por vezes possam surgir maneiras novas de a apresentar. O certo é que a essência, essa nunca muda, como não pode mudar o Evangelho” (Santos, 1993:108) 

E que acha atirar para a fogueira do inferno o autor deste livro, cuja versão francesa é do Padre Domingos Bohurs da Companhia de Jesus? Cito:

“1 – Que horror e espanto teríamos nós, se pudéssemos ouvir os gritos e os lamentos horríveis dos condenados. Eles suspiram, gemem, urram como bestas ferozes no meio das chamas. Eles se acusam dos seus pecados, coram-nos e detestam-nos, mas já é tarde. Porque as suas lágrimas não servem senão para avivar mais o fogo que os está sempre abrasando sem os consumir. Oh, penitência de condenados, quão rigorosa és, mas também quão inútil!

2 – O não haver de jamais ver Deus; o estar sempre ardendo num fogo, do qual o nosso é como uma sombra; o estar juntamente padecendo outras várias espécies de penas sem consolação alguma, sem nenhum alívio; o ter sempre diante dos olhos os demónios, e dentro do coração a raia e o desespero: Oh, que vida!

3 – Estarão os infelizes enfurecendo-se sempre por terem tido tantas ocasiões de salvar-se, e terem-nas desperdiçado. Mas nada os afligirá tanto como o não poderem esquecer-se nunca de terem perdido a Deus para sempre, por mera culpa sua” (Santos, 1993:28-29)

E convém lembrar outros textos que, sob a forma de livro, opúsculos ou artigos dispersos,  são bem a marca das mentalidades e do tempo que os viu emergir e assentar praça no mundo, visando manter acesa a fornalha do inferno ou, como acontece no tempo que passa, pequenas gotas de orvalho atiradas para cima das labaredas.

No primeiro caso temos a “Missão Abreviada”. Livro tão espalhado nas aldeias como o escalracho em solo lavradio, ele é mais uma acha atirada à fogueira. E tal como em pequenino me deixei conduzir ingenuamente pela mão dogmática e analfabeta da catequista que sabia a doutrina de cor e salteada, parceira do sacristão, também semi-analfabeto, que, no momento próprio de ajudar à missa, na sua qualidade de ministro, desbobinava:

“Confiteor  Deo omnipotenti, Beatae Mariae semper Virgini, Beato Michaeli Archangelo, Beato Joanni Baptistae, Sanctis Apostolis Petro & Paulo, omnibus Sanctis & tibi Pater: quia peccavi nimis cogitatione, verbo & opere: mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa. Ideo precor Beatam Mariam semper Virgem, Beatum Michaelem Archangelum, Beatum Joanem Baptistam, Sanctos Apostolos Petrum & Paulum, omnes Sanctos & te Pater orare pro me ad Dominm Deum nostrum”,

Significante sem significado numa memória bem treinada, sendo mais inteligível, para ambos, para toda a comunidade aldeã, a lengalenga da neve e da formiga: ó neve, tu és tão forte que meu pé prendes? Mais forte é o sol que me derrete; ó sol, tu és tão forte que derretes a neve e a neve meu pé prende? Mais forte é a nuvem que me cobre; ó nuvem tu és tão forte, cobres o sol, o sol derrete a neve e a neve meu pé prende; mais forte é o vento que me toca; ó vento tu és tão forte, tocas a nuvem, a nuvem cobre o sol, o sol derrete a neve e a neve meu pé prende...confiante, dizia eu, na mão dogmática e analfabeta da catequista, enquanto criança, eis-me, porém, sénior, levado pela mão aberta e crítica do Padre Mário Oliveira até ao inferno do Pe. Manuel José Gonçalves Couto.

Mário Oliveira deita mão  ao livro escrito por aquele sacerdote (1819-1897), muito lido, editado e reeditado no século XIX e primeiras décadas do século XX, reeditado novamente no ano de 1995 pela Comissão de Festas da freguesia de Telões, concelho de Chaves, e em “Fátima Nunca Mais” e divulga a infernal descrição do Padre Couto.

O Inferno é ali descrito como um “lugar situado no centro da Terra, é uma caverna profundíssima cheia de escuridão, de tristeza e horror; uma caverna cheia de labaredas de fogo e de nuvens de espesso fumo. Lá são atormentados os pecadores na companhia dos demónios; lá estão bramindo e uivando como cães danados, proferindo terríveis blasfémias contra Deus. Lá são atormentados os pecadores com a pena de dano, isto é, por terem perdido tantos e tão grandes bens que poderiam alcançar (...)”

 Lugar de ais, uis, sofrimento e lamentações, como teria sido bom ter dado ouvidos aos avisos que apelavam ao desapego dos bens terrenos, à penitência e resignação: 

Infeliz de mim, que fui um louco e um insensato! De que me aproveitaram as riquezas e os prazeres do mundo? De que me aproveitaram os regalos e os divertimentos? De que me serviram os amigos e as amizades? Tudo se dissipou como fumo; tudo desapareceu como sombra; tudo finalmente, foi loucura e vaidade, porque agora me vejo com tudo perdido e condenado! Oh! Quão grande foi a minha cegueira!

Pois é. Todos aqueles que se atreverem a usufruir os prazeres da vida serão atirados pelos demónios para camas de fogo, onde, por toda a eternidade, serão atormentados “não respirando senão fogo, não tocando senão fogo, não sentindo senão fogo, não comendo senão  fogo, não bebendo senão fogo... De todo ficarão convertidos em fogo; nos olhos, nos ouvidos, na língua, na garganta, no peito, no coração, nas entranhas, nos pés, nas mãos, finalmente, em tudo fogo; e então um fogo, não como este que na Terra vemos, mas sim um fogo escuro, fétido e abrasador; ainda mais horroroso que o do metal derretido; é um tal fogo que com as suas línguas ata e prende os membros dos condenados, como uma serpente com as suas roscas; é um fogo que faz um tal ruído, como se fora uma tempestade de furiosos ventos (...)

Além disto, os pecadores do Inferno padecem todos os tormentos e todos eternos, todos em sumo grau e sem esperança de alívio. Lá no Inferno cada sentido tem seu próprio tormento: esses olhos lascivos e desonestos lá são atormentados com a visão horrível dos demónios; esses ouvidos, que se empregaram em ouvir as murmurações, as palavras torpes e desonestas lá são atormentados com perpétuas maldições, blasfémias e alaridos; o gosto, que se regalava com manjares proibidos, lá é atormentado da sede e da fome; essa língua maldita, que rogava pragas que fazia juras, que proferia maldições e que murmurava, lá é atormentada com fel de dragões.(...)

 Que me dizes pecador? Queres uma sorte destas lá na eternidade? (cit. Oliveira, 1999:169-177):

QUARTA PARTE

Continuando. Irra! Que sufoco! É preciso ter fôlego. Que quadro! Que cores tão quentes! Que teólogo dos nossos dias porá nesta pintura, nesta obra de arte, a sua assinatura? Que teólogo, que confessor, que pregador, que catequista, pós Vaticano II, comungará da mente ardente do Padre Couto? Mente que mente descaradamente? Ou acreditaria ele, sinceramente, naquilo que escrevia? Qual deles se sentirá à-vontade para levar até aos crentes dos nosso dias  aquele inferno, aquele “fogo inextinguível” que marcou crianças indefesas, povo adulto, povo ignaro e culto, sem  que se sinta fulminado de vergonha? Sem que veja diminuída a sua probidade intelectual e teológica?

Imagine-se esta visão do inferno e todo o seu colorido vertidos num sermão colocado na boca de um pregador, um pregador daqueles que até faz chorar as pedras, sermão lançado do alto de um qualquer púlpito de sé, catedral, igreja ou  capela de romagem. Imagine-se tal visão a entrar nos ouvidos das crianças, dos adultos e dos velhos analfabetos ou de poucas letras. Fiéis e ingénuos, crédulos na palavra de quem se assume representante de Deus na Terra, de quem é suposto falar verdade sobre as coisas do além... o  efeito é bem conhecido, é duradouro, atravessa gerações, está aqui, ali, além...e é verdade, foi o pregador que disse isso, na festa tal, sermão tal, dia tal...

E foi desta visão do inferno, exaustivamente desenvolvida, tanto quanto o permitiu a lupa e imaginação sádica do seu autor, mais da fotografia que desse lugar  Nª Sª  de Fátima mostrou na Cova da Iria à pastorinha Lúcia, visão que tanto atormentou a pequenita Jacinta, que eu próprio partilhei em menino sem o saber e, sem o saber também, a catequista que, de cor e salteado, tão bem isso ensinava, à força de tanto ouvir pregar, dizer e rezar...

Mas  Padre Mário Oliveira, amigo de cotejar os textos e neles ver quem influenciou quem, na mira de identificar o estafeta que passou o testemunho, transcreve também, no seu livro parte da 3ª Memória da Irmã Lúcia relativa à  visão do Inferno.

Dele me socorro agora, ciente de que ele me perdoará, que não será daqueles que hipocritamente me dirigem sorrisos, me dão palmadinhas nas costas e falando para os seus botões me mandam para o inferno.

“Bem, o segredo consta de três coisas distintas, duas das quais vou revelar. A primeira foi, pois, a vista do Inferno!

Nossa Senhora mostrou-nos um grande mar de fogo que parecia estar  debaixo da Terra. Mergulhados em esse fogo, os demónios e as almas, como se fossem brasas transparentes e ou bronzeadas, com forma humana, que flutuavam no incêndio levadas pelas chamas que delas mesmas saíam juntamente com nuvens de fumo, caindo para todos os lados, semelhantes ao cair das faúlhas em os grandes incêndios, sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e desespero que horrorizava e fazia estremecer de pavor. Os demónios distinguiam-se por formas horríveis e asquerosas de animais espantosos  e desconhecidos, mas transparentes e negros. Esta vista foi um momento, e graças à nossa boa Mãe do Céu, que antes nos tinha prevenido com a promessa de nos levar para o Céu (na primeira aparição)! Se assim não fosse, creio que teríamos morrido de susto e pavor (...)” (cit. Oliveira, 1999:173-178)

 Inferno? Não deixeis vir a mim as criancinhas.

Essa visão do inferno, entranhada na alma ocidental por via da família, do ensino e da cultura, não é, seguramente, a mesma de que fala o mais recente Catecismo da Igreja Católica. Como lugar sinistro, retratado e visto por profetas, poetas, teólogos, visionários, bruxas, bruxos, pastorinhos e beatos, lugar descrito até à exaustão, tal alegoria parece esvair-se em fumo a partir do Concílio Vaticano II. As labaredas flamejantes das descrições patéticas, sádicas e poéticas que acabámos de transcrever deixaram de se enroscar como serpentes nas almas penadas tornadas danadas. Adeus sítio. Adeus lugar. Adeus fogo eterno. Adeus fogo inextinguível. Chegou o limiar do século XXI e com ele o tempo dos responsáveis eclesiásticos dizerem e garantirem:  «o que se designa pela palavra “Inferno”» (sic) é tão somente o  «estado de auto-exclusão definitiva da comunhão com Deus e com os bem-aventurados» (sic). (Catecismo,1993:233)

A imprensa diz-nos que “recentemente, João Paulo II, afirmara que também o céu e o inferno não existem enquanto “locais físicos” – nem o céu é o paraíso das nuvens, nem o inferno a aterradora fornalha” (Jornal de Notícias”, de 99-08.08)

É uma outra “visão” a que agora emerge, que agora se apresenta. Mudam-se os tempos, mudam-se a vontades.

Frei Manuel da Luz, no conceituado jornal diocesano “Voz de Lamego” escreve que “a Igreja do Vaticano II está a léguas da Igreja intolerante da Inquisição. A missa em português está a milhas da monótona missa em latim... Teillard de Chardin, ainda antes do Vaticano II disse isto: Jesus falou do inferno 17 vezes; no entanto, proíbe-nos de pensar sequer que alguém lá caiu.” (Luz, 2002:16)

Assim tão simples? Pum! Tiro e queda? Não. Encasquetada na cabeça dos crentes há séculos e durante séculos a fogueira atiçada pela literatura doutrinária, puf, a cultura do inferno desaparece assim, sem mais nem menos, de um momento para o outro? Andou-se mais de 2000 anos (até dois mil chegarás, de dois mil não passarás) a propagar uma escatologia que tem no inferno um dos seus pilares e este edifício, qual templo de Salomão, ruiu assim de um dia para o outro ao gosto de um qualquer Sansão dos tempos modernos? Não. Nem pensar nisso!

Rui Marques Vaz, de Setúbal, atento aos tempos e às novidades que sobre a matéria a  imprensa vai divulgando, discorda do esboroar do edifício infernal e, por isso, fez chegar o som da sua trombeta ao “Correio da Manhã”. Que não senhor. “As interpretações erróneas a que se prestou alguma comunicação social quanto a uma alocução do Santo Padre, inserida no âmbito das Catequeses do Romano Pontífice proferidas nas “Audiências Gerais de Quarta-feira”, excedeu  os limites da razoabilidade pelas ilações inimagináveis que se retiram quando ao ensinamento da Igreja sobre os “Novíssimos” do homem (a Morte, o Juízo, o Inferno, o Paraíso), concretamente sobre o Inferno, apenas porque Sua Santidade afirmou “ipsis verbis” e tão somente que o Inferno não era um local físico.

(...)

“Vós, que entrais, abandonai toda a esperança” Se assim o disse Dante Alighieri na “Divina Comédia” em nada diminui o impacto tremendo das suas palavras perante a alocução do Santo Padre”...” (Vaz, 2000:23)

QUINTA PARTE

DANTEÉ. O Inferno existe. Dante Alghieri  dixit. Podia lá deixar de ser? Podia lá ser o contrário? Como é que um quadro tão necessário, quadro clássico de museu,  moldura de fogo, fundo de lava, tição aceso, gritos, lamentos, uivos, horror, tristeza, urros, tormentos, dor, arruídos, pavor, maldições, alaridos, sede, fome, gemidos, cânticos danados, malfadados, medos, protagonistas gregos, romanos, cristãos, hereges, ateus, pagãos, bruxos, bruxas, magos, adivinhos, jovens esposas, mancebos, anciãos experimentados pela vida, tenras virgens, guerreiros feridos que chegam em multidão de todos os lados em torno do fosso por Ulisses cavado, elevando um prodigioso clamor (Homero,1990:118-120) 

Multidão que avança em vagas compactas para a margem do rio serpenteado, mães, esposos, heróis magnânimos, crianças, donzelas, mancebos, tantos, tantos, todos a pedirem e a estenderem as mãos na sua avidez de alcançar a outra margem, Arconte, barqueiro renitente, Estige, rio de nove meandros (Virgílio,1995:98-116) novenas, promessas de nove dias, nove(*)voltas ao templo, à igreja, à ermida, arrais obedientes, entra, entra e remarás/não percamos mais marés...ora vai lá embarcar/que me estás importunando...imbarquemini in barco meo...quem morre por Jesus Cristo/não vai em tal barca como essa.(Vicente, 1997:72-92) cratera, cone, funil, furacão a perfurar a terra, cogumelo atómico, Nagasaki, Yroschima, Nova Iorque, torres gémeas derrubadas, terrorismo marginal, terrorismo estatal, terrorismo imperial, Bali, Bali, Israel, Palestina, faixa de Gaza, Jerusalém, Jerusalém, Vale de Ge-Ennom, Bagdade, poço de petróleo em chamas, pião das nicas, baraço, serpente enrolada, escadas em caracol a afundarem-se no abismo, tapete rolante a deixar a luz do sol, suspiros, prantos, gemidos fundos, línguas diversas, blasfémias horrorosas, palavras doloridas, inflexões iradas  (Dante, 1994:19) tudo, tudo e mais enormes pedras negras, terras nuas, cinzas ainda quentes, buracos como vulcões adormecidos mas ainda fumegantes, (Meneres, 1995:47) isso e muitos  círculos, fossos, bolgias e lá bem no fundo a  cidade de Dite  (Braga, 1958:7-34) quadro assim, quente, secular, barroco, brasonado, talha dourada, densa, folha recurvada, tanta gente, tanto ai, tanto ui doridos, podia lá ser apeado, num instante, com respigos e alaridos de imprensa – a palavra é fogo, a palavra é dinamite - da galeria dos iniciados, dos convertidos?

Existe, pois, o inferno. Dante Alghieri  o disse na Divina Comédia, mas não sem primeiro ter consultado Homero e Virgílio, aqueles que, antes dele, desceram ao subterrâneo mundo dos mortos para com os mortos dialogarem. Aqueles que, com Jerónimo Boch, forneceram os ingredientes pictóricos que viriam a dar cor, luz, sombra, alma e vida a todos os quadros elaborados pelos posteriores criadores de infernos, purgatórios, paraísos e barcos de passagem...grande cousa é oração/purga ao longo da ribeira/segura de danação/terás angústia e paixão/e tormento em gram maneira/isto até que o senhor queira/que te passemos o rio/será tua dor lastimeira/como ardendo em gram brasio/ de fogueira. (Gil Vicente, Auto (da barca) do Purgatório) tão bem pintados que,  comparados com os revelados textos bíblicos (cf. Lev, 26,14-45; Dt 28,15-45; Isaías, 33:14; Is,66,24; Sofonias,3:8, Mateus,3:11-12; Mateus 5,29; Mateus,25:40-46, Marcos,9:42-49; Lucas,3:16-17, Tessalon.1:7-8-9, Judas, 6-7-8, João,14:9-10-11), reduzem estes a meras, descoloridas, ingénuas, primárias e inseguras pinceladas naif. De facto, descobrir o inferno nas Sagradas Escrituras,  tal qual o viram, descreveram e pintaram poetas imaginativos, teólogos demagogos e pintores delirantes, é, seguramente, um trabalho infernal.

E como eruditamente anotou Pepe Rodriguez, autor que se debruçou recentemente sobre este assunto, “se lermos o capítulo do Levítico (Lev 26, 14-45) e o capítulo 28 do Deuteronómio (Dt 28,15-45) onde são descritas em pormenor todas as recompensas e castigos que Deus destina respectivamente aos que cumprem e aos que não cumprem os seus mandamentos (...) não depararemos com a mais pequena referência a um qualquer inferno (nem aliás a qualquer céu) onde uma eternidade de sofrimento estivesse destinada ao pecador” (Rodriguez, 2001:326) A referência  feita à Geheenna ignis, ou geena de fogo, que aparece nos textos do Novo Testamento (Mt 5,22,29) o fogo eterno ou ignis inextinguibilies (Mc, 9, 43-49) “é bem provável, no entanto, que a palavra geena – à qual na tradução latina da Bíblia se acrescenta o aposto “o fogo inextinguível”, ausente do original - seja apenas uma metáfora baseada nos amontoados de lixo que, no tempo de Jesus, ardiam no vale de Ge-Ennom, nos subúrbios de Jerusalém” (Rodriguez, 2001: 327)

E se nos primeiros cinco séculos do cristianismo, os doutores da Igreja, Orígenes, Gregório de Niza, Dídimo, Diodoro, Teodoro de Mapsuséstia ou Jerónimo, defenderam a existência de penas do inferno a título temporário, é no Concílio de Constantinopla (em 543) que se “definiu a natureza eterna e definitiva dos sofrimentos do inferno” (Rodriguez, 2001:328) ideia que, a partir daí,  alimentou a pastoral do medo expressa nalguns dos textos que arrolámos neste capítulo e que nos serviram para discorrer sobre o inferno e seu  habitante mor.

Mas o tempo passa. E ainda que a apocatástasis de Orígenes, por conveniência de magistério,  tenha sido remetida para as calendas gregas, eis que, tal como o afloramento rochoso que se mantém subterrado durante séculos, quase despercebido face à massa rochosa dominante,  ela aí está, mais uma vez,  a mostrar “a incompatibilidade do sofrimento eterno da criatura com a vitória definitiva de Cristo sobre todo o mal e a restauração n’Ele de toda a criação” (Gopegui, 2002:207-222)

Desaparecido o inferno, recuperado será o Diabo, o Anjo caído,  já que “(...) a apocatástasis será a única maneira de salvar o dado da fé da existência de um só Deus criador de todas as criaturas, frente às doutrinas maniqueístas que postulam um universo criado e dominado por dois princípios antagónicos: Deus e o Diabo” (Gopegui, 2002:207-222).

Palavra derivada do latim (infernus, a, um) significando “inferior, baixo, debaixo, infernal, do inferno” (Sousa, 1984:475), bem adequada ao mundo subterrâneo dos mortos descrito por Homero, Virgílio, Dante e tantos outros que os seguiram dotados de fértil imaginação - quem conta um conto, acrescenta um ponto -  que termo, que palavra virá, agora, enriquecer a nossa língua, que com pouca corrupção se julga que é latina? Que palavra surgirá adequada à nova visão catequística, posto que o «estado de autoexclusão definitiva da comunhão com Deus e com os bem-aventurados» não significa estar em lugar algum, num lugar “inferior,  num lugar baixo, ou estar debaixo ou decima  de qualquer coisa ou de alguém?

       O inferno, tal como foi pintado, visto, reproduzido, propagado durante séculos, parece ter chegado ao fim. O Diabo está prestes a ser recuperado. E sem Diabo para que serve o inferno?

Todavia, às bruxas, bruxos, curandeiros e adivinhos resta ainda uma grande margem de manobra. Há sempre quem transforme moinhos de vento em fantasmas. Há sempre quem tire proveito do medo do inferno. Há sempre terreno pronto a receber a semente que a ele se atira. 

(*)O número 9 já por mim muito dissecado no livro  “Mosteiro da Ermida” tem que se lhe diga. Ora veja-se:  a experiência que deu uma “nova vida” a Dante aconteceu, em 1274, quando ele tinha apenas 9 anos. Foi então que viu pela 1ª vez, também com 9 anos, Beatriz, a qual só viria a ver novamente ao fim de mais 9 anos, exactamente à nona hora do dia. Cf. –Daniel J.B. Boorstin, 1993,  “Os Criadores”, Gradiva, p.243. (Do meu livro “Lendas de Cá, Coisas do Além” publicado em 2004)

SEXTA  PARTE

No dia em que vão canonizar dois papas, prossigo e ponho fim ao número de artigos, cuja matéria está alojada, há alguns anos, no meu velho site. E, bem a propósito, vou ilustrar este último com o desenho que inicia a edição «Divina Comédia», (Edição Sá da Costa, 1958), livro de grande influência na descrição de todos os infernos que nos foram apresentados nos «catecismos» de infância. Continuando:

A imprensa diz-nos que «recentemente, João Paulo II, afirmara que também o céu e o inferno não existem enquanto «locais físicos» – nem o céu é o paraíso das nuvens, nem o inferno a aterradora fornalha» (Jornal de Notícias”, de 99-08.08)

Abro aqui um parêntese para lembrar os amigos que estou a repescar para o Facebook textos que publiquei, há tempos, no meu velho site. Continuando:

É uma outra «visão» a que agora se apresenta. Mudam-se os tempos, mudam-se a vontades. Frei Manuel da Luz, no conceituado jornal diocesano «Voz de Lamego» escreve que «a Igreja do Vaticano II está a léguas da Igreja intolerante da Inquisição. A missa em português está a milhas da monótona missa em latim. Teillard de Chardin, ainda antes do Vaticano II disse isto: Jesus falou do inferno 17 vezes; no entanto, proíbe-nos de pensar sequer que alguém lá caiu».

Assim tão simples? Tiro e queda? Encasquetada na cabeça dos crentes há séculos e durante séculos a fogueira atiçada pela literatura doutrinária, «puf,!» a cultura do Inferno desapareceu assim, sem mais nem menos, de um momento para o outro?

Rui Marques Vaz, de Setúbal, atento aos tempos e às novidades que sobre a matéria a imprensa vai divulgando, discorda do esboroar do edifício infernal e, por isso, fez chegar o som da sua trombeta ao «Correio da Manhã». Que não senhor. «As interpretações erróneas a que se prestou alguma comunicação social quanto a uma alocução do Santo Padre, inserida no âmbito das Catequeses do Romano Pontífice proferidas nas «Audiências Gerais de Quarta-feira», excedeu os limites da razoabilidade pelas ilações inimagináveis que se retiram quando ao ensinamento da Igreja sobre os «Novíssimos» do homem (a Morte, o Juízo, o Inferno, o Paraíso), concretamente sobre o Inferno, apenas porque Sua Santidade afirmou «ipsis verbis», e tão somente, que o Inferno não era um local físico. (...) «Vós, que entrais, abandonai toda a esperança» Se assim o disse Dante Alighieri na «Divina Comédia» em nada diminui o impacto tremendo das suas palavras perante a alocução do Santo Padre», (Vaz, 2000:23)

É. O Inferno existe. Dante Alghieri «dixit». Podia lá deixar de ser? Podia ser o contrário? Como é que um quadro tão necessário, moldura de fogo, fundo de brasas, tição aceso, gritos, lamentos, uivos, horror, tristeza, urros, tormentos, dor, blasfémias, pavor, arruídos, maldições, alaridos, sede, fome, gemidos, cânticos danados, malfadados, «rio de nove meandros» sem novenas, arrais obedientes, «entra, entra e remarás/não percamos mais marés...ora vai lá embarcar/que me estás importunando...imbarquemini in barco meo...quem morre por Jesus Cristo/não vai em tal barca como essa» cratera em cone, pião das nicas, baraço, serpente enrolada, escadas em caracol a deixar o mundo, «círculos, fossos, bolgias» e lá bem no fundo «a cidade de Dite», um quadro assim, barroco, brasonado, talha dourada, densa, folha recorvada, podia lá ser apeado com alaridos de imprensa – a palavra é fogo, a palavra é dinamite - da galeria dos iniciados, dos convertidos? 

Existe, pois, o Inferno. Dante Alghieri o disse na «Comédia» só mais tarde apelidada de Divina. Fê-lo, pois, na Divina Comédia, mas não sem primeiro ter consultado Homero e Virgílio, aqueles que, antes dele, desceram ao subterrâneo mundo dos mortos. Aqueles que, com Jerónimo Boch, forneceram os ingredientes pictóricos que viriam a dar cor, luz, sombra, cheiro e alma a todos os quadros sem moldura elaborados pelos posteriores criadores de infernos, purgatórios, paraísos e barcos de passagem «ora venha ho caro aree» Quadros que, comparados com os «revelados» textos bíblicos (cf. Isaías, 33:14, Sofonias,3:8, Mateus,3:11-12, Mateus,25:40-46, Marcos,9:42-43-44-45-46-44-48, Lucas,3:16-17, Tessalon.1:7-8-9, Judas, 6-7-8, João,14:9-10-11), reduzem estes a meras, descoloridas e ingénuas pinceladas «naif». De facto, descobrir o Inferno nas Sagradas Escrituras, tal qual o viram, descreveram e pintaram poetas imaginativos, teólogos interesseiros e pintores delirantes, é, seguramente, um trabalho infernal. 

Palavra derivada do latim (infernus, a, um) significando «inferior, baixo, debaixo, infernal, do inferno» (Sousa, 1984:475), bem adequada ao mundo subterrâneo dos mortos descrito por Homero, Virgílio, Dante e tantos outros que os seguiram dotados de fértil imaginação - quem conta um conto, acrescenta um ponto - que termo, que palavra virá, agora, enriquecer a rica língua, que com pouca corrupção se julga que é latina, que palavra surgirá adequada à nova «visão catequística», posto que estar no «estado de auto-exclusão definitiva da comunhão com Deus e com os bem-aventurados» não significa estar num lugar «inferior» num lugar «baixo» ou estar «debaixo» de qualquer coisa ou de alguém?

FIM

 

NOTA: texto «postado» no Facebook em 27 de abril de 2014, recebeu os seguintes «gostos» e «comentários»:

13 Manuel Ferreira, Antonio Silva e 11 outras pessoas gostam disto

Comentários

27 de Abril de 2014 às 8:38 · Gosto · 

  Luisa Marçal Professor, bom dia! Estou de queixo caído...., isto não é um texto, uma nota, isto é uma grande viagem na história. Quanta envergadura?! Adorei!!! Deixe-me ir fazer café que eu tenho que ler isto outra vez. 27 de Abril de 2014 às 9:08 ·

  Abílio Pereira de Carvalho Grato pelo reconhecimento do trabalho, amiga Luisa. Muitas leituras, muita vontade no esclarecimento das coisas, alguma reflexão e poder de síntese suficiente para não cansar os amigos e leitores que, face às coisas do mundo, se não satisfaçam com um "amem".27 de Abril de 2014 às 9:57 ·

   Luisa Marçal Grata estou eu, Professor!Cem vidas não me chegariam para..., para..., olhe: para produzir algo como isto.A fazer lembrar a escrita de Aquilino Ribeiro... Concorda?Um bom dia para si! :) 27 de Abril de 2014 às 9:53 

·   Abílio Pereira de Carvalho AQUILINO? Estou a reler "O Homem da Nave" e só tenho pena que tenham metido numa igreja (dita Panteão) um revolucionário, um republicano, um anticlerical, por força dos valores literários que guiam os nossos políticos e intelectuais. Julgo que andarão bem os familiares de Salgueiro Maia, que a tal se opõem.27 de Abril de 2014 às 10:33 ·

  Luisa Marçal :) sempre acutilante! Mas não me respondeu ;)27 de Abril de 2014 às 10:38

·    Abílio Pereira de Carvalho Bem, a pergunta põe-me numa situação delicada. O mais que posso dizer-lhe é que na apresentação do meu livro "Julgamento" a responsável por essa tarefa disse que a "minha escrita lhe fazia lembrar Torga e Aquilino". Outras pessoas têm insistido nisso e outras o têm silenciado. Eu digo que piso o mesmo terreno, lido com as mesmas gentes, uso a mesma ferramenta, que é a Língua, só me falta o engenho e a arte. Mas se for ao meu site "www.trilhos-serranos.pt" encontrará um texto dividido em TRÊS parte com o título "O homem da Nave" e substítulo "Um conto que vos conto", no qual penso andar de mão dada com o Mestre. Dê uma espreitadela. Talvez goste. 27 de Abril de 2014 às 10:58 ·

   Luisa Marçal ... não me enganei : )Obrigada! Irei ver, sim! 27 de Abril de 2014 às 11:01 ·

     Elisa Camacho Admiro e aprecio tudo aquilo que escreves .Por isso, concordo sempre contigo .Obrigada.27 de Abril de 2014 às 15:24 ·

  Antonio Silva Muito complicado.Um abraço1 h

Ler 181 vezes
Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.