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terça, 15 março 2022 15:38

TETE-CHICOA

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TETE-CHICOA (1) FORMATADO

Quando decorre a GUERRA NA EUROPA, e os ucranianos dão mostras de serem uns autènticos heróis e patriotas, a baterem-se, com unhas e dentes, em defesa da terra natal,  lembro-me de daqueles nossos «heróis e patriotas» (às vezes mais aventureiros e oportunistas) que também dão corpo à nossa HISTÓRIA.  Já em crónicas anteriores, neste mesmo espaço,  me referi a Chicoa, terras de Tete, aludindo à minha estada lá, na condição de funcionário dos CTT, naquela frigideira de Moçambique.

Foi quando eu tinha 22 anos de idade. Mas hoje, com mais 60 dobrados em cima deles,  retorno lá na companhia de Henrique Galvão, um dos PORTUGUESES esquecidos, melhor direi, somente conhecido por ter assaltado o SANTA MARIA  e ter desviado um AVIÃO, sobrevoado  Lisboa, mostrando não estar de acordo com a política  do Salazar. 

Para o ter por companhia, tenho de botar mão ao «fascículo nº 14» da sua «RONDA DE ÁFRICA», edição do «Jornal de Notícias». Já historiei a vida do «Geraldo, sem Pavor», aquele guarda-fios que foi pioneiro, o primeiro funcionário dos CTT a instalar um telefone na Chicoa, o mesmo que eu iria substituir  muitos anos depois. Isto, certamente para agrado de todos os que, pioneiros, patriotas  e heróis ou aventureiros, por ali gastaram a sola das botas e sentiram a urticária do feijão-macado.   Assim:

 capa«A última figura da época, a que podemos chamar sebastianista, pois foi ainda o sopro heroico do rei Desejado que a animou, foi Estevão de Ataíde. A primeira figura da nova época foi Diogo Simões Madeira, certamente um dos mais curiosos e gloriosos tipos de Homem de Seiscentos, herói e administrador, com a fibra dos construtores de impérios — e fundador de Chicoa.

Como potentado em Sena e Tete, já os seus serviços e espantosa atividade haviam dado brado. Muito conhecedor do meio e das gentes, compreendera e fizera compreender que melhor se imporia explorando os desentendimentos constantes entre o Monomotapa e os régulos do seu império, de que tentando ataques frontais, em golpes de pura força.

E assim, aliado do Monomotapa, ao qual ajudava  e do qual se fazia temer, explorando o seu interesse e os seus receios, obteve, por doação, as famosas minas de prata da Chicova, como recompensa ou pagamento dos serviços prestados ao chefe gentio  (*).

As minas não apareceram — nada pelo menos permite supor que tivessem aparecido tais como a imaginação dos seus perseguidores as faziam — mas Chicova, lugar central do Velo d’Oiro, fundou-se.  Sensivelmente neste sítio, onde hoje se vê o posto administrativo, calmo e sonolento, e na outra margem do rio, em lugar militarmente propício, fortificado para o que desse e viesse  - e que não podia deixar de dar e de vir - construiu Diogo Simões os dois primeiros povoados destas paragens: Os fortes de S. Miguel e Santo António, dos quais já nada resta naturalmente.

Este Diogo Simões Madeira, cujo nome enche uma época, e do qual se apossariam os realizadores de filmes, se estes conhecessem as histórias aventurosas dos nossos sertões como conhecem os contos do Far-West americano, trepou ao cargo de governador interino da colónia e foi condecorado e muito recompensado pela sua teimosa perseguição no rasto da prata.

grupo-esquerdoAcreditaria ele que o metal existia nos montes de Chicoa? Serviu-se apenas de um pretexto para alimentar as suas ambições de mando e a sua índole de aventureiro? Tudo é possível. O certo é que, há quem afirme ter acabado mal.

Andrade Corvo nos seus «Estudos sobre as Províncias Ultramarinas», refere:

«Para que o apetite de possuir Chicova se avivasse no governo e nos governadores, Diogo Simões Madeira mandou a Lisboa alguma prata como sendo extraída das cobiçadas minas; e por esta forma chegou Madeira a ter interinamente o governo de Moçambique. Por fim descobriu-se o engano e o especulador foi até metido em processo, para de novo aparecer com as suas fantasiadas minas em 1619, sendo governador de Moçambique D. Nuno Álvares Pereira.

Em 1622 foi ordem de pôr termo aos trabalhos da conquista das minas; mas de novo, em 1623, foi Nuno da Cunha tentar o descobrimento das fantásticas minas, e de novo também foi perseguido o impostor Simões Madeira, que fugiu para o sertão».

A referência, até porque nem todos admitem o deslize do herói, não diminui porém a figura de Diogo Simões. São mais reais e comprovados os factos que o notabilizaram entre os grandes aventureiros dessa época — do que a imposturice que lhe atribuem.

Já nesse tempo havia, certamente, no Terreiro do Paço, exemplares daquela fauna que medra a abocanhar os que, empenhados no serviço do país, não têm tempo nem para lhes puxar as orelhas. Demais, muitos e notáveis, acreditaram cegamente nas riquezas argentinas de ChicoaO Padre Francisco de Avelar, contemporâneo de Diogo Madeira, dizia no seu relatório sobre as «Minas de prata da Etiópia»: «A quantidade que há nestas minas de prata afirmam os cafres naturais; e os Portugueses velhos e antigos que nestas partes vivem que é innumeravel e que he tisoiro que se não pode esgotar e segundoa opinião de muitos confinam com as minas de Angola donde se vê claro que são mais de 4OO legoas de Minas, e manda Sua Magestade  como convém pessoas praticas nesta matéria descubrirão mais do que se tem discuberto».

gripo direitoE enquanto a ideia de que havia prata na Chicoa e o propósito de a encontrar não  foram arrefecidos pelo Tempo — esta região bebeu sangue e suor de algumasgerações, e deu que falar.

Mas a prata?

A prata, como o oiro, não saíram senão em amostras das entranhas da terra. Negaram-se - embora nada permita afirmar categoricamente que não estejam lá. Nas terras revolvidas ficou adormecida a semente de uma nova ilusão, que outras gerações farão germinar.

Zambeze, pouco antes de Chicoa, na direção Tete-Zumbo, encontra-se mais uma vez com dificulda­des de trânsito. A região é muito movimentada e alterosa, com ondas de ter­reno que sobem a cerca de mil metros — e o rio teve que abrir caminho, cortar, rasgar o seu leito. Adelgaça-se outra vez e realiza, em corrida rumorejante de obstáculos, um percurso em que toda a navegação se torna impossível, mas que oferece em beleza o que lhe falta em comodidade.

É um passo muito diferente da garganta da Lupata, que, apesar das suas correntes, não impede a navegação. O leito aqui é mais áspero e desnivelado — e as águas ora se apressam, borbulhando em rápidos, ora sal­tam em cascatas, ora se despenham de altu­ras de catarata.

A este sistema de espetáculos, de jogos de água selvagens, chamavam os indígenas de Seiscentos, que se empregavam na nave­gação pelo Zambeze acima, a passagem (se passagem pode chamar-se a um troço em que não se passa) de Cahorabassa ou Cahoura-bassa. Significam estas palavras gentias «acabou o serviço», porque na verdade era ali, que mau grado dos patrões, o serviço dos remadores tinha que acabar.

O nome ainda hoje se mantém. Adotou-o a geografia — e oxalá não surja quem o altere para doirar a consagração de algum herói morto ou de algum ministro vivo.

Os ministros vivos são, especialmente, muito perigosos, neste capítulo.

As cataratas, rápidos, ou cascatas, de «Cahora-bassa são atualmente de difícil acesso, embora valham todas as dificuldades que custa alcançá-las. Mostram-se-nos em quase virgindade, sem caminhos profanos, nem miradoiros amaneirados, na sua beleza mais belos percursos de turismo sertanejo de Moçambique — e cada um terá, ao contemplar a série de quadros diferentes, sempre impressionantemente vivos e movimentados, a sensação viril dos descobridores. Amanhã, se a prata de Chicoa ou o oiro do Monomotapa, vierem a desencantar-se e a chamar para estas para­gens os homens civilizados do século XX, com as suas máquinas, os seus prazeres, o seu en­genho e os seus vícios elegantes — Cahoura- bassa terá hotel apalaçado, piscinas, retângulos de ténis, miradoiros, e será mais uma passagem do turismo elegante do Zambeze.

Entretanto não faria mal, mesmo sem prata nem oiro, que as organizações oficiais de turismo de Moçambique, abrissem cami­nho até lá e permitissem a alguns viajantes menos sertanejos, entrar na intimidade dos portentosos barrancos.

legendado

 

***

      De Chicoa até ao Zumbo, àparte a companhia do Zambeze, sempre fiel ao itine­rário, a viagem faz-se ainda mais solitária. Em compensação as aparições da fauna multiplicam-se: encontramos constantemente magníficas manadas de impalas, que exibem as graças habituais e sempre agra­dáveis de admirar. Os kudos surpreendem-se nas matas com frequência, na estrada abundam sinais frescos da passagem de elefantes, e, junto do rio, ouvimos os sopros dos hipopótamos.

Também aqui se pressente que a única indústria organizada — é a emigração. Num porto do Zambeze (Cizito) encon­tro, inabitado, mas não abandonado, o acampamento de um engajador rodesiano. Chamam «capitão» ao preto que toma conta da instalação.

(in «Ronda de África» de Henrique Galvão, «Fascículo nº14,» pp. 417/421)

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.