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quinta, 29 julho 2021 11:48

CASTRO DAIRE - ABASTECIMENTO DE ÁGUA - FONTES E MINAS

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MELHORAMENTOS LOCAIS

Como adenda ao que já publiquei no meu livro “IMPLANTAÇÃO DA REPÚBLICA EM CASTRO DAIRE - I”, editado pelo Município, em 2010 (feito “pro bono) e também às crónicas e vídeos que publiquei sobre a FONTE DA LAVANDEIRA, e, bem assim, ao texto que publiquei no meu site «trilhos serranos», em 2016, sobre o MONOGRAMA   - CM” - da FONTE DOS PEIXES, e, ainda, aos “acrescentos” que, neste ano de 2021, achei oportuno fazer sobre tudo o que havia publicado, relativo à localização primitiva da FONTE que viria a ser batizada com esse nome, com certidão de idade datada em 1921 (que abordarei mais abaixo, para os mais desatentos ou descuidados), aqui deixo hoje mais alguns apontamentos, que são o produto das investigações que tenho vindo a fazer sobre a HISTÓRIA LOCAL, ligados, exatamente, ao precioso líquido que parece nem todos avaliarem e salvaguardarem, como demonstra o desmazelo em que está votada a FONTE DA LAVANDEIRA e falta de SINALIZAÇÃO.

Afinal, qual foi o EXECUTIVO MUNICIPAL que lhe deu acesso pelo antigo caminho que levava aos BRAÇOS e a todo o VALE DO PAIVA? Terá, essa FONTE, tão pouca importância a ponto de nem sequer entrarem no «rol» das obras realizadas durante a sua vigência, como se vê no atual folheto de PROPAGANDA POLÍTICA do PARTIDO SOCIALISTA, destinado à «caça de votos» no próximo ato eleitoral? O acesso a essa FONTE  e o RESTAURO do PRELO (1855)  feito em 2014, peça única na parafernália dos equipamentos arqueológicos que restaram por aqui como artefactos ligados à comunicação e CONHECIMENTO?

Por estas lacunas se avalia bem a BITOLA pela qual se guiam as nossas FORÇAS PARTIDÁRIAS LOCAIS, para as quais parecem só ter valor as «estradas, fontanários e valetas», como no princípio do século XX. Lamenta-se, pois que neste século XXI, século do CONHECIMENTO e das novas tecnologias,  elas se ficam pelo utilitário e pelo  ENTRETENIMENTO.  

 

PRIMEIRA PARTE

monograma - CópiaÉ que a HISTÓRIA (com gente dentro) não se faz por “palpites”. Tem de basear-se em DOCUMENTOS e, quando eles não são bastantes, ou suficientemente esclarecedores, o historiador terá, obrigatoriamente, de cotejar os vários suportes de informação de que dispõe e, através deles, entrar nos caminhos da plausibilidade, sem certezas absolutas, seguro de retomar e refazer caminho, face ao aparecimento de novas informações. A postura séria de um historiador é não abdicar do princípio de “fazer e refazer ” o dito e o feito, face ao aparecimento de novas “fontes”. E eu sirvo-me dos jornais que se publicaram em Castro Daire em tempos da MONARQUIA e da PRIMEIRA REPÚBLICA, no caso presente, de “O Castrense”.

Recapitulando:

Parece que virou moda na nossa vila e aldeias que «REQUALIFICAR» o PATRIMÓNIO é lavar-lhe o rosto, pô-lo bonito e limpá-lo da patine dos tempos. Às vezes à força de água saída à pressão de esguicho . Isso foi feito na esfera que coroa a «FONTE DOS PEIXES» e daí resultou a danificação clara do MONOGRAMA «CM», todo ele feito com peixes entrelaçados que presumo serem TRUTAS. Uma autêntica OBRA DE ARTE a atirar para o GÓTICO. Qual o artista castrense que, de «ponteiro e maceta», é capaz de reconstituir essa peça, em defesa do nosso PATRIMÓNIO? O desafio aqui fica.

E para lembrança dos mais descuidados, aqui se repõe as alíneas deixadas na crónica anterior:

FONTE VELHA-REDUZ--1a)      A primeira IMAGEM foi publicada na “Ilustração Portuguesa”, por António Correia de Oliveira, em 1907. Nela vemos no canto direito a casa que veio a ser de JORGE FERNANDES PINTO e a seu lado uma obra de arte, tipo varandim térreo. De notar que essa casa não tem escadas exteriores de acesso ao primeiro andar, como veremos na imagem seguinte, posterior a ela e, também que, à sua frente, ainda não existia a casa a que aludirei de seguida.

FONTE VELHA-REDUZ-2 b) Na segunda IMAGEM, vemos já a casa que veio a ser do Dr. JORGE FERREIRA PINTO, que foi de Joaquim António Morgado e ostenta na grade da varanda a data de 1914, por isso não podia figurar na fotografia de 1907. À sua frente, e ao lado da casa de JORGE FERNANDES PINTO, vemos agora umas escadas exteriores de acesso ao primeiro andar e, ao seu lado, desaparecido o resguardo do varandim térreo, vemos um TANQUE que presumo ser o mesmo (TRIBOLADO) que recebe a água das bicas da atual FONTE DOS PEIXES.

 

 

 

SEGUNDA PARTE

«MARCOS E FONTANÁRIOS”

 

Em vista a estar faltando a água no depósito que abastece os marcos fontanários desta vila, o sr. Vereador do respetivo pelouro resolveu que este depósito estivesse apenas aberto desde as 6 às 9 horas da manhã e desde as 6 da tarde às 9 horas da noite». «O Castrense», nº 23, de 16 DE JULHO DE 1911)

 E é por se verificar uma acentuada falta de água na vila, devido à seca, que, na sessão de 19 de Junho de 1919, com ausência do seu presidente e de um vogal, que faltaram por doença, entre outras medidas, por proposta do vice-presidente, Joaquim Seixas Ribeiro, ficou assente:

«Foi resolvido limpar a mina da estrada e para melhor aproveitamento da água, conduzi-la, por agora, em canos de pinheiro.

(…)

Foi também resolvido dar começo, logo que sejam menos apertados os trabalhos agrícolas ao desterro da Praça Nova». (O Castrense», 210, de 22 de Junho de 1919)

Esta de transportar a água em «canos de pinheiro» não agradou aos escribas de «O Castrense» que no número seguinte comentam:

«Não é com canos de pinheiro ou com outros materiais de igual valor que se pode resolver o problema. Precisamos de encarar este assunto a sério se se quiser  fazer obra duradoura e de verdadeira utilidade.

Um dos primeiros passos a dar é encarregar um engenheiro de vir fazer o estudo, devidamente orçamentado das obras a fazer e depois encarregar uma casa da especialidade para as executar.

A Câmara deve única e simplesmente exercer a acção fiscalizando os serviços de forma a serem integralmente cumpridos e executados os trabalhos de harmonia com a planta». (O Castrense», 211, de 29 de Junho de 1919)

E no número seguinte, o vice-presidente da comissão nomeada dá a seguinte explicação ao responsável pelo jornal:

«Como V. sabe há apenas um mês que nos confiaram a direção dos negócios municipais, tendo encontrado algumas verbas orçamentais quase esgotadas. Lutando por isso com dificuldades insuperáveis, parece-me dispensável pensar, por agora, sem fazer novas explorações de água e para aproveitamento da pouca que há, entendi que a melhor maneira de o fazer era conduzi-la em tocos canos de pinheiro, até à boca das minas para se não sumir durante o trajeto.

Sem esta medida, que tem apenas o carácter provisório, não tenha dúvida de que em breve estaríamos, incontestavelmente, sem água, tendo os habitantes da vila de a ir buscar à Lavandeira, ou aos Linhares, à propriedade do Exmº Sr. D. José Aguilar. (O Castrense», 212, de 5de Julho de 1919)

 O problema a enfrentar, por agora, era o da água para abastecimento público e, além de nos aparecer pela primeira vez a referência à FONTE DA LAVANDEIRA, como alternativa à FONTE DA ESTRADA», os nossos edis voltam a sua atenção para a análise das águas da Cedorninha. Assim:

 «Sessão da câmara de 7-8-919

«Foi presente o resultado da análise da água das nascentes da Cedorninha feita pelo professor Dr. Alberto de Aguiar, do Porto e cujo resultado em resumo é o seguinte:

“Água quimicamente muito pura e sem elementos que denunciem inquinação». Em virtude da análise e do exposto no ofício do médico municipal Sr. Dr. Carlos Cerdeira, a comissão resolveu entregá-la ao consumo público».

Pelo vice-presidente foi comunicado que havia principiado a limpeza e rompimento da mina de Cimo de Vila». (O Castrense», nº 216 de 10 de Agosto de 1919)

 E o problema de abastecimento de água é coisa candente, neste ano de 1919. É assim que «O Castrense» de 24 de Agosto volta ao assunto para dizer:

«Abastecimento de água»

Apesar da seca que vai, a fonte da estrada, que em anos anteriores nada deitava por este tempo, ainda tem água, porque a Câmara teve a boa ideia de mandar fazer um barato encanamento de troncos de pinheiro pela mina dentro, evitando assim a infiltração e, portanto, a perda de água.

Que grande coisa” Ironizam aqui ao lado. Pois sim. O problema não era difícil de resolver, mas o que é certo é que ninguém até hoje se deu ao incómodo de com ele se preocupar.

(…)

Alguns pistões não se têm podido aproveitar porque os mineiros andam a limpar e continuar a mina que os abastece. Má época, dirão! É de ter paciência, no Inverno é que aqueles serviços se não podia fazer.

FONTE-COMPLETA-RTEDUZPodemos dar-lhes uma notícia que não é má: já se descobriu um novo veio de água. Não é grande. Mas já anima. Estamos convencidos de que no próximo ano a vila há de terá água de que precisa» (O Castrense» nº 218, de 24 de Agosto de 1919)

Repare-se que a imprensa dá a boa notícia de se ter descoberto “um novo veio de água”, que referem a FONTE DA ESTRADA, plausivelmente aquela que se situava junto à casa que viria a ser de JORGE FERNANDES PINTO, como se presume dos postais ilustrados de que fiz eco na crónica anterior, e “FONTE DOS PEIXES”, nem cheirar. Lembro que estamos em 1919. Essa, tal qual a conhecemos hoje só chegaria em 1921, com espaldar de azulejo feito em  1957, pela CERÂMICA ALELUIA DE AVEIRO.  Vai fazer este ano, como muito bem lembrou O meu amigo LINO MENEZES, um século de vida.

 Antes, porém, os nossos edis da época como nos informa «O Castrense» não tinham abandonaado a ideia se explorarem novas nascentes de abastecimento. É o que nos diz  o número seguinte, reportando-se à FONTE DA LAVANDEIRA:

«Organizada, como há dias dissemos, a nova Comissão Municipal, no dia da sua posse, em 1 do corrente, tomou, entre outras deliberações (…)  arranjar para a vila a água que lhe é indispensável, expropriando a que nasce na propriedade que os herdeiros do Dr. Bernardino Teixeira de Lacerda têm na Lavandeira; Resolveu a Câmara eleger para presidente e vice-presidente, respetivamente, os Srs. José Clemente da Costa e Daniel Ferreira Monteiro. (O Castrense», nº 197, de 20 de Março de 1919)

Temos, pois, o início da exploração das águas que viriam a ser a FONTE DA LAVANDEIRA, já por mim amplamente historiada por escrito e filmada.

Mas continuemos a ler jornais e a acompanhar as preocupações dos nossos edis no sentido de fornecer água aos habitantes de vila.

 ***

«INTERESSES LOCAIS

UMA OBRA ÚTIL

“Convite aos Proprietários Agrícolas

“De há muito que se diz poder conseguir-se nos baldios da Cedorninha a água necessária para fertilizar não só os terrenos que ficam aquele sítio e esta vila e até nos limites dos Braços.

Ninguém se abalançou ainda a tentar a exploração e distribuição das águas. Empresa que seria de grandíssimo proveito, mas que para um ou para poucos seria arrojada.

A união faz a força – é velho o ditado -  e como os signatários sabem que há muito quem lucre com a exploração daquelas águas, pretendem ver se conjugam as forças de todos os interessados ou pelo menos de um grande número, para efetivarem uma aspiração velha, cuja realização vai também valer umas poucas de vezes a importância do seu custo.

Convidam-se todos os interessados a reunirem em uma sala da Câmara Municipal (cuja cedência já foi solicitada) no primeiro domingo do próximo mês de Dezembro (dia 7) pelas 12 horas, a fim de se assentar na melhor maneira de  pôr em prática uma das mais proveitosas obras que podem tentar os agricultores nossos vizinhos.

Castro Daire, 17 de Novembro de 1919

Alberto de Sousa Vilhena

Alfredo Alberto de oliveira Figueiredo

António Fernandes Poças

Augusto de Almeida Pinto

Augusto Fernandes (O Castrense», nº 230 de 16 de Novembro de 1919)

 Dito, pensado e publicitado o encontro durante alguns números sucessivos do jornal, chegados ao dia 14 de Dezembro, ele informa-nos o seguinte:

«Como estava anunciado realizou-se no último domingo nos Paços do Concelho uma reunião de proprietários para se tratar da exploração da água para a irrigação de terrenos.

Estiveram presentes os senhores Alfredo Alberto de Oliveira Figueiredo, Alberto de Sousa Vilhena, Afonso Correia de Lacerda Pinto, Manuel ribeiro Seixas, Augusto de Almeida Pinto, Augusto Fernandes, Dr. José Mário de Oliveira Baptista, estando também presentes, unicamente por serem amigos do progresso desta terra e não porque tenham terrenos que possam vir a ser irrigados com as águas em questão, o senhor Dr. Joaquim Gomes de Almeida e Dr. Pio Cerdeira de oliveira Figueiredo.

Presidiu á sessão o Sr. Alfredo A. Oliveira Figueiredo, os mais velho dos presentes que foi secretariado pelos senhores Augusto de Almeida Pinto e Augusto Fernandes.

Foi resolvido nomear uma comissão com plenos poderes para tratar de tudo o que for necessário para a projetada exploração, fiando essa comissão composta pelos seguintes senhores: Dr. José Mário de Oliveira Baptista, Alberto de Sousa Vilhena e Augusto Fernandes».

(O Castrense», nº 234 de 14 de Dezembro de 1919)

 

 ***

«MARCOS E FONTANÁRIOS

 Estão uma verdadeira miséria. Lembramos à Câmara a conveniência de os mandar consertar, muito embora nesta ocasião, isso custe muito dinheiro.

E não era mau que a Guarda Republicana exercesse um pouco de vigilância para evitar que a garotada danifique os pistões, árvores e candeeiros que fazem falta e custam grandes sacrifícios ao Município». (O Castrense», nº 348 de 2 de Abril de 1922)

 

 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.