Trilhos Serranos

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segunda, 28 junho 2021 12:45

AMOR DO REDENTOR

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ALEGORIAS BÍBLICAS OCULTAS CERCA DE 240 ANOS NA IGREJA MATRIZ DE CASTRO DAIRE

 Na capela-mor da Igreja Matriz de Castro Daire, por razões de obras de restauro e conservação do cadeiral do coro baixo, de talha barroca, foram postos a descoberto, no ano de 2017, os dois painéis de azulejos de «padrão pombalino» que aqui se mostram e historiam.

 PRIMEIRA PARTE

redentor-capa-frenteAli colocados no século XVIII, no mesmo século foram “escondidos” pelo cadeiral de cujo ajuste há registo notarial, no ano de 1776. Estiveram ocultos cerca de 240 anos e nenhum dos historiadores que me precedeu (e já foram muitos, bons e probos),  reportando-se a este majestoso templo, fizeram qualquer alusão a esta obra de arte, quiçá porque nenhum deles teve a sorte de lhes pôr a vista em cima, nem a qualquer registo escrito que referisse a sua existência.

E a razão de tudo isso bem pode estar no facto das imagens que ilustram as ALEGORIAS suscitarem interrogações pertinentes não canónicas, nomeadamente a figura de feições femininas que abraça Jesus no ato da “ENTREGA DAS CHAVES DO CÉU A PEDRO” (painel da esquerda), a mesma que parece segredar-lhe algo ao ouvido e com o braço estendido e dedo esticado em direção Pedro, discordar do ato, o que empresta significado aos textos gnósticos no que respeita às relações existentes entre PedroMaria Madalena, isto, a tratar-se da “apóstola dos apóstolos” como hoje é aceite entre muitos estudiosos e historiadores.

E no painel da direita, representando Jesus a andar sobre as águas no Mar da Galileia, este, de braço direito curvado e dedo apontado ao céu, braço esquerdo, caído junto ao corpo, está longe de mostrar auxílio a Pedro, que esbraceja nas águas para não se afundar, o que contraria o versículo de Mateus que fala da ajuda, depois da advertência: “homem de pouca fé, porque duvidaste?

Fui, a bem dizer, um historiador afortunado. O primeiro, natural do concelho, a fotografá-los, filmá-los e fazer deles a leitura digital que deixei no «mare magnum» da Internet, no próprio ano em que foram descobertos (2017) e agora em livro.

 

SEGUNDA PARTE

redentor-capa-costasDe facto, neste ano de 2021 resolvi verter o texto digitalizado em livro com o patrocínio do Município de Castro Daire que, posto ao corrente da minha decisão, se prontificou, através do seu Vereador do Pelouro da Cultura, Dr. Pedro Pontes, a custear as despesas da “COMPOSIÇÃO” e da “IMPRESSÃO” tipográficas, a troco de 10% dos exemplares editados, percentagem destinada a oferta e outros fins tidos por convenientes.

O miolo do livro, com o título “AMOR DO REDENTOR” é constituído pelo conteúdo que publiquei on-line, em 2017, acrescido de uma “DEDICATÓRIA POST MORTEM” ao Reverendo Padre MANUEL AUGUSTO DA COSTA PINTO, natural de Cetos, ditada por um imperativo de consciência.

De facto, falecido em 2018, posto ao corrente, em vida sua, da leitura hermenêutica que fiz dessas duas alegorias bíblicas descobertas no ano anterior, concordou inteiramente comigo e prontificou-se a PREFACIAR o livro, caso o texto publicado na Internet viesse a assumir esse formato. Que mais não fosse, por estas duas razões, era-lhe devida essa referência e essa DEDICATÓRIA.

Ambos comungávamos a ideia sobre o papel dominante que MARIA MADALENA desempenhou nos primórdios da Igreja Cristã, no seio dos apóstolos, distinto daquele que lhe tem sido reconhecido, institucionalmente.

E o artista do século XVIII que desenhou e pintou as figuras que dão corpo aos dois painéis aqui tratados, somou, nessa sua obra, algum significado à nossa leitura e interpretação.

Clérigo de estudo, de leituras e de obras publicadas, não receava assumir “posições nem sempre enquadradas no pensamento e disciplina eclesiais”, mas cultivando a “liberdade de espírito e vontade de mudança”, sabendo-me “incréu”, teve a bondade e lucidez para me incluir no seu rol de amigos e comigo dialogar sobre as coisas do mundo e as interrogações humanas que todo o ser pensante se coloca sobre o universo.

Amante de livros e de estudos, dominando o Grego e o Latim, já sabedor de estar a ser vítima de um cancro, ainda estudava entusiasmadamente o ARAMAICO, a LÍNGUA de  JESUS CRISTO. Falou-me do mal que o corroía com a naturalidade de quem sabe que tem poucos meses de vida na TERRA e parte para o ALÉM de consciência tranquila.

A sua BIBLIOTECA e o conteúdo dos seus livros, levava-o a possuir um saber teológico que ultrapassava, de longe, as páginas de qualquer missal, catecismo e breviário, abertos ou fechados sobre qualquer “atril” ou “ramban” com marcador vermelho ou azul a sinalizar a página de leitura. Não era, efetivamente, um clérigo que se contentava com o “ora pro nobis”!

Atento à HISTÓRIA e ao papel que MARIA MADALENA terá tido nos primórdios da Igreja Cristã, como hoje é aceite por muitos estudiosos e historiadores, ele jamais subscreveria o texto que, no século XVIII, o “Século das Luzes” (assim nomeado) foi muleta do Padre oratoriano, Manuel Bernardes no seu livro “Nova Floresta ou Silva” onde, lembrando o Profeta Isaías, compara a mulher a uma NAU, analogia que fundamenta largamente e que resume no seguinte ramalhete latino:

Quid levius fumo? Flamen. Quid flamine? Ventus. Quid vento? Mulier.  Quid muliere? Nihil".»

 Versão em Língua Portuguesa:

O que é mais leve que a fumo? O sopro. O que é leve que o sopro? O vento. O que é mais leve que o vento? A mulher. O que é mais leve que a mulher? Nada.

Quanto tempo decorreu desde o bíblico Profeta Isaías até ao oratoriano Manuel Bernardes? Quanto tempo decorreu desde Manuel Bernardes até nós? Quanta água passou por debaixo das pontes? Quanta?

Qual o político, qual o clérigo, qual o homem de história e de cultura (qual o ser humano, masculino ou feminino, singular ou institucional) é capaz de, neste século XXI, chamar a si ou subscrever a pérola latina, o bordão de ouro em que se apoiou a Padre Manuel Bernardes?

Este livro, dando a conhecer as alegorias bíblicas que estiveram escondidas dos olhos do mundo cerca de 240 anos, que mais não seja, despertará as consciências adormecidas ou fossilizadas em dogmas que, propagados em nome da EDIFICAÇÃO HUMANA, reduziam, erudita e culturalmente, a MULHER a “NADA”, diferentemente do ceramista que, nesse mesmo “Século das Luzes”, desenhou e deixou em azulejos, na Igreja Matriz de Castro Daire, a mensagem pouco “canónica” que neles leio e divulgo. 

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 TERCEIRA PARTE

RESUMINDO E CONCLUINDO

Não sendo eu especialista na ARTE DO AZULEJO, remeti as fotos dos painéis para o Dr. João Pedro Monteiro, técnico superior do Museu Nacional do Azulejo, e ele, por correio eletrónico, com as reservas decorrentes de uma observação indireta, gentilmente opinou, que se trataria de uma obra da “primeira metade do século XVIII”, do chamado “Ciclo dos Mestres e que pertenceriam “à oficina dos Oliveiras Bernardes, muito provavelmente do próprio António Oliveira Bernardes, falecido em 1732”.

E mais informou que o “estilo neoclássico” só se impõe pela década de 1790. Até lá predomina o “rocaille” que coincide com a padronagem “pombalina”.

Agradecida e retida a informação dada pelo Dr. João Pedro Monteiro, nomeadamente, a possibilidade de o autor dos painéis ser António Oliveira Bernardes, falecido em 1732, três anos antes das obras realizadas na Igreja pelo Abade João de Moura de Andrade, dadas por findas em 1735, sem que haja qualquer referência aos painéis de azulejos, e bem assim as obras que decorriam na mesma igreja, nos anos de 1759-1760 (também elas sem notícia alguma a tal respeito), sem me intrometer na classificação e estilo da obra, alvitro ser verosímil, até prova documental em contrário, que tenha sido o seu filho, Policarpo Oliveira Bernardes (1695-1778), o responsável pelos painéis que viriam a ser escondidos com o CADEIRAL, arrematado em 1776 e ali assente depois de feito. Ali, onde escondidos ficaram até 2017, sem que, infelizmente, historiador algum lhe pusesse a vista em cima, ou, qualquer dos que investigou e historiou o templo, lhe atribuíssem uma VÍRGULA de referência (existência), nos minuciosos e desenvolvidos trabalhos que deixaram publicados, desde Pinho Leal no seu “Portugal Antigo e Moderno” aos historiadores posteriores, exceto eu.

De resto, a fissura visível numa das aduelas do arco cruzeiro (lado direito) mais aquela que, no mesmo lado, partiu uma das pedras do chão onde assenta a grade que separa a capela-mor e o corpo principal (fissuras que podem, eventualmente, atribuir-se ao terramoto de 1755) e a ausência de quaisquer desses sinais nos painéis, reforçam a minha ideia da obra ter sido feita após o terramoto e, por conseguinte, o responsável por ela ser, efetivamente, Policarpo Oliveira Bernardes, sob a responsabilidade do Padre Dr. João Correia de Sá, falecido em 1783, o qual, por força da sua ausência de Castro Daire, deixou a presidir a igreja o Encomendado Rodrigo Cardoso de Albuquerque, exatamente a partir do ano de 1776, data em que foi ajustado o CADEIRAL na morada do tabelião e notário apostólico José Gomes de Mesquita. (Gonçalves da Costa, «HDB L», vol. VI, pp 506-507).

Estou ciente de não ter desvendado o mistério que levou à ocultação secular destas duas alegorias bíblicas e à evaporação de todo e qualquer registo escrito sobre o seu autor, custos e data de arrematação, (estou a lembrar-me dos manuscritos do Mar Morto) a ponto de serem ignoradas por investigadores e historiadores (vários) cuja minúcia e probidade não podem questionar-se.

Mas, em verdade vos digo, foi minha intenção projetar alguma luz sobre este enigmático mistério e o tempo se encarregará de autorizar ou desautorizar o pensamento que deixo escrito neste livrinho, editado em 2021, quatro anos depois da sua descoberta e disso eu de ter feito eco, na Internet, em 2017.

E posso dizer até que esta minha romagem chegou ao fim, feita de pé posto, confortado e em paz comigo e com o mundo. Diferentemente do desassossego e desconforto imanentes da postura e dos gestos postos nos desenhos e pintura dos apóstolos, quer no painel relativo ao ato da “entrega das chaves do céu a Pedro”, quer no painel da parede oposta, onde as revoltas águas do Mar da Galileia tiram o pé a Pedro e parecem dispostas a engoli-lo, sem a estendida e auxiliadora mão de Jesus, segundo Mateus. Enfim, o  pensado e o "não dito” fica dito. É só olhar e ver.

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Só falta dizer a razão que me levou a pôr na testa de cada capítulo um ramalhete de «rosas» criadas no meu quintal. Fi-lo por entender que, de harmonia com o título e conteúdo dos painéis (HISTÓRIA E ARTE, simultaneamente), era essa flor que, pela sua ampla simbologia na «cultura ocidental», lhe emprestava significado bastante.

Com efeito a «rosa», como vemos, de forma resumida, no «Dicionário dos Símbolos» (Wikipedia), «simboliza a perfeição, o amor, o coração, a paixão, a alma, o romantismo, a pureza, a beleza, a sensualidade, o renascimento (…) flor complexa e aromática representa o símbolo do amor e da união, famosa por sua beleza e seu perfume. Não obstante, o desabrochar do botão da rosa simboliza o segredo e o mistério da vida».

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QUARTA PARTE

AGRADECIMENTOS

a) Grato estou ao Padre Carlos José Gomes Caria por me ter dado conhecimento da “descoberta”, em 2017, e pela liberdade que me deu, sem restrições, para a fotografar, filmar e comentar.

b) Aos leitores anónimos do texto digital publicado na Internet, que, rondando os mil e tantos, me incentivaram, pelo interesse manifestado na leitura,  a publicá-lo em formato de livro impresso.

c) Ao EXECUTIVO MUNICIPAL pelo PATROCÍNIO dado à obra, chamando a si os custos da COMPOSIÇÃO/IMPRESSÃO, a troco de 10% dos exemplares impressos, para oferta.

d) Ao senhor LINO MENEZES, empresário e gestor da PCPUBLICIDADES, firma sediada em Castro Daire, pela forma gentil com que me atendeu todas as vezes que tive de o contatar telefonicamente fora da firma, a fim de acertar as minhas deslocações ao seu escritório, por força das voltas e reviravoltas que um livro impõe, até dizer chega.

e) Ao seu empregado JOÃO FERREIRA, que, sentado à secretária a dedilhar o teclado do computador, compondo o texto e tratando as fotografias, se dispôs, pacientemente, a atender-me para introduzir as necessárias emendas, acrescentos e/ou ou cortes. Ele, usando as tecnologias atualmente ao dispor do homem, sabe, melhor do que ninguém, as linhas com que se cose, atualmente, um livro, até ser remetido para a tipografia.

f) Finalmente à Tipografia NOVELGRÁFICA, sediada em Viseu, pelo esmero que põe nos produtos que, com a sua chancela, são tornados públicos, incluindo a embalagem plastificada.

https://youtu.be/a0rVez1HHDg - ver vídeo.

 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.