Trilhos Serranos

Está em... Início Ficção CINTO DA CASTIDADE OU MURALHA DA CHINA
terça, 06 maio 2014 12:44

CINTO DA CASTIDADE OU MURALHA DA CHINA

Escrito por 

Namoravam havia alguns anos, tal como todos os outros jovens da sua idade, nados e criados na serra. Quantos namoros desses nasciam na escola primária com a troca de papelinhos ou com as brincadeiras fortuitas que tinham lugar nos montes da redondeza, quando, crianças ainda, por ali guardavam os gados? Em ambiente serrano e livre, possuidores de uma imaginação tão libertina e colorida quão era a diversidade das flores e das borboletas ziguezagueando de planta em planta, a atracção pelo sexo oposto era, para os jovens serranos de qualquer idade, a coisa mais natural deste mundo.Os pais não lhes falavam nisso, nem precisavam de falar. A mãe natureza era a sua mestra, por excelência. Bastava olhar em redor. Os animais que conduziam aos montes e traziam de retorno às lojas, dando vazão ao seu instinto natural da reprodução, iniciavam-nos na sua sexualidade. Diziam-lhes como se fazia. Eles bem viam o carneiro e o bode a cortejarem as fêmeas, a cheirarem-lhes o sexo, a levantarem as ventas ao vento, a arrebitarem a beiça, a espirrarem, a baterem-lhes com as patas dianteiras na barriga, «mrum...mrum...mrum...»  e, não tardava nada, apoiados nas patas traseiras,  aí vai disto. E era uma vez uma cabrinha virgem que berrava de dor ou de prazer e/ou uma cabra feita que já tinha posto na feira um fato de filhas e filhos e sabia bem do que se tratava.

 

Passado o tempo de gestação o rebanho aumentava, havia cordeirinhos e cabritinhos, que elas próprias, crianças de escola ou já adolescentes viam nascer. E  comida a placenta, as crias lambidas pelas mães, secas,  pele de veludo, eram elas,  as crianças, as primeiras a pegar-lhes ao colo. Um mimo de criaturas. O preceito bíblico:  «crescei e multiplicai-vos», tantas vezes repetido pelos senhores padres nas suas homilias, na igreja, aos domingos, era extensivo a todas as espécies animais e vegetais que povoam o mundo. Tudo se reproduzia e renovava, na serra.

Crescendo juntos num meio assim, em que as livres leis da Natureza ligadas ao sexo colidiam claramente com os fechados e restritivos ensinamentos morais e religiosos com séculos de caruncho, o que mais era levado em conta dizia respeito à virgindade. Moça honrada era aquela que,  para honra sua e da família,  chegasse ao dia do casamento com «os três vinténs» no sítio. De contrário sobre ela recairia a mancha de «desonrada» a vida inteira: tinha chegado furada ao altar e, sabia-se lá por quem, «cesteiro que faz um cesto, faz cem».
Assim sendo, na serra, onde não chegara ainda o hábito das mulheres e meninas usarem roupas interiores, os valores, os ensinamentos e a pressão social da comunidade, tinham a força e a resistência de um cinto da castidade medieval. Mas mesmo assim, nisto como em tudo, em todos os tempos e lugares, sempre houve Robins dos Bosques e Joanas d'Arcs dispostos a não aceitarem as regras e valores instituídos, por reis, príncipes e abades. Eles a arremeterem os seus arietes contra os portões do castelo decididos a arrombá-los e elas predispostas a franquearem as entradas para minimizarem os estragos.  Procedendo assim, estes eram, seguramente, os marginais sociais do tempo, aqueles que arrostavam os consequentes ferretes sociais, muitas vezes marginalizados e indignos do Senhor lhes entrar porta dento na Visita Pascal. Mas fossem eles vivos, e veriam o quanto estavam avançados no tempo e, a par do gozo vivido naquele momento que todos conhecem (ou que é suposto todos conhecerem) gozariam agora o tributo do contributo que deram à mudança dos costumes e dos valores em tais procedimentos.

Pois. Mas nem todas as pastorinhas tinham a disposição para assumirem o papel libertário da Joana d'Arc. E se o cavaleiro fazia um avanço mais atrevido, logo ouvia a expressão «calma aí, isto não é da Joana». E não era. Algum dia os prezados leitores se perguntaram do fundamento desta tão divulgada expressão popular, nos meios rurais?
A natureza, porém, apela sistematicamente à transgressão das normas sociais, mesmo as ditas pecaminosas. Cirandando por entre plantas, a fauna animal, pedestre e alada desafiam a imaginação e a criatividade dos jovens, sangue a ferver-lhes nas veias, virilidade a rodos. Mirando e remirando as belezas da criação, eis um par de gafanhotos, poisado num ramo de sargaço, na posição do «bem bom». Um carneiro tresmalhado, impelido pelo cio, procura uma fêmea, entre tantas. Primeiro o saltarico, o cavalinho encavalitado na fêmea. Agora o carneiro a procurar fazer o mesmo. O moço, aproveitando a oportunidade, lembrou: «na missa  o senhor padre disse que o diabo tenta os homens, o que é que tentará estes animais?». A namorada sabia muito bem o desejo que tais  observações embrulhavam, mas fez-se desentendida e seguiu em frente, sorrindo e gracejando.
Porém, mãos dadas, beliscão aqui, beliscão ali, galhofando de tudo e de nada, sentando-se aqui e além, acabaram deitados sobre a fofa manta de sargaços e carquejas, obra dos teares de Maio, uma manta rendilhada com brocados de prata e ouro que nem uma dalmática. Era um pecado apalpá-la, amassá-la com uma só pegada, quanto mais fazer dela uma cama. Mas fizeram. Ela na posição de ver o céu e ele na posição de ver o céu nos olhos dela (onde é que eu já escrevi isto?) esqueceram-se do mundo ensinado e, envoltos em mimos, afagos e desejos, perderam-se no mundo aprendido.
Contribuía para isso o aroma das flores envolventes e o zumbido das abelhas que, na sua faina de sobrevivência, traçavam no ar figuras geométricas, jamais pensadas por Euclides de Alexandria: rombos, elipses, triângulos e outras figuras exóticas e eróticas invisíveis, só visíveis por videntes. Digamos que se reuniram, mais uma vez, todas as condições para a consumação do acto. Mas aquilo «não era da Joana» e, mais uma vez, o cavaleiro teve de recuar e de se ficar por bordejar as ameias do castelo. Portão dentro é que não. Isso só depois de «me levares ao altar». Tal expressão passava a ser para ele algo de incómodo e de repelente. Não casava com o seu feitio. Por aquele andar não iria muito longe o namoro.

milho01Serra e campo. Maio chegou ao fim e ao fim chegaram as vessadas. Milho semeado, crescido, maduro, retiradas as bandeiras (as cruitas) e as canas para forragens, as espigas vestidas no seu folhelho castanho, semelham soldados perfilados em parada, prontos a marcharem para as eiras e nelas, despidos ao som de cantigas, darem lugar ao jogo de beijos e abraços, liberdade exclusiva do felizardo ou felizarda, velho ou novo, que, da montureira, ao centro da roda, tivessem a sorte de encontrar a espiga vermelha, o milho-rei, tão almejado pelos adultos casadoiros, como almejada era a hóstia pelas crianças,  no dia da primeira comunhão.
Milho maduro. O milho verde maçaroca de Zeca Afonso era letra e música do porvir. O par de namorados atravessa agora esse campo de milho. De pé, deles só se vê a metade do corpo que se eleva acima do plano das espigas, viradas ao céu a 45 graus de inclinação. Sentados desapareceriam aos olhos do mundo. E foi o que fizeram. Terra ressequida, atapetada com folhas secas caídas dos caneiros, nelas fizeram cama, para, mais uma vez, darem início e fim ao jogo do amor: não, não e não dela, sim, sim e sim dele. Passado algum tempo, ambos afogueados, deram por findo o jogo habitual. O caso era já uma rotina de pecado e, como que envergonhados de si próprios, se cientes estavam de terem de confessar o acto de joelhos ao cura da freguesia, seguros estavam também da costumeira absolvição «in nomine patris et filii et spiritus sanctis». E assim, de costas assentes na terra, o olhar de ambos perdia-se no azul celeste rasgado por uns fiapos de nuvens brancas arrastados pela brisa, dando a ilusão de ser a Terra a deslocar-se e não aqueles lençóis de cama movediça que aparecia e desaparecia num ai.  Isto lá muito alto, lá muito longe, no céu, naquele espaço infinito, povoado de anjos, tão difícil da alcançar. Anjos alados e sem sexo. Mas bem perto, ao alcance de uma mão, o moço reparou numa espiga virada ao chão, 45 graus de inclinação, uma fiada de grãos amarelos a rasgarem o folhelho aberto, a lembrarem os dentes de ouro de um brasileiro de torna viagem. Era como se aquela espiga, assim virada para ele, estivesse a gozar com o que tinha visto, como se estivesse a rir-se e a escarnecer da sua pessoa, da sua falta de coragem em transpor a barreira de uma ideia. E ele, que de sua natureza era um tanto subversivo e contrário a certos mandamentos, sentiu-se mal. Querendo ir fundo, inibido de o fazer, via mais fundo, via naquela recusa frequente uma falta de confiança na sua pessoa e cogitava de si para si que uma relação a rolar  na geringonça da desconfiança, na falta de confiança mútua, não era uma relação promissora e de futuro. Via naquele apego à virgindade algo contra natura, algo sem sentido nos meados do século XX. Aquela ideia encasquetada pela igreja na cabeça das mães, das filhas, da sociedade inteira,  representava o enferrujado cinto da castidade medieval, digno de figurar em museus de arte morta, mas anacrónico numa sociedade viva, cheia de vigor, viril, ansiosa de se reproduzir, desejosa de prazer.  E o obstáculo era tão-somente uma ideia. Não era o artefacto material saído das mãos de artífices da especialidade em tempos idos, recolhidos nos museus da história e do sexo. Tal artefacto era, aliás, ignorado nos meios serranos, que de história só sabiam a que escreviam na folha de centeio ou de milho, arado vai, arado vem, leiva sobre leiva, à espera de uma boa colheita anual. Ali, onde nem as roupas interiores dificultavam a prática sexual, por inexistentes, uma simples ideia tinha a resistência da muralha da China. Ele era a namorada, de ideia fixa,  a querer chegar intacta ao altar. Ele era o namorado, de ideia fixa, a recusar ser violador, a não ser arrombador do cofre mesmo que cobiçasse ardentemente os  «três vinténs» nele guardados.

Cansado de tanta negativa, jamais ultrapassando a fronteira do consenso,  desistiu do roubo e de levar a moça ao altar. Disposto a penetrar em templos proibidos, a ajoelhar-se somente frente aos altares cujas divindades ouvissem e entendessem as suas preces, partiu para outras terras, para outros campos de batalha, de culturas e de mentalidades mais avançadas ou mais atrasadas, mas que, pela diferença, fossem mais consentâneas com a sua natureza hedonista e livre.
Longa foi a viagem. Muitas as batalhas.  Muitos os campos lavrados e semeados. E se tal como o milho, saído da terra úbere, amadureceu e se desfez em farinha, também ele maduro de idade, prestes a desfazer-se em pó (quanto tempo restará?) continua fiel a si próprio, a rir-se de si mesmo e das estroinices vividas. Quiçá um pouco pesaroso de, no percurso, sem grande esforço, impelido por aquele seu gosto de aventura, ter assaltado senhorios e castelos alheios, autenticados com Carta de Mercê, só porque a guarda de honra,  à sua chegada e a seu desejo, baixou armas e lhe franqueou facilmente a entrada.

Abílio/2014

 

Ler 361 vezes
Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.