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terça, 28 janeiro 2020 13:27

PATRIMÓNIO HISTÓRICO

Escrito por 

PRESERVAR O PATRIMÓNIO

Já fiz e publiquei vídeos e crónicas escritas sobre os objetos ligados à iluminação pública e doméstica de antanho e aos utensílios de cozinha, nomeadamente fogões portáteis de campismo.Recentemente, e depois disso, o meu amigo António Matias, daqui de Fareja, um dos responsáveis pelo restauro do CADEIRAL DO CORO BAIXO da Igreja Matriz, conhecedor desses meus trabalhos, sensível à mesma temática, fez aportar a minha casa uma relíquia que, segundo ele, ia direitinha para o lixo.

1-foto - Cópia

Encontrou essa peça nos escombros de uma obra em reconstrução e, mal a viu, logo a minha pessoa e os meus interesses pelos descartáveis e “descartados” artefactos históricos lhe acorreram à mente. Guardou-a e, na primeira oportunidade, abriu a porta da carrinha e surpreendeu-me dizendo:

- Tenho aqui uma coisa para si. Ela inclui-se nos trabalhos de estudo e preservação que anda a fazer.

E vai daí, passou-me para a mão a RELÍQUIA que aqui deixo retratada e da qual já fiz vídeo, cujo link anexo em rodapé. Claro que me deu algum trabalho para estar assim apresentável. Foi desmontada, desoxidada, montada novamente e polvilhada com verniz incolor por forma a evitar oxidação imediata.

3-foto - CópiaTrata-se de um mini-fogão “SOMETAL” inventado para funcionar com álcool. De pequenas dimensões, num dos extremos tem um proporcional e artístico depósito em latão, que, por tubagem do mesmo material instalada sob a estrutura de suporte, se liga a uma boca circular de vários furos (tipo fogão de cozinha) com registo de parafuso para regular o volume da chama, resultante do álcool que, servido em estado líquido, por técnica básica de aquecimento, ali chega vaporizado em estado gasoso.

Até ver, é peça única do gênero, cá em casa. E grato estou ao meu amigo António Matias, pela oferta. Mas, para além disso, o que muito me satisfaz é o facto de toda a sensibilização que tenho andado a fazer, em vídeo e em texto, apelando à descoberta e preservação do nosso património histórico, material e imaterial, não tem caído em saco roto. O caminho faz-se caminhando.

4-inteiroEsta peça, ultrapassada que foi a sua função, descartada que foi por inútil, salvou-se por um tris de ir parar ao ATERRO DO PLANALTO BEIRÃO. Caiu sob os olhos de um cidadão sensível à preservação do património e ele a encaminhou para destino diferente: para minha casa. Esse seu gesto, ao fazê-la chegar até mim, retardou, por alguns anos, a sua morte anónima e inglória, volvendo, assim, uma página aberta da nossa “história, indústria, técnica e cultura”, pronta a ser lida e a glorificar a inteligência humana, pois as coisas - as mais simples e as mais complexas e elaboradas - mais não são que a nossa “extensão humana”.

Recuperada e encavalitada num fogão de cozinha, seu descendente em uso, ela a aí está pronta a entrar no INVENTÁRIO DE PARTILHAS da “legítima” que vou deixar aos meus filhos e netos. Ciente, porém, de que nenhum deles (por força de viverem noutros tempos e terem outras vivências, outros objetos de entretenimento e serventia) jamais saberão «o apreçocusto e o preço da legítima deixada».

 

VEJA O VÍDEO: https://youtu.be/ULLI8BK_mUU

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.