Trilhos Serranos

Está em... Início Crónicas A SINA - ORGULHO DAS ORIGENS
sábado, 07 dezembro 2019 17:56

A SINA - ORGULHO DAS ORIGENS

Escrito por 

A SINA

Sazonalmente eles apareciam em Cujó com as suas traquitanas, carroças, cavalos, burros, cães e mercancias. Assentavam, obrigatoriamente, arraiais sob a copa do centenário e frondoso castanheiro que existia no PASSAL, um terreno sito no Pardeirinho, entre o cemitério da aldeia e a eira lajeada, onde, todos os anos, se faziam e desfaziam medas de centeio malhadas à força de homem e jeito de mangual, primeiro, e, depois, sendo eu ainda jovem, de uma malhadeira, aquele engenho mecânico de boca aberta e cilindro horizontal movido a motor através de correias. A primeira a chegar foi a do “tio” Tibério Teixeira. (Sobre a eira, cf. o meu vídeo alojado no Youtube com o título “Cujó, As Eiras”)

 

 I PARTE

Refiro-me aos ciganos. Pessoas, carroças, mercancias, cavalos, burros e cães. Avós, filhos, pais e mães. Muitos. Tudo em família. Chegados ao sítio, montada a tenda, apetrechos arrumados, separados ou em grupo, corriam as ruas térreas ou empedradas da aldeia a mostrarem e a venderem os produtos que traziam e também a “ler a sina” a quem quisesse pagando, ou por simpatia.

4-torresUm dia, teria eu os meus 14/15 anos de idade (não me lembro bem), quando retornava da serra com o gado vindo dos lados do Mancão, calça de burel, camisa de linho e cajado na mão, bornal cheio de pedrinhas encontradas no chão - quartzo, feldspato e mica, não era pedraria de bisalho, eram pedras de trabalho e de pontapé de que a serra é rica - deparei com a minha mãe na quintã, frente à nossa casa da cozinha, em conversa animada e sã com uma cigana que num “ai” se pôs a desdobrar uma peça de cetim cor-de-rosa, pronta a vender parte dela “tão linda”, tão “bonita”, um “encanto”, mesmo a calhar para fazer uma camisa para “este menino e ele despir aquela camisa de linho”.

A minha mãe, que costurava numa máquina “SINGER” a roupa da famelga (blusas, camisas e saias. As calças ficavam por conta do “tio” António Gonçalves, um alfaiate vizinho, ou do seu filho Zeferino), depois do indispensável regateio, resolveu comprar tecido bastante para me fazer a obra sugerida. E eu já me via de cetim vestido, despido da camisa de linho.

Não sei se agradada por esse gesto da compra, se por me ver ligado ao gado, ou ainda por ela ser acompanhada de um filho da minha idade com o qual entabulei brincadeira imediata, a cigana, dizia, nova, bonita e bem falante, pediu-me a mão e pôs-se a ler-me a “sina”. E, em menos de nada, passei a saber que na palma da minha mão estava um livro aberto. Falava do meu futuro bastante promissor, mais longe do que perto. E eu, com aquela idade, os sonhos da mocidade a bailarem-me na mente que nem gente divertida em dança de romaria, fiquei ciente de que namoraria loiras e morenas e casaria um dia com uma delas. Primeiro, faria uma longa viagem e, fora dali, daquele soalheiro sem quintã de lenhas e de estrume, eu teria um amanhã, em que viria a ser rico, “senhor de anéis”, de oiro, sem ser pastor, nem cavador de enxada a “trabalhar e a suar que nem moiro”.

3-castanhaNunca esqueci aquele episódio fortuito, nem o filho da cigana com quem conversei e que, para mim, tinha o estranho nome de BELEZA.

Coisa esquisita. Então “Beleza” era lá nome que se desse a um filho? Uma beleza ficaria eu, todo prosa, quando vestisse a camisa cor-de-rosa de cetim reluzente ao sol, a par dos demais vizinhos que comigo se cruzassem no caminho. Mas era assim mesmo. E assim mesmo foi.

De facto eu, nos trilhos da vida, acompanhado e só, viajei para longes terras. Deixei Cujó, ultrapassei o Equador por via marítima e, por devaneio e amor, namorei loiras, negras e morenas. Coisas da mocidade. Cá, em Portugal, e lá no cabo do mundo, naquela costa de África banhada pelo Índico. E, para acerto da cigana, acabei por casar com uma alentejana, tão morena que mais parecia indiana. Minha companheira de viagem até que, mal incurável, a impediu de sê-lo. Podem crê-lo. Até parece que o livro escrito na palma da minha mão, lido por uma cigana, era um pergaminho antigo e ela soube lê-lo.

fisga-2Mas, ao contrário dela, do futuro risonho que ela me lia, eu na palma da minha mão só via, naquela idade e alguns anos mais, os calos do cabo da enxada, do enxadão e das mais ferramentas agrícolas de então. E também do pico e da maceta de pedreiro a lavrar cantaria, na aldeia de Peixeninho, freguesia de Gosende, a levantar uma casa de porpianho à força e jeito de cordas, cadernais e moitão, com os esforços exigidos para quem da arte entende.

E, sem artifícios nem enganos, assim foi até aos meus 18 anos, idade de mudar de rumo, tomar novo caminho. Na aldeia as pedras que conhecia eram os penedos feitos em fatias para esteios de ramada e muros, mais as pedras do caminho em que tropeçava. Não falo das pedras soltas que na fisga e na funda usava e atirava às cabras para virá-las de direção. Mas, fiquem a sabê-lo, conhecia bem as cristalinas torres de quartzo e as placas de mica abundantes nos montes do Espinhacelo, iguais às que trazia no bornal e ilustram este meu estendal de palavras de retorno ao passado.

II PARTE

E longa vai já a viagem. Para que registado fique, chegado a Moçambique, depois de passar por Angola e dobrar o Cabo das Tormentas, metido na máquina do tempo, recuei à pré-história e convivi com os primeiros hominídeos e suas formas de vida. As suas técnicas e ferramentas. 1-AMETISTA-1 - CópiaAcompanhei a evolução humana. Parti com a primeira tribo africana a povoar o mundo, adaptando-se ao clima e ao meio geográfico que alcançava nessa sua romagem de expansão e de sobrevivência. África, é ponto assente ser o ventre materno da humanidade, berço de toda a gente. As mutações físicas e cor da pele, uma realidade. Subi e desci o Nilo, para me deslumbrar com as pirâmides dos faraós. A arte faraónica, gigante, patente nos templos e túmulos. A vida e a morte. Deuses e homens. As habilidades e subtilezas políticas de Cleópatra. Nomes de faraós nunca mais esquecidos e as máscaras douradas dos seus rostos. Tutankamon e Equenaton, que 100 anos antes de Moisés proclamou o monoteísmo arvorando o Sol como único deus. Uma revolução, logo após a sua morte estancada. O politeísmo estava mais conforme os desejos dos sacerdotes e artesãos. Rendia-lhes mais. Assisti a guerras tribais entre povos e participei em batalhas travadas nas cidades-estado na Grécia. A guerra de Troia e o heroísmo dos contendores, Aquiles e Pátroclo. Cheirei o poder, os ódios e os amores de Páris e de Helena.

2-verdeVi os deuses descerem do Olimpo, a tomarem partido nessas contentas incentivando os amigos à vitória e, à socapa, a fazerem filhos nas jovens gregas, cujos rebentos, nados e criados, se tronavam semideus, capazes de vivos ficarem nas esculturas depois de mortos. Vi Diógenes em pleno dia de lanterna na mão “à procura de um homem”. Então, em Atenas, agora, século XXI, no mundo inteiro. A arte. A literatura. A filosofia. Homero. A Ilíada e a Odisseia. Ulisses, o aventureiro e imaginativo marinheiro. O seu regresso a Ítaca, o seu encontro com o porqueiro, primeiro, e depois a saudação do cão, Argus, o único a reconhecê-lo. A política, história e literatura, tudo carruagens do comboio onde viajei antes da invenção da máquina a vapor. Andei pela Pérsia e chorei a derrota de Dário frente a Alexandre, o Grande. Vi fumegar, como vulcões, as ventas do Bucéfalo. E veio Roma. “A Grécia conquistada, conquistou Roma conquistadora”, expressão histórica cuja força e significado ficariam para a posteridade, a atestar a vitória dos vencidos. Tal como ficaria, com a liberdade poética da rima que é de lavra minha, diria o louco de Pireu: “tudo o que vejo em redor é meu”, a atestar a ilimitada ambição humana.

Naveguei no Mediterrâneo com Fenícios, Gregos, Cartagineses e Romanos. Cheguei à Ibéria, donde parti. Comerciei púrpura, vidrilhos, metais e tudo o mais que veste e cheira a conquista e guerra. A Guerra dos Cem Anos. Reis contra reis, exércitos de peões e de cavalaria. Lanças, arcos e flechas. O papel de Joana d’Arc e seus arrebates de guerreira obedecendo a vozes que ouvia. Não era a primeira a ouvir vozes, mas a elas obedecia como todas as outras e outros que antes dela falavam com seres invisíveis ou seres alados. Vozes vindas de dentro, mas pelo exterior provocadas. Papas a mandarem em reis e reis obedientes a papas.

5-ROSA-1 - CópiaQuanto tempo já lá vai. A civilização suméria. O Tigre e o Eufrates. A escrita cuneiforme. Os zigurates. A formação e a queda de impérios. As religiões. Os princípios do bem e do mal. Zaratustra. Os cadáveres expostos em torres e deixar que a natureza selecionasse os justos dos injustos. Os justos mirravam secos, os injustos seriam devorados pelas aves de rapina. É isso, religiões, poder, impérios. O império persa, macedónico, romano. E hunos e bárbaros, godos, visigodos, ostrogodos. Lusitanos contra romanos. Árabes contra visigodos. Cristãos contra mouros. Cruzados a caminho da Terra Santa em nome da fé, mas com o objetivo no saque dos vencidos é que é. Os primeiros reinos ibéricos. A debandada de uns e o avanço de outros, num vai e vem permanente, norte, sul, este, oeste. Levantamento de castelos, torres e ameias, cúpulas de mesquitas, torres de igrejas. Orações, preces e mortes. Cabeças cortadas sem compaixão. Viúvas as consortes. E Adeus Algarve. Adeus Granada. Conquista de Ceuta, África abaixo, mares além. Pólvora, pelas e canhões. Era a história e o destino, reis empossados por “direito divino”.

Ceuta foi a primeira pegada portuguesa em África. O 25 de abril de 1974 foi a retirada da terra descoberta e conquistada. Portugueses metidos nas caravelas a “darem novos mundos ao mundo” com as marcas históricas da economia agrária e comercial, com selo medieval e senhorial. Os servos da gleba, senhorios e enfiteutas. As rendas e os foros. Embarcavam nobres, burgueses, soldados, ladrões, assassinos, vadios, desterrados. O “quinto” da mercadoria embarcada, vinda de longe, metida era nos cofres do monarca. As capitanias do Brasil, os bandeirantes, o ouro e as pedras preciosas. Lutas renhidas e manhosas na sua descoberta e transporte. No bisalho metidas com sucesso, metida era também a inveja e a morte no regresso.

O elo da escravatura unia a cadeia de impérios, califados e reinados. Os prazos do Zambeze. Entrada pelo sertão dentro, por terra e água, rios e afluentes. Estranhas gentes. Os nomes dos exploradores e cientistas metidos mato dentro, enfrentando feras e febres. Costa e contracosta, interior desconhecido. Desenhos, nomes e mapas. Desbrava-se a terra, aumenta-se o mundo, expande-se a geografia. Uma viagem sem fim. India, Macau, Timor, China. Tudo além da Taprobana. Territórios de seda e especiarias. Desvairadas gentes e culturas. Vice-reis que eram reis arregimentados, uns obedientes, outros não. Muitos anos, muitos dias. Mas quem corre por gosto não cansa. Gosta. Na jornada, nesse mundo antigo, encontrei-me com Aspásia, de Mileto. Com Isabel, de Samaria. Com Semíramis, da Babilónia. Com Cleópatra, do Egito. Com Messalina, de Roma. Com Herodíadas, de Jerusalém. Com José e Maria a virgem mãe de Jesus. Com Madalena, a pecadora e santa e mais apóstolos de Jesus Cristo. A rainha de Sabá, o Preste João da Etiópia, de Jerusalém a cópia.  Tudo isto. 

III PARTE

6-anel-1E se na palma da minha mão a cigana leu que eu chegaria a ser rico “senhor de anéis”, o que lia eu que vós ainda não sabeis? Tudo o que podia e vinha ao meu alcance de leitura, só não lia, após tão longo caminho, o texto escrito na palma da minha mão, aquele que leu a cigana nos meus tempos de menino. Lembram-se disso? Vai longa a viagem, mas disse ela que eu seria “rico e senhor de anéis”, de oiro, deixando de ser pastor e cavador de enxada a “trabalhar e suar que nem moiro”.

Acertou, a cigana, a mãe de um menino que tinha o nome Beleza. Na minha ida para longes terras, a minha riqueza, meu tesouro de vida foi a família constituída, mulher, filhos, companheiras e netos, para quem, sem vertigens, escrevo orgulhoso das origens.

Anel? Um somente. Essa joia simbólica que, com a maestria da ourivesaria portuguesa, combina magistralmente os elementos identificadores da longa viagem encetada. No topo incrustada figura uma ametista lapidada, a “pedra oficial do curso de Letras, normalmente utilizada em anéis de formatura, simbolizando o esclarecimento”. De um dos lados foi lavrado o sol nascente, uma imagem de faraó, uma pirâmide destacada e só. Do outro lado, 7-anel-2dois capitéis jónicos rematam o par de colunas, cujos fustes exibem os escudos com as cinco quinas nacionais. E mais, junta-se uma nau, ou caravela, de velas enfunadas a rasgar as ondas do mar desconhecido.

Muito saber e arte. Em poucos centímetros de metal, dobrado em forma circular, num simples anel, sem rubis nem diamantes, o artífice lavrou séculos de tempo, quilómetros de espaço, partes de mundo, de acontecimentos, pensamentos e obras materiais que são a extensão humana dos obreiros e dos viajantes. É demais! E porque é, eu aqui deixo o seu retrato com o alto pensamento, que mais não seja, para alimentar todos aqueles que fazem da inveja sustento. A todos esses que, com tal comportamento, invejando o produto sem olhar ao trabalho, eu ofereço o meu apelido rimado sem a letra “v”, pois sem tal letra, poderão entreter-se  como meninos de chupeta.

 

 

CONCLUSÃO

8-anel-3

E aqui, no vento, sem que minta nesta minha caminhada, ciente de estar próxima a estação de chegada, a escrever sem recurso a caneta, papel e tinta, qual tabelião ou notário do “judicial e notas”, o pastorinho plebeu (que sou eu) deixa este “item” do seu testamento autenticado com o “selo público e raso” usado como sinete lavrado em anel de príncipe, rei ou papa, na certeza de que a riqueza alvitrada pela cigana quando eu era menino, naquele distante dia, é a palavra escrita na palma da minha mão, um texto que eu não lia.

 

 

POST SCRIPTUM:

Virei a lupa de leitura cento e oitenta graus. Deixei o passado e assentei no presente. Mal meu que não tem cura. Deixei a Joana D’Arc metida na sua armadura, montada no seu cavalo, elmo na cabeça e hábil no manejo da espada, a obedecer às vozes que ouvia, e vejo, neste dia, 5 de dezembro de 2019, em Madrid, de muita gente rodeada, outra menina guerreira, Greta Thumberg, 16 anos de idade, às voltas com a batalha climática. A Joana de antigamente, pelas visões que tinha e vozes que ouvia, foi queimada na fogueira, em nome da França, em defesa do seu país. A Greta Thumberg, sueca de nascimento (viu a luz do mundo em 2003) em vez de espada, maneja habilmente a língua contra a míngua de políticas ambientais. E arrasta multidões. E lembra aos figurões que governam o mundo as leis necessárias e urgentes para evitar que, no planeta inteiro, se queimem árvores, animais e gentes.

 

Ler 555 vezes
Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.