Trilhos Serranos

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terça, 10 setembro 2019 16:10

LITERATURA ORAL

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LITERATURA ORAL

Nos arquivos da ESCOLA PREPARATÓRIA «MÁRIO BEIRÃO», em Beja, onde lecionei, deve existir (se não foi tudo parar ao lixo) uma pequena REVISTA policopiada, contendo o resultado do trabalho de campo levado a cabo pelos alunos das turmas identificadas no cabeçalho da CAPA, bem como os professores coordenadores dela: Abílio, Maria do Carmo, Maria da Conceição Teixeira e Maria Joaquina.

 

PRIMEIRA PARTE

CAPA - CópiaO esboço da capa dessa revista, com o título “A ESPIGA” (que aqui reproduzo) foi graficamente concebido por mim e convertido em desenho técnico por um amigo meu, hábil no manejo da régua, do esquadro e do escantilhão. O seu nome foi-me ceifado da memória pela seitoira do tempo. E não sendo legível no canto inferior direito sob a figura masculina encostada à árvore, onde parece estar, fica sem identificação, com pena minha.

Colaborador da imprensa local e já com alguma recolha de LITERATURA ORAL feita no concelho de Castro Verde (de que dei prova recente em vídeo-áudio), coube-me fazer a INTRODUÇÃO ao número 1, no ano de 1982.

É o texto que transcrevo, pois, passados todos estes anos, voltaria a subscrevê-lo, tal e qual:

«INTRODUÇÃO

«Visando um melhor conhecimento do «meio local» através da componente cultural; procurando ‘contribuir para o romper de fronteiras entre a escola e a vida real, entre a biblioteca viva, ‘aberta", que tem por estante  «meio» onde cada homem é um livro, cada comunidade uma enciclopédia  e a biblioteca institucionalizada e «fichada», donde se extrai, por regra, o discurso escolar, nós, professores e alunos, envolvemo-nos na recolha de literaturapopular expressa em poesialengalengas, adágios e adivinhas.

1-Com parte do material recolhido e de acordo com os meios técnicos e económicos  que a escola pôs à nossa disposição, fizemos: "A ESPIGA." 

O título, foi sugerido por um dos alunos envolvidos na tarefa; naturalmente sem se aperceber das virtualidades semânticas do termo, não podia ser mais adequado ao conteúdo e objetivos do trabalho.

Espiga lembra agriculturaAgricultura lembra cultura já que este termo (do latim colo, is, ere, colui, cultum) significa, à  nascença, «amanhar terra». Agricultura lembra meio rural (meio onde a nossa escola se insere) e lembra também o povo camponês nas suas relações com a terra, problemática de produção e consumo, dependência da Natureza, a religião…

2-ESPIGAEspiga, na aceção popular significa contratempos e de contratempos, contradições humanas e naturais nos falam algumas 'produções literárias recolhidas e selecionadas.

Espiga, enfim, é morfologicamente um conjunto de grãos, pelo que as lengalengas,  adágios, adivinhas e décimas que corporizam esta coletânea, não são mais do que uns tantos grãos da seara da vida coletiva que não deixará de fornecer alimento espiritual às gerações· futuras, esbatido que seja o conceito de cultura entre nós generalizado, veiculado pelo discurso escolar normalizado, assente nos valores e "rnodus vivendi» \das classes «superiores»

 Da validade do trabalho (simples e despretensioso quanto à impressão quantidade e valor erudito) falam as composições coletivas que acerca dele elaboraram os nossos alunos que contribuíram para a sua concretização. O que eles dizem nos satisfaz».  

3ESPIGAHá dias publiquei neste meu site, um extenso texto com o título “ PEDAGOGIA NA ESCOLA E FORA DELA”. E por isso, coerente com esse princípio, neste meu apontamento, vendo mais interesse destacar o método utilizado na tarefa e a opinião dos alunos sobre ela, sobrepondo-a ao conteúdo recolhido, aqui deixo o “fac-simile” das suas OPINIÕES incorporadas no miolo da revista, no seu papel de delegados de TURMA.

 

4 ESPIGAOpinaram sobre o seu interesse e validade da recolha feita, daí eu as ter digitalizado na íntegra, se calhar para surpresa daquelas e daqueles que aqui ficam identificados, neste “mare magnum” da Internet, águas em que certamente todos eles navegarão, hoje, muito mais lestos e com o vigor que já vai faltando ao velho professor. Aquele que ainda não perdeu o vício da investigação em que procurou iniciá-los.

Ora vejam:

 

 SEGUNDA PARTE

O chamado CICLO PREPARATÓRIO era, naquele tempo, formado pelo 1º e 2º anos, correspondentes aos atuais 5º. e 6º anos. Eu, professor do 1º grupo, por força da profissionalização, lecionava as disciplinas de PORTUGUÊS, de ESTUDOS SOCIAIS e HISTÓRIA, estas últimas unidas em HISTÓRIA E GEOGRAFIA, esses seres mutantes que, para muitos alunos, não passam de seres esquisitos oriundos de um qualquer planeta distante.

Pois. E, dada esta explicação, aqui deixo também o “fac-simile” dos “versos»  manuscritos, feita pela minha aluna de ESTUDOS SOCIAISAna Sofia do 1º F, texto em que, na sua sadia ingenuidade infantil traça o “perfil” de todos os professores da turma. Descrição mais pormenorizada nuns do que noutros, o retrato ficou feito em letra manuscrita com a lisura, sinceridade e simplicidade de uma criança. E creio que nenhum dos professores viu ou pode ver nisso uma caricatura. Fomos vistos assim aos olhos dessa menina, cujo futuro desconheço, ainda que a tivesse procurado neste mundo a perder de vista do FACEBOOK. Mais bem-sucedido fui com ROSA LAM que tive a felicidade de encontrar e informar que iria publicar este texto, onde ela veria a sua LETRA MANUSCRITA, quando era criança.

5-rosto

Na parte que me toca, a ANA SOFIA, foi muito sintética a meu respeito, mas, diferentemente dos5-verso restantes professores, além da “disciplina lecionada” distinguiu-me referindo o nome próprio, assim:

“Ao professor de Estudos Sociais

Lá vai o professor Abílio

Na usa Diane, todo lampeiro

Por acaso até é um professor porreiro”.

 

Porreiro”. A Ana Sofia não podia escolher um melhor adjetivo para definir o meu “perfil”, a minha maneira de ser.

“Porreiro” com dois “rr” de fonia áspera, raspante, rústica, rude. E que melhor podia encontrar nos arquivos um professor aos 80 anos de vida senão ver-se retratado por uma criança, sua aluna, como sendo um “professor porreiro”? Fonia rústica, rude, camponesa. Foi isso. Ligado ao campo, rude,  rústico e camponês sempre fui. Passei parte da vida a recolha da literatura oral e a queimar as pestanas sobre os manuscritos, jornais e documentos mais, investigando e divulgando a HISTÓRIA LOCAL. “Porreiro”. Isso mesmo.

E como se enganam os adultos que ignoram a perspicácia das crianças. Mas “porreiro, porreiro” seria eu saber agora onde pára a Ana Sofia e dizer-lhe que, naquela sua idade infantil, ela me conhecia melhor que muitos adultos. Então e agora.

ABÍLIO-DYANE-Redz

 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.