Trilhos Serranos

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sexta, 31 maio 2019 13:26

RIO PAIVA

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MEMÓRIAS MINHAS SOBRE O RIO PAIVA

Rio, ora manso, ora bravio, mas sempre rio, a deslizar entre montanhas desde a nascente à foz, ele irriga terras, gira azenhas, gira mós e leva consigo, noite e dia, até terras estranhas, a vida do lavrador, do moleiro, do lagareiro, do pastor que nasceram, viveram e morreram entre vales e montanhas.

E, nesse seu curso milenar até ao Douro, quanta praga, quanta raiva, levou e lavou o rio Paiva em todo esse tempo? Do lavrador, do moleiro, do lagareiro, do pastor, do camponês, cada um no seu afã, do romper da manhã à noite cerrada, quanto grito mudo e de raiva levou e lavou o rio Paiva até ao Douro? Tanto trabalho, esforço de mouro, para se ter nada, pois viver era ter tudo.

Como era? O pastor de pés descalços na serra bravia; o lavrador de tamancos agarrado ao arado na terra lavradia e ora desamparados, ora agasalhados por uma sebe que aqueiba o vento, eles vivem o dia a dia, e deixam que rio e o vento levem o que na terra, que no rio e que no vento escrevem.

Presos ao chão do nascimento (eles são tantos) exprimem o pensamento nas pragas e preces que fazem ao mesmo tempo. Digo-o, não temo. Pragas ao Demo, preces a Deus e aos santos. Basta para tanto que uma trovoada repentina, em Maio, interrompa a vessada; praguejam que nem raio por tudo e por nada, e, nesse seu viver de praguejar e rezar, se calhar, nada lhes diz a poesia da terra a fumegar, a alvéola de cauda a dar a dar, que sim, que sim, em cima do timão, atenta à larva do chão, atenta à rima da folha lavrada, da folha escrita assim, pergaminho de séculos a falar da vida camponesa, do amor, da raiva, da alegria e tristeza que ao rio Paiva chegam, deslizando das encostas da serra. Assim noutras eras, assim na minha era.

Abílio Pereira de Carvalho, 

(nascido no ano de 1939

 

NOTA: publicado no Facebook e de lá transladado hoje mesmo

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.