Trilhos Serranos

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sábado, 25 maio 2019 12:12

LIVRO ABERTO E ILUSTRADO (a)

Escrito por 

«A VERDADE É COMO O AZEITE, VEM SEMPRE AO DE CIMA»

 O amigo Fernando Costa, a quem agradeço as palavras abonatórias sobre a minha minha obra publicada, palavras deixadas num comentário a um “post” meu no Facebook, disse ignorar a POLÉMICA à qual aludi, metendo a conivência dos BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS e do EXECUTIVO MUNICIPAL. Informei-o que tal polémica se tinha desenrolado no jornal “Notícias de Castro Daire”, no ano de 2005 e seguintes. Que tinha subido aos microfones da Rádio Lafões e que permanecia, em parte, nos textos que publiquei no meu velho site “trilhos serranos.com. Daí me apressar a remetê-lo para aquele meu espaço “histórico”, convidando-o a navegar nele e, por essa via, se inteirar das razões que me levaram a evocar o velho adágio popular.

Ora, porque tenho Fernando Costa como pessoa bem informada, e interveniente nas REDES SOCIAIS cá do burgo,  estranhei que ele ignorasse as razões que me levaram a evocar esse adágio, mas de seguida logo me lembrei que ele seria ainda muito jovem ao tempo dos factos, tempo esse em que não havia por cá o Facebook, este nóvel espaço social onde actualmente desaguam todos os rios e ribeiros dos afectos, da informação e do conhecimento.

Mas valeu a pena pergunta. Ela fez-me voltar a esse tempo, a esse meu espaço, e, como não sou dado a “deixar os meus créditos por mãos alheias” decidi carrear para este meu novo espaço os textos então escritos, possibilitando a cada um dos meus amigos facebookianos ajuizar das razões que, falando eu de azenhas e de livros, me foquei no oleado e saboroso adágio, ligado à oliva. Vamos ao primeiro texto “ipsis verbis”, publicado em 2005. O PRIMEIRO desse LIVRO ABERTO E ILUSTRADO que alguns bem gostariam de ver FECHADO, LACRADO...sei lá...QUEIMADO.

 

BOMBEIROS - Prós e Contras - 1

Tenho andado arredado das colunas deste jornal por razões que não vêm ao caso. Mas vejo-me forçado a regressar aqui, dada a agitação descabida que anda no burgo vilão. Agitação porquê? Porque saiu um livro. Mais um livro. Bisonho bicho, esse!

 

 AB-Capa-14«Acontece que, oh Portugal de plástico e de esferovite, o livro diz nomes, conta coisas, refere datas. Em Portugal não se dizem nomes (usam-se iniciais ou deixa-se a suspeita) não se contam muitas coisas, nem se referem datas. Não se incomodam as pessoas, tratando-as pelo seu nome, chamando António ao António e tratando-se a Genoveva por Genoveva. Não, em Portugal limitamo-nos a sugerir infâmias anónimas e baixarias de ”alguém” (...) abriu as portas ao armário, onde estão reunidos anos e anos de esqueletos e de aprendizagens. E de indignidades, sim, admito. E de segredos que geralmente não se confessam. Ora acontece que as pessoas acham que nunca são hipócritas, nem indignas. Acham que são perfeitas, impolutas e indiscutíveis em absoluto. Acontece que não são. Que não somos».

Não são palavras minhas nem se referem ao meu último livro: «Castro Daire, Os Nossos Bombeiros, A Nossa Música», editado pela Câmara Municipal. Elas são do escritor Francisco José Viegas, publicadas no «Jornal de Notícias», de 08 de Dezembro, a propósito do livro «Bilhete de Identidade» de Maria Filomena Mónica. Mas podiam ser aplicadas ao «zoar da carvalheira» no quintal vilão, levantado em torno deste meu livro, um autêntico bilhete de identidade da Associação dos Bombeiros Voluntários de Castro Daire. Haverá razão para isso? Urge explicá-lo publicamente nos órgãos de comunicação e não no «chocalhar» da esquina. Comecemos pelo princípio.

E foi assim. Acabada a obra, ainda que não ignore o autoritarismo censório que se distendeu para aquém do 25 de Abril em cabecinhas mal formadas, não me passou pela cabeça submetê-la à «censura prévia» e, acostado ao binómio liberdade/responsabilidade, fiz uma proposta à Câmara Municipal, tal como já tinha acontecido noutras ocasiões,  para ela assumir ser sua editora, frisando que o «produto da sua venda reverteria a favor da Associação dos Bombeiros Voluntários de Castro Daire, por cedência dos meus direitos de autor». E não procedi assim para dirimir quaisquer conflitos de interesses com a instituição que nunca tive, como o provam as actas e os documentos de contabilidade -   mas, tão só, por solidariedade para com ela. Será que todos os elementos dos «órgãos sociais» se podem orgulhar disso, ao longo da sua história? Nunca facturei um cêntimo dos «orçamentos» da instituição sempre em crescendo: 25.419$13, em 1948; 64.040.000$00, em 1999; e 314.717,16 €, em 2004. Não facturei. Antes pelo contrário. Com este livro, em parceria com a Câmara Municipal, dei a possibilidade aos Bombeiros de poderem facturar cerca de oito mil contos, bastando, para tal, que os 1.820 sócios adquiram os 1.700 exemplares que a editora disponibilizou para esse fim. A cada qual a sua responsabilidade e tarefa a desempenhar em benefício (ou prejuízo) da instituição.

Mediante tal proposta, o Executivo Municipal, de que era vice-presidente a actual presidente da Câmara, Engª Eulália Teixeira, através do ofício 209/GAP/2005 de 01 de Junho, comunicou-me o seguinte:

«Assim, este executivo camarário aceita ser o editor de tão valiosa obra, com a edição de 2.000 exemplares, dos quais 50 serão entregues ao autor, 250 destinam-se ao editor para ofertas e os restantes cedidos à causa nobre da Associação dos Bombeiros Voluntários de Castro Daire».

Concluída a impressão, diligenciei junto da Câmara e da Direcção dos Bombeiros - a primeira como editora, a segunda como beneficiária do produto da venda - para, em conjunto, articularem a melhor «forma de a obra entrar no mercado», rentabilizando-a  de acordo com os objectivos aceites, expressamente, pela parceria autor/editor: beneficiar os bombeiros de uma verba substancial, seguros das suas atávicas carências financeiras.

                Trata-se de um livro de 514 páginas de texto e de imagem, feito a partir da documentação disponível, a saber, fotografias, jornais, documentos avulso e actas  existentes nos arquivos. A História não se apaga. A história não obedece a «estados de alma», de «amizades» e «compadrios». Segue os documentos de perto, às vezes fazendo transcrições extensas. Daí este livro expor uma História rigorosa, exacta e verdadeira das duas instituições historiadas: «Os Nossos Bombeiros» e a «Nossa Música». Mas num livro, por mais volumoso que seja, falta sempre uma página. A História não terminou ali, naquelas páginas, e bem pode ser preciso fazer uma adenda. Os protagonistas continuam em acção, os factos continuam a desenrolar-se e ao historiador cabe dar conta de uns e de outros. Sendo certo que, nesta função, não colhe assacarem-lhe o «agradável» ou o «desagradável» dos factos que relata, cabe, sim, assacar isso, exclusivamente, aos seus protagonistas: passados, presentes e futuros.

            Livro prefaciado pelo Dr. Aurélio Loureiro, distinto advogado da nossa praça,  não resisto a transcrever algumas palavras suas, no sentido de ajudar à sua leitura escorreita, isenta de pressões, manipulações e interesses de «capelinha».  Diz ele:

«Tive o privilégio de o ler antes de qualquer outro e oportunidade de sobre ele fazer um juízo crítico, antes de mais ninguém». E acrescenta: «Trata-se de um livro extraordinário sobre a história de duas instituições locais no qual o autor procura fazer luz sobre as características sócio-económicas da própria comunidade local onde estão inseridas ao analisar a evolução de cada uma sobre diferentes perspectivas (...) vai ser, certamente, daqui em diante, um exemplar de leitura obrigatória em qualquer outro trabalho desta natureza sobre a história da nossa comunidade (...) está o autor da parabéns tanto mais que o objectivo deste trabalho não é financeiro, não teve em vista arrecadar qualquer vantagem económica para o autor, mas tão só, eventualmente, para as instituições historiadas (...) de igual modo também a Câmara Municipal merece um gesto de louvor ao assumir as despesas da edição deste livro, demonstrando reconhecer a importância social deste tipo de trabalhos».

            Eu sei que o Dr. Aurélio leu o livro por inteirinho. É que, para além do prefácio, ele também teve a penosa tarefa de corrigir as provas tipográficas. Estou-lhe agradecido por isso. Devíamos todos estar-lhe agradecidos. Mas para o leitor saber mais, faça o favor de adquirir o livro. Seja amigo da Associação. Adquira e divulgue a sua História, pois só assim provará que defende os interesses dela e não o contrário, ciente de que com a sua atitude benemérita está a dar um contributo a uma causa nobre, independentemente dos «gostos» ou «desgostos» daqueles que se arvoram servidores da instituição, mas que, afinal, só dão provas de servir-se dela. A história registará os factos e deles dará conta, seguramente. Esta crónica é já uma  das suas páginas futuras.

Bombeiros-2Foi baseado nos factos e nos acontecimentos que escrevi as palavras que constam na contracapa. Ora leia:

            «As instituições locais, como a Misericórdia e os Bombeiros, não são assim tão «santas», nem tão «humanitárias» como vulgarmente são conhecidas. Nelas se envolvem pessoas bem intencionadas, solidárias, empenhadas no Bem Comum, mas também pessoas não tanto dispostas a servirem-nas, mas a servirem-se. Entidades colectivas formadas por homens, nelas se misturam, mas não confundem, interesses de vária ordem. Nelas se encontram as virtudes e os defeitos de todo o ser humano. Defeitos que tanto tenderão a diminuir quanto maior for a intervenção cívica daqueles que a elas pertencem e as servem e daqueles que na comunidade em que elas se inserem exercem a sua cidadania sem a preocupação de somente «dizer» e «escrever» a seu respeito o que se considera «politicamente correcto». O erro é pedagógico e só se exerce pedagogia se se apontarem não apenas os sucessos e as virtudes, mas também os erros. E este livro pretende exercer alguma pedagogia».

            Com efeito, é disso que trata este livro: «DAS VIRTUDES E DOS DEFEITOS» de uma Instituição, registados nas «actas» existentes em arquivo. Jamais passaria pela cabeça do historiador branquear factos e acontecimentos registados em documentos, públicos ou institucionais. A probidade, a verdade e o rigor estão acima de qualquer interesse pessoal, político ou amizade. A VERDADE acima da AMIZADE. Na investigação há ética. E talvez por isso é que o livro já se tornou tão falado e badalado. Já exerceu a sua pedagogia. E se há ética na investigação, também tem de havê-la na política e na gestão da coisa pública.

Este livro diz apenas a VERDADE respaldada em documentos particulares e oficiais. Nenhum homem de BEM e de CARÁCTER devia estranhar isso. Mas, cada um é  como é. E como hoje estou em maré de transcrições, com enfoque na VERDADE, aproveito colar aqui, com a devida vénia, algumas palavras do editorial assinado pelo Dr. João Duarte de Oliveira no último número deste jornal, dado ele discorrer sobre um princípio muito caro a todo o historiador que se preze, a começar por Fernão Lopes para quem a História era a «certidão da verdade». Título do editorial: «SER VERDADEIRO»:

 «Verdadeiro é tudo o que contém a verdade. É aquilo que não falseia, que não deturpa, que respeita a verdade. É verdadeiro aquele que não mente, quem diz a verdade, quem é natural, autêntico. A verdade diz o que é e não o que não é. A verdade não pode ser o que é útil para quem fala, não deve ser o que satisfaz os proveitos ou as necessidades de cada um. A verdade existe por si, é una, é indivisível. E pronto, basta, acabou. A verdade é a verdade. Quem diz algo em descordo com a verdade que conhece está a mentir, é um mentiroso. Os homens com responsabilidade de direcção educacional, política, empresarial, social, estão de forma inelutável, presos à verdade. Se mentem desmerecem a função que exercem ou que pretendem».

 E «pronto, basta, acabou» diz o Dr. João. Eu direi: «pronto, basta, mas não acabou». Pois espero ter ocasião de dar todos os esclarecimentos necessários acerca desta minha obra e refutar as falsidades de que fazem uso os chocalheiros de esquina, desvirtuando-a e deturpando o que nela se relata, em prejuízo da sua genuinidade e integridade, em prejuízo da honra e reputação do autor. Jamais deixarei que a verdade contida nos documentos e no livro, seja posta em causa por manipulação «conveniente» dos desagradados, alguns  dos quais parece não se honrarem com  posições que assumiram publicamente no passado. Negam-se a si próprios. É lá com eles. Não é com o historiador. Venham artigos. Venham reclamações. Venham ofícios. Venham abaixo-assinados e protestos. Mas fundamentados.

 É a verdade, a probidade e o rigor histórico que estão em causa. E como vivemos num «estado de direito», por ser verdade, e para informação dos que dela andam arredados nesta matéria, eis mais duas transcrições extraídas do «Código dos Direitos de Autor e dos Direitos Conexos»:

Artº 56º - 1 - Independentemente dos direitos de carácter patrimonial e ainda que os tenha alienado ou onerado, o autor goza durante toda a vida do direito de reivindicar a paternidade da obra e de assegurar a genuinidade e integridade desta, opondo-se à sua destruição, a toda e qualquer mutilação, deformação, ou outra modificação da mesma e, de um modo geral, a todo e qualquer acto que a desvirtue e possa afectar a honra e reputação do autor».

Artigo 90º- 1 - O editor é obrigado a consagrar à execução da edição os cuidados necessários à reprodução  da obra (...) e a fomentar com zelo e diligência, a sua promoção e  colocação no mercado dos exemplares produzidos, devendo em caso de incumprimento, indemnização ao autor por perdas e danos». (CONTINUA)

 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.