Trilhos Serranos

Está em... Início Crónicas O CANTÉS E O ZIC-ZAC (1)
quinta, 11 abril 2019 16:29

O CANTÉS E O ZIC-ZAC (1)

Escrito por 

PROFISSÕES E FERRAMENTAS

Neste meu afã de estudar o passado e trazer à luz dos tempos atuais algumas profissões antigas, certas delas já extintas, bem como as ferramentas usadas por esses mestres de ofício, sempre no sentido de enaltecer a imaginação e criatividade usadas pelo homem na luta pela sobrevivência, depois da crónica que deixei neste meu espaço sobre a profissão de AMOLADOR DE TESOURAS  e outras FERRAMENTAS DE CORTE e da ARTE da fazer uma SEBE de carro de vacas, com vimes entrançados, em Cotelo, chegou a vez de fazer um vídeo e, através do YOUTUBE mostrar ao mundo uma ferramenta, o “ZIC-ZAC”, cujo nome lhe advém da função exercida nas mãos daqueles profissionais que, de aldeia em aldeia, ofereciam os seus préstimos e saberes, no conserto de louça rachada ou partida - pratos, malgas e penicos - bem como “guarda-sóis” e outros utensílios domésticos.

 malgas-1 - CópiaFaço-o apoiado, primeiramente na minha memória com cerca de OITENTA ANOS de vida. Depois, na investigação que sempre levo a cabo, lendo e estudando o que existe publicado sobre o objeto em foco, e finalmente, bater sola por essas aldeias além, passeios e espaços públicos, a falar com muita gente, isto é, indagando por forma a ficar esclarecido, para melhor poder esclarecer. E, no caso vertente, concluir que os artífices que eu conheci a compor “louça, guarda-sóis e penicos, zic-zac” eram diversamente designados de terra em terra: aqui, eram “latoeiros” ou “picheleiros” pois se prestavam a pôr um pingo de estanho num utensílio de lata, por exemplo, num cântaro de vinho, numa “almotriga” de azeite, ou vasilhas similares. Ali, eram “funileiros” porque se prestavam a fazer funis novos de folha flandres, a consertar um velho, ou fazer obra nova de latas velhas vazias do seu conteúdo original. A soldar as meias luas postas em xis que serviam de guarda-vidros dos lampiões de rega e idas noturnas aos moinhos. Além, eram “louceiros” ou “cosedores” de louça, por fazerem o milagre de unir os cacos de um prato ou de uma malga e deixá-los novamente em condições de uso. Isso tudo, aqui, ali, ou além, ou uma e mesma coisa num só artífice. A designação dependia da tarefa desempenhada. O saco de tralha carregado às costas de um só homem levava dentro muitas profissões. A polivalência era obrigatória à sobrevivência. Tempo de pobreza e de miséria. A sociedade de consumo, da especialidade, o tempo do “usa e deita fora”, do “descartável”, eram coisas do porvir. Reciclar não era uma salutar exigência ecológica, era sim uma deprimente obrigação económico-doméstica. Estou a falar do POVO, mas nesta minha deambulação e conjugação da HISTÓRIA, ARTES E LETRAS, falarei também da NOBREZA e do CLERO.

artes e letras-1 - rEDZEm CUJÓ, minha terra natal, na minha longínqua juventude, esse milagreiro itinerante,  pusesse ele um pingo de estanho num furo indesejável, fizesse ele um funil novo ou pusesse uns agrafes em louça rachada ou partida, era designado por CANTÉS. Optei, nesta crónica, por esta designação, não só em homenagem à minha terra (filho da ucha para ela puxa) mas também e porque a melopeia do nome me encanta, tal como me encanta o pregão anunciador da sua presença, ou seja, chegou aquele que “conserta louça, guarda-sóis e penicos, zic-zac”, pregão simples, mas aparentemente chistoso e que arrasta consigo histórias de vida humana e lições de “inteligência prática” evidentes, mas despercebidas à maioria dos membros que integravam a comunidade aldeã que servia. Detetei isso durante as pesquisas. Não importa como se faz. O que importa é o que está feito. Serve ou não serve. Pronto.

Vamos refletir sobre isso, em conjunto, caro leitor. Na altura já havia o ARCO DE PUA, muito usado pelos carpinteiros, tal como o TRADO. Ambos artefactos manuais. Quaisquer deles mostram, hoje em dia, a sua identidade, no GOOGLE e no  YOUTUBE, bem como noutros MOTORES DE BUSCA, disponíveis na Internet. É só investigar. Estão vaidosamente no mundo. Têm rosto e função muito bem explicada.

ARCO DE PUAEntão, se já existiam essas ferramentas de furar, porque é que nenhuma delas era usada por estes artífices? Pela simples razão de que a tarefa de “coser louça” exigia uma “inteligência prática” que excluía, à partida, o uso dessa duas peças. Qualquer delas, na sua manipulação, manteria as duas mãos ocupadas e os “cacos” rejeitavam aperto de qualquer torno ou ferramenta afim. Excluídas eram, liminarmente, por dever de ofício.

E assim sendo, mandava a experiência que uma das mãos segurasse a peça de louça, cuja fragilidade exigia tato sensível e manejo apurado. À outra mão livre cabia a tarefa de manipular uma ferramenta adequada, não fosse a «emenda sair pior que o soneto».

E essa ferramenta só podia ser uma verruma, objeto primário na arte de furar, ou algo mais sofisticado com igual função e melhor desempenho. Pois. E uma verruma é fácil de fazer e de usar, mas se houvesse outra forma de esburacar a cerâmica com menos custo e mais segurança, tanto melhor.

Foi então que, algures no mundo, não se sabe onde e em que tempo, pessoa imaginativa e inteligente inventou a sofisticada e necessária ferramenta, sem registo de patente. E o nome? Sem registo em cartório notarial, posta a correr mundo, o nome, em CUJÓ, advir-lhe-ia do uso e da função: «ZIC-ZAC», aquele seu movimento suave e rotativo, ora num sentido, ora noutro, graças às correias ou fios enroscados na vareta central, acionada por dois dedos do artífice e, como tal, incluído nas pregão das suas tarefas: “coser louça, guarda-sóis e penicos, zic-zac”. Em Cotelo, aldeia da freguesia de Gosende, aninhada na encosta nascente da serra do Montemuro, segundo me disse o senhor Fortunato Correia de Castro, de 82 anos de idade, neste ano de 2019, o pregão era um bocadinho diferente, mas ia dar ao mesmo: “zac-zum, compor louça e guarda-sóis”. Exclui da tarefa os “penicos” e “zac-zum” substitui o “zic-zac”. (O leitor poderá ver o funciopnamento desta ferramenta no vídeo, cujo no link coloquei em rodapé)

zic-zac - CópiaEm CUJÓ esse artífice itinerante, com “zic-zac” ou “zac-zum”, era o CANTÉS, uma profissão não dicionarizada, mas cujo significado bem pode advir do custo e do trabalho levado a cabo por esse profissional.

Vasculhei os MOTORES DE BUSCA online e os meus dicionários domésticos. Neste meu afã de querer saber e divulgar saber, para se “saber-fazer”, o mais que encontrei foi a interjeição “quem dera” sinónima de “cantés” e a expressão “quanto é”, com o sentido de “quanto custa”. Ambas com sonoridade fónica aproximada e, plausivelmente, ditas por todo aquele que tinha ensejo de ver consertado um objeto que lhe fazia falta: “quem dera” e “quanto é”, de forma abreviada “q’anté”? O cliente, precavido, antes de entregar a obra ajustava o preço com o obreiro. Fizessem isso todos aqueles que hoje administram os dinheiros públicos e os meios de comunicação social não nos mostrariam diariamente tanta “louça partida”, no respeitante a obras públicas, por este Portugal escaqueirado.

Pode parecer divagação linguística minha. E seria, se eu ignorasse a evolução da nossa língua e os trabalhos publicados em torno dela. Recorro, aqui e agora, pois chegado é o momento, ao CIBERDÚVIDAS online e transcrevo:

Não me foi possível determinar claramente a origem do regionalismo português “pois, canté!” e das variantes “canté!” e “cantés”, estas duas registadas no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea  da Academia das Ciências de Lisboa. Segundo este dicionário, o sentido é «oxalá!, quem dera!» (ver também Grande Dicionário da Língua Portuguesa de José Pedro Machado). Sabe-se que a expressão terá surgido a partir de «quanto é!» (Domingos Vieira, Diccionario Portuguez, 1871), talvez como repetição ou eco das expressões «quanto é preciso/necessário!», exprimindo um desejo, à semelhança de oxalá (do árabe «queira Deus!»). Note-se que “canto” é, ainda hoje, uma variante regional de quanto em Portugal, de acordo com uma regra que leva à perda da semivogal na sequência qua (por exemplo, “cando”, “catro”, em vez de quandoquatro)”.

E colo aqui, sem demora, a propensão que todos nós temos para a “lei do menor esforço” quer no trabalho, quer na fala, no caso vertente, deixando cair, primeiro oralmente, e depois na grafia, letras e até sílabas inteiras. O exemplo mais evidente e flagrante é “você”, palavra que, para chegar a estas duas sílabas, deixou perdidas pelo caminho “vomecê”, “vossemecê” e “Vossa Mercê”.

E cheguei assim ao tempo de Sua Majestade, ao tempo da NOBREZA e do CLERO, ao tempo em que os escravos e lacaios, garbosamente seguravam o “sombreiro”, o “chapéu-de-sol” ao lado dos seus senhores, protegendo-os dos raios solares. É isso. O Mouzinho da Silveira pôs fim aos morgadios. Na cronologia histórica apagaram-se os “prazos de três vidas” e  os foros pagos aos terratenentes pelos enfiteutas foram à vida. Os senhores da terra deixaram de passear-se pelo Reino e com eles os escravos e lacaios a segurarem os “sombreiros”. Acabou a Monarquia. Veio a República, mas a vassalagem permaneceu no verbo, no gesto e no uso. Permaneceu o hábito da vénia, do beija-mão (comum à nobreza e ao clero), do vergar a cerviz perante o poder. É só ver certos cidadãos correrem aos Paços do Concelho, após cada ato eleitoral, a felicitarem os ganhadores. É só reparar no gesto de qualquer condecorado em cerimónia pública face ao galardão que recebe. Seja Torre de Espada ou similar, título de Conselheiro, ou Comendador, vergada a cerviz, vassalagem garantida. Do ritual que elevava ao grau de “cavaleiro” o jovem guerreiro, posto de joelhos, cabeça baixa, frente ao rei ou qualquer outro senhor a encostar-lhe a espada no ombro, nesses tempos idos, é um saltinho até aos tempos de hoje. É só olhar e ver.

E aqui chegado, posso adiantar que cedo me interroguei por que carga de água a palavra “guarda-sol” figurava no pregão “«coser louça, guarda-sóis e penicos, zic-zac», em vez de “guarda-chuva”, já que era nesta função que esse utensílio era (e é) geralmente, usado pelo camponês e não aqueloutra de “guarda-sol”, ou “sombreiro”. O leitor está a acompanhar o meu raciocínio?

Não? Então adito mais. Durante estas minhas pesquisas, nestas chuvas de abril, de 2019, vi dois cidadãos amigos abrigados num coberto, frente ao Jardim Municipal. Em frente fica um Banco. Chovia. E um amigo diz para o outro: “empresta-me aí o teu sombreiro que vou ali ao banco e já venho”. Foi, voltou e entregou, agradecendo ao amigo, o «sombreiro» que o abrigou da chuva. E agora, já me acompanha, caro leitor? Deu-se conta do paradoxo? A conversa entre os dois amigos foi tão natural que nenhum deles se apercebeu de que estando a chover dispensável era o “sombreiro” e necessário era o “chapéu de chuva”. 

- Ah pois é, professor, nunca tínhamos dado por isso.

malga agrafada-1a - CópiaPois. Este é o exemplo de como um objeto utilizado numa função nova “guarda-chuva” manteve (e mantém) a antiga designação original, projetada no tempo e no espaço. E toda esta realidade empresta razão à minha postura em defesa da descentralização política, administrativa e cultural do país. Estas palavras e procedimentos mais não são do que resquícios linguísticos que permaneceram intactos na província, no seio do povo, qual artefacto preservado no campo arqueológico da mentalidades que extravasam o pensar e o agir de cada um.

O senhor Agostinho Morgado, natural do Mezio, de 75 anos de idade, neste ano de 2019, neste meu trabalho de campo, disse-me que o objeto que antigamente se chamava “sombreiro” ou “guarda-sol”, agora se chama “chapéu de chuva”. Assim se pede nas feiras quando se pretende adquirir um deles. Devagar, devagarinho a mudança vai chegando. Venha pois muita chuva. Chuva bastante, capaz de arrastar certos resquícios do passado, sobretudo aqueles que se relacionam com o doentio CENTRALISMO, sob pena de ser necessário que neste Portugal assim, se  instale uma indústria produtora de “zic-zac” ou “zac-zum” e, sem “cantés”, através dos furos abertos na caixa craniana dos nossos governantes, tal como esse profissional fazia na louça rachada, injetar doses suficientes de ética e seriedade (e muita MEMÓRIA, dada a amnésia que por aí grassa) por forma a não sermos nós outros a pagar os erros dos seus desgovernos. A nível nacional e local. Todas as instituições cuja “governança” chega às nossas casas através do jornalismo de investigação, já que o outro jornalismo que por aí existe, da esquerda, da direita ou do centro, não tem faro para tais desmandos. Para denunciar quem, por perto, “em vez de governar, se governa”.

Link do vídeo:

https://youtu.be/9u7uEeaRkW0 

 

Ler 399 vezes
Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.