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segunda, 11 fevereiro 2019 16:07

A GOVERNANÇA QUE TEMOS, O PAÍS QUE SOMOS

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A GOVERNANÇA QUE TEMOS


Quem tem gastado as botas nos caminhos e aldeias da serra, quem, durante anos, no intervalo das caçadas, entrou, esporadicamente, nos cafés das aldeias e neles viu mesas rodeadas de idosos a jogarem as cartas, as damas e o dominó, apercebeu-se que aqueles espaços não eram apenas locais de comércio, mas também de convívio comunitário. Longe dos "Centros de Dia" mais próximos, estes nunca existentes, por regra, em pequenos lugarejos, eles desempenhavam, aos olhos do caçador atento e em trânsito, uma função social indiscutível e ajudavam os naturais da terra a gastarem ali os últimos cartuxos na sua vida. Eles, os proprietários e fregueses, que mantiveram as aldeias de pé e, desse modo, continuaram a fazer parte da Geografia Humana deste Portugal provinciano.

Vi fecharem-se alguns desses cafés por força do rigor fiscal imposto pela "governança" que temos. Vi os idosos encostados por perto, privados de poderem continuar ali a gastar o resto das suas solas, tudo porque quem nos governa não conhece efectivamente o país que foge à quadrícula do Terreiro do Paço. Eles, os governantes, continuam a pensar, como bem disse Eça de Queiroz, "Portugal é Lisboa e o resto é paisagem". Conhecessem eles o país, tivessem eles sensibilidade social, tivessem eles respeito por todos os que persistiram em manter no mapa as suas aldeias, e esses pequenos espaços comerciais não só seriam libertos da teia burocrática das Finanças, mas até, sem favor nem "mercê" seriam isentos de pagar impostos. A sua função social seria "imposto bastante" para, na folha "exel" dos governantes, em vez de só números se vissem também pessoas. 
Há muito que as políticas centralizadoras conduziram à desertificação do território e este apertar da malha fiscal, medindo tudo pela mesma rasa, é o golpe final. Os novos andam por longe e os velhotes que se amanhem, que rompam os fundilhos das calças sentados nos degraus das suas casas e, pensativos, debruçados com a cabeça entre pernas, mãos apoiadas nos joelhos, congeminem na morte da bezerra e se apaguem de vez, deixando Portugal ainda mais deserto.
Imperdoável. Para essas vítimas serranas vai a minha solidariedade.


NOTA: Este apontamento foi publicado no meu mural do Facebook no dia 11 de fevereiro de 2013. Veio hoje ao CAPÍTULO DAS MEMÓRIAS trazido pela EQUIPA DO FACEBOOK, sempre atenta. E hoje mesmo o tresladei para este meu espaço. O seu conteúdo bemmerecia ser lido e divulgado. Os nossos políticos têm muito que aprender e não apenas com os fogos e as estradas que se esbarrondam.

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.