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domingo, 17 fevereiro 2019 12:32

«À MESA DA AMANTE FIEL» de Manuel de Lima Bastos

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Em 03-03-2016, neste meu site, discorri sobre o OITAVO livro dado à estampa pelo Dr. Lima Bastos, relativo a Aquilino Ribeiro. E, a partir do seu confessado hábito bizarro (literário, claro está!) de dar «nove voltas em redor do lume, antes de adormecer»,  rebusquei algumas reflexões que eu já tinha feito no Facebook sobre o valor simbólico atribuído pelos sábios ao número NOVE, para terminar, dizendo: “venha lá o NONO, ó Dr. Lima Bastos”.

 

 

« (…) Depois de arrevesadas elucubrações, talvez inspirado pela poética designação de bacalhau com todos (…)  considerei, insatisfeito embora, que a solução menos má seria crismar a obra com o nome genérico de letras e tretas culinárias com todos, já que este todos constitui o albornoz amplíssimo que permite agasalhar por igual os devaneios dos quais me servi para avolumar a prosa».

Autor, pp. 324

capa REDZE veio. Mas esse foi OUTRO, em tempos que lá vão, que não o que ele teve a gentileza de me remeter, há dias, com o título “À MESA DA AMANTE FIEL”. Pois, bonito e excitante título, para a minha idade, gosto e posses. Por isso, mal o retirei da caixa do correio e rasguei o envelope, apressei-me a enviar-lhe o meus agradecimentos por estar incluído no rol dos destinatários “grátis” dos seus livros.

Nos tempos que correm, de liberdades e libertinagens em franca expansão para não destoarem da “expansão do universo”, onde vagueia este “bicho da terra tão pequeno”, o título “À MESA DA AMANTE FIEL” é tão apelativo quanto enganador. E eu que, semelhantemente ao que faço com qualquer livro de compra ou de oferta, me apressei a ler os textos selecionados e impressos nas badanas e na contracapa, fiquei a saber nada, pois os textos estampados reportavam-se às suas obras passadas e não ao conteúdo deste “novíssimo” do homem, nada menos que 331 páginas de miolo.

Deste modo, sem penetrar na cozinha, constatei apenas que o Dr. Lima Bastos vinha bem acolitado. Três textos impressos em cada badana, mais três na contracapa (NOVE ao todo) relativos a anteriores obras suas. E isso me remeteu de volta in mente ao que eu havia escrito aquando da sua oitava obra, reportando-me à sua brilhante ideia literária de dar “nove voltas em redor do lume, antes de adormecer”.

Sim. E ainda que da comitiva dos NOVE fizesse parte o emérito Bispo de Setúbal, D. Manuel da Silva Martins, do interior do livro, não me chegava qualquer odor de santidade. Antes pelo contrário, cheirava-me picantemente ao PECADO DA GULA. E tal como quem passa numa rua se dá conta imediata de que, por perto, alguém assa sardinha, chegavam-me à pituitária os odores de gozos epicuristas, hedonistas, resultantes dos cozinhados e opíparas comezainas, alimentação gulosa do físico, próprias de “altas cavalarias”, de jeito que, num salto de pulga, me vi, outra vez, às voltas com o número NOVE. Comezainas dessas, de gente nobre e “contiada”, mesmo que alabregada, com cães bastantes em redor da mesa encarregados da higiénica missão de lamberem as mãos aos comensais, forma de as lavarem sem recurso a bacia, água e sabão, só podiam ser os NOVE CAVALEIROS TEMPLÁRIOS, já que o título, postado na capa, qual portada de templo, a apelar para a devoção ao ORAGO SÃO GULÃO, acompanhado de um tal número de honoráveis espadachins, que diabo, o NOVE não estaria ali por acaso. Ou se estava, seria somente pela força subreptícia de impulsos subconscientes, escapulidos à consciência e ciência deste “escriba” que, de há uns anos a esta parte, me tem distinguido com os “manjares” por si forgicados com saber e esmero no manejo dos utensílios e ingredientes afins.

contracapa - REDZDesta feita, o Dr. Lima Bastos, com a AMANTE à sua perna, ou agarrado fielmente à perna dela, àquela senhora conhecida por D. GASTRONOMIA, convida-nos a saborear e a degustar pratos antigos, a partir das leituras que fez de bibliografia histórica com séculos em cima e ensaios mais recentes, atinentes a tais saberes e sabores.

Devo confessar honestamente que “rilhei” o melhor que pude os decalques e citações feitas da “Arte de Cozinha” de Domingos Rodrigues e da “A Cozinha Cristã do Ocidente” de Álvaro Cunqueiro, seus inspiradores. Desconfiado, claro está, da abrangência contida nos títulos, jurando, à partida, que não iria encontrar neles a “comida” feita pela minha mãe e tantas outras mães que, por esta serra fora, nos meados do século XX, alimentavam a filharada. Ao que acrescia eu estar cansado de ler e ouvir que Portugal era um país de navegadores e eu conhecer pessoas que nasceram e moreram sem nunca terem visto o mar. E eu próprio só o vi aos 18 anos de idade, por força de ir tirar a carta de condução na Figueira da Foz. De contrário vê-lo-ia somente, dois anos depois, quando naveguei para Moçambique nos porões do paquete “Pátria”. Adiante.

O que não “rilhei”, antes pelo contrário, saborei (e muito) foram os oportunos e bem humorados comentários com que o Dr. Lima Bastos vai condimentando, ao longo da tarefa, todo o cozinhado, por forma a torná-lo indispensável e desejado na minha sala de refeições (leia-se biblioteca) e, quiçá, na de todos os mais amantes desses “comeres e beberes” que cobriram a lauta mesa de reis, príncipres, marqueses e comitivas burguesas, todos eles beneficiários do “direito de aposentadoria”, autenticado, ou não, com o selo do “direito divino” de que se diziam investidos todos os possidentes e terratenentes que governavam e governam este nosso terrunho, o “REINO DA ESTUPIDEZ” assim batizado, no século XVIII, por Melo Franco, na Universidade de Coimbra, onde tão ilustre figura se alapou no trono, corrida que foi da Europa na companhia de damas pouco recomendáveis, a bem da ciência e da cultura. Este Portugal de muitos portugais num só mapa, cada vez mais descarnado no interior e mais obeso no litoral, doença ultimamente tão falada. 

Deixadas, portanto, as receitas das “altas cavalarias” de Domingos Rodrigues e Álvaro Cunqueiro (ainda que cheias de substância informativa, talvez a elas volte, a seu tempo) deliciei-me, à farta, com as migas que na casa da avó do autor eram feitas para as jornaleiras, lá da casa, e que ele, às escondidas da mãe, mas de conluio com a avó, tanto apreciava nos seus primeiros anos de vida rústica, inocente, livre e sadia.

A descrição dessa receita, pela humanidade nela impressa no modo de fazer a refeição numa malga e da malga engolida pelas trabalhadoras com a ajuda do vinho americano, produção caseira, diretamente do “palhinhas”, aquele recipiente de vidro, eterno companheiro de camponeses e romeiros portugueses, às vezes pendurado numa parede, cartaz identificador de taberna, a descrição desta tarefa, dizia eu, é uma delícia literária, humana e histórica. Uma iluminura de cores quentes, flamejantes, nunca vista nos milhentos livros de horas que romperam os bolsos de outros tantos possuidores, devotos e ledores de tudo o que é beato e santo. Na humilde opinião de quem aprecia escrita própria, chã, escorreita, vivida e sentida, sem figuras tutelares de permeio, que nunca se deu para glosar obra alheia, que mais não fosse, este texto, mais os subsequentes ligados à CONSOADA e à MATANÇA DO PORCO, na Casa das Levadas, valiam pelo livro inteiro. Está-se a ler e, simultaneamente, a sentir e ver os objectos, as pessoas, os animais, os movimentos e os ambientes descritos. Um mimo.

E não só. Com Lima Bastos foi uma aventura meter-me terras de Espanha adentro, no recuado ano 60 do século XX. Ele e mais dois amigos, digamos “os três mosqueteiros, montados nos cavalos do Morris Mini, oferecido pelo pai, médico de profissão, trio a que se juntou, passado mais de meio século, este gascão provinciano, sem maneiras corteses, nem camisa de punhos rendados, e todos (onde 4 são 3) aposentados em Torremolinos, usufruímos dos gozos do mundo diurno e noturno oferecidos por bares, mulheres, restaurantes, tabernas e praias. E arregalamos os olhos sobre o Mediterrâneo, esse mar fechado que foi de Fenícios, Gregos, Romanos, Cartagineses e Árabes, histórica via comercial, encontro de civilizações idas, e neste princípio do século XXI, acrescento da minha lavra, neste trôpego manejo da minha espada, sepultura infernal de refugiados e perseguidos em busca de paz nesta velha Europa.

Ao longo do “cozinhado” descortina-se claramente um elo de afectos permanentes e até saudades a ligar pessoas, coisas e lugares. Chegam a ser comoventes as referências à avó, à mãe, aos amigos e até a estranhos que se cruzaram, ocasionalmente, na sua vida longa. Lembro o condutor que, sentado ao volante de um colorido embrulho de notas com rodas, um dia lhe deu boleia até Águeda. Lembro o casal da chafarica, mal amanhada, onde eu, através dele, saborei a cabidela de miúdos de leitão, bem amanhada que nos deixou a lamber a beiça aos dois. Lembro o agradecimento tardio, mas sentido, àquele seu amigo barrosão, interno como ele em Braga, vítima de buling, filho de pessoa abastada, mas que desistiu de fazer o quinto ano liceal. Coitado. Lembro aquele trincar de pevides, em Coimbra, a ver filmes, percursoras das actuais pipocas, trincadas em tudo quanto é sítio de espera. Aquele seu amigo do Porto, ricaço e bon vivant, que, por opção sua, morreu com um cigarro na mão e uma botija de oxigénio ao lado para poder respirar. Memórias de somenos, nas suas palavras. Mas nas minhas tidas em superlativa e significativa mais valia. Estão muito acima dos temperos, dos refugados, cebolas, lampreias, bifes, santolas, frango à cafreal, nabos, alta e baixa cozinha, tudo o que, depois de cozinhado e saboreado na trituradora a isso destinada, passa o estreito, faz apeadeiro no estómago e prossegue viagem no túnel escuro do combóio descendente, curva e contracurva, até ao destino final, saindo da carruagem ligeirinhas ou a muito custo, em silêncio ou assobiando e cantarolando ansiosas de campo aberto, fora da escuridão, à maneira do Pai Adão, ou caídas em penico real “Germer Polovi” pintado e de rebordo dourado, ou ainda em penico “Massarelos”, todo esboucelado, tudo apeado, que comummente se chama merda, logo se torna à vista repelente e ao cheiro repuslvivo. Adeus, até nunca mais. 

Não sucede o mesmo com esses outros nacos do mundo que recendem a afetos, sentimentos e experiências de vida que faz do ser humano um animal gregário. Estas espécimes, alimentadoras do espírito, circulam ou tomam assento noutra parte do nosso organismo e seguem itinerários diferentes, mais iluminados e faiscantes. São comuns tanto a gente rica como a gente pobre e são vertidas, quantas vezes, nas mais diversas facetas da arte, sempre atrativa à vista e aos sentidos. Depois de apeadas na última estação, deixam sempre notícias agradáveis. E se dão lugar a despedida é sempre um «até breve, até mais ver, apareça, a porta está aberta».

Pois. As sementes da abóbora porqueira, que o Dr. Lima Bastos já encontrava à venda, que comprava e trincava nos seus verdes anos, tive eu, nos meus verdes anos, de as catar, uma a uma, do ventre da mãe, pô-las a secar, se é que queria ouvir aquele som estaladiço e sentir na boca aquele sabor adocidado, natural, sem aualquer tempero. Pois. É isso. E nesta sua digressão pelo mundo da GASTRONONIA, deliciei-me ainda e sobremaneira, com o pitéu ligado à sua maneira de comer favas, que também comi, em Taveiro, junto a Alfarelos, surripiadas diretamente ao faval, ensinado que fui por um idoso, encarregado de guardar as éguas da quinta, nos pastos fora da área alagada do plantio de arroz. Tinha eu 12/13 anos e integrava um rancho que da Beira desceu para as margens do Mondego com contrato firmado: plantar arroz. O filho do proprietário, condoído, seguramente, com meu aspeto físico e idade, mandou-me fazer companhia ao velhote. E este, movido pelo mesmo sentimento e com o mesmo poder de observação, apressou-se a dizer-me: «menino, por aqui não se passa fome. Ali há favas e, olha, comem-se assim mesmo, verdes. Amargam, mas alimentam. E olha mais: estas caracoletas que se passeiam nestas canas, também se comem assim”: pegava numa, dava-lhe uma palmada, expurgava aquilo que entendia e punha-se a mastigar o que restava daquele ser viscoso, esmagado, abundante nos canaviais da quinta. Aquele ancião sem eu lhe ter pedido, ensinou-me leis básicas de sobrevivência que eu ignorava nas minhas berças. Há quanto tempo esse bondoso homem terá perdido a luz dos olhos e se viu livre do calor que assa canas ao sol? Garantidamente há muito tempo. Mas o seu gesto generoso acompanhou-me a vida inteira e considero-o pioneiro na arte que, de há poucos anos a esta parte, a série televisiva “survival” nos pretende ensinar.

Mas voltemos ao Dr. Lima Bastos e ao seu gosto de comer favas, pois à fava mandei, há muito, as misérias desse tempo, e estou nos antípodas daqueles que persistem por aí a cantar loas ao “antigamente é que era bom”.

Respeitando os gostos que cada um tem a tal preceito, ele prefere “comê-las sem camisa”. Vou transcrever o que sobre isso disse, pois não vá eu, sem querer, diminuir-lhe o sabor e o humor fino e inteligente, como ele nos serviu o prato. Assim:

É que eu não arredo pé e fico na minha: continuarei a degustar as favas, guisadas ou não, mas sempre sem camisa. Pois não é verdade que a sabedoria universal dos povos ensina que o cidadão no gozo dos seus direitos civis, nomeadamente o de eleger e ser eleito, se não for tardo do juízo e mesmo que não tenha andado a varrer as cadeiras dos Gerais da Universidade de Coimbra com o fundilho das calças, sabe que é muito melhor comer o que quer que seja sem camisa do que com camisa?” (pp.125)

Dei uma gargalhada a degustar este petisco. E as papilas transportaram-me, num ai, a um texto de Aquilino Ribeiro, de igual quilate no que toca a bulir no conhecimento, na inteligência e sensibilidade humanas, manejando as letras como bisturis. Foi em “Os Príncipes de Portugal, Suas Grandezas e Misérias”. Em foco estava o príncipe que viria a ser o rei D. João III. Aconteceu ele ter sido atacado por graves maleitas, ignotos andaços e, recolhido no principesco leito, os médicos, físicos e demais especialistas da época, vendo as coisas mal paradas, sem encontrarem remédios para tais males, desabafaram em uníssono: “coitadinho, ou morre, ou fica tolo”. Ao que Aquilino acrescentou somente: “não morreu”.

1-Caril - RedzE olhem que não fui buscar a analogia, uma das muitas que, na arte da escrita, espicaçam a imaginação e põem a nu o instinto do humor individual, para agradar ou acompanhar o entusiasmo de Lima Bastos na troca sugerida para substituir o ditado popular: “diz-me com quem andas, eu dir-te-ei quem és”, por outro “diz-me o que comeste e dir-te-ei quem és”, quiçá mais conveniente ao tema e receitas estampadas no livro. O primeiro ditado incorpora sabedoria bastante para ser por mim deitado porta fora. Mas a proposta do Dr. Lima Bastos tem o seu quê de merecimento e a ele voltarei mais adiante.

Para já não o acompanho, nem levo a sério tal troca, seja na forma, seja na substância. Pois se tal fizesse, os NOVE textos estampados nas badanas e na contracapa, assinados por honoráveis plumitivos, esses escribas que o Dr. Lima Bastos escolheu para companhia, seriam trocados por chouriças, salpicões, batatas, pencas e outros produtos gastonómicos, mais sugestivos e informantes do assunto tratado no miolo.

2-carilE não são. E eu bem gostaria de ter visto a contracapa ilustrada com um prato de arroz de caril (de frango ou camarão) meu favorito, cozinhado por mãos de cor indiana, a contragosto de Domingos Rodrigues, o cortês e famigerado cozinheiro do duque de Marialva e de “Sua Majestade”, que da cozinha espanta, para muito longe, “negros, mulatos, cabras” e outros que tais, nada recomendáveis e perniciosos que são na feitura de bons e saudáveis cozinhados. O último que comi, esse tal ARROZ DE CARIL, foi em Viseu no “ITALLIAN INDIAN PALACE”. Só olhei à qualidade e não à cor do cozinheiro ou cozinheira.

O Dr. Lima Bastos (cuja idade não andará longe da minha) passeando-se na extensa seara das memórias, em gesto largo de braços, ceifou a eito e colocou-nos na mesa a produção da vida que levou antes de casar, referindo-se aos “comes e bebes” que degustou por franças e araganças, nas casas de pasto, bares, tabernas e “manjedouras de cinco estrelas”, só ou acompanhado dos seus amigos dos copos e de rambóia. Testemunho individual dos gostos e posses do estrato social a que pertencia e, como tal, um saboroso documento histórico, por mim acarinhado.

Prato-GarfosE eu não curo aqui de identificar os produtos, ingredientes e temperos do lauto prato cozinhado. Esses ficam para todos aqueles que, de avental ou sem ele, sintam apetite e aptidão para se licenciarem na especialidade culinária e pantagruélica. Aqueles que, interessados em saber se os “coentros e rabanetes vão, ou não, à mesa do rei”. Esses não podem descartar-se da leitura desta obra. Obrigatória. Não curo disso. Curo é de afirmar, como me compete e sem me ter sido pedido, que ele, qual tabelião encartado por mercê régia, ou com a bênção de um benigno clérigo mitrado, senão mesmo dando vazão ao fluído genético que o liga ao antigo Abade de Santa Maria Fiães, Manuel António da Silva Júnior, que mandou construir a Casa das Levadas, onde Lima Bastos viria a nascer, ele, dizia eu, produziu um saboroso e suculento documento histórico, autenticado com selo público e raso em uso na chancelaria das letras e de mais cartórios dos seus notáveis confrades de farras e boémias da juventude e abençoado, certamente, pelos seus inesqucíceis companheiros da senectude.

Ele permite ao historiador comparar a consoada de dois “maltezes” vivos, contemporâneos, que carregam no bornal algo que os semelha e algo que os distingue. Ambos gostamos seguramente de Aquilino Ribeiro e atravessámos o mesmo arco temporal de vida, que não o do espaço e o de grau social. Ele nasceu no seio de uma família burguesa, filho de pai médico, tornado, em adulto, advogado de profissão, morador na faixa litoral atlântica. E eu nasci no seio de uma família camponesa, em Cujó, filho de pai taberneiro, tornado, em adulto, professor de ofício e morador no interior beirão, depois de ter andado lá pelas áfricas e terras transtaganas, onde afinei o palato por diferentes diapasões.sem garfos

Foi, naturalmente, por força das circunstâncias geográficas e sociais que ambos chegamos às CONSOADAS e MATANÇAS DO PORCO atávicas neste nosso terrunho. Mas confessadamente afirmo que fiquei mais rico com a leitura dos textos que ele dedicou a estas duas tradições. Eu próprio, como lhe dei conhecimento por e-mail, já tinha escrito e publicado textos afins, fosse no meu mural do Facebook, no meu site “trilhos-serranos”, ou no meu livro “CUJÓ, UMA TERRA DE RIBA-PAIVA” escrito “pro bono” editado pela Junta de Freguesia de Cujó, em 1993.

Os pratos e os garfos que ilustram este registo são aqueles com que ilustrei o texto da CONSOADA que se mantém disponível no meu site, com o título «A Força e a Honra das Origens»

Num dos pratos encontram-se NOVE garfos. Ah, pois é. O leitor já estava esquecido, mas foi com esse número que comecei este texto, quer reportando-me aos nove escritos assinados pelos plumitivos de quem Lima Bastos se fez acompanhar (boas companhias, seguramente) quer reportando-me às suas “nove voltas em redor do lume, antes de adormecer».

Por isso, vem a propósito um retalho das reflexões que deixei escritas, há muito, sobre o simbolismo do número 9, aquele que está presente em muitas culturas e especialmente na cultura ocidental cristã, aquela em cujo seio Lima Bastos diz ter nascido e sido educado. Assim:

 “Por que razão hei de eu desvalorizar a tríade de NOVES, se é o número 9 que comanda as NOVENAS, NOVE dias, NOVE voltas ao templo, NOVE crianças, NOVE vinténs, NOVE responsos, NOVE badaladas das TRINDADES?”.

 Pois. E na CONSOADA vivida em casa dos meus pais - batatas, couve troncha e bacalhau NOVE eram os comensais - pai, mãe e sete filhos - e outros tantos eram os garfos famintos ágeis a esvaziar o prato. Uma noite em que se tirava a barriga de misérias, ao que se seguia a obrigação de rezar o terço, como nos restantes dias do ano, dando graças a Deus pelas refeições que mantinham o esqueleto andante. E tanta era a miséria que, por esta serra fora, muito cristã, longe do mar, bem dispensável se tornava a sabedoria e as advertências contidas nos bíblicos PROVÉRBIOS:

O vinho é uma fonte de luxúria e a embriaguês é cheia de desordens; todo aquele que põe nisto o seu gosto, não será sábio” (Provérbios, 20:1) “Quando te assentares a comer com o príncipe, considera com atenção o que põem diante de ti e põe uma faca na tua garganta, se és homem glutão” (idem, 23:1-2) “Não estejas entre os bebedores de vinho nem entre os comilões de carne, porque o beberrão e o comilão caem em pobreza; e a sonolência vestirá de trapos o homem”. (Idem, 23:20-21). “O que guarda a lei é filho prudente, mas o companheiro de libertinos envergonha a seu pai” (Idem, 28:7) 

3-labreto - REdIsso mesmo, copiados para aqui a preceito e a pretexto. No tempo em que me criei, o mesmo tempo em que se criou o Dr. Lima Bastos, por estas bandas da serra, os camponeses não sofriam, garantidamente, de obesidade. E por isso não estrannhei a ausência da receita do caldo que a minha mãe cozinhava com o mesmo esmero e afecto com que a sua avó e mãe cozinhavam as sopas na sua Casa das Levadas. Mas eu, no que a mim respeita, em benefício e crédito do novo adágio sugerido pelo Dr. Lima Bastos “diz-me o que comeste e eu dir-te-ei quem és”, aceito e informo:

Panela de ferro de três pernas, assente na laje da cozinha. Chamiços ajeitados entre as três pernas, lenha em torno dela, fogueira acessa, água a ferver. Uma mancheia de vagens secas, ditas “vagens foleiras” (a) guardadas em sacos de serapilheira, inverno adiante, depois de retirados os feijões em tempo próprio. Tais vagens, autêntica palha seca, estaladiça, retomavam, com a fervura, algumas das suas caraterísticas carnudas de verde e lá se deixavam mastigar e engolir. 4-leituga - REDaMeia dúzia de castanhas secas piladas e preservadas nas caixas de cereais que davam ao caldo um cor escura e um sabor adocicado. Um punhado de sal e um cibo de unto a servirem de tempero. Tudo cozido e, no ponto, eis um caldo de inverno. Presumo, pois ignoro, ser aquela sopa que, recentemente, foi incluída no cardápio da dieta mediterrânica.  Se não foi, ainda  vão a tempo de incluir a couve galega e também a azeda, a leituga e o labresto, pois faltando a couve na horta, eram tais espécimes que tomavam o seu o lugar. 

Face ao que, por circunstâncias várias, não se podendo, jamais em tempo algum, aferir pela mesma bitola as posses e os gostos nos “comeres e beberes”, sendo certo que, neste mundo que Deus criou (para quem acredita),  uns “comem para viver” e outros “vivem para comer”, da minha parte, sentado que já estive nos bancos das várias estações da vida, habituei-me, com um certo gozo secreto, a ver passar os comboios e a ter como verdadeira a sabedoria contida no ditado popular: “pelo andar da carruagem, logo se sabe quem vai lá dentro”.

(a) Devo esta classificação ao meu conterrâneo António Martinho dos Santos Teixeira a quem recorri para me avivar a memória. E como sei que ele não veio a este mundo somente para ver passar os combóios, foi útil e solícito a respnder ao meu pedido.

 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.