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quinta, 02 agosto 2018 16:48

PASSEIOS NA SERRA DO MONTEMURO

Escrito por 

CALDONEIRA/CALDONEIRO NA SERRA DO MONTEMURO

Há um bom par de anos fiz companhia a um grupo de professores e alunos da UTAD (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro) numa viagem de estudo, da qual dei nota numa das minhas crónicas publicadas na imprensa regional/local.

3-2002 - Cópia

Nessa deambulação serrana, ao deparar com uma planta rasteira como a carqueja, sargaço, tojo e queiró, mas que nenhuma delas era, nem sendo, também, piorneira nem giesta branca ou amarela, pois todas essas conhecia eu muito bem dos tempos em que, de roçadoira ou de podão em punho, as cortava para lenha e estrumes nos montes de Cujó, eu, nado e criado na serra, farto de roçar mato e lenhas, face à minha manifesta ignorância, apressei-me a perguntar a quem sabia. Que planta era aquela?

E a resposta veio pronta da boca de um desses professores. Só que o seu nome, bem como o nome da planta que referi nessa minha crónica, perdidos permanecem algures num qualquer arquivo analógico, tal como perdido anda o texto original que escrevi, em consequência de uma daquelas minhas mudanças de equipamento informático. Dei por isso agora que desses nomes precisava. Porquê?

SECA-2003Aconteceu que este ano, no mês de Julho, na companhia de um amigo, natural de Bustelo, de seu nome Manuel Matias, andei por ali a cirandar, a seu pedido. Residindo em Samora Correia, passando parte da juventude na terra natal, o Montemuro era o fim do mundo. Nunca se tinha ali deslocado e fez questão de ser agora. Lá fomos e veio a talhe de foice falar nessa planta que ele também desconhecia, apesar de ser serrano, como eu. Encontrámo-la florida e fizemos uma «selfie» junto dela. Pois podia lá ser não posarmos junto dessa espécie «rara», em vias de extinção, segundo me foi dito nessa primeira “viagem de estudo”?

Perguntou-me, este amigo, o nome dessa planta e eu contei-lhe a história. Nem nome, nem memória escrita. Era um saber que se me tinha varrido. “O vento tudo levou”. Mas logo ali me comprometi a proceder à investigação conveniente, por forma que essa nossa companheira serrana, não ficasse sem nome, de preferência o vulgar e científico, pois bem o merecia. Então ela não é quase nossa irmã nestas lides agrestes da montanha, habituada, como nós, aos gélidos 5-2011-2frios dos codos e das neves, às intempéries das invernias, semelhantemente às demais plantas serranas, como o sargaço (geralmente hospedeiro de pútegas, como demonstrei recentemente em vídeos alojados no YouTube), à carqueja, à queiró, à urgueira, à giesta e ao tojo, a conviverem harmoniosamente entre penedias, aproveitando até, algumas delas, para se empoleirarem nos penedos ou buscarem  junto deles agasalho e abrigo.

E eu sei  lá se esta planta garrida, espinhosa e agressiva, a residir dentro do recinto amuralhado das Portas do Montemuro, não é a rencarnação viva das almas que construíram as muralhas e ficaram na HISTÓRIA conhecidas por “Civilização Castreja”?

Ora, como diz o ditado «quem tem amigos não morre na forca». E sabendo eu que uma ex-aluna minha, de seu nome Telma Nogueira (minha amiga desde sempre) se licenciou exatamente na UTAD, em Engenharia do Ambiente, recorri ao seu saber. Bonito de ver isto, um ex-professor (eu próprio) a recorrer a uma ex-aluna (ela própria), pedindo-lhe ajuda com vista a ser esclarecido e, desse modo, esclarecer um amigo. Memória dos tempos, dos afetos e dos conhecimentos.

Foi “tiro e queda”. Prestável e simpática como sempre, essa Senhora Engenheira (não leves a mal, ó Telma)  mexeu o cordelinhos e não tardou que, através do “Messenger” me entrasse na caixa do correio o link   https://jb.utad.pt/especie/Echinospartum_ibericum, a remeter para a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, com a informação que se segue:

Espécie: Echinospartum ibericum

Descritor: Rivas Mart., Sánchez Mata et Sancho

Género: Echinospartum

Família: Fabaceae

Ordem: Fabales

Sub-classe: Rosidae

Classe: Magnoliopsida

Sub-divisão: Magnoliophytina (Angiospermae)

Divisão: Spermatophyta

Tipo Fisionómico: Nanofanerófito

Distribuição Geral: NW e C Península Ibérica

Nome(s) comum: Caldoneira/Caldoneiro

Habitat/Ecologia: Terrenos incultos

Rupícola: Sinonimias

Echinospartum lusitanicum (L.) Rothm. subsp. lusitanicum

Genista lusitanica L.

Época Floração, Junho - Julho

2-PALNTA-2018 - REDZAgradeci a gentileza e, de posse desta informação, assentando tratar-se da “Caldoneira ou Caldoneiro” naveguei no “mar magnum” da Internet, onde encontrei o site “Plantas: Beleza e Diversidade: Caldoneira (Echinospartum ibericum) obotanicoaprendiznaterradosespantos.blogspot.com › ... de Francisco Clamote, bloger que se mostrou de uma generosidade que vai sendo muito rara neste pequeno terrunho esférico, do Polo Norte ao Polo Sul. Todos conteúdos nele publicados, adiantou ele, podiam ser copiados, advertindo, todavia o leitor que ele “não é um especialista na matéria” e, caso se pretendesse aprofundar o assunto ali tratado e ilustrado, haveria que procurar noutras paragens. E agradecia que, caso o blogue fosse consultado, que lhe fizessem referência. É o que estou a fazer, acrescentando:

Neste tempo de “copy/paste”, sabedor que eu jamais iria acrescentar ao que ali se diz. eis o que de lá transladei:

É um arbusto espinhoso, denso, com aspecto almofadado, da família Fabaceae que raramente ultrapassa 1 metro de altura, sendo que nos sítios mais altos (na Serra da Estrela, por exemplo) não atinge sequer meio metro.

É um endemismo ibérico, cuja distribuição está limitada ao centro e norte da Península Ibérica, ocorrendo apenas a altitudes entre os 700 e os 1750 metros e geralmente em sítios rochosos e graníticos. Em Portugal esta espécie encontra-se apenas em zonas montanhosas do centro e norte do território do Continente, com limite a sul nas Serras da Estrela, da Gardunha e das Mesas (Malcata).  Floresce nos meses de junho e julho”.

Posto o que, como aqui deixo documentado, a planta caldoneira/caldoneiro reside também na Serra do Montemuro e os exemplares que ilustram esta crónica são fotografias tiradas ao longo dos anos referidos, nas suas diferentes fases de vida. As plantas fotografadas encontram-se dentro do perímetro do recinto das arruinadas muralhas das Portas do Montemuro.

CALDONEIRA-2018Foi lá que levei o meu amigo, Manuel Silva Matias. E foi à vista do ridente e espinhoso rosto de uma CALDONEIRA que ele, dito Condor, fez uma aterragem forçada, episódio que referiu, com humor bastante, no seu mural do Facebook, atitude que deu origem à seguinte troca de galhardetes:

“Manuel Sliva Mtias Matias: Foi aqui , mesmo à frente do Dr. Abílio, aqui sentado, que o condor aterrou...!

O meu amigo Dr. ficou preocupado pensando que o condor tivesse partido alguma asa, mas tudo não passou dum susto.

Abílio Pereira de Carvalho: Tá bem, tá. Ora diga lá o amigo, Manuel, se era para menos. Depois de o ter avisado do piso irregular, vê-lo aterrar daquela maneira, não foi bonito de ver. É que, em situações destas, de aterragens inesperadas, há sempre duas ou mais vítimas: a que aterra e se rebola e as que têm de lhe prestar auxílio. Moral da história: o “CONDOR“ já não pode fazer grandes voos, pois pode aterrar e ficar “com+DOR”.

Manuel Sliva Mtias Matias: Eu sei dr. Abílio ! O senhor ficou muito preocupado, como eu ficava se estivesse no seu lugar, porque, pensando bem, o caso podia ser grave. Mas ainda bem que não passou dum susto..!”

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.