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terça, 08 maio 2018 17:11

«NÃO SABES COMO VAIS MORRER» - UM LIVRO DE JAIME FROUFE ANDRADE

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A FORÇA DE UM LIVRO

 Aos 18 anos, cansado de escrever em bustrofédon  - «arado vai, ardo vem»  -  a história camponesa, lavrada nos campos e leiras da família, algumas delas com a largura que não ia além dos braços abertos de um homem plantado no centro, resolvi deixar a enxada, a aguilhada e a charrua, a fim de poder granjear a vida de outra forma. Troquei a aguilhada pela caneta, as leiras de terra chã ou pedregosa pelas lisas e planas folhas de escrever, e, com trabalho, vontade e sacrifício, obstinado em ganhar o tempo perdido,  entrei no Campo das Letras. E nele,de podão em punho, tenho passado anos entretido a abrir trilhos e clareiras, por forma a ganhar o pão, sem envergonhar os meus pais, os amigos e as instituições que me diplomaram nesse ramo de saber e de cultivo.

 Jaime Andrade - CópiaMas, não se pense que botei borda fora a aprendizagem que fiz nas Faculdades de Agricultura e Pastorícia, que frequentei entre os 11 e os 18 anos de idade. Não. Hoje, lavrando neste latifúndio da Internet, tal como fazia e via fazer ao meu pai, imitando o agricultor da Idade Média,  feita a vessada, saco a tiracolo, mão a entrar nele e sair cheia de sementes, braço estendido, gesto largo, eis que lanço as sementes  não já à terra, não já ao agro, mas às mentes. Só que, desta feita,  semeando assim, em campo aberto, nem sempre obtenho boa colheita. Mas às vezes obtenho. E disso é prova certa o meu curriculum público, onde pessoas generosas e boas me reconhecem algum mérito naquilo que faço e cultivo..

Pois. É isso mesmo. E foi neste latifúndio, onde agora lavro, que me encontrou Jaime Froufe Andrade e me remeteu, como oferta, o livro com o título em epígrafe, acompanhado de uma generosa dedicatória, mostrando que tem andado pela minha seara ondulante ao vento.

Li-o de um só fôlego e dele poderei dizer o que disse, em 2013, sobre o livro de um ex-professor meu, de liceu, aquele que me ensinou a pegar nos remos e entrar mar dentro, até longes terras. Com todo o respeito e consideração, até por aproximação a esse meu mestre, foi só fazer «copy/paste» e proceder a ligeiras alterações, tal qual se segue:

«Enfim. Que mais poderia eu esperar, aos 78 anos de idade, da viagem turística proporcionada por este livro, texto que me deu pretexto e alento para falar do cruzeiro que fiz pelo Atlântico e Índico dentro, pelas ruas e praias de Moçambique, pelas terras  quentes de Tete (que ambos pisámos - ele militar e eu civil) onde se frita um ovo no tejadilho dos carros estacionados ao sol? Estas páginas transportaram-me a espaços e memórias, com destaque para o ataque que o mar fez ao «Vera Cruz», dando nota da pequenez humana, mostrando que contra ele nada fariam os «rangers» portugueses ou do Texas, por mais treinados que fossem em Lamego ou noutros campos de treino. Só faltou lá Vasco da Gama e dizer aos marinheiros: «sossegai, que o mar treme de nós».

Um livro editado em 2017, é o que se pode dizer, um livro novo. Mas, lendo-o, folheando-o, eu  folheei e li as páginas amarelecidas, algumas delas apagadas, mas nunca esquecidas, nunca rasgadas, do trabalhoso livro da minha vida e da vida do autor. Sim, é o sortilégio fechado em qualquer livro. Nele viajamos e vemos o  sol nascente, sentimos a tineira do verão, o frio do Inverno e o sol poente. O tempo presente e o tempo passado. O tempo em que sós ou acompanhados, lugares e gentes que nos vêm à mente, em cada frase pensada, escrita ou dita, com a marca da humanidade.

Dizia eu, a esse meu ex-professor, que o meu texto não era uma composição  de «tema livre», das muitas que fiz a seu pedido para «avaliar» o meu grau de aprendizagem. Mutatis mutandis. O meu texto, o texto que aqui deixo com alguns arranjos sobre o livro «Não sabes como vais morrer» é uma rápida e livre digressão por espaços e memórias que fazem parte de mim e do seu autor, até deixarmos de pensar, de sentir e de agir. Falhas? Muitas. Incorreções? Tantas. Perfunctório? Seguramente. Mas um testemunho pessoal e humano sugerido pela leitura de um livro que me chegou com a chancela da «Associação dos Jornalistas e Homens de letras do Porto».

É isso. O que fazem os livros! Nem os OVNIS, tão procurados quanto evasivos, nos transportam, assim, no espaço e no tempo, nos ligam, assim, ao mundo das estrelas, dos deuses e dos homens, na paz e na guerra.

ABÍLIO PEREIRA DE CARVALHO

Maio, 2018
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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.