Trilhos Serranos

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segunda, 26 março 2018 08:59

A SINA

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MEMÓRIAS

Isto de pôr em letra redonda as memória é um vício. Bom ou mau, os meus amigos, aqueles que o são, o dirão. Hoje, 25 de março de 2018, apareceu-me uma locutora da TV vestida com uma blusa de cetim cor de vinho, mas de cetim cor-de-rosa foi uma camisa que eu tive, andaria ali pelos meus 15 anos de idade.

Abíli-1 - CópiaAconteceu passar pela casa dos meus pais uma senhora de etnia cigana a vender roupa. Nova ainda, bonita e bem falante. Era acompanhada de um filhote a que chamava Beleza, com muita estranheza minha. Um rapaz chamado Beleza, só mesmo de ciganos. 

A minha mãe, que sabia costurar, abriu uma peça de cetim e virando-se para mim perguntou-me se eu queria gastar os 10 escudos que sabia eu ter guardados. Ela punha o resto, comprava tecido bastante para uma camisa e eu ficaria mais belo que o Beleza da cigana. Face a minha hesitação, a vendedora prontificou-se a ler-me a sina de borla, se nós lhe comprássemos o tecido. 

Deixar ler a sina! O desejo de saber o meu futuro, dito ali mesmo na quintã dos meus pais,L.M-1975 - Cópia deve ter-me feito brilhar os olhos, pois ao meu aceno de "sim senhora, minha mãe" logo a cigana me agarrou a mão, palma virada para si e de linha a linha arengou o que que apeteceu. Algumas coisas retive até hoje: eu viria a ter duas namoradas, uma morena outra loura (coisa que acertou em cheio), faria uma longa viagem (não se enganou, pois fui para Moçambique) e viria a ser um homem muito rico, com muito dinheiro (coisa falhou redondamente).

O tecido foi comprado e a camisa foi feita. Se calhar, mais blusa do que camisa. Mesmo assim, sem  dobras, reluzente ao sol, eram já as cores quentes de África a chamarem por mim. Assim garrido e reluzente,  eu não cabia em mim de contente. Com aquela idade devo ter-me pavoneado, quanto baste, entre as raparigas da aldeia, para ajudar a cigana a acertar nos namoricos.

Foi assim. E vejam lá aonde me levou hoje a blusa de cetim da senhora dona locutora. 



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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.