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sexta, 16 março 2018 19:10

CLÁSSICOS DO OESTE (3)

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CLÁSSICOS

Retomo o tema pois não gosto de deixar penduradas, quais molas esquecidas no estendal da roupa de aldeia serrana, ideias e factos que ocupam lugar no fio cronológico do tempo e são parte integrante da narrativa humana, seja ela carregada de aventuras e surpresas no faroeste americano, rude e selvagem, seja na mais culta e sofisticada corte de imperadores ou reis, formadores de impérios, acompanhados dos seus cavaleiros, nobres e fidalgos de folhos rendados ao peito ou nos punhos das mangas. E bem assim, nas tertúlias literárias onde, com armas diferentes, digamos revólveres diferentes, a mulher, num sítio ou noutro, num tempo ou noutro, era o alvo preferido, o bombo da festa, a pior das criaturas, ou, então, poeticamente, endeusada e dotada de inigualável formosura e objeto de desejos.

MandaEu falei do papel da mulher, das esposas dos vaqueiros, família constituída, da corrida ao ouro, das bebedeiras de caixão à cova, e da mulher, nem deusa nem demónio, que, por opção ou empurrada para isso, alegrava os saloons das "cidades" na sua qualidade de rameira, ou nos bordéis tão procurados e frequentados como as minas de ouro descobertas recentemente algures.

A primeira crónica foi publicada no dia 11, na sequência do apontamento que fiz no dia 8, alusivo ao dia INTERNACIONAL DE MULHER. Nesse apontamento eu trouxe à colação o nome de ASPÁSIA, a companheira de PÉRICLES e, através da cábula retirada do Google, mostrei o importante e esclarecido papel que essa mulher desempenhou junto daquele governante, cujo legado histórico e cultural foi e é marcante na Antiguidade Clássica. Pretendi deixar uma imagem da mulher diferente daquela que tem vigorado entre nós, nomeadamente aquela que faz recair sobre ela todos os pecados do mundo a partir do momento em que EVA se deixou tentar pela serpente e surrupiou a maçã da árvore da ciência para satisfazer os apetites de ADÃO.

E não é preciso fazer longa cavalgada para encontrar as razões que justificam a luta actual da mulher pela sua emancipação. Dessas razões tenho feito eco nos meus escritos. Sem estar a soldo de ninguém, guiado apenas pelos artefactos que vou encontrando no campo arqueológico do pensamento, das ideias e da "praxis" social, eis o que escrevi no meu livro "Julgamento" editado no ano 2000, baseado no manuscrito "Sermoens Panegíricos e Quaresmais" s/d, que encontrei na Biblioteca Municipal de Castro Daire, reportando-se à decapitação de João Batista. Assim trasladei:

"E sabeis quem fez emudecer esta voz do Céu? Uma mulher dissoluta, uma mulher desenvolta. Uma mulher lascívia. A meretriz do Apocalipse. A Isabel de Samaria. A Semiramis da Babilónia. A Cleópatra do Egito. A Messalina de Roma. Herodíades, enfim, escândalo de Jerusalém e monstruoso aborto do seu sexo. Foi ela a homicida fatal do Grande Batista. Ah! E quantos estragos deste género não tem executado a mão poderosa que se deixa governar por estas detestáveis Círces do Amor desordenado. Ah! Que abismos de males não traz consigo a indignação de uma mulher quando chega a ser idolatrada nos altares da sensualidade".

Alvo escolhido, pontaria feita, tão certeiro tiro não dispensava, seguramente, espaço de treino. Espaço onde os pistoleiros eram os intelectuais moralistas e as balas eram as letras, as palavras, o verbo. E rápido no gatilho era o Padre Manuel Bernardes, homem de letras, ao conceber e desenhar o campo de tiro a que chamou «Nova Floresta ou Silva». E também ele foi buscar aos distantes corgos, rios e ribeiros do pensamento, da história e da cultura clássica, os ditados, os apotegmas, os princípios filosóficos e morais para, girando em torno deles, discorrer e construir doutrina edificante com que tentou moldar o comportamento humano. E, pontaria assestada na mulher, não se mostrou parcimonioso a metralhar a luxúria, os adornos, os enfeites e a beleza dela: uma «nau» levada pelo «vento», personificada em Pelágia. Assim::

Floresta"Dos reinos do Decão e Bisnagar e de Colocondá, na Índia Oriental, leva esta diamantes; dos reinos de Pegu e da cidade de Calecut e da Ilha de Ceilão, safiras; do Seio Pérsico entre Ormuz e Bassor, da Samatra ou Taprobana, da ilha de Bornéo e em Europa, de Escócia, Silézia e Boémia, leva pérolas; do porto de Jusfar, na Pérsia, leva aljôfar (que daí se derivou este nome); da cidade de Siene, no Egipto superior e do mar Tirreno, leva os corais, que se desterraram já dos rosários e braceletes, ainda se admitem em brinquinhos e verónicas; dos campos de Pisa e dos Montes Alpes, leva cristais; do mar da Suévia e de Lubeca, leva alambres, que são de fabulosas lágrimas da Irmã de Faetone, choradas solenemente cada ano pela sua desgraça; dos reinos do Monomotapa e Sofala na Cafraria e da região de S. Paulo na nossa América, leva outro; do Cerro do Patosi, nas conquistas del-Rei Católico, leva prata; da Alemanha, os camafeus; de Moscóvia, as zebelinas e martas e do Palatinado as mais aperfeiçoadas; da Helvécia, região dos Suizaros, os arminhos; do Brasil, os saguins para manguitos; e os coquilhos para contas; da cidade de Tiro, em Fenícia, a púrpura; da Serra da Arrábida grã; de Portugal e Castela a cor; de Veneza e Holanda, os espelhos; de Provença e de Roma, a pomadas para fazer as mãos macias e cheirosas; de Córdova e Hungria ao menos a receitas para as águas odoríferas destes nomes; das Índias de Castela a Almeida e óleo dela para as mães; de Tunquemo almíscar; do Maranhão e Seará, o âmbar; de Angola, Guiné e Cabo Verde, a algália; das nossas Índias o calabunco e aguila, os canequins e paninhos de coco e os toribios; da Africas, penas dos avestruzes para os cocares de plumas; da China os lós, os leques e as chitas; de Granada os tafetás; da Flandres, as rendas; da cidade de Cambraia, as teias finíssimas e candidissímas que têm este nome; de Guimarães, as linhas; de Leão, de França., as primaveras; de Modaba, na Pérsia e de Itália, as telas; da mesma Itália, os damascos; de Florença, Génova e Nápoles, os chamelotes; de França, as luvas, os sinais para o rosto e também os leques, uns maiores para o Verão, outros mais pequenos para o lar no tempo de Inverno; de Inglaterra as meias, fitas e relojinhos de algibeira; da Arábia, a goma, que também serve ofício neste mundo; da Batalha, os azeviches, para dar figas aos maus olhos».

(...)

Que tira ela, enfim, em ser formosa? Vaidade. Não mais nada. Tira também enfermidades de corpo, perigo da alma, enfados, murmurações e depois tanto em penas do outro mundo, quanto este lhe deu em glórias: com uma diferença entre outras muitas: que as glórias foram falsas e as penas serão verdadeiras. Poisa não pudera esta mulher com quatro lágrimas choradas debaixo do seu manto com um crucifixo diante dos olhos em lugar de espelho e com amar a verdade, que é a lei de Deus, deixando-se ajudar da sua graça; não pudera, digo, deste modo mais fácil, mais útil, mais honesto e deleitoso ser formosa nos olhos de Deus? Pudera e na mesma Pelágia temos o exemplo cuja alma, depois de convertida, viu o mesmo S. Noono em figura de uma candidíssima pomba, vendo-a de antes sórdida e feia».

Foi, portanto, neste estilo e com balas deste calibre que Manuel Bernardes comparou a mulher a uma «nau», que falou sobre ela e dos seus adornos, semelhando-a ao «Mundo». E todo o mundo fornecia os produtos com que ela se embelezava e ostentava luxúria e vaidade. E, na linha do pensamento do Profeta Isaías, não se esqueceu de enunciar a proveniência dos mil produtos que abarrotavam a «nau» de que falava.

Digamos que o seu livro é um autêntico tratado de geografia comercial e humana, uma autêntica «livraria». Eis, pois, os produtos e lugares da terra onde a «nau» se ia abastecer. Digamos que não há cantinho do Mundo, continentes e cidades, das mais conhecidas e próximas, às mais distantes e exóticas (excluído fica, por razões óbvias, o oeste americano que deu pretexto a este meu texto) que não desse o seu contributo à carga. E que o Padre Manuel Bernardes não se vai ficar pelos produtos da terra. A metafórica e literária «nau», isto é a mulher, o alvo da pontaria ao alcance da sua arma, vai estender-se também ao mar. E ele navega, ele rompe de vaga em vaga.

«Que mais é? É necessário que concorra também o mar, não só com as suas ostras que se esbulhem das pérolas, senão também com as tartarugas que desarmem as costas para pentes e cofrinhos e com as baleias que empenhem as barbas para sair um justilho ou prepõem, bem desarrugado; são necessários de várias partes vários materiais para bucetas, escritorinhos, baús, guarda-roupas, para recolher nos camarins e escaparates este mundo abreviado; são necessários vidrinhos e garrafinhas e rodomas e bucetas, curiosa e ricamente forradas para toda a farmacopólia de ingredientes líquidos e secos, simples e confeccionados que servem de estender o dia da formosura, quando já vem caindo maiores as sombras dos altos montes da anosidade e de dizer na cara ao desengano, que mente. Que mais? São necessárias até as nuvens do Céu para a primeira água de Maio que opinaram, fazia o carão lustroso; são necessários, arte, os mortos para as cabeleiras, se as não quiser o luxo antes tiradas das entranhas dos bichos, fazendo-as de seda. Estava para dizer que são necessários até os demónios, porque assim como a mão de Deus ajudou (como diz o texto sagrado) a formosura de Judite porque se ordenava a intento santo e de sua glória: «cui etiam Dominus contulit splendorem, quoniam omnis istacompósito, non ex libidine, sede x virtute procedebat», assim tenho para mim que sem a mão do demónio não poderá o apetite humano inventar er diposr e aplicar tanta vaidade e curiosidade.

Enfim, eu me acho cansado de peregrinar por este mundo imundo, como lhe chamou Tertuliano.

Dizei-me agora a Caio Ópio que chegue a bordo desta nau com a sua premacia; verá com que salva de artilharia o recebe; dizei ás rendas do morgado mais Atlante que sustentem este mundo. A mulher prudente, sisuda e amiga da sua casa é comparada por Salomão à nau mercantil; porém não, que de longe traz pão: «facta est quasinavis institoris de longe portans panem suum»; mas a mulher vã e amiga de enfeites e galas é nau que de longe traz a fome, porque a todas as partes do mundo faz desembolsos. Aquela o pão que traz é seu: «panem suum», porque sobre ser bem ganhado é bem conservado; esta a fome que traz é sua e de seus filhos e criados e servos, porque quanto se põe no supérfluo, tanto se tira ao necessário.

Recolhendo-nos agora ao nosso principal ponto donde saímos, pergunto: para que é necessário a uma mulher todo este mundo? Para parecer formosa. Concedamos-lhe que o parece; e ainda mais, que o é: que não é pouco barato, pois sabemos com S. Gregório Nazianzeno, que aquilo não é rosto, senão máscara: «non fácies, sed personas»; bem sabemos com Propércio que daquelas formosuras se mercam nas lojas e tendas e boticas e talvez para deitar a perder o natural:

«Naturaeque decus mercato perdere vultu».

E com Ovídio, que o menos que ali há naquele composto é a mesma pessoa porque quasi se sumiu entre tantos atavios sobrepostos:

«Auserimur cultu; gemmis, auroque teguntur omnina: pars mínima est ipsa puelasui».

Que tira ela, enfim, em ser formosa? Vaidade. Não mais nada. Tira também enfermidades de corpo, perigo da alma, enfados, murmurações e depois tanto em penas do outro mundo, quanto este lhe deu em glórias: com uma diferença entre outras muitas: que as glórias foram falsas e as penas serão verdadeiras. Poisa não pudera esta mulher com quatro lágrimas choradas debaixo do seu manto com um crucifixo diante dos olhos em lugar de espelho e com amar a verdade, que é a lei de Deus, deixando-se ajudar da sua graça; não pudera, digo, deste modo mais fácil, mais útil, mais honesto e deleitoso ser formosa nos olhos de Deus? Pudera e na mesma Pelágia temos o exemplo cuja alma, depois de convertida, viu o mesmo S. Noono em figura de uma candidíssima pomba, vendo-a de antes sórdida e feia».

«Mas cheguemo-nos já especificamente ao caso de Pelágia e das que se parecem com ela nos estudos dos enfeites, ainda que se não parecem na gentilidade, nem na gentileza, nem professem mau viver, senão somente bem parecer. Quanto é necessário de tempo, de estudo, de cuidado, de despesas, de trabalho e aflição de espírito para se pôr à vela uma destas naus? Bem lhe chamei nau, porque já Plauto disse: «Navis etmulier nunquam fatis ornamantur». A nau e a mulher nunca se dão por bastantemente equipadas. E concorda o adágio de Terêncio: «Dum moliuntur, dum comuntur, annus est». Mulheres enquanto se apercebem, enquanto se enfeitam, lá vai o ano.

Os Romanos antigamente, vendo que por opulentos que fossem os pais e maridos não havia pano para tão largo cortar (porque nelas seu giz e tesoura é o seu apetite e teima) saíram com a lei Oppia, sendo cônsules Q. Fábio e T. Sempronio, assim chama de C. Ópio seu instituidor em que mandavam moderar estes excessivos gastos. Porém tal foi a impaciência com que as matronas reclamaram, tal o motim que levantaram ao redor do palácio dos Brutos que dali a poucos anos já a prematica estava antiquada.

Armaria

No capítulo terceiro de Isaías está lançado um bastante aranzel, ou rol destas galas e adereços femininos. Porque indignado Deus de tanta vaidade e luxo ameaçou castigá-lo com terríveis demonstrações e por princípio delas, diz que há-de deitar abaixo as fivelas e topes de calçado, as luas, os colares, as gargantilhas ou afogadores: «In illa die auferent Dominus ornamentum calceamentorum & lunulas, & torques, & monilia», os braceletes, as mitras, os pentes e fitas que servem de apertar as tranças, os frandelins, os cordões de ouro, as pomas e frasquinhos de águas de cheiro: «Et armillas, & mytras & discriminalia, & periscelidas, & murenulas & olfactoriola»: as arrecadas e chuveiros, os anéis e memórias, as jóias de pedraria preciosa pendentes sobre a testa, as galas de festa, os capotinhos, os volantes e velilhos, as espadinhas, os espelhos, as toucas, os listões, vendas e faixas e os mantos finos: «Et inaures, & annulos, & gemas in fronte pendentes, & mutatória, & palliola & linteamina, & acus, & specula, & sindones, & vittas & theristra». Porém neste rol não está a centésima parte do aparelho que pede esta grande nau (chamemos-lhe Libertina que era a Deidade de fazer cada um o seu gosto) para velejar vento em popa nas cerúleas planícies do aplauso público.

E mais é de advertir que o profeta fala das mulheres que andam em seus pés: «Ambulabant pedibus suis, & compósito gradu incedebant»: que as que andam nos pés alheios necessitam de muito mais enxárcia, enfrexadura e amantilhos de muito mais flâmulas e galhardetes, de muito mais grinaldas e faróis e de melhores pavezas a um e outro bordo. E a maravilha é que quanto a nau vai mais carregada, mais levezinha vai, porque a mesma carga lhe faz ganhar vento; suposto que só em ser mulher tinha já bastante, conforme aquele dito:

«Quid levius fumo? Flamen. Quid flamine? Ventus. Quid vento? Mulier. Quidmuliere? Nihil.

Tenho reparado em que os Latinos a este ornato e adereços da mulher chamaram Mundo: «Mundus muliebris» e quer-me parecer que este nome não só quadra ao seu significado enquanto quer dizer limpeza; senão enquanto quer também dizer o mesmo mundo; porque de todo o mundo leva esta nau géneros e todo o mundo é necessário concorrer para ornar uma mulher. Por onde se S. Gregório achou com verdade que a criatura humana era todo o mundo, porquanto com umas criaturas convém no ser, com outras no crescer, com outras no sentir e com outras no entender; participando também o ornato de uma mulher de cada região do mundo alguma coisa, com razão e verdade se chama esse ornato Mundo. Vejamos mais em particular».

A transcrição foi longa, demorada. Cansativa foi a travessia do mar encapelado, mas não há jornada fácil para todo o pistoleiro que, no rio, terra ou mar, por conta própria ou a soldo de qualquer instituição, se disponha a perseguir os "fora da lei" todo aquele que desobedeça aos preceitos sociais e morais. E chamá-lo à obediência, prendê-lo, enforcá-lo ou queimá-lo, se necessário for, dá trabalho. E o padre Manuel Bernardes, filiado na velha tradição bíblica, olho recriminatório fito na mulher, foi buscar ao profeta Isaías a sua inspiração, foi buscar aos clássicos as flores latinas com que enfeita o ramalhete do pecado humano e concluiu, depois, que a mulher é o mundo e o mal do mundo.

(Continua)

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.