Trilhos Serranos

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sexta, 16 fevereiro 2018 13:24

FONTE LUMINOSA - CARRANCAS

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HISTÓRIA VIVA

Castro Daire tem um repuxo iluminado, ali, no Largo das Carrancas. Ele é o resultado de uma ideia genial e inovadora. A vila estava a precisar de algo invulgar e atractivo, algo que não tivesse ainda e que não fosse visto por praças, largos e estradas deste país inteiro, como é o caso dos repuxos e/ou  fontes iluminosas.

 Carrancas.1 - REDNão sei de quem foi a ideia, esse relâmpago luminoso que atravessou os neurónios de um cérebro imaginativo e criador. O espelho de água existente no jardim público, a poucos metros de distância, com os seus biquinhos a espargir timidamente água para o ar, era  coisa sem dignidade e sem dignidade se deve arrastar pelos tempos fora. O esguicho luminoso colocado no tanque das Fonte dos Peixes, idem, idem aspas.

Agora sim! O repuxo do Largo das Carrancas veio não só nobilitar um espaço que necessitava de sê-lo, veio não só dignificar a vila, mas veio sobretudo mostrar a força criadora dos técnicos, engenheiros e doutores que têm a responsabilidade de gerir histórica e estéticamente o nosso património.

Um repuxo luminoso, ali mesmo a meia dúzia de metros de um fontanário histórico, que, paradoxalmente, ficou no escuro, seco e sem vida. Um fontanário de carrancas a fazer carrancas a tal serviço. Um fontanário que, recolhido no seu nicho, se interroga como é que estas coisas acontecem em Castro Daire.

O observador crítico que por ali passe, com olhos de ver e de sentir, que leve em conta a história e a arquitectura envolvente, logo se solidariza com as carrancas e não pode deixar também de fazer carrancas ao que vê e sente. Um observador crítico pára, olha e pensa. O observador crítico deixa-se levar pela ideia peregrina de ver um fontanário histórico recuperado, activado, arrancado à letargia a que o progresso remeteu por força da mudança operada no abastecimento de água ao domicílio. Um observador crítico faz contas e não pode deixar de pensar que com o mesmo dinheiro (ou talvez menos) e com o mesmo sistema (o sistema aplicado no repuxo) se podia ter feito algo melhor, algo diferente e mais atractivo, algo que revertesse a favor do património e da sensibilidade que os nossos autarcas têm para estas coisas da cultura e do desenvolvimento.

Passe por lá, caro leitor. Passe pelo Largo das Carrancas e faça a sua leitura crítica ao trabalho realizado. Feche os olhos e de olhos fechados veja o que não vê com os olhos abertos: um fontanário a jorrar abundantemente água para um tanque e uma cortina de água transparente, colocada na embocadura do nicho, vedando a entrada ao tanque e às bicas. Tudo artisticamente iluminado!

O quadro que acaba de ver de olhos fechados, não é um simples e vulgar repuxo colocado num largo... é a recuperação de uma peça histórica que estava morta e ressucitou; é uma peça histórica que jorra atracção, poesia e luz sobre o visitante que não se contenta em ver coisas sem alma, que não se contenta em ver simplesmente “coisas”. Visitante que, dando sentido à história e às palavras, se extasia em frente de uma verdadeira, autêntica e poética “fonte luminosa”. Um quadro assim, de  passado e presente acasalados - o passado exibindo a sua arte, a sua arquirectura, a sua histótia e o presente exibindo as suas  técnicas, a sua engenharia, o seu sentido estético, de desenvolvimento e de respeito pelo património - um quadro assim, dizia, é, no presente, o espelho do futuro. O futuro que espera Castro Daire. Um futuro diferente, inovador e não um futuro acomodado à rotina, às ideias feitas e ao corriqueiro.

Depois de ver  isto, caro leitor, abra os olhos, olhe em redor e diga da sua justiça!

texto publicado no NCD

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.