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sexta, 12 janeiro 2018 08:52

NUNO SEBASTIÃO - O CAÇADOR

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HISTÓRIA VIVA

Nuno Sebastião é um caçador. Nascido, ao que sei, lá para as faldas da SERRA DA NEVE (Montejunto), ligado desde menino à natureza, a bichos e à liberdade que se respira nos montes de Portugal, decidiu-se a subir à SERRA DA NAVE (também conhecida por Leomil) e, depois de anos a divagar por encostas e ravinas, resolveu prendar-nos com o produto da sua caçada: um cinto cheio.

espingarda - Red

Mas não se pense que foi fácil a tarefa. Que foi andar por aí afora, bornal a tiracolo, arma à cara e "tau...tau"...tiro e queda, já está, vai buscar. Não. É que esse tipo de caça já não se faz por cá. Isso foi chão que deu uvas (falo por experiência) e devemos ter consciência disso e assumir que fomos uma geração de felizardos e de infelizes simultaneamente. Felizardos, porque ainda tivemos a oportunidade de conhecer a perdiz vermelha selvagem, bandos de perdigotos a disfarçarem-se nos restolhos, as lebres e as suas correrias, com a agulha da cauda espetada no dorso, fugindo a galgos ou podengos e, infelizes, dizia, por termos contribuído para à exterminação dessas espécies. E não há filosofia, por mais elaborada que seja, que nos absolva.

Nuno Sebastião, caçador, para fazer o cinto que fez, em vez de meter os pés nas botifarras de cano alto, em vez de se dispor a pisar tojos e carquejas, a dobrar urgueiras e giestas (apesar de saber dessa poda) optou por calçar sapatos de verniz, meter-se nas bibliotecas, geralmente alcatifadas, escolher as estantes da especialidade, fazer a pontaria ao alvo certo e caçar todas as obras possíveis relacionadas com a ARTE VENATÓRIA. E se, por ventura, nos terrenos palmilhados "o dia era da caça e não do caçador", ala porta fora e toca a bater as ruas de Lisboa, a espiolhar as bancas dos alfarrabistas nas arcadas do Terreiro do Paço (quando os havia lá) no Largo Santana (idem, idem, aspas, que o extermínio da caça não se ficou pelas serras) ou demais profissionais do mesmo ofício, com porta aberta onde quer que fosse. E, depois de muito suar em busca de raridades... "tau...tau"...esta já cá canta. Um tiro certeiro e mais uma peça digna do paladar de um discípulo de Santo Huberto, "voa" para sua casa e engrossa a coleção dos temperos cinegéticos que ele, há muitos anos, vem juntando e catalogando na sua cozinha, por forma a que, em qualquer momento, possa satisfazer os apetites atávicos de quem na serra nasceu e da serra não se livrou, por mais urbana que tenha sido sua educação e a sua forma de vida.licença - Red

Colecionador de obras (no todo ou em parte) relacionadas com literatura cinegética, desde o século XVII aos nossos dias, junta-lhes, com ânimo próprio, armas antigas e demais artefactos ligados à arte, como sejam armadilhas, cacifos de furões, polvorinhos, chumbeiras, etc. etc. etc. Digamos que, lá onde quer que ele tenha o recheio amealhado, está um "banco de dados" de história, de conhecimento e de cultura, capaz de dar sentido ao título daquele livro que publiquei em 1995, com o título "Castro Daire, Indústria, Técnica e Cultura", cuja caça era outra, mas tem cabimento lembrar aqui.

Subindo à Nave, ou calcorreando os andurriais citadinos ao seu alcance, de encosta em encosta, de chapada em chapada, isto é, repassando algumas das obras literárias de Aquilino Ribeiro (e alguns respigos do seu filho mais novo) pontaria aqui, tiro além, fez o cinto cheio que resolveu apresentar-nos com o título "Aquilino Ribeiro, A Arte da Caça", em homenagem ao Mestre.

Livro - redEis, pois, um livro de 282 páginas que faltava neste ramo de pesquisa e de saber. Respigando muitas das páginas que o Mestre escreveu sobre esta arte, integrada na relação do homem com a natureza, seria hipocrisia da minha parte, dizer-lhe que o acompanhei na jornada. Não acompanhei, não senhor. Não porque ele desmerecesse a minha companhia, mas porque a sua jornada incluía caminhos já por mim andados, quer na "orografia" natural, quer na "orografia" literária.

  Todavia, louvo-lhe a iniciativa, a paciência, o trabalho e a abordagem que fez. É uma compilação pioneira e se outro tanto se fizesse acerca de outros aspetos da obra do Mestre, contribuir-se-ia, desse modo, para um melhor conhecimento da Terra, da Gente e dos Bichos que o escritor, com a arte literária e o rigor geográfico, sociológico, fisiológico e psicológico, chapou em letra redonda, como ninguém. Terra, Gente e Bichos que eu conheci muito bem e, por isso, testemunha viva sou da realidade objetiva e ficcionada, realidade que a juventude de hoje, na sua maior parte, ignora. E não me ofende nada o adjetivo "labroste" que ele, tão rápido quanto premia o gatilho, colava, certeiramente, nos habitantes destas aldeias turdetanas da serra, incluindo a minha. Ele nos retratou, a nós, serranos e camponeses, de alma corpo inteiros. Diria, «inteiriços como bárbaros».  E eu, confrontando a realidade e a  ficção, o substantivo e o adjetivo, bem posso dizer do alto dos meus 78 anos de vida: onde Aquilino Ribeiro punha a mira, era "tiro e queda".


Abílio/janeiro2018
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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.