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sábado, 16 setembro 2017 17:30

AS «CÉDULAS» - DINHEIRO VIVO

Escrito por 

DINHEIRO VIVO

No meu livro «Castro Daire, Indústria, Técnica e Cultura», editado pela Câmara Municipal, em 1995, abordei a questão das «cédulas» que, em todo o país, foram usadas como moeda corrente, com acentuado vigor após a PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL. Na página 14 e 15 desse livro deixei o seguinte texto ilustrado com as respetivas «cédulas».. Assim:

 

PRIMEIRA PARTE

Livro-1

«É sabido que na província o tempo se passeia a passo de mula e que as marcas materiais do passado constituem  o «barómetro» que informa dos comportamentos, atitudes e capacidade das pessoas e instituições, o barómetro que informa da imaginação, do espírito criador, ou da falta deles, na resolução dos problemas que afetam as comunidades.

No que toca a Castro Daire e relativamente à imaginação e espírito criador não pode deixar de ser avocado o exemplo do «papel moeda» (cédulas) que, entre 1919-1925, foi emitido pelos poderes locais do país. Das «notas» originais impressas a cores, nomeadamente aquelas a que tive acesso, sobre o «Alentejo», «Almada», «Espinho», «Arouca», «Viseu», «Lamego», Régua», «Tarouca», «Resende» e «Castro Daire», é este último concelho que revela uma gritante pobreza franciscana na sua congeminação e execução»

(cf. estampa 1, pp- 15, onde remeto para o «Catálogo Geral de Cédulas de Portugal - Sociedade Portuguesa de Numismática», 1980» de Mário S. Almeida et al), autor a que voltarei mais adiante).

Pela sua qualidade e significado, dada a impossibilidade de reproduzirmos todos os exemplares, destaquemos apenas o de Espinho, Tarouca, Alentejo e Castro Daire: o exemplar de Espinho é um autêntico cartaz turístico. No verso: cordas e boias enquadram um palco, cujo reposteiro de veludo deixa ver uma praia cheia de movimento e de cor, com a significativa legenda: «a mais limpa praia Portuguesa». No rosto: mar e fábricas, vigiadas por duas figuras femininas, uma delas apoiando a mão direita numa roda dentada.

O de Tarouca - concelho do interior, tal como Castro Daire - prima pelo arranjo no seu todo, mostrando significativamente uma panorâmica do burgo.Livro-2

No Alentejo, bordado pelos brasões dos concelhos, sobressai o caracter comunitário no domínio da «Assistência Regional», muito embora cada concelho de «per si» tenha emitido também as suas «cédulas».

O de Castro Daire, prima não só, pela pobreza do desenho, mas também pela falta de significado histórico do elemento escolhido para o verso: um «castelo». A documentação escrita e arqueológica não legitimam a escolha e divulgação de tal monumento.

Sem rasgo de imaginação, sem espírito criador por cujo impulso o «mundo pula e avança» destituída de arte e de rigor histórico a «nota» de Castro Daire, exibindo um presuntivo «castelo», é mais um indicador das motivações profundas que norteavam os responsáveis políticos do concelho: era o peso das instituições do passado longínquo, do passado da nobreza possidente, do tempo dos  «archotes» e das «lucernas»  de azeite para não contrastar  com o tempo  em que saiu da tipografia - o tempo dos candeeiros a petróleo. Estávamos na década de 20 e apesar de no ano de 1919 o Ministério do Comércio ter enviado à Câmara Municipal o anteprojeto e editais no sentido de ela averiguar as «vantagens» e «inconvenientes» da construção de uma represa com 46 metros de altura, no Porto Canal, a montante da Ponte Pedrinha, com vista à implantação de uma Central Hidrelétrica, em Reriz, apesar de os republicanos serem de opinião que as obras em nada prejudicavam e, pelo contrário, muito viriam a «beneficiar a economia do concelho», a questão era saber se o projeto continuaria ou não «a ser encrencado, como há anos consta que vem sendo, por pretensões monárquicas que tinham peso no antigo Ministério das Obras Públicas» (in «O Castrense», nº 198, de 30-03-1919)

 

 

SEGUNDA PARTE

O livro onde deixei estas palavras escritas, no ano de 1995, foi o resultado da minha licença sabática e tem 274 páginas. Há muito esgotado e muito procurado junto da minha pessoa,  a CâmaraMunicipal tem dado prioridade a outras edições e não falta por aí, nas redes sociais, quem ironicamente se refira a tais prioridades. Assim dizem: "em Castro Daire, há uns que escrevem, e outros fazem livros". Parece que o critério usado para a feitura das «notas» municipais, no pós guerra, ainda se mantem na atualidade. Ora contem lá os anos!

Mário Almeida-2Nesse ano, ainda durante a minha investigação no terreno, tive o privilégio de ser visitado em minha casa pelo Dr. Mário S. de Almeida, um sério e esforçado investigador sobre a matéria em apreço, por isso remeti para a sua obra no momento certo. E sobre ele mais não disse,  por não vir a propósito fazê-lo. Mas aqui estou hoje a preencher essa lacuna, pois a «ingratidão» não mora aqui.

Sendo, ao tempo, um senhor que me levava alguns anos de avanço na idade e na investigação, presumo que, infelizmente, já não leia estas minhas palavras. Mas, em consciência, eu lhas devo, já que na altura me fiquei pela simples, mas necessária, remissão para o trabalho que desenvolveu. Eis como ele começa esse trabalho:

«Esta obra foi realizada por iniciativa da Sociedade Portuguesa de Numismática, sob a direção do Dr. Mário Santos Almeida, por uma comissão constituída pelos dedicados associados: António Claro da Fonseca, Carlos Magalhães Gonçalves, Eduardo Vicente Araújo, Francisco Augusto dos Santos, Engº  Joaquim Torcato Barroca, Engº. Luís Garcia da Cruz e Miguel Coimbra Pacheco.

Uma obra destas, mesmo com os defeitos que inevitavelmente muitos lhe encontrarão, era impossível ser realizada por usa pessoa só.Mário Almeida-1

Dediquei-lhe, com entusiasmo, quase todos os momentos que a minha vida profissional me deixava livre.  Inclusive desloquei-me propositadamente para estudar coleções, aos pontos mais remotos do país e até ao estrangeiro (...)»

Com um trato fidalgo e a refletir a sabedoria de quem já lidou com muita gente, foi com prazer e proveito que o recebi em minha casa, em Fareja. E veja-se, pela dedicatória que ele apôs no exemplar que me ofereceu. Só mesmo um gentil-homem, afeito às dificuldades da investigação na busca do saber, ampliação e divulgação dos conhecimentos.  Se ele for vivo e ler este meu apontamento aqui lhe retribuo as palavras de «gratidão» que ele «manuscreveu», assim:

«Ao Exmo. Senhor Dr. Abílio de Carvalho, of. c/ muita estima e gratidão. M.A. Junho 1995».

 

 

TERCEIRA PARTE

Não foi sem alguma surpresa minha que, há dias,  um vereador do atual Executivo Municipal, que tenho por amigo, me mostrou, com grande entusiasmo, algumas  «cédulas» relativas ao concelho, que chegaram até si, por mão amiga. Disse-lhe que já tinha feito um estudo sobre isso em 1995, mas que, não tendo sido os originais reproduzidos a cores, devido aos concicionalismos impostos pelas tecnologias de reprodução então existentes,  eu iria retomar o tema e deixar um apontamento sobre o assunto. E desta vez reproduzindo a cores algumas dessa cédulas, por forma a que os leitores melhor pudessem apreciar aquilo que então escrevi sobre a imaginação e a criatividade que os nossos edis deixaram para a posteridade, comparando as nossas «notas» com as «notas» que circulavam noutros concelhos do país. É isso. O que fazemos hoje, ver-se-a amanhã. 

Régua-1

Régua-2-

j

 

 

 

 

 

 

 

 

Arcos-1

Arcos-2

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tarouca-1

Viseu-1

 

 

 

 

 

 

 

 

C.D.1-2 - Cópia 2

C.D.1-2 - Cópia

 

 

 

 

 

 

 

 

A demonstração fica feita. Compare-se bem os elementos que enriquecem ou empobrecem os documentos que aqui deixo, e leia-se o que deixei escrito no livro «Castro Daire, Indústria, Técnica e Cultura». Estes documentos são a prova provada das opções dos nossos edis. Então, como hoje, daí eu próprio começar da dar sentido ao que se vai ouvindo «uns escrevem, outros fazem livros». E sabido é, como também o digo e repito, que «quem cultiva o básico, nunca chega ao excelente» . 

Abílio/setembro/2017

 

 

 

 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.