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quinta, 31 agosto 2017 13:11

CUJÓ: UMA GENEALOGIA (3)

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HISTÓRIA VIVA

Bem. Com o registo de batismo lavrado nos livros da Catedral de Viseu, chegada à comunidade cristã pela porta grande,  graças às mãos do padrinho e da madrinha indicados no bilhete anónimo que integrava o enxoval de criança exposta,  Florinda Correia estava pronta a fazer a trouxa e ir aconchegar-se no colo da «ama» que fosse encontrada pela «rodeira», ambas cientes, convém repeti-lo, que receberiam «boas alvíssaras» pelo indispensável zelo cristão.

 Antes, porém, de vermos abalar, em busca de ama e de mama,  a mimada criança para algures,  e a fim de melhor conhecermos os mecanismos assistenciais daquele tempo, temos de reter, mais uma vez,  as circunstâncias que rodearam a «exposição», o «achamento» e a «condução» da menina ao hospício, nomeadamente, a indicação e identificação dos padrinhos e respetivas moradas, a saber:

«José Correia, caixeiro do galego, assistente na Praça da Ansa  e a Senhora Emília de Jesus, Rossio de Baixo, moradora na casa do Sr. João Ferrador, defronte do Sr. João Jorge».

Sobressai claramente do «escrito» que todos as pessoas nomeadas eram bem conhecidos no burgo citadino e a isso se deve, certamente, a desnecessária notificação administrativa para comparecerem no ato solene do batizado, feito seguidamente e sem demora. Mas eles estavam lá. Tudo o que foi combinado entre os «coniventes» no caso deu certo e as instituições de assinstência existentes deram provas  de estarem bem oleadas, o que não quer dizer que tanto o investigador como o historiador tenham o trabalho facilitado na tarefa de descobrirem destino seguido, logo depois, pela criança, exatamente porque os «tratos orais» submergiram, como convinha, os registos oficiais.  Retenhamos ainda, e porque convém neste passo da narrativa, as peças que constituíam o enxoval da criança recém-nascida:

«3 camisas novas de morim, 1 saia branca, 1 de riscado velha, 1 casaco de baeta velha branca, 4 lenços, três brancos e um de seda amarelo velho. A menina traz no braço esquerdo 16 contas azuis enfiadas num cordão. Um bilhete que vai junto a esta, dentro de uma bolsa de seda verde escura».

Na primeira parte deste trabalho, depois de receber a documentação resultante da investigação que meu primo Amadeu Duarte Pereira, de mão beijada, me fez chegar à mão, digitalizada numa PEN, atirando para os meus «ombros a carga de a coordenar, reformular,  interpretar e divulgar da melhor forma que entendesse», eu mostrei estar ciente de que, sem qualquer esforço meu de garimpeiro, recebia em minha casa «ouro de lei», cujo brilho me permitiria fazer luz sobre a genealogia da família, certo de que o texto a produzir fluiria tão rápido no teclado do computador, quão rápida a emoção que me faz fluir o sangue nas artérias, nas veias  e capilares que me permite pensar e escrever com a verdade e a isenção que se espera do historiador, mesmo que familiares sejam os protagonistas de quem fala ou escreve.

A dificuldade que enunciei nas palavras «carga sobre os meus ombros» é fruto da experiência dos ossos do ofício, alguns deles bem duros de roer nesta coisa de fazer história. Retórica minha? Não. Quem disse o mesmo por outras palavras, em recente entrevista, dada à Revista do ««Jornal de Notícias», foi o Professor Doutor António Borges Coelho, meu ex-professor na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, académico de que, nestes meus 78 anos de idade, e muito trabalho feito sobre os difíceis trilhos do labor histórico por ele apontados,  me orgulho de ter sido seu aluno. Disse ele, na entrevista, com aquela sua sabedoria e simplicidade que o caracteriza como historiador e ser humano:

«A informação não são factos e acontecimentos que nós juntamos num colar e mostramos. Tem de ser organizada como a vida: temos de inventar montanhas e vales. É isso. A História tem de ter esse trabalho, que não é de manipulação, mas de composição. É muito difícil e exige muito rigor e imaginação».

É isso. Não sendo a História  um somatório de «factos e acontecimentos que nós juntamos num colar e mostramos», semelhantemente às «16 contas azuis enfiadas num cordão» que a menina trazia no «braço esquerdo», mas antes um laborioso trabalho de «inventar montanhas e vales» que exige muito «rigor e imaginação» não raro o historiador, o tecelão da História, à falta de documentação, obrigado é a preencherá hiatos, a dar saltos no tempo por forma a tornar entendível e consequente a narrativa a que botou mãos. E mais sério é balouçar na corda da plausibilidade do que na esticada corda das certezas infundadas. Visando esse desiderato, sabedores que estamos todos dos «passos» dados pela menina «exposta» até se tornar membro da «eclésia», no ano de 1875, ano do seu nascimento, eis-nos obrigados a deixá-la, em Viseu, entregue à responsabilidade da «rodeira» empenhada, seguramente, em arranjar-lhe «ama» e «mama»,  eis-nos forçados a deixar para trás algumas contas do seu rosário de vida e, saltar para o Ano da Graça de 1897 (mil oitocentos e noventa e sete), mais rigorosamente para o dia cinco de novembro desse ano e, ansiosos e felizes, dentro da Igreja Paroquial de S. Joaninho, concelho de Castro Daire, assistirmos ao seu casamento. Assim:

Casamento Avó-1897 b - Cópia«Aos vinte cinco dias do mês de Novembro, do ano de mil oitocentos e noventa e sete, nesta Igreja Paroquial de São Joaninho, Concelho de Castro Daire, Diocese de Lamego, na minha presença compareceram os nubentes António Tereso e Florinda Correia, os quais sei serem os próprios, com todos os papéis do estilo correntes, e sem impedimento algum canónico ou civil para o casamento, e licença do Excelentíssimo Prelado dado a dezoito de Novembro do dito ano; ele de idade de trinta e cinco anos, solteiro, lavrador, natural e morador no lugar de Cujó, desta freguesia de São Joaninho foi batizado, filho legítimo de José Pereira e Tomásia Pereira, lavradores, naturais do dito lugar de Cujó, desta freguesia de São Joaninho; e ela de idade de vinte e dois anos, solteira, exposta na Roda de Viseu, onde foi batizada, e dada a criar na freguesia de Castro Daire, filha de pais incógnitos, os quais nubentes se receberam por marido e mulher, e os uni em matrimónio, procedendo em todo este o rito da Santa Madre Igreja Católica e Apostólica Romana. Foram testemunhas presentes, que sei serem os próprios, José Pereirinha e José da Silva, casados, lavradores, naturais e moradores no lugar de Cujó, desta freguesia de São Joaninho. E para constar lavrei em duplicado este assento, que de lido e conferido perante os cônjuges e testemunhas com todos o assinei, a cônjuge não assina, por não saber escrever. Era ut supra»». (O Pároco José Gonçalves da Silva Carvalho)

Não há dúvida. A nubente que, neste ano, contraiu matrimónio, em S. Joaninho, com 22 anos de idade, é a mesma que foi «exposta na Roda de Viseu, onde foi batizada, e dada a criar na freguesia de Castro Daire».

Pois é, mas isso já sabia Amadeu Duarte Pereira antes de toda a investigação levada a cabo nos arquivos, nacionais e brasileiros. Ele sabia pela sua própria mãe e tios, que a avó Florinda tinha sido criada em Castro Daire, que estava ligada à família Amador, e que, com com cerca de 10 anos de idade, embarcara para o Brasil, na companhia do padrasto e da mãe. 

Eram certezas que faziam parte da narrativa oral e familiar. Mas elas precisavam de encontrar respaldo na documentação escrita e isso aconteceu no «acrescento» feito ao seu «registo de casamento». Com efeito, cumpridos os pró-formas do matrimónio, segundo «o rito da Santa Madre Igreja Católica e Apostólica Romana», o pároco José Gonçalves da Silva Carvalho, acrescentou:

Adenda-1-2«E os ditos contraentes António Tereso e Florinda Correia na minha presença e das mesmas testemunhas, José Pereirinha e José da Silva reconhecerem por seus legítimos e verdadeiros filhos a Júlia, nascida no dia vinte do mês de Abril do ano de mil oitocentos e noventa e três, e batizada no dia sete do mês de Maio do dito ano, na freguesia de S. Cristóvão Capital do Rio de Janeiro, Estados Unidos do Brasil, e (...) José, nascido a treze do mês de Setembro do ano de mil oitocentos e noventa e cinco e batizado no dia seis do mês de Outubro do dito ano na mesma freguesia e Capital do Rio de Janeiro. E para constar e me ser pedido pelos contraentes, lavrei esta declaração e aditamento ao supra, que todos assinaram depois de lhas ter sido lidas. Era ut supra». 

Filha de mãe solteira, mãe solteira se viu ela, na outra banda do Atlântico. Ali, com o homem que agora tomava por marido, António Tereso, natural de Cujó, 13 anos mais velho do que ela, gerou a filha Júlia e o filho José, que em Portugal, e no ato do matrimónio, frente às  testemunhas nomeadas, reconhecerem como filhos «legítimos».

E isso nos faz ir até ao Brasil e trazer à luz do conhecimento as certidões de batismo dos dois filhos ali gerados. Pais solteiros, para eles o sétimo sacramento poderia esperar, mas para os filhos inocentes o primeiro sacramento é que não. Nascidos com dois anos de diferença, primeiro a Júlia e depois o José, ambos foram levados à Pia Batismal da Paróquia de São Cristóvão, no Rio de Janeiro. O pároco de serviço não pôs quaisquer obstáculos ao batismo. As crianças não tinham culpa dos pais não estarem casados. Foi há mais de 200 anos no outro lado do Atlântico, mas se isso fosse cá, em Portugal, neste princípio do século XXI, com alguns clérigos que conheço, a sentença seria, seguramente, a seguinte: «queridos paroquianos», sem o último sacramento realizado, não se realiza o primeiro. 

Outras terras, outras gentes!

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.