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terça, 29 agosto 2017 16:16

CUJÓ: UMA GENEALOGIA (2)

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HISTÓRIA VIVA

Prosseguindo a nossa viagem, neste baloiçar próprio das carruagens da vida e da história, seja por terra ou seja por mar (ao tempo desta «estória» ainda não se viajava por ar)  registemos, em primeiro lugar, que o BILHETE, deixado dentro dos pertences encontrados junto da menina exposta (não confundir com «enjeitada») foi escrito por uma pessoa de letras grossas, pois nele deixou erros ortográficos de palmatória, a saber: escreveu duas vezes «pedeçe» em vez de «pede-se» e «alviças» em vez de "alvíssaras". Registemos também os nomes indicados para padrinho e para madrinha, pois eles nos ajudarão, mais tarde, a buscar entendimento no uso, alternado, dos apelidos escritos nos documentos de identificação da menina Florinda:  ora Correia, ora Amélia de Carvalho.

E não descuremos também o lugar onde a criança foi deixada e as instruções dadas à «Ilustríssima Rodeira», visando que a «recém-nascida» fosse entregue a uma «boa ama»ação essa pela qual as duas, «rodeira e ama», receberiam «boas alvíssaras».

Com esses e outros cuidados, a menina foi deixada à «porta de um quarto particular, em Viseu, na Ribeira» com os pertences identificadores próprios das crianças expostas (não confundir com «enjeitadas») e o passo a seguir foi levá-la ao «Hospício do Círculo de Viseu», instituição que, nesta cidade e em todo o Reino, veio a substituir as RODAS, que foram extintas em Portugal,  entre finais dos anos 1860 e 1888

Visto e lido esse bilhete, vejamos agora a GUIA DE ENTREGA no Hospício e os respetivos dizeres, que, diferentemente do «Bilhete», estão escritos em letra escorreita e sem erros. O Administrador do Concelho deixou provas de manejar bem a pena. Assim:

Hosp. REDZ. -«Administração do Concelho de Viseu

Guia N.º 132

Vai ser entregue no Hospício do Círculo de Viseu uma menina recém-nascida, que apareceu, pelas 6;30 horas da noite de ontem, exposta à porta de um quarto da casa de José Joaquim António, tamanqueiro, da Ribeira, onde mora António Nunes, casado, carpinteiro, da Ribeira, freguesia Oriental de Viseu. Foram-lhe encontradas 3 camisas novas de morim, 1 saia branca, 1 de riscado velha, 1 casaco de baeta velha branca, 4 lenços, três brancos e um de seda amarelo velho. A menina traz no braço esquerdo 16 contas azuis enfiadas num cordão. Um bilhete que vai junto a esta, dentro de uma bolsa de seda verde escura.

É condutora da menina Leonor Augusta, casada, da Ribeira, freguesia Oriental, a qual tem de ser paga a gratificação de 120 réis.

 Viseu 29 de Outubro de 1875

O Administrador do Concelho

João Ribeiro Nogueira Ferrão

Nota: «Florinda Correia

Pag. 120

Lançada ao livro 30.º do hospício a fls. 79»

 Na presença deste documento ficámos a saber que a menina «exposta»  e os pertences que junto dela foram deixados, estava entregue no Hospício. Que ela não foi abandonada na rua, mas sim «à porta de um quarto de casa» particular  e que a pessoa incumbida de a transportar até ao destino foi Leonor Augusta, casada, da Ribeira, freguesia Oriental, a qual tem de ser paga a gratificação de 120 réis».

Temos assim a identificação de todas as pessoas relacionadas com a ação humanitária que envolve a recolha no Hospício de uma recém-nascida de progenitores desconhecidos. E se os nomes constantes nesta «Guia» não nos despertam qualquer interrogação, o mesmo não acontece com aqueles que ficaram registados no «bilhete» encontrado nos pertences da menina, a lembrar: o nome do padrinho, José Correia, de quem ela recebeu o apelido, e o da madrinha «Emília de Jesus» à qual retornarei em devido tempo, pois parece-me, desde já,  que nenhuma destas pessoas estaria inocente, relativamente à «exposição», à recolha e ao «encaminhamento» da menina para o Hospício. Nisto tudo, parece-me que inocentes não eram nem os adultos nem as instituições pilares do regime político vigente. Elas serviam esse regime e  autosustentavam-se com os comportamentos sociais em que só as crianças «expostas» eram, verdadeiramente,  inocentes.

Feito o respetivo registo, numa sociedade «católica, apostólica e romana», se o sacramento do «matrimónio» andava pelas ruas da amargura, decorrendo daí a necessidade da recolha das muitas crianças expostas, primeiro nas Rodas e depois nos Hospícios,  o mesmo não acontecia com o sacramento do batismo, o primeiro de todos eles. E se o matrimónio (o sétimo) era coisa de adultos, se a Igreja não tinha mão na bastardia a eito praticada por nobres, reis e príncipes, se os Abades tinham as suas amásias e aos filhos "naturais" chamavam afilhados, se as festas e romarias religiosas proporcionavam encontros amoros de namorados e de outros ocasionais, em resultado dos quais apareciam muitas crianças sem pai passados nove meses, a Igreja, dizia eu, se nisso não tinha mão,  impunha, categoricamente,  a realização solene do batismo. E foi assim que, mal a criança chegou ao Hospício, se deu cumprimento imediato a esse preceito e, ao mesmo tempo, se cumpriu, religiosamente, o que estava escrito num bilhete anónimo. A criança foi conduzida à Catedral onde o Pároco José de Abreu Castelo Branco a baptizou, conforme manda a Santa Madre Igreja. Assim:   

Baptizada em Viseu-1875 - Cópia«Aos trinta dias do mês de Outubro de mil oitocentos e setenta e cinco, nesta Catedral de Vizeu, baptizei solenemente um indivíduo do sexo feminino a quem dei o nome de Florinda Correia, que entrou em o Hospício desta cidade no dia vinte e nove do dito mês, recém-nascida. Foi padrinho José Corria Mendes do Rego, caixeiro e madrinha Emília de Jesus, ambos solteiros, moradores nesta cidade, os quais sei serem os próprios. E para constar lavrei em duplicado este termo que assignei.

Era ut supra

O Parocho José de Abreu Castelo Branco

Cumpria-se assim o primeiro sacramento da Santa Madre Igreja. A partir daqui, a criança exposta podia enfrentar o mundo. Mas para isso era preciso que a «Ilustríssima rodeira» encontrasse primeiro uma «boa ama», cientes ambas de que receberiam «boas alvíssaras» pelo religioso zelo demonstrado.

continua

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.