Trilhos Serranos

Está em... Início Crónicas CONTO DOMÉSTICO - 4
domingo, 25 junho 2017 15:23

CONTO DOMÉSTICO - 4

Escrito por 

QUARTA PARTE

Profissionais da educação, obrigados a cumprir horários, a prepararmos as aulas, darmos as aulas, a  fazermos pontos e corrigir pontos, assistir às reuniões e tudo o mais que se exige dos docentes, logo pela manhã, antes de ir ter com os alunos, ali estava eu a acompanhar os trabalhos e a dar sugestões ao empreiteiro que comigo ajustou, de seu nome João Lopes Vicente, de Vila Cova-a-Coelheira, que, em verdade se diga pela vez primeira, agora, e para a posteridade, que levou a cabo o trabalho ajustado com prontidão e seriedade. Obra ajustada, obra acabada, obra paga. 

1- Traseira 1 Redz

O projeto municipal da distribuição da água foi executado a tempo e a velha moradia, agora com rosto novo e tubos metidos nos interstícios das paredes, pôde beneficiar desse precioso líquido canalizado. O mesmo não aconteceu com o saneamento. Esse chegou dois anos depois e, entretanto, valeu a fossa séptica aberta nos fundos da garagem, com tudo projetado e pronto para a ligação à rede geral quando isso se tornasse possível. E tornou.

Eu não estava só ao leme deste barco, preparado para lidar com o balouçar das ondas. Neste bolinar da vida era acompanhado pela mulher e filhos. Isto até eles irem estudar para fora e, formados, por fora ficarem, com visitas de médico à ucha, onde, ora enrola a guita, ora puxa, aprenderam a jogar ao pião à compita e a andar de bicicleta, deixado que foi o triciclo.  Os patins de hóquei, que eles praticaram em Castro Verde, por falta de espaço destinado a esse desporto em Castro Daire, foram postos de lado e são hoje peças de museu. Cada terra tem a sua roca, o seu uso e o seu fuso. Isso e tudo o que as crianças aprendem nessa idade, sob a vigilância obrigatória, atenta, carinhosa e cuidados mais, que, no nosso caso, sendo pais, éramos também professores e, por via da profissão, naturalmente educadores. 2- Traseiras-1988

E, cá está, lembro-me de todos juntos sentados no sofá vermos o «O Pato Donald», «Pantera-cor-de-rosa«, o «Rato Mikey«, «Os Simpsons» e sei lá que mais. Uma parabólica rotativa, posta no exterior, virada aos três satélites disponíveis ao tempo, através de um simples toque no comando da televisão, faziam entrar em minha casa o mundo inteiro, a História e a Vida, animal e vegetal, E tudo estava à  disposição de todos. E também me lembro de quando esses meninos, os meus filhos, estavam a brincar em qualquer canto da casa, mal a RTP punha no ar a música dos desenhos animados, era vê-los correr e, mum ai,  no sofá mergugahdos, no colo da mãe e do pai. Recentemente foi o meu netinho Guilherme, agora com quatro anos de idade, aquele pingo de gente, que, em casa dos seus pais, se esforçou por ensinar-me o jogo do «Super-Mário» no pequeno iPad onde ele está instalado. E eu a desiludi-lo, coitado, calcando na tecla a destempo, atrasado,  e a deixar o boneco ir para outro lado, que não o sítio certo. E lá se ia a jogada. E que esforço ele fazia: «avôolha só!» e ensinava...ensinava. E eu bem olhava, mas metia dó, não acertava. E que paciência e vontade a dele, tão pequenino, a querer ensinar o avô.. Ainda não tinha quatro anos. 

Pois, com os filhos fora, os dois, pai e mãe, vivemos e sentimos por estes andurriais da serra as canículas dos verões e os frios dos invernos.  Calcorreámos os trilhos e veredas serranos das redondezas e os pegos mansos do rio Paiva e afluentes. Ouvimos o chilrear do passaredo e vimos a cotovia levantar voo de penedo em penedo  piu...pliu....pliu...e deles arrancar pelo ar, em repetições sucessivas, até perder-se o céu. Vimos chegar as primaveras, as plantas e flores a desabrochar, e vimo-las murchar, perder as cores garridas e irem-se com o outono ao sabor da aragem. Vimos os jardins naturais de maio, a serra atapetada de maias, inspirámos os seus aromas e, passado o tempo próprio,  as árvores de folha caduca, como sempre,  entregarem-se nuas aos invernos. Os nevões da serra do Montemuro e a minha sogra Augustinha a jogar a filha bolinhas de neve e vice-versa. A natureza no seu esplendor de morte e renovação.

8-Portas-Pedra rezMuitos anos. Tempo passado. E deixo de fora deste conto doméstico as férias passadas em recintos licenciados de campismo. Só o casal ou pelos filhos acompanhados. Metidos na canadiana, numa relação estreita com a terra e com a natureza, caraterística humana e genuina, por alguns humanos há muito perdida. Estes  passeiam muito, tiram muitas fotografias da natureza bela, veem-na, apreciam-na, mas não falam com ela. Fica o registo porque isto diz muito das pessoas que se recusam (ou não) a serem somente o produto plástico das agências de turismo e peças do consumismo. 

Isso tudo até que a minha mulher faleceu. Foi em fevereiro de 1997. A partir desse ano, com os filhos a estudar, para as despesas pagar, não tive outro remédio senão continuar a exercer a profissão e a viver sozinho metido neste casarão. E decorreram anos bastantes para deixarem as suas marcas no proprietário e na propriedade. A minha casa tornou-se uma espécie de mosteiro habitado por um só monge. Monge que, na estante monacal, preserva os livros e as leituras que fez sobre escatologia, a metafísica e preocupações existenciais. Por isso, vendo-me em condições tais, para manter funcionais as minhas faculdades de vida,  mais não tiz do que tomar uma comovida opção inteligente: considerar, tão só,  a minha mulher ausente. Sepultada em Carnide, lá longe,  acredite quem quiser, eu, monge incréu no inferno e no céu, numa mistura de realidade e de fantasia, presente a via e vejo em tudo o que em redor tem a sua marca, visível ou invisível, marca que deixou em mim, nos filhos e na casa, v.g. as cortinas de renda que adornam as janelas (donde só são retiradas para serem lavadas) e nas irmãs gémeas suplentes, guardadas na arca. Umas e outras, todas brancas, onde se veem rendilhadas rosas e plantas, saíram do novelo de fio e das agulhas manejadas pelas suas mãos diligentes. É isso, não há memória humana, humana que seja, que esvaziada esteja de imagens reais e fantasmagóricas. Muitos fantasmas. E, coisa séria vos digo, em tal lida, à falta de corpo e de matéria, a memória humana que humana é, se encarrega de dar corpo e  vida aos fantasmas, ela se encarrega de mantê-los de pé. 

A reconstrução atravessou várias fases. Disso nada se esconde e a testemunhá-lo  há fotografias cabonde. Não fosse eu professor e historiador que se habituou a respaldar em documentos o que faz, diz e escreve. A "fazer história com gente dentro". Por isso digo que às vezes era preciso fazer compasso de espera. Recorrer a empréstimos bancários, nem pensar. Cada qual faz as suas opções na vida e eu não me atrevia a assobiar sem ar suficiente nos pulmões.6-Dama 5

E foi por isso que as janelas de mogno postas de início, que embuchavam no inverno e lassavam no verão, foram substituídas. Quando vi que podia, juntei os lábios, dei um assobio e chegaram as janelas de vidro duplo em caixilhos de alumínio. Tal como sucedeu com a primitiva canalização da água, de ferro galvanizado, escondida no interior das paredes que começou a dar de si, a gemer além e aqui, fruto da idade. Tomou o seu lugar a canalização inox, exterior e, de caminho, mudou-se também a louça das casas de banho, lavatórios, sanitas e bidés. Nada de luxos, mas peças cómodas que baste para nelas se limpar a ramela matinal e para recetáculo dos sopros, puxos e repuxos a que as necessidades naturais obrigam. E, na minha biblioteca não pequena, repleta de livros onde se caldeiam a fantasia e a realidade, nunca encontrei verbo e verve lógico, dito ou escrito por credenciado autor, que justificassem o luxo patológico posto naquilo para que essa louça serve. Ele há cada um! Pum...Pum...E por aqui me fico, pois nunca se me pegou à pele a mentalidade do novo rico. Sociedade de consumo? Não. Outro foi sempre o meu rumo. Não me gabo de fazer cruzeiros, ter ido ao Taiti, a  Punta Cana, ao Tibete, à Tailância,  e outros sítios exóticos. Sei é que volta e meia ouço muito felizardo alardear viagens pelo mundo, a transmitir conhecimentos de gente de difertente raça e cultura, sem se darem conta da triste figura de alardearem isso tudo e nunca terem lido a Ilíada nem a Odisseia de Homero. Caso bicudo.  Ignoram até a sua existência.  São opções de vida, conceitos de excelência, mas para quem melhor humanidade sonha,  a opção de tudo ver e nada ler é coisa que não quero, nesta minha postura bisonha. E dita  esta verdade nua e crua, estou tão certo essas pessoas nunca virem a ler Homero, como certo é eu nunca ir à Lua.

E Já agora, antes da minha chegada definitiva a Compostela, a casa, por necessidade, recebeu chapéu novo e nova farpela. A velha telha porosa, onde o musgo e líquenes encontravam ambiente para se reproduzirem, dispostos a reterem lixo e humidade, foi substituída pela telha impermeável assente em placas de climatização, assentes, por sua vez,  na primitiva placa de cimento. E seguiu-se o espaço da BIBLIOTECA (dela, com tanto livro, nada digo) e os  demais melhoramentos e modificações no quintal e logradouro das traseiras. Novas entradas, novos portões, reduziu-se a área herbícola e alargou-se o logradouro pavimentado em torno da casa e a ladear o quintal da parte norte e sul, por forma a desviar dela e dos vizinhos as atrevidas e inesperadas línguas de fogo. Da parte que me toca, não esperei pelos avisos da "Proteção Civil" para tomar as providências com vista a salvaguardar os teres e os haveres dos outros e meus, aqueles que me engoliram anos de trabalho e de vida, sozinho ou acompanhado, mais sozinho do que acompanhado.

 E quase no fim da romagem, ainda procedi à vedação final do quintal em todo o seu perímetro com um muro de blocos chapiscado, rematado com esteios de granito deitados. Ao longo dele todas as árvores que há anos ali foram plantadas e as cepas renovadas. Lá estão os diospireiros, a figueira, as ameixeiras, uma oliveira e um mostajeiro vindo, pequenino, da serra da Nave, em 2010, ano em que nasceram as minhas netas. Ali plantado há sete anos, com idade que os meninos entram na escola, dá mostras de dar fruto, pela primeira vez. Sete anos. A todo o comprimento desse muro, ao lado dessas árvores, um bardo de videiras com uvas da casta tourigomoscatel e trincadeira

7-Red Do lado norte estão duas macieiras plantadas pela minha mulher, creio que em 1990. Fez questão em ser ela a fazer isso com os filhos. Uma pereira que lhes fazia companhia secou, há três anos. Sim. A minha mulher nunca se desligou da natureza e da terra. E as mesmas mãos que pegavam no giz que escrevia na ardósia os apontamentos e o sumário para os seus alunos passarem para o caderno, as mãos que pegavam nos pincéis para misturar as tintas nos godés e pintar as inúmeras aguarelas que deixou, das quais já fiz eco público, e bem assim o lápis de carvão e o esfuminho usados nos desenhos que ficaram para aquém da sua vida física, que faziam renda e tricot, as mãos que punham o pó de talco e/ou óleo Johnson nas virilhas dos filhos bebés evitando as queimaduras e também nas praias de FaroMil Fontes,  Figueira da Foz,  Mira e outras (alternando com as minhas a fazerem as mesmas coisas), eram  as mesmas mãos que atiçavam o fogo na lareira para assar castanhas no borralho e à lareira  se aquecerem. As mesmas mãos que arrancavam os poejos nos lameiros e com eles fazia um licor caseiro que o mercado não vende. As mesmas mãos que pegavam nas ferramentas da horta e tratavam da hortelã, da salsa e dos coentros indispensáveis nos seus cozinhados.  Castro Verde, distanciado 500 quilómetros de Castro Daire, estava aqui, no nosso quintal e à nossa mesa de refeições. Do mesmo lado norte, perto das árvores por ela plantadas, junto ao muro da vedação, coloquei eu uma ramada com esteios de cimento em forma de L invertido, com três videiras de uvas de mesa. 

 E, como símbolo de adaptação e resistência ao meio e dos afetos que relacionam as pessoas com as coisas, com as pessoas, com os animais e vegetais, ali está a palmeira que veio do Alentejo. Primeiramente plantada (1986) à saída da porta dos fundos que dava para o quintal, recentemente,  por razões de estar danificar o passeio com as suas raízes, seja, no ano de 2014, foi mudada para o sítio onde está agora. Dessa mudança fiz vídeo que alojei no Youtube. Vinda de tão longe, diga-se que ela chegou dentro de um pequeno vaso transportada na bagageira da Dyane. Sempre essa velha, fiel e mítica companheira, ela que rodou, quilómetros e quilómetros, com a família inteira, na mítica Estrada Nacional n. 2, hoje tão badalada. 

Neste meu conto doméstico, não falei da questão judicial que correu nos tribunais de Castro Daire, Lamego e Relação do Porto, sobre a servidão constante na escritura de compra e venda com acesso pelas traseiras. Sentenciada a meu favor, essa não a pude resolver com um simples assobio. Sobre isso escrevi e publiquei crónicas bastantes. E voltar a elas seria redundante e cansativo. Elas estão publicadas, escritas, ditas e pensadas. 

 Durante os melhoramentos que ultimamente fiz no quintal passou por ali um amigo e vendo aquilo tudo, mirando os portões novos e pavimento a cobrir o chão, outrora verdejante de batatas, disse, sisudo:

- Grandes obras, ó professor. Você é um homem de coragem.

- Como assim? interpelei.

- Comprou uma casa a cair de velha, assombrada, e fez dela um castelo. Nunca deu pelos fantasmas?

Hesitei na resposta. Mas logo acrescentei afirmativamente. Assombrada não diria, mas fantasmas dei por eles, sim senhor, noite e dia. E acrescentei: que coisa diferente  poderia esperar eu ao comprar uma casa antiga? As casas, as povoações, as nações são como as pessoas, e tal como a mente humana, estão atestadas de vidas e de fantasmas. E quando elas são desabitadas, desfeitas e refeitas,  as vidas e os fantasmas nelas existentes tomam as nossas mentes por morada. Por mim, não é brincadeira, esta casa, andando eu à sua roda, em cada centímetro dela vejo  não só a FAMÍLIA toda, mas a HUMANIDADE inteira. Ali o machado do lenhador e a serra electrica de traçar. Lá cima o tricotar da máquina de costura e o matraquear da máquina de escrever. O silêncio iPad e do computador. A minha cadela Diana e os outros cães a ladrar. Gatos a miar e os galos a cantar. Os pardais a chilrear. Ora escute!?

Disse castelo?  Isso eu também não diria, mas fiz uma moradia com a dignidade que exigia  o estatuto social dos novos moradores, ambos com o estatuto profissional e social de professores, conhecedores das necessárias condições de habitabilidade de higiéne e sanitárias. Não é um hotel de cinco estrelas, não é um SPA, mas olhe, é o que está. 

 - Gastou aqui uma fortuna?

ADEGA-LENHAS

À pergunta inoportuna respondi que não sabia ao certo, pois um desses fantasmas que me vigiava de perto, seguramente benfeitor, todas as vezes que eu precisava de melhoramentos na casa, bastava dar um assobio e logo me aparecia na conta bancária o respetivo valor. E face ao espanto da minha resposta, lido nos seus olhos, convidei-o a vir comigo ver as paredes esburacadas da velha adega, pois essas as  deixei esburacadas tal qual no acto da entrega. Chegados ali, convidei-o a contar os buracos que via naquelas paredes. «Isso é impossível, senhor». Pois é, respondi. Tão impossível quanto é eu dizer-lhe, honestamente, o valor  que gastei aqui em dinheiro, pensamentos, afetos, cuidados e tempo. Mas olhe, estas paredes esburacadas, tal qual as vê, são para mim um pedaço de papiro escrito que ajudará os vindouros  (os meus herdeiros, filhos, netos  e outros) a fazerem o histórico,  a lerem a narrativa humana escondida, inaudita,  no restante «campus arqueológico» por mim aqui esquadrinhado. Um pedaço de papiro que, sendo lido, a todos, no futuro, volverá ao passado. E quem sabe? sem desdouro para o investimento que aqui fiz de vontade, investimento que escapa à minha contabilidade, eu lhe digo que talvez esteja ali, num buraco escondido, um tesouro fabuloso, aquele que, seguramente por mil vezes dobra o cruzado de prata encontrado no princípio da obra, cruzado do tempo de D. Maria. Sim, talvez isso, qualquer dia...qualquer  dia! 

- Ah!



Ler 302 vezes
Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.