Trilhos Serranos

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terça, 04 julho 2017 12:29

OS MEUS VOOS SEM DRONES

Escrito por 
abílio abílio abíulio

OS MEUS VOOS SEM DRONES

As casas dos meus pais, em Cujó, hoje a caminho de ruínas, eram constituídas por um conglomerado de pequenos espaços contíguos, de paredes meeiras, sem comunicação entre si.

 Duas delas, as cimeiras, estavam porta com porta, e as restantes, com andar de sobrado e lojas, só a da cozinha fundeira, não tinha loja. Era uma casa térrea, de paredes meeiras com os «Sanchitos» (os Gonçalves, alfaiates e sapateiros, boa gente) e a sua chaminé era uma pedra com um buraco a centro, na cobertura que era de colmo.

Chaminé-Cujó-ResEssa pedra, dado o estado de ruínas a que a casa chegou, para não ficar perdida no meio do entulho foi recolhida pelo marido da minha sobrinha/afilhada Paula - o Carlos - que fez muito bem. Ela é hoje uma peça arqueológica preservada como elemento decorativo e histórico num dos espaços exteriores da sua moradia, no cimo do lugar. Semelhante a ela só aquela que existia na casa da "tia" Germana, ali ao lado da Eira da Fraga das Pombas, com entrada na viela que a descer levava à Fonte do Salgueirinho.

Mas não é dessas casas,  nem dessas chaminés que vou falar neste registo, ainda que elas façam parte das minhas aventuras noturnas dos tempos de infância. 

Casa Tia Germana-RezVou falar-vos, pois, de dois sonhos meus de criança. Sonhos frequentes, para não dizer todas as noites. Um deles era um pesadelo, que me estragava parte da noite. Sonhava eu que caía num poço sem fundo, muito escuro, sempre aos trambolhões, numa aflição dos diabos. Sempre a cair, sem ter onde me agarrar e quem me ajudasse na queda. Era um alívio enorme quando despertava e dava por mim estendido no colchão de folhelho, ou de colmo, assente na cama de ferro forjado que tinha as cabeceiras ornamentadas com uma mão a segurar um ramo de flores. Outras havia que tinham uma coroa real. Dependia, está visto, das posses de cada qual. A foto que aqui anexo, com a data e hora em que foi tirada, é a prova documental de que ela faz parte não só do meu recheio mental, mas também físico e arqueológico. Recolhia-a antes de ir parar ao ferro velho, que é, geralmente, o destino que estas coisas têm. 

Cama fERRO-REDZO outro sonho, ao contrário do primeiro, era para mim uma delícia inimaginável. E se o pesadelo era para mim um alívio quando acordava, este, ao contrário, quando eu despertava, era uma tristeza e um grande desgosto. Como assim? O caso era que  eu, frequentemente, me via voar tal qual os passarinhos, mas sem bater asas. Era só abrir os braços, tipo avião, inclinar o corpo e aí vai ele a fazer negaças aos arames que formavam a ramada que cobria todo o espaço à frente da nossa loja das vacas, espaço térreo onde o meu pai teve, por alguns anos, uma taverna. 

Para cima dessa ramada abria a janela de guilhotina da pequena saleta onde ficavam, lado a lado, o quarto dos meus pais e o quarto da pequenada. Era por essa janela que eu me pisgava todas as noites e me punha a voar sobre e sob a ramada, furando por entre as folhas e as uvas. Depois de explorado esse reduto doméstico era ver-me a sobrevoar a aldeia toda. Casa pais-ReduzA contornar os seus colmados irregulares (não havia chaminés), a subir e a descer os ruas e vielas entaladas entre moradias, palheiros e canastros com um simples gesto de inclinação de cabeça, corpo e braços. E não raras vezes penetrei, qual morcego, nos buracos redondos abertos nas pedras que serviam de chaminé na casa da cozinha fundeira dos meus pais e na casa da "tia" Germana. Aquilo era real, era mesmo uma atração. E tal foi a sensação deliciosa que, passados tantos anos,  ainda se não varreu de todo dos escaninhos que a memória arquivou no espaço reservado às sensações agradáveis.

Passou-se muito tempo. Muitos dias e muitas noites. Nunca mais tive a sensação de voar, mesmo quando voei realmente, quer no avião que de Quelimane me trouxe até Lourenço Marques, quer no avião que me trouxe dessa cidade até Joanesburgo e no outro que dali me trouxe até Luanda, para de seguida partir no Jumbo que de Luanda me trouxe até Lisboa. Ano de 1976.

RELÓGIO -1-RedMas recentemente voltei à infância. Vi-me novamente no ar de braços abertos, a inclinar a cabeça,  o corpo e braços, planeando a meu gosto e prazer. Todo o espaço era meu. Nem milhafre, nem peneireiro, nem águia faziam melhor. Desta vez sobrevoava algures nos céus do Alentejo e ao passar sobre um monte alentejano vi um morador a acenar-me com sinais evidentes para eu descer. Parecia-me precisar de auxílio. Rumei  em direção ao solo e num ai estava ao seu lado, pousando que nem uma pena solta de pato, só comparado ao pouso da cotovia em cima de um penedo, depois do seu voo prolongado e invisível nas alturas.

Só que, mal eu pus o pé em terra, um rafeiro alentejano abocanhou-me imediatamente o pulso, imobilizando-me.  E só me largou a mando do dono. Guarda do monte, estranhando o alienígena que ali aterrou assim, sem mais nem menos, não fez mais do que cumprir a sua missão. Treinado a segurar somente o intruso não me fez qualquer ferimento, mas, ao afastar-se de mim levou entre os dentes o meu relógio de pulso  Breitling de 1884 que eu tinha comprado recentemente a um vendedor marroquino ambulante, na feira anual da Ouvida. Um desgosto enorme. Desci para prestar ajuda ao meu semelhante e logo me vi sem o objeto que, de momento, era a minha delícia. Acordei e, desta vez, o voo, ao contrário de semelhantes voos nos tempo de criança,  foi um alívio. É que o relógio que tem aquelas "asinhas" de aviador continuava firmemente afivelado no meu pulso.

Estou a lembrar e a escrever tudo isto, porque hoje, 03 de julho de 2017, na RTP se discutem, agora mesmo, os "avistamentos" dos «drones» e a possibilidade de, no futuro, eles virem a tornar-se  transportes pessoais. Se isso acontecer, para mim já virão tarde. Eles serão nos meus sonhos e pensamentos, apenas coisas do passado.

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.