Trilhos Serranos

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sexta, 23 junho 2017 16:49

CONTO DOMÉSTICO - 1

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PRIMEIRA PARTE

É instintivo. É natural. Tal como a carriça, ave pequenina, a mais pequenina que conheço de carne e pena (ao vivo), ela, que o ninho faz na mina, lá bem no fundo, no escuro, ou logo no começo dela, ninho revestido com musgo para proteger os ovos e criar a ninhada, todo o ser humano normal que, na natural caminhada da vida, se vê rodeado da prole que pôs no mundo, tem como preocupação principal arranjar um lar, uma casa, onde se possam todos abrigar e sentirem algo de seu, ter nela raízes como as árvores têm na terra. E, para não falar nas perdizes, que vestem penas de gala, mas esgravatam somente uma cova no chão e dizem ala à criação, mal ela sai da casca, olhem que nenhum de nós faz mais do que qualquer animal, manso ou feroz, grande ou pequeno, de pena ou de pelo, pois ter ninho ou abrigo permanente, proteger e criar os filhos, na cidade ou campo, com amor e carinho, é mesmo de gente, inda que não é exclusivo do ser humano.

Casamento

Maravilha! Assim fiz eu, logo que constituí família. E para encurtar a peregrinação a Santiago (já estou mais próximo do fim da caminhada do que do seu princípio) deixo para trás, naquele tempo aziago, os sonhos tidos no apartamento comprado com dinheiro emprestado (amortizado em partes) e a escritura de compra e venda lavrada na Conservatória de Lourenço Marques. Deixo para trás a casa escolhida na Cooperativa de Habitação em Castro Verde, certo de que quando se quer, quanto se arrisca, tanto se ganha como se perde, pois casal associado de quotas pagas, abalando dali, logo foram perdidas.

Que vantagem leva ao homem o caracol! De casa sempre às costas para onde quer que vá, ele vai sempre descalço e seguro para a fonte, para a horta ou para o canavial, folha acima, trepando e descendo, até ser apanhado e metido na caçarola para servir de petisco a todo o farsola que gosta de caracóis, neste mundo de muitas gentes, muitos gostos, muitas culturas, muitas luas e muitos sóis.

Nós não somos assim. E para não dormirmos ao relento e termos na vida o aconchego merecido, deixada que foi a gruta ou a tenda da tribo que tivemos em tempos remotos, em tempos idos, se não tivermos abrigo por herança, o remédio é comprá-lo pronto a habitar, chave na mão, sem mais trabalho, sem mais maçada, ou então fazê-lo de novo a partir do nada, onde houver chão nosso, ou então ainda, reconstruir uma casa em ruínas, desabitada, enfrentar todas as dificuldades e sarilhos decorrentes da opção, pois para além de nós, há os filhos. 

CASA-LM.1976Pois é, haja quem o negue, sem piedade, nem nó. Por mim recordo a tenda tuaregue,  o iglô do esquimó, o arranha céus urbano, o solar de quinta verdejante e dou-me por satisfeito se encontrar uma casa de aldeia em ruínas que seja,  ciente de que toda a casa tem histórica e vida em qualquer parte do mundo, mesmo que aparentemente morta, mesmo que aparentemente assombrada, por ventura povoada de almas penadas a espreitarem entre cada pedra caída. Se a encontrar não há que temer, ela merece exorcismo, ressurreição e, em vez de abandono,  volver novamente habitação a condizer com a profissão, com os tempos e com os sonhos dos novos moradores e donos.

Cientes disso, eu e a minha mulher, Mafalda, professores de HISTÓRIA, conhecedores da evolução humana, rural e urbana, andando em busca de habitação, encontrámos em Fareja, aldeia sita a 2 quilómetros da vila de Castro Daire, uma casa assim. Perto da vila, não longe da escola onde ganhávamos a vida para criar e educar os dois filhos que pusemos no mundo, vimos uma moradia abandonada e a olhar para ela, sós, pensámos que se ela fosse restaurada e requalificada tinha esqueleto seguro e digno para ser novamente habitada por nós.

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.