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segunda, 19 junho 2017 11:02

MANUEL MENDES ATANÁSIO - PROFESSOR DE HISTÓRIA DE ARTE

Escrito por 

MEMÓRIAS VIVAS

No meu trabalho sobre os painéis de azulejos recentemente descobertos atrás do cadeiral do coro da Igreja Matriz de Castro Daire (até prova em contrário creio ter sido o primeiro historiador a escrever sobre eles e a colocá-los em fotografia e vídeo no mundo estelar da Internet) lembrei o nome do meu ex-Professor da HISTÓRIA DA ARTE,  Mendes  Atanásio,  formado pela Universidade Católica de Lovaina.

 

Referi o Concílio de Niceia e o trabalho que ele me deu para satisfazer as exigências académicas desse professor. Acrescentei haver MESTRES que nos marcam a vida inteira por nos levarem a LER e a VER o que outros não são capazes ou estão proibidos de fazê-lo. E disse ainda que ele fazia jus ao seu nome, colando-lhe a expressão «Atanasuim contra mundum», nada menos do que aquele diácono, de seu nome ATANÁSIO, que participou no concílio de Niceia, que foi um infatigável combatente da seita ariana e também Bispo de Alexandria, após a morte do seu antecessor Alexandre.

Dizer isto tudo lembrando esse meu ex-professor é um ato de justiça da minha parte. Já lá vai um bom par de anos que aludi aos seus métodos pedagógicos, lá na Universidade de Lourenço Marques, antes do 25 de Abril. Métodos que viriam a ser usuais nas universidades portuguesas depois dessa data, mas de que ele era pioneiro, lá no outro hemisfério, antes desse tempo. Quais eram eles? Depois das mútuas apresentações, quem éramos, donde vínhamos e para onde queríamos ir, pegava no giz (reparem bem, estávamos no tempo do giz e da ardósia!) e escrevia vários temas relacionados com a cadeira no quadro e dizia-nos: escolham o que mais vos agradar e ao fim do ano apresentem-me um trabalho de investigação sobre ele. Quanto mais desenvolvido melhor.

MENDES ATANÁSIOEscolha feita, bibliografia sugerida. Eu escolhi «O ESPAÇO NA ARQUITECTURA». E parece que dei conta do recado. No fim do ano, apresentado, discutido e ouvido, valeu 14 valores, na escala de 1-20. Os tempos académicos não eram de facilitismos. As notas mais altas iam até aos 16 e numa das cadeiras cheguei lá. Um professor de arte, um artista e um crítico: eu nunca mais esqueci a recriminação que ele fez da reconversão que houve, em Portugal, de igrejas com três naves numa só nave, só porque isso permitia que os crentes, onde quer que estivessem no templo, vissem e o púlpito. O valor da palavra e da imagem do pregador sobrepunha-se ao valor da arquitetura e da história. E isto vem mesmo a propósito dos painéis de azulejo ora descobertos na capela-mor da Igreja Matriz de castro Daire. O valor do cadeiral, para servir de repouso «ao sim senhor dos clérigos» sobrepôs-se ao valor das alegorias bíblicas inspiradas em Mateus, vertidas em azulejo, no século XVIII. Adiante.

Fui, recentemente,  ao GOOGLE saber mais sobre o seu currículo, pois deixámos de nos ver há muito tempo. Sabia-o a reger a cadeira da HISTÓRIA DA ARTE, na Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa, onde estive com ele depois da DESCOLONIZAÇÃO, em 1976. Trilhos da vida desencontrados, nunca mais nos vimos. Mas também nunca o esqueci. Seu nome completo: Manuel Mendes Atanásio, natural de Celorico da Beira, formado Universidade Católica de Lovaina. 

Na minha navegação à bolina típica dos nossos DESCOBRIMENTOS, nesse «mare magnum» de informação e conhecimento, encontrei e retirei o texto que se segue em itálico, ilustrado com uma foto sua e da sua colega, digamos que dois oficiais do mesmo ofício:

Esteve à frente do "IMG 2257Instituto de História da Arte criado na sequência da reforma de 1957, que conferiu autonomia ao curso de História no quadro orgânico da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa" e que "com a morte prematura do Professor Pais da Silva, a orientação da História da Arte no Departamento de História da Faculdade de Letras de Lisboa ficou, durante os quinze anos seguintes, entregue ao Professor Manuel Mendes Atanásio (1927-1992). A ele se ficou a dever a criação da variante de História de Arte da licenciatura em História, que constituiu a primeira variante de um curso de História formalizada em Portugal. Antes de falecer, em 1992, teve ainda oportunidade de criar o primeiro mestrado em História da Arte. À sua morte, a secção de História da Arte beneficiou da coordenação da Professora Maria do Rosário Themudo Barata de Azevedo Cruz e contou com a colaboração do Professor Jubilado Artur Nobre de Gusmão.

Em 1995, o Professor Vítor Serrão assumiu a direção da área de História da Arte, abrindo no ano seguinte o novo mestrado em Arte, Património e Restauro e projetando, no ano letivo de 2002-2003, o curso de licenciatura em História de Arte, em substituição da variante de História de Arte da licenciatura em História. Em 2004 era criado o primeiro curso de doutoramento escolarizado em História da Arte».


Durante quinze anos ali, à frente do departamento da HISTÓRIA DE ARTE, é obra. Foi até falecer, em 1992.  E entristeceu-me sabê-lo já fora do mundo que ele ajudou a girar em torno do sol. 

Mas não se pense que só este professor me sacode os pensamentos e as emoções. Sou, reconhecidamente, um ser de MEMÓRIAS. Já falei algures do Dr. Alexandre Lobato, especialista em matéria histórica ligada à India e à costa oriental da África. O primeiro Professor Universitário, logo seguido pelo professor Rita-Ferreira (na mesma universidade) a dizer-me que os meus trabalhos académicos eram enroupados com «vestes literárias». Palavras vindas donde vinham só podiam servir-me de incentivo à investigação e à escrita. Procurei não os desiludir. Lembro o Dr. Borges Coelho, a sua postura afável, verbo simples e a sua pedagogia humana, também ele,  de incentivo à investigação e ao saber. A ele se deve o meu livro «História de uma Confraria, 1677-1855» e algumas investigações subsequentes. O Dr. Baquero Moreno, Medievalista, imbatível na eloquência. No meu juízo só o professor de História no Liceu, Eduardo Parreira de seu nome, o batia na oratória. Creio serem inúmeros colegas meus que lhe devem muito do que são, como docentes, tal qual eu. Lembro o Dr. Jorge Custódio, apaixonado pelo nosso património, pela Arqueologia Industrial e, por isso, sem hesitar, se prontificou a patrocinar "pro bono" o projeto que apresentei ao Ministério da Educação, para obter a minha Licença Sabática. Dessa  investigação resultou o meu livro «Castro Daire, Indústria, Técnica e Cultura». E tantos outros professores de quem me confesso discípulo honrado com a preocupação de nunca os desiludir nem deslustrar as instituições que me formaram e onde eles, no exercício da sua profissão, deram, seguramente, o seu melhor. Outros tempos, senhores, outros temos. 

E não esqueço também o meu professor Dr. Francisco Cristóvão Ricardo, de que já falei repetidas vezes, aqui neste espaço.

De todos eles eu sou um bocadinho, mesmo reconhecendo que eram todos tão diferentes quanto eu sou diferente deles todos. O Dr. Lobato foi meu professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lourenço Marques e o Dr. Borges Coelho, na da Lisboa. Posicionados ideologicamente em campos opostos (um à direita outro à esquerda) cruzavam-se nos corredores universitários e, numa conversa recente que tive telefonicamente com o Dr. Borges Coelho, lembrando-lhe que as suas obras eram de leitura obrigatória, sugeridas pelo Dr. Lobato, ele respondeu-me: «o Dr. Lobato era um bom homem, um homem sério. Sempre que nos cruzávamos na universidade dizia-me, num tom e de respeito: "cá está o historiador subversivo".

Pois. SUBVERSIVO será  o adjetivo adequado a meu trabalho sobre os painéis de azulejos ora postos a descoberto na Igreja Matriz de Castro Daire. Subversivo, se isso significar não canónico e  «desarrumador as estantes mentais» muito arrumadinhas e acomodadas para todo o sempre. Mas eu mais não fiz do que pegar no espanador e sacudir o pó, por forma a melhor se verem os títulos das obras e a arte, a imaginação, a criatividade nelas contido,  seguro de que toda a obra de arte é plurissignificativa e outras leituras podem ter diferentes da minha. Venham elas.

Nesse trabalho sublinhei o papel dos artistas ao longo dos tempos e a sua preocupação em dar o seu contributo ao futuro sem esquecer o passado. E como foi o cadeiral do coro que ocultou os painéis, vem mesmo à propósito as palavras de Maria Manuela Braga, já por mim citada no meu livro "Mosteiro de Ermida" em trabalho que fez sobre cadeirais com o título:

«A MARGINALIA SATÍRICA NOS CADEIRAIS DO MOSTEIRO DE SANTA CRUZ DE COIMBRA E SÉ DO FUNCHAL". Diz ela:

"Os cadeirais de coro medievais devem ser os locais em que a decoração melhor espelha o cariz estremado e contraditório da realidade religiosa e social da época. Na sua decoração conflui pacificamente o sagrado e o profano, erudito e popular, o quotidiano e a lenda, numa série de referências históricas ancestrais 

(...) 

Estes espaços secundários funcionam como depósito de temas populares, ao sabor da memória dos artífices que livremente os esculpiam, transformado o cadeiral num imenso livro sagrado que se faz declinar como uma enciclopédia.

Fechados aos olhares da sociedade, dão livre curso a toda uma tradição satírica e popular em que o lema 'ridendo castigat mores' se transforma também numa liberdade ímpar dos artífices deixarem a marca profana e popular tacitamente aceite pelas entidades religiosas.

Nos dois únicos exemplares medievos que chegaram até nós— o cadeiral do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra e o exemplar da Sé do Funchal, a gramática das formas e anotações ao tempo e que se vivia convivem com este gosto do riso, na memória de contos, provérbios e tradições orais que com elas se cruzam. (In Instituto de Estudos Medievais, "Medievaslista", on line)


E a criação artística não se ficou por esses tempos, nem por esses assentos. Nem pelo século XVIII, tempo das alegorias que tenho vindo a explorar, ocultadas pelo cadeiral. Chegou ao século XXI e vai, seguramente, projetar-se  tempos em fora, enquanto houver HUMANIDADE, pois dentro de cada homem/mulher há sempre um/a CRIADOR/A.

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.