Trilhos Serranos

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quinta, 04 maio 2017 17:40

EDUCAÇÃO NO QUOTIDIANO

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HISTÓRIA VIVA

Na última semana do mês de abril vivi um acontecimento digno de registo ligado à EDUCAÇÃO revelada por um jovem que eu desconhecia pessoalmente. 

Deu-se o caso de, involuntariamente, ele ser o responsável pelo choque dos nossos automóveis, no qual se  revelou de uma EDUCAÇÃO tal que, trocadas as primeiras palavras e dada a minha irritação momentânea,  eu me senti na obrigação de pedir desculpa ao jovem culpado. 

Carro-1 - Cópia

Eu explico: já fiz eco público da situação depressiva em que fico nos dias que antecedem e sucedem as FESTAS ANUAIS que apelam à reunião da Família. Vem esse comportamento e sentimento de tempos antigos, para os quais nunca encontrei explicação. Creio que faz parte da minha natureza desde o desmembramento voluntário ou forçado da tribo pré-histórica. 

Ora, estando eu nesse estádio de ressaca, ligada à PÁSCOA, regressava a casa, depois do almoço. A rotina diária. Pois. Só que o diabo tece-as. Subindo eu a Rua Francisco Sá Carneiro, perto da CASA DAS EIRAS, saiu da Rua Cândido dos Reis (mais conhecida pela rua do BAR ALKUNHAS) um jovem condutor que atentamente olhou para a esquerda e, descurando a direita, só deu Carro-2 - Cópiaconta de mim quando já era tarde demais. TRAMP!  Bateu-me no lado esquerdo da frente, amachucou-me o para-choques, o farolim de nevoeiro dianteiro ficou a olhar de esguelha e o vidro da ótica esquerda da frente foi à vida.

Com os anos que tenho em cima, a viver o stress pós PÁSCOA, face a todas as chatices que resultam dos acidentes deste género, preenchimento de papeis, oficina, deslocações, justificações, etc. etc. saí do carro furioso e, exorbitantemente irritado, perguntei a que se devia tal desatenção, num jovem daquela idade. 

O moço (ao que soube depois, casado e pai de três filhos, com o histórico nome de Nuno Gonçalves) face aos sinais evidentes da minha irritação, dirigiu-se a mim e com a maior calma do mundo, com uma EDUCAÇÃO inesperada (direi mesmo invulgar nos tempos que correm) pôs-me a mão ombro e disse-me: «tenha calma, eu sou o culpado, vamos preencher os papeis do seguro e o seu carro vai ficar consertado, novinho em folha, sem quaisquer custos para si».

Carro-3 - CópiaDisse-me onde trabalhava e, seguro da sua palavra, não preenchemos papeis nem metemos SEGURO.  Para não interrompermos a via, a meu pedido,  dirigimo-nos ao seu local de trabalho e, ali chegados, apressei-me a reiterar as minhas desculpas pela irritação demonstrada anteriormente. Ele, olhar complacente, com a mesma calma e educação, assumiu mais uma vez a sua culpa, perguntou-me se eu conhecia a oficina JOSÉ CARDOSO DE OLIVEIRA, na Ouvida. Eu, complicómetro desligado, em vez de exigir que a reparação fosse feita nas oficinas da marca, e porque sim e porque torna, respondi logo afirmativamente e que confiava plenamente nos seus serviços.

Após o meu assentimento ele pegou no telemóvel e fez uma ligação para o dono e gerente dessa firma,Carro-4 - Cópia dizendo-lhe que tinha batido no meu carro e pedia-lhe o especial favor para ele resolver o caso com urgência, pois o proprietário necessitava da viatura. Era favor atender-me logo que pudesse. Que sim senhor. Que fosse lá às 14 horas para observar os estragos e logo depois se combinaria o dia da reparação. 

E assim foi. O gerente e dono da oficina, José Cardoso de Oliveira, também era um jovem, relativamente à minha idade. Recebeu-me com a educação e calma semelhantes à do seu amigo. Anotou os estragos feitos e perguntou-me se havia SEGURO metido no acidente, pois os custos eram assinaláveis. Respondi-lhe que não sabia, pois quem me bateu tinha assumido as culpas. E, face à minha resposta negativa,  ele telefonou imediatamente para o seu amigo a inteirar-se da situação. A conversa foi entre eles. Depois disso, o jovem gerente pediu à sua esposa, ali presente, para anotar o que era preciso, a fim de fazer a encomenda das peças à firma da marca e modelo do meu carro. E, depois de endireitar os plásticos amassados e fixar o farolim de nevoeiro, com o carro capaz de poder voltar à estrada os dias que fossem necessários, informou-me de que, logo que as peças chegassem, entraria em contacto comigo para procedermos à reparação final. Tudo dentro dos parâmetros de uma  EDUCAÇÃO ATENÇÃO que vão sendo muito raros nos tempos que correm. Por isso, Carro-5 - Cópiasensibilizado, faço este registo. Neste mundo cão, ainda há gente SÉRIA, gente EDUCADA e gente GENTE DE BEM. Nova e velha.

Chegadas as peças, marcado o dia da reparação, assisti a toda a operação que consistiu em retirar as peças danificadas e colocar das novas. No seguimento da pintura (que ficou perfeita) foi preciso desenroscar muitos parafusos e não menos encaixes, aqui e ali, até ficar tudo no sítio. Apreciei o trabalho feito no seu todo e, sobretudo, a experiência do senhor Fernando Ramos, de Lamego, encarregado de toda aquela difícil tarefa. Constatei que ele não andava às apalpadelas no que fazia. Sabia por onde começar e como acabar.  Finalizada a reparação,  satisfeito com o trabalho realizado, não fiz mais do que a minha obrigação que foi  "avaliar" positivamente o desempenho do operário e do gerente, profissionais que, apesar de tudo, dispenso de ver, por longo tempo, em iguais circunstâncias.

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.