Trilhos Serranos

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sexta, 07 abril 2017 12:17

A SAGA DE UM RELÓGIO DE SOL

Escrito por 
HISTÓRIA VIVA

O senhor ORLANDO MORAIS, cidadão castrense que teve loja de ferramentas e utensílios domésticos aberta defronte dos PAÇOS DO CONCELHO,  em Castro Daire, ofereceu-me, há anos, um RELÓGIO DE SOL moldado em marmorite, proveniente de uma fábrica sua fornecedora, sita lá para as bandas de Aveiro. Entregou-mo tal como saiu do MOLDE, sem cor, nem vida, ainda que estivesse pronto a receber e a mostrar uma e outra.

 

 

1-PRIMEIRA FASE-REDAceitei a oferta amiga e a primeira coisa que fiz, na minha oficina doméstica, foi pintá-lo a meu gosto e tosco jeito (foto 1). Depois foi  servir-me da parabólica giratória (através da qual os meus filhos, ainda pequenos, sem restrições dos pais, começaram a ver o mundo via satélite,  três, na altura) parabólica tornada inútil com a chegada e adoção da nova tecnologia digital. Com essa minha atitude dei serventia a duas coisas mortas, expondo ao SOL o que nas catacumbas jazia.

Na superfície côncava da parabólica pintei toscamente outro RELÓGIO DE SOL com animais do campo postos nos sítios das HORAS, já que, no campo, para GENTE e ANIMAIS  o dia de trabalho era de SOL a SOL. E os dois, um sobreposto ao outro (foto 2) conviveram em paz e sossego até que uma ventania fora do normal, o deus Eólo irado, fez girar a parabólica, deu-lhe inclinação suficiente para acontecer o divórcio. A oferta do senhor ORLANDO MORAIS estatelou-se no chão e da queda imprevista resultou a danificação completa do rebordo onde estavam inscritos os números das HORAS. Foi o deus Eólo, o mesmo que, por montes e serras, faz girar os geradores, esses gigantes que tomaram o lugar dos pastores, que no seu tempo eram efetivamente gigantes.

Face aos danos sofridos, estivesse ele noutras mãos, o caminho certo era ATERRO DO PLANALTO BEIRÃO que recolhe o lixo do distrito de Viseu. Mas considerado por mim uma peça de arte fruto da inteligência e 2 PARABÓLICA-REDZimaginação humanas, um livro aberto de GEOGRAFIA e GEOMETRIA que incorpora as páginas de LATITUDE, NORTE, SUL, ESTE e OESTE, e bem assim, ÂNGULOS de graus diversos (um RELÓGIO DE SOL não é, como alguns pensam, uma pedra ou uma tábua com riscos) analisei as causas do acidente, a estrutura da parabólica e pus-me a pensar no aproveitamento que podia fazer das duas peças, aparentemente inúteis.

A estrutura da parabólica era formada por um prato metálico no qual foi rebitada uma ampliação por forma a alargar-lhe a superfície côncava e melhor captação dos sinais analógicos que se transformariam em imagens de televisão.

Visto isso, de fita métrica na mão, medi o diâmetro do prato metálico e também da parte central que restou do relógio. Encaixava. E nem faltavam sequer os furos de suporte. A decisão estava tomada. Tirei os rebites da parabólica, soltei a sua ampliação que remeti para o lixo e na parte restante encaixei o relógio marmorítico, depois de limpas as partes esbouceladas através de uma rebarbadora manejada pelo meu primo António Fernando, (de Cujó) ocasionalmente a pavimentar parte do logradouro do meu quintal.  Um regalo (foto 3).

Mas os números? Ora aqui é que está uma coincidência digna de nota. Com a idade, o senhor ORLANDO MORAIS, aquele que me tinha oferecido a peça, fechou a loja e esta veio a ser adquirida pelo jovem relojoeiro, PAULO ALMEIDA, que, depois de obras feitas e espaços adaptados às novas funções, mudou-se para lá com armas e bagagens. É uma RELOJOARIA que dignifica CASTRO DAIRE. A «OURIVESARIA ALMEIDA». O concelho precisa de jovens empreendedores deste quilate.

3-ARRANJOE eu, que passei a vida a falar aos meus alunos sobre o PASSADO, que me entretenho a investigar e a escrever sobre essas coisas SEM IMPORTÂNCIA nenhuma (para alguns pré-claros, claro) mantenho-me sempre atento ao que de novo aparece na minha terra e, por isso, acompanhei a mudança. E verifiquei que, de há uns tempos a esta parte, com a exigência dos tempos, dos gostos e das novas tecnologias, ele adquiriu uma TROTEC LASER com o programa COREL DRAW incorporado. Nela tem produzido autênticas obras-primas de arte recortada em madeira e acrílico.

Sabedor disso, não era desta vez ainda que o RELÓGIO DE SOL iria parar ao ATERRO DO PLANALTO BEIRÃO. Levei-lhe a ideia, forneci-lhe as medidas necessárias e incumbi-o de fazer MEIA LUA com os NÚMEROS das HORAS em falta. Fiz-me entender.  Optei pelos algarismos em vez de numeração romana. Depois de alguns esboços recortados em madeira, passou-se ao recorte definitivo em acrílico. A seguir tudo esteve por minha conta. Foi  só fixar a MEIA LUA com os NÚMEROS na parte inferior.  O resultado está à vista. Um técnico, que antigamente usava a pinça e a lupa a bulir nas rodinhas de relógios mecânicos, deu o seu contributo ao funcionamento de um RELÓGIO DE SOL. E fica feita também a prova de que a colaboração, a junção de ideias e saberes DIVERSOS dão resultado, numa conjugação de esforços. E de que eu, para além de manejar, a meu jeito, o podão na FLORESTA DAS LETRAS e da HISTÓRIA, também sei manejar outras f4- QURTA FASEerramentas. É o que se pode dizer, como tantas vezes repeti aos meus alunos, «APLICAR CONHECIMENTOS VELHOS A SITUAÇÕES NOVAS», ciente de que «NEM TUDO O QUE É VELHO E MAU, TAL COMO NEM TUDO O QUE É NOVO É BOM».

E desta vez, com a «HORA SOLAR» (12) e a «HORA DIGITAL» (13) garanto que o VENTO não levará a melhor, por mais forte que bufe. Bufando ou não bufando, ele que exerça a sua função rodando o CATA-VENTO que acoplei na mesma estrutura. Mas que deixe o SOL em paz,  a marcar o ritmo do mundo, no seu eterno e aparente giro em torno da TERRA...sempre a dar HORAS... Que mais não seja, os meus filhos e netos apreciarão o labor do seu pai e avô, nesta fase de ENVELHECIMENTO ATIVO. Imaginativo? Criativo? Eles terão TEMPO sobejo para dizê-lo, pois um RELÓGIO destes, mesmo sem pilhas DURACELL...«dura...dura...dura...».

Veja o link: https://youtu.be/ahmaTU-8oJY

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.