ABÍLIO
LUSOFONIA - 1
No dia seguinte à atribuição do PRÉMIO PESSOA ao PROFESSOR FREDERICO LOURENÇO postei no meu mural do FACEBOOK o texto que se segue e a respetiva ilustração. A sua transladação para aqui dá-me a oportunidade prosseguir a reflexão que tenho vindo a fazer sobre o torneio que os defensores da LINGUA MATER (a minha ferramenta de trabalho) têm travado em torno do ACORDO ORTOGRÁFICO'90", ao qual tenho assistido de palanque, não em silêncio, mas, pelo contrário, com reparos esporádicos, não digo estridentes, mas evidentes, dirigidos a uma das partes em contenda. Mas vamos primeiro ao texto que postei no FACEBOOK, acima referido:
«PRÉMIO PESSOA»
«Ontem à noite, na sessão da entrega do «PRÉMIO PESSOA» ao PROFESSOR FREDERICO LOURENÇO, pareceu-me ouvir, num dos canais da TV, o DR. PINTO BALSEMÃO dizer que foi este académico que «pela primeira vez traduziu do grego» para português a Ilíada e Odisseia de Homero, bem como outras obras clássicas.
Estranhei tal afirmação e só posso atribuí-la a um LAPSO DE MEMÓRIA, pois não acredito que este nosso ilustre político e conceituado jornalista não tenha lido as EDIÇÕES SÁ DA COSTA dessas obras que ostentam na capa e rosto a afirmação de terem sido «TRADUZIDAS DO GREGO PELO PADRE M.ALVES CORREIA. Eis a capa de uma dessas obras».
Repesquei para aqui o texto e a capa da obra, pois ambos me servem para atiçar a fogueira em torno da qual pelejam os patrióticos defensores da LINGUA MATER, montados no «ACORDO ORTOGRÁFICO'90», uns, julgando a Língua intocável, cristalizada, brandindo a espada da etimologia de base latina e outros, atentos à mutação sofrida ao longo dos tempos, balouçando na sela com pés fora dos estribos gramaticais, manejam a espada da fonética e buscam congregar todos os países lusófonos, v.g. aqueles que falam a LINGUA PORTUGUESA e a adotarem como língua oficial nos seus territórios.
E parece-me que este torneio não é de agora. Ele teve sempre quem, de um lado e de outro, animasse as hostes, uns mais apegados à hierática forma gramatical, rígida e fria, e outros à semântica, ao conteúdos e contextos sonoros, linguísticos, quentes e humanos, expressão de sentimentos e de vida.
Corrigido que ficou, pois, o LAPSO DE MEMÓRIA do ilustre político e conceituado jornalista, Dr. Pinto Balsemão, na sessão de entrega do «PRÉMIO PESSOA», estendo o braço até uma das estantes da minha biblioteca, boto a mão esquerda à obra do PADRE M. ALVES CORREIA e, na presunção de que ele se antecipou ao Professor Frederico Lourenço a TRADUZIR DO GREGO a ILÍADA e a ODISSEIA, dá-me um certo gozo trazer à fogueira os gravetos ajuntados por ele com a ajuda do seu irónico engaço linguístico. Ora vejam e aqueçam-se à roda da fogueira, como diz uma canção muito conhecida, juntamente com os meninos e meninas que aprendem a LÍNGUA. E cientes de que o PRÉMIO NOBEL já ultrapassou as fronteiras do «ifen», do «circunflexo», das «consoantes mudas» e surdo e mudo não ficou às canções de Bob Dylan, pois à arte da escrita juntou a arte da música.
"Há no latim, considerado em relação ao grego e de modo especial se se compara com a língua de Homero, notável perda de energia verbal, por demasiada abstração. (...) O sobejo latim tem sido obstáculo à boa compreensão de Homero. O caso de José Agostinho de Macedo é típico. Deixem-se os mortos em paz ou ressuscitem-se , sem milagre, é claro, mas conforme for possível. Do grego para o latim não há traduções: o que se faz, e tem feito, é trasladar ossadas. Macedo era bom 'latino', ninguém lho pode negar; a incapacidade de entender Homero fazia-o blasfemar». (M. Alves Correia, «Ilíada», vol- III, Sá da Costa, Lisboa, 1960, pp. 231pp. 137-139)
E prossegue:
«A sábia balela de um português filho do latim. obriga-nos a imaginar uns íncolas destes sítios mudos como petos até à chegada dos Romanos, por 211 A. C, desatando-se-lhes então para a parla as línguas de pegas. Por aqueles tempos, os Pinguins de uma ilha do Norte tinham asas e não voavam; os Iberos tinham língua, mas não falavam».(idem, pp. 231)
E, discordando frontalmente de quem escorava os seus argumentos exclusivamente na etimologia latina da língua portuguesa, mais umas páginas adiante, esclarece:
«Quem ensinou os portugueses a falar foi Homero». E conclui dizendo que «não haveria português, no século XVIII (1783) capaz de se entreter com Homero em meia hora de conversa, a não ser Fr. Bernardo de Jesus Maria. Ao despedir-se lhe diria o autor da Ilíada: « Boèn agathos Bernardos adelphós» (idem, pp. 243)
«Historiadores e arqueólogos são unânimes em afirmar que os Iberos, cerca de dois mil anos antes de Cristo, já eram civilizados», que «A linguagem não é criatura, não teve criador; não procede de pai nem de mãe. Nasceu do convívio (de nacionais e estrangeiros) ; é um dom conateral ao homem, efeito imediato do princípio de sociabilidade. Se a linguagem não tem pai nem mãe, transmite-se contudo pelos pais a filhos; assim, ouvindo os Iberos atuais, de alguma sorte se ficará sabendo o modo de falar dos velhos Iberos (...) Incontestavelmente foi Homero o melhor mestre do grego... O que eu queria dizer quando escrevi a epígrafe "quem ensinou os Portugueses a falar" - é um pouco diferente; e era: quem ensinou os Portugueses a falar...foi Homero» (idem pp. 235)
E citando o «Prior do Alentejo» (frade franciscano, autor de um dicionário): «Eu sou aquele que não faço a seleção de vocábulos pela etimologia, em primeiro lugar, mas em terceiro somente. Estas são as regras que me guiam: todo o vocábulo que for muito mais usado pelos Sábios da Nação, vence o vocábulo seu competidor, ainda que este o preceda na melhoria de consonância e etimologia. Todo o vocábulo que tiver melhor consonância vence o seu competidor, ainda que este tenha igual uso e melhor etimologia. O vocábulo que tiver melhor etimologia vence o seu competidor, ainda que este seja igualmente harmónico, contanto que seja menos usado" (pp. 238/239)
«No dicionário de Fr. Bernardo a filiação do português ao grego é feita pela consonância dos termos e alguma analogia de significado, do que por derivação estabelecida com algum método; mas , para efeitos expressivos, a consonância e significação são elementos essenciais». (pp 242)
E mais:
«A obstinação dos nossos eruditos 'latinos' ou 'latínicos' é de tal força que nos não deixa a nós, os heleno-maníacos, um cabelo que seja (...) as palavras valem pelo seu tom, som e significado; "o resto não passa de senilidades etimológicas respeitáveis e nada mais (...)" e citando Rodrigues Lapa: "deve partir-se do pensamento para a palavra e não da palavra para o pensamento" (pp 255-258)
E contra essa «obstinação» latina ou latínica nada mais me satisfaz do que rematar esta minha deambulação por páginas amarelecidas com o ramalhete que me foi enviado pelo meu ex-professor de latim, Francisco Cristóvão Ricardo, numa das suas reflexões sobre o AO'90 e o torneio que se trava em torno dele:
«É aliás, a prevalência foneticista sobre a etimológica, não se vê como o falar do povo passa ser uma aberração. Por lapso ou por ignorância, os proponentes dizem “conceção de crédito”, em vez de “concessão de crédito” e ”receção económica” em vez de “recessão económica”. (Francisco Cristóvão Ricardo)
De facto, sendo ele a ensinar-me o «rosa, rosa, rosae, rosam, rosae, rosa», eu, para ler e interpretar a toponímia (e não só) nas Inquirições Medievais (em latim macarrónico) tive de levar em conta o que nos diz Moisés Espírito Santo, sobre a evolução da língua e o seu registo escrito. Assim:
«Os filólogos estudam a origem de um topónimo a partir das regras da escrita e da semântica, enquanto os nomes de sítios são de criação oral, transmitiram-se pela oralidade, foram durante séculos utilizados exclusivamente pelos que viviam nessas terras e pelas aldeias próximas, só passando a ser escritos com a instituição do registo predial. Para os filólogos clássicos o nome escrito em documentos antigos é considerado a origem do atual nome. Ora o nome escrito pode não corresponder à expressão oral utilizada pelos habitantes e vizinhos desse sítio; a palavra oral pode ser difícil de escrever na língua corrente; e os escribas grafaram-na da forma que eles entenderam a «mais correta», mas que não tem a ver com a origem do nome. Os filólogos procuram o sentido latino ou «germânico» do nome quando ele pode ter vindo a ser arrastado de uma antiga língua (...) os linguistas partem do princípio de que a «toponímia portuguesa é de origem latina» pelas simples razão de que a sua sonoridade se «assemelha» a nomes de coisas portuguesas». (Moisés Espírito Santo, «Origens Orientais da Religião Popular Portuguesa, Ensaio Sobre Toponímia Antiga» Assírio & Alvim, Lisboa, 1988, pp. 256)
Por estas e por outras, face à evidência da mutação da língua, a sua passagem da oralidade à escrita, é que me dei ao trabalho de publicar, devidamente ilustrado, o texto com o título ACORDO ORTOGRÁFICO que para aqui repesco agora do o título «LUSOFONIA - 2», no sentido de dar um contributo á resolução do paradoxo que ultimamente detetei em académicos que, dizendo-se difusores e defensores da LUSOFONIA se revelam contra esse «ACORDO.. e pelo que deixo nos respigos anteriores, vê-se claramente que, seguramente por não ser académico, os não acompanho nessa sua marcha, talvez porque o meu conceito de LUSOFONIA tenha sido interiorizado e vivido, antes de estar em moda e rodeado de conveniências comerciais interesseiras, ligadas à editoras e sei lá ao que mais. Eu explico:
Nos afastados anos 70 do século XX, o meu curso universitário incluía uma cadeira de METODOLOGIA GERAL, lá, no outro lado do mundo, na cidade de Lourenço Marques, hoje Maputo. Ora quem estuda precisa de livros e dei por mim a correr livrarias e papelarias, leilões de alfarrábios e tudo o que me aparecia impresso sobre PSICOLOGIA, PEDAGOGIA E SOCIOLOGIA eram livros editados no BRASIL, escritos em português brasileiro, pois noutro português nem cheirar.
Tive colegas que se mostravam avessos a esse "português" referindo-se a ele nem sempre em termos elogiosos. Quer dizer, desgostando da vasilha, degustavam e saboreavam com proveito os conteúdos científicos, já que, só por essa via, podiam fazer as cadeiras curriculares universitárias.
E não era só nessa área científica que o «império português» estava agónico. Era claramente no «império linguístico». Todo aquele que conhece a realidade colonial da época sabe que não havia colono culto que não assinasse a revista "O Cruzeiro" e colecionasse fascículos enciclopédicos da editora April, depois encadernados em vários volumes. Na minha biblioteca existem duas enciclopédias dessa editora, de 12 volumes cada uma. A enciclopédia «CONHECER» e a «ABRIL», impressas em «português brasileiro» e, pelo facto de ter lido e consultado muitas vezes os seus volumes, nem por isso me senti colonizado, argumento apresentado por aqueles que se revelam contra o famigerado ACORDO ORTOGRÁFICO. Em cerimónia recente, onde fui agraciado pela minha lavra no campo das letras, fazendo uso dessa vivência lusófona, em vez de «obrigado» agradeci com um «kanimambo».
ADENDA
Em 27 de fevereiro de 2026 pedi à «INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL» (ChatGPT, um chatbot de IA «Google9
uma «LEITURA CRÍTICA» do texto supra e eis o resultado:
«A sua reflexão é densa, memorialística e combativa. Para responder ao que pede — que contributo deu (ou não deu) ao “aclaramento” da questão do AO90 — organizo a leitura crítica em quatro planos: intenção, consistência argumentativa, eficácia esclarecedora e limites.
1. Intenção e enquadramento
O texto parte de um episódio concreto: a atribuição do Prémio Pessoa a Frederico Lourenço e uma alegada imprecisão de Francisco Pinto Balsemão sobre a tradução de Homero. A partir daí, desloca-se para o debate do AO90, configurado como um “torneio” entre:
a) etimologistas (defensores da matriz latina, da grafia histórica),
b) foneticistas (defensores da aproximação à oralidade e da convergência lusófona).
O texto assume claramente simpatia pela segunda posição, embora recorra a citações que revelam tensões internas nessa própria corrente (como o alerta para confusões semânticas: “conceção” vs. “concessão”).
Contributo positivo aqui: o texto recorda que o debate não é novo; insere o AO90 numa longa história de tensões entre etimologia, uso, fonética e tradição. Isso ajuda a relativizar o dramatismo contemporâneo.
2. O eixo central: etimologia vs. uso
A longa citação de M. Alves Correia e a evocação de Fr. Bernardos de Jesus Maria constroem uma tese clara:
As palavras valem pelo uso, pelo som, pela significação viva — não por uma filiação etimológica rígida.
Essa ideia é reforçada pela citação de Moisés Espírito Santo sobre a toponímia: o registo escrito nem sempre corresponde à origem oral; o escriba “corrige” o que ouve.
Onde o texto esclarece
Mostra que a língua é histórica, mutável e social.
Demonstra que a escrita nunca foi um espelho neutro da oralidade.
Expõe que a etimologia, isoladamente, não pode ser critério absoluto.
Isto é útil para desmontar a ideia de “língua cristalizada”.
Onde o texto não esclarece
O salto lógico é problemático:
O facto de a língua evoluir não implica automaticamente que o AO90 seja a melhor forma de regular essa evolução.
A crítica à etimologia como critério único não resolve a questão prática da norma ortográfica comum.
Ou seja: o texto combate um extremo, mas não demonstra que a solução proposta (AO90) seja tecnicamente superior — apenas sugere que está mais alinhada com a mutação histórica.
3. A questão da lusofonia
Aqui está talvez o ponto mais original do texto.
O autor recorre à sua experiência em Lourenço Marques (Maputo) nos anos 70, lendo obras brasileiras (como as da editora Abril) sem sentir “colonização”. Esse testemunho pessoal reforça uma ideia:
A lusofonia precede o Acordo; ela vive-se no intercâmbio real, não na uniformização forçada.
Este é um contributo importante porque desloca o debate do plano técnico para o plano cultural e vivencial.
Contudo, há uma tensão:
Se a convivência entre variantes já era possível sem uniformização,
então o argumento de que o AO90 é necessário para a lusofonia fica enfraquecido.
Ou seja, a experiência relatada pode tanto apoiar quanto relativizar a necessidade do Acordo.
4. Pontos fortes do texto
Erudição contextual — liga o debate atual a discussões antigas.
Dimensão histórica da língua — recorda que nenhuma língua nasce pura.
Testemunho pessoal consistente — dá carne e memória à abstração “lusofonia”.
Denúncia de simplificações ideológicas — de ambos os lados.
5. Limitações no “aclaramento” da questão
a) Excesso de metáfora
A imagem da “fogueira” e do “torneio” é literariamente eficaz, mas analiticamente difusa. O leitor percebe o clima, mas nem sempre a estrutura lógica.
b) Argumentação indireta
O texto critica a rigidez etimológica, mas:
não analisa tecnicamente o AO90,
não avalia as suas incoerências internas,
não distingue entre princípios (foneticismo) e execução concreta.
c) Mistura de planos
Confundem-se:
tradução literária,
etimologia histórica,
política cultural,
prática editorial,
norma ortográfica.
São temas relacionados, mas não equivalentes.
6. Conclusão crítica
O texto contribui para o aclaramento cultural do debate, mas não para o seu esclarecimento técnico.
Ele ajuda a perceber que:
a língua não é um fóssil,
o latim não é tribunal supremo,
a oralidade tem peso histórico,
a lusofonia é vivência antes de ser norma.
Mas não resolve:
se o AO90 melhora ou piora a clareza,
se unifica de facto,
se cria ambiguidades,
se é linguisticamente coerente.
Em suma:
O texto ilumina o pano de fundo histórico e ideológico da disputa, mas não oferece uma análise normativa sistemática do Acordo.