Trilhos Serranos

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sexta, 31 março 2017 15:50

LUSOFONIA - 2

Escrito por 

Posto o que, sossegadinho no meu canto, na linha do meu pensamento e dos respigos que deixei em «LUSOFONIA - 1»  transcrevo o texto que, a propósito, publiquei no meu site, em janeiro do corrente ano, com o subtítulo «MÁ LINGUA»

 

«ACORDO ORTOGRÁFICO»

MÁ LÍNGUA

«Era uma vez...

DINISFoi há muito, muito tempo quando eu, um artolas da gramática sabedor ensinava Português nas escolas, tal qual mandava o programa, nos cursos diurnos e noturnos. Certo dia, o assunto da lição, tinha de ser, lá recaiu sobre os sinais de acentuação:  o "acento agudo", o "acento grave", o "til" e o "circunflexo". Quatro apenas, quatro somente. Como e onde cada um deles caía ou cobria a letra. Tão simples como complexo era para quem na Língua se inicia e a escrever aprende que escrever não é nenhuma treta... Meninos e meninas, senhores e senhoras, ouçam bem o que vos digo, o que a  Gramática  diz:  vejam o acento no advérbio "AMÀVELMENTE"! E escrevia-o no quadro com giz. Viram? É um "acento grave". Aprenderam? Mas isso não é tudo. Cabe dizer que muito grave é se na palavra "AMÁVEL" (escrevia-a no quadro) não puserem "acento agudo". Viram, ou não? Reparem, sem perda de tempo, do acento a posição e como ele em cima da letra se ajeita: no advérbio ("amàvelmente") cai na perpendicular da esquerda para a direita. No adjetivo ("amável") na perpendicular cai, mas  da direita para a esquerda. Certo? Aprendido? Então esta matéria já lá vai.

E, devagar, devagarinho, aluno grande e pequenino, aprenderam a ortografia que eu assim lhes ensinava, seguindo a norma estabelecida na Gramática. Daí decorria que, na prática, como docente encartado, marcasse erro  sublinhado a toda a gente que diferentemente escrevia.

INGLESAPassou um ano, um ano somente. E os gramáticos no sapiente e paciente labor do aperfeiçoamento da Língua, num só momento decidiram eliminar  o perpendicular "acento grave" nas "subtónicas". E os advérbios "facilmente, amavelmente" e quejandos perderam o apêndice aéreo inclinado a cair da esquerda para cima da letra.  E eu, sem "quês", "porquês" ou "quandos", atento aos conteúdos letivos, frente às mesmas crianças e adultos que havia ensinado no ano anterior, fiquei bastante embaraçado quando, atónitas, elas viam o mesmo professor marcar-lhes erro de ortografia, se cada um delas escrevia como eu, no ano anterior, as havia ensinado a escrever assim.. Olhavam para mim e interpelavam-me: "afinal, com'é qu'é ... é?, agora não é preciso? Então eu é que estava certo, pois nunca punha isso". E não punha, não senhor. Por isso lhe marcava erro. A criança mais o adulto, nesse seu escrito sem apêndice aéreo, (mas por que caminho agora vou!), nesse seu aprender a escrever,  antecipara-se ao erudito, ao doutor, ao professor que levava a sério a profissão que abraçou.

Pois, pois e não foi só um nem dois que, lá no seu tino, me confrontaram com a incongruência do ensino/aprendizagem! E face a tais interpelações e andanças eu, recorrendo à minha bagagem, justificava,  explicava, dizia àquelas criançada e àqueles adultos, alguns bastante sabedores e astutos, que a Língua tem normas mutáveis e havia uns senhores  que, dedicando-se ao seu estudo, acompanhando a sua evolução, sabedores de tudo, introduziam  mudanças de tempos a tempos e a retirada daquele simples "sinal de acentuação", antes obrigatório, era uma dessas mudanças.HERCULANO Garantindo que, como bem se entende,  outras mudanças virão no futuro, mudanças que a gosto ou contragosto de muita gente, vigorarão como  código provisório,  de quem estuda e aprende.

Uma coisa era certa, dizia eu seguro: nós já não escrevemos como escreviam os nossos pais, os nossos avós e avós dos nossos avós. Já não escrevemos como escrevia D. DinisGil VicenteCamõesEça de QueirósJúlio DinisCamilo Castelo Branco e por aí fora, todo o escriba de sapato ou de tamanco. "Quem tal diz? Quem tal disse? Então a gramática é provisória?" ouço, lá do fundo, a pergunta provocatória do garnisé que à vista da mudança, afina a garganta e levanta a crista. Quem o diz? quem o  disse? Digo eu, pois é uma verdade de La Palisse.

Aposentado, contente comigo mesmo, que sossego, que descanso o meu, não estar incumbido, não ter ao meu cuidado dar agora qualquer explicação ou tomada de posição sobre o NOVO ACORDO ORTOGRÁFICO, feito nesta eterna evolução da Língua, quer se queira, quer não! E sei haver ilustres luminárias que se não conformam com a realidade que levou Camões a dizer, "mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser,  muda-se a confiança, todo o mundo é feito de mudança, tomando sempre nova qualidades". Catilinárias! E se ele usava a grafia de quinhentos, a grafia dos descobrimentos, da expansão, da formação do império, que diferente era da grafia medieval, a grafia do seu tempo, seria muito mal que, na sua sina expansiva e mutante, a Língua  dispersa pelos quatro continentes, usada por novas gentes, ela se ficasse presa à raiz latina e, tolhida na velha norma, entrevasse a vida e inibisse as ideias e o pensamento, senhores,  dos novos escribas e falantes, dos povos conquistados, vencidos e vencedores. Sem MILANDO!...

 

Abílio/março/2016

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.