Trilhos Serranos

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terça, 04 junho 2024 16:02

MANUEL DA FONSECA e JOSÉ FRANCISCO COLAÇO GUERREIRO

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GEOGRAFIA SENTIMENTAL

Em 15 de junho de 2017, num apontamento crítico que fiz a um livro do meu amigo escritor Dr. Manuel de Lima Bastos, publicado nos meu site “trilhos serranos”, deixei o retalho que se segue, envolvendo Aquilino Ribeiro e Manuel da Fonseca. Trago a terreiro essa mancheia de letras, ceifadas assim, à maneira de ratinho que, de seitora curvada sobre ombro, desce até às ondulantes searas alentejanas, a propósito do livro que acabei de ler recentemente da autoria do meu amigo JOSÉ FRANCISCO COLAÇO GUERREIRO, a que já me reportei, sem contudo, dizer tudo. Dizer o que merece ser dito, já que nesse meu escrito ficou omisso. Lá chegaremos. Por agora, esse tal respigo:

“Dr. MANUEL LIMA BASTOS - MAIS UM LIVRO

«(…)

“De todos os capítulos deste livro destaco o CAPÍTULO II, onde Lima Bastos mostra as relações havidas entre Aquilino Ribeiro e Manuel da Fonseca. Um beirão e um alentejano. Emocionei-me. Este capítulo fez-me recuar uns anos e pôr-me à conversa, frente a frente, com Manuel da Fonseca. É que eu tive o privilégio de, mais do que uma vez, falar com ele, exatamente em terras transtaganas.

Lima Bastos-RedComo? É sabido que passei alguns anos no Alentejo, mais propriamente em Beja e Castro Verde, entre 1976 e 1983. Nesse interim não havia escola que não convidasse Manuel da Fonseca para ele falar das suas obras, personagens, tramas e paisagens. Numa das vezes, sabendo-me ele colaborador do "Diário de Alentejo" (…) e natural da Beira, perguntou-me se eu tinha conhecido o seu amigo e «par do Reino», Aquilino Ribeiro.

A expressão «par do Reino» saiu embrulhada num sorriso marcadamente irónico. Respondi-lhe que não, e disse-lhe que, sendo quase vizinhos, mesmo que ambos sentíssemos os frios das serras do Montemuro e da Nave, nunca nos tínhamos encontrado, ainda que respirando os mesmos ares. Ele passava a vida a escrever sobre os labrostes destes poviléus e montes, a descrever os seus hábitos, costumes e valores. Do vestuário de burel aos tamancos turdetanos ferrados com chapas de ferro e testeiras de chapa. E enquanto ele escrevia isso tudo e por tudo isso se tornou o escritor que é, eu rompia o burel a que ele aludia, saído do pisão do meu avô, e, com esses tamancos nos pés, puía os trilhos e carreiros que ramificavam montes e vales, que conduziam aos lameiros ou às leiras de vessada onde «arado vai, arado vem», eu escrevia em “bustrofédon” a narrativa da minha sobrevivência, igual à dos meus pais, dos meus avós e avós dos meus avós.

Exímio «contador de estórias», gordinho, baixinho, nariz meio rubicundo, ele escutou-me com atenção e disse-me com aquela voz calma e melosa, marcadamente alentejana: «pena não o ter conhecido, perdeu excelentes momentos de vida. Mas olhe lá, porque não escreve isso que acaba de me dizer?»

LIMA BASTOSEscreveria sim, senhor, prometi-lhe, mas mais tarde. Por ora, tinha outra pergunta a fazer-lhe que resultava da minha prática docente. Eu era professor do CICLO PREPARATÓRIO e, como tal, no meu horário letivo constavam obrigatoriamente as disciplinas de HISTÓRIA e de PORTUGUÊS.

Nas aulas de PORTUGUÊS eu verifiquei que os alunos, tanto em Beja como em Castro Verde, interpretavam mais facilmente os textos de Manuel da Fonseca do que os textos de Aquilino Ribeiro. Sim. Eu selecionava textos destes dois autores, fazia testes com eles, e, por fazê-lo, detetei essa realidade de leitura e de interpretação.

Posto perante isso, depois de algum silêncio a matutar, respondeu: «olhe que não é por eu escrever melhor do que ele. A razão deve estar no chão que pisam. Os livros exalam a atmosfera da terra onde nascem e os meus livros, tal como os seus alunos, são alentejanos».

Dei-me por satisfeito e, deslocado que vim para o norte, para a ESCOLA PREPARATÓRIA DE CASTRO DAIRE, fiz a mesma experiência e obtive os mesmos resultados, mas aqui em sentido contrário. Eles interpretavam mais facilmente Aquilino do que Manuel da Fonseca. Conclui, advertido por aquele escritor, que os alunos daquele nível etário intuíam e/ou percecionavam a mensagem textual, não tanto pela arte literária nela posta pelos autores, mas antes pela atmosfera sociológica, geografia física e humana que eles impregnaram nas suas narrativas. Ao fim e ao cabo, a geografia sentimental».

colaço-1 - Cópiacolaço-2Tudo isto para dizer quanto lamento não ter conhecido os textos publicados agora em livro, dados à estampa nas colunas do “Diário do Alentejo”, com a assinatura ou psedónimo de um menino de 16 anos, de seu nome completo José Francisco Colaço Guerreiro, que veio a ser meu amigo, em Castro Verde.

É que, conhecera-os eu e, semelhantemente aos textos de Manuel da Fonseca, eles seriam por mim usados na sala da aulas e sujeitá-los-ia à leitura e interpretação dos meus alunos. Perdi eu e perderam eles. Mas não me vou daqui embora sem deixar de mostrar a fotografia que este meu amigo deixou no seu livro, a desafiar qualquer câmara de alta fidelidade, dessas que por aí prpagandeiam pixeis e mais pixeis. Tudo em letras.

Só anseio que os meus colegas docentes de PORTUGUÊS, a lecionarem nas escolas do Alentejo, ou mesmo aqui nas Beiras, aproveitem da minha experiência e metam no seus “álbuns” de leitura, algumas das fotografias onde a câmara de COLAÇO GUERREIRO apontou a sua objectiva.

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.