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segunda, 05 dezembro 2022 12:58

LITERATURA ORAL (2)

Escrito por 

SERÕES CULTURAIS

Do opúsculo que tratei na minha crónica anterior, editado pela Câmara Municipal de S. Pedro do Sul, em 2008, que me foi emprestado, neste ano de 2022, pela jovem Luana Cardoso, natural de S. Martinho das Moitas, o miolo comporta alguns “Contos e Lendas” recolhidos na área geográfica daquele concelho.

Ora, para além das páginas que dele fotografei e já publiquei, neste meu site, achei interessante fotografar mais duas, aquelas que se seguem, pelas razões que os meus leitores/seguidores facilmente compreenderão.

 

LITERATURA ESCRITA E FALADA

ESCRITA - 1

Pinheiros-pedro sulEsta página está ligada à aldeia de Serrazes e reporta um vendaval noturno que, segundo os jovens que tal presenciaram, não deixou pinheiros direitos em redor do caminho que eles levavam quando se dirigiam a S. Pedro do Sul, com o intuito de “irem ao cinema”. O fenómeno foi de tal monta que os obrigou a retroceder e dizer adeus à «fita», tal foi a surpesa e o susto. Era o “diabo a sete”.

Ora, face a coisa tão estranha e missteriosa, mais misterosa ela se tornou no dia seguinte, quando, retornados ao local, com o objectivo de colherem a lenha partida para a lareira, não havia sinal físico do rebuliço que ali tinha havido e que eles tinham visto e ouvido.

Claro que eu, mal li esta narrativa, foi num salto de pardal que a associei, imediatamente, ao registo que, em vídeo, fiz em FAREJA, quando entrevistei a DONA ROSINDA, nascida e criada nesta aldeia.

É que também ela, reportando-se aos tempos da sua meninice, diz ter passado por semelhante fenómeno: um “estardalhaço” noturno de “amieiros a quebrar”. O diabo à solta.

Cheias de medo ela e a mãe abandonaram a rega do milho, refugiaram-se em casa e, no dia seguinte, tendo a sua mãe, reressado ao sítio, ficou admirada e surpreendida de ver “tudo direito”.

FALADA - 1:

FAREJA - A VIDA E OS MEDOS VIVIDOS”

 https://youtu.be/co-vMvjo5Vg

ESCRITA -2

Cordeiro pesadoE segue-se  uma narrativa contada pelo avô da “informante” MARIA BIZARRO. Refere-se ao aparecimento inesperado de um cordeirro, nas cercanias da Ponte de Arcozelo, animal que, julgado perdido pelo passante, este resolveu pô-lo às costas e levá-lo até à povoação.

Só que, a cada passo, o estranho cordeiro tornava-se cada vez mais pesado e valeu ao bom samaritano ter vindo uma “revoada de vento” que, sem mais quê, fez desaparecer o animal pelos ares.

Ora, comparem esta narrativa, inserta no opúsculo editado pela Câmara de S. Pedro do Sul, em 2008, com aquela que se segue e eu recolhi neste ano de 2022, em Castro Daire, registada em vídeo.

Quedem-se na versão contada pela senhora DONA ZULMIRA, das Monteiras, ligada a um CABRITO, tida como autêntica e passada com o seu avô. A diferença, está, pois, entre um CORDEIRO e um CABRITO, mas ambas contadas pelo avô de quem as repetiu.

FALADA 2

LITERATURA ORAL E TOPÓNIMOS”

 https://youtu.be/lgI_MyBCAcw

CONCLUINDO

Nós sabemos que as aldeias aninhadas nas pregas da Serra do Montemuro e seus habitantes não diferem muito das que se aninhavam e aninham nas serras do S. Macário, da Arada e da Gralheira. Por isso fica visível que estas narrativas, colocam bem perto de nós os tempos em que, por este Portugal em fora, a LITERATURA ORAL ERA RAINHA, nas lareiras serranas, onde até o fumo era um bem precioso e necessário ao tratamento das “carnes fumadas”, v.g. salpicões, chouriças e presuntos que, manufaturados nestas aldeias, entravam no mercado com a fama de serem “de LAMEGO”. Parecido, só o “VINHO DO PORTO”, que se produz bem longe da cidade que o chama seu. Coisas da HISTÓRIA e da (agri)CULTURA.

Deixando isso, podemos dizer que, cotejando as versões recolhidas e verificada a ESSÊNCIA delas (espaço, tempo, protagonistas, noite, medo,  trabalhos noturnos, forças invisíveis,  imagens estranhas, tudo servia par dar corpo à LITERATURA ORAL que, à falta de livros, jorrava da boca dos avós, dos mais velhos, geração após geração, qual ribeiro ou rio a deslizarem nas encostas da serra, qual àgua fresca de fonte, vivificante, a saciar a curiosidade e a desmedida imaginação da criançada, sempre faminta do encantatório fantástico e desconhecido. E sempre a interpelar os adultos sobre que animais e “forças ocultas”, medonhas e estranhas, se podiam cruzar com eles nos caminhos e trabalhos da vida.

ABílio

E valorizando este tipo de LITERATURA (de narrativas) e as marcas que elas e os seus protaginistas deixaram na forma de pensar e agir das gerações dos anos 50 do século XX, eu não podeia deixar de lado mais um vídeo que fiz em CUJÓ com o meu cunhado João.

O objetivo era cotejar as diferentes versões orais existentes com o texto, não documentado por escrito, que, em 1993, deixei no meu livro “Cujó, Uma Terra de Riba-Paiva”. Para o caso presente destaco a parte final do vídeo, onde também o meu cunhado se refere, convitamente, a um CABRITO perdido, animal  que não passava do DIABO disfarçado.

 

FALADA - 3

O PISOEIRO E O CABRITO PERDIDO

 https://youtu.be/9SjbAtvyrbo 

 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.