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domingo, 30 outubro 2022 11:06

FISGADAS DA MEMÓRIA NO QUOTIDIANO

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FISGADAS DA MEMÓRIA NO QUOTIDIANO

Qual criança que se diverte com uma fisga, estica o elástico e arremessa para longe a pedrinha entalada entre os dedos polegar e indicador, também a nossa MEMÓRIA, insperadamente,  nos leva a sítios distantes para avivar momentos de convívio e caminhos andados.

É isso. Fomos colegas da faculdade e de profissão. Ele, o Arménio, alentejano, colocado em Aljustrel e eu, beirão, colocado em Castro Verde.

Ambos tivemos de fazer «curos de reciclagem pedagógica/científica» (hoje diz-se para aí, nos órgãos de comunicação social, que “ensinar tem “ciência». Ah!, Pois, tem, tem...) que, ora decorriam em Portimão, ora em Faro.

 Estando os dois em terras alentejanas fazíamos “vaquinha”, uma vez íamos no carro dele, uma carrinha “Citroen boca de sapo”, outras íamos na minha “Citroen Dyane”. E nisto eu era o beneficiado. Só quem alguma vez assentou o rabo nestes dois carros pode estabelecer a diferença.

Mas não é isso que me leva a escrever estas linhas, tantos anos após. O Arménio, ainda que um pouco mais novo do que eu, já faleceu há alguns anos, num acidente de automóvel. Já eu tinha deixado o Alentejo e regressado ao meu concelho de origem.

Dele, para além da amaizade e camaradagem, me ficou a lembrança de ser um profissional de educação nascido para ensinar e aprender e disso me deu provas nas mais banais situações.

Café-Red - Cópia

Um dia, numa das nossas refeições, durante um desses “cursos de reciclagem” deu-me uma lição, ligada à coisa simples e recorrente que é o momento de tomar café após a refeição.

Com efeito, posto o café na mesa, abre-se a saqueta do açúcar, despeja-se para dentro da chávena, mexe-se com a colher e, de seguida, saboreia-se a deliciosa bebida que, certo pastor em tempos idos, algures no mundo, descobriu ao constatar que as suas cabras tinham um comportamento estranho e eufórico, depois de comerem as bagas de certa planta abundante no lugar do pastoreio.

 

Ora, acontece que, levando a chávena aos lábios, não têm conta as vezes que uma pinga sorrateiramente resolve manchar a gravata ou o peitilho da camisa. Sim, e para evitar isso devia colocar-se na base do “pires” o papel da saqueta de açúcar acabado de despejar para dentro da chávena. Desse modo, esse papel absorvia todo e qualquer escorrimento da chávena. E, feito isso, adeus nódoas.  

A lição valeu para sempre. E a maior parte das vezes que, após a refeição,  tomo café, mesmo sem açúcar e sem saqueta, lembro-me deste amigo Arménio e das nossas viagens ao Algarve. Recordo aquela gincana que obrigatoriamente fazíamos a descer e a subir a Serra do Caldeirão. Caminhos da vida.  Fisgadas da MEMÓRIA.

 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.